quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os homens bons

Na secção de periódicos da biblioteca municipal estão os jornais de hoje com as capas voltadas para cima. No Público, nada de especial merecimento, exceto haver neste país cerca de 25 mil pessoas com Sida não diagnosticada. No Diário de Notícias, o costume sobre um banco, e, em segundo lugar de destaque, um homem matou um filho bebé e foi à pastelaria beber um Porto. No Correio da Manhã, em carateres de tamanho adequado a amblíopes, lê-se que um monstro matou um bebé de seis meses e lhe deixou a faca espetada no peito.

Os leitores reformados da biblioteca municipal sentenciam logo ali o monstro a ser queimado vivo em praça pública, enforcado e trucidado, tudo com muito sangue, cortes, jihad. O monstro. Ao homem ninguém sabe o que fazer. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Burnout

Burnout, pois é, cocô, seus moleque!

Mal dita

Foi uma conversa lenta e longa. Eu tinha a cabeça queimada de perda e insónia e estava sentada à sua frente. Parece que me tinha portado mal. Não cumprira o prazo para entregar um papel, que, segundo a Lei, tem um prazo. Dez dias. Tem dez dias para entregar um papel. Poderiam ser três, cinco, sete, nove, onze, mas na Lei está escrito dez. A senhora tem de escolher se quer ser professora ou escritora. Professora ou escritora. Se quer ser professora não pode ser escritora. Se quer ser escritora não pode ser professora. Escritora, professora. E, não. Ou. E agir em conformidade. "E agora que a sua mãe morreu, a senhora..." Falava devagar, bastante direita e muito segura do Certo e da Lei. Eu escutava. Doía-me a cabeça. Em mim havia uma dor, um silêncio que nunca constará em nenhum artigo da Lei. Que não tem ferida, que não deita sangue. "Espero que tenha compreendido". Respondi, "sim, senhora, muito obrigada". Depois levantei-me e saí. Não me lembro de mais nada dessa conversa.

Os olhos dos meus cães

Eu não tive cães, fui visitada por Deus. 
Nem a minha cadela nem Deus têm o nome que lhes chamo.
Nos olhos da minha cadela, lá dentro, existe uma pessoa que não é ela nem eu, mas um nós cheio de força desconhecida. 
A minha cadela está mais perto de Deus, desconhecendo a fé, do que eu alguma vez alcançarei, mesmo se me ocorresse fugir à mundanidade para dedicar à oração todas as horas em que não dormisse. 
Quando a Nina mija à entrada da porta, e me irrito justamente, chamando-lhe, "porca, disfuncional", repetindo-o, ruminando, enquanto manejo o balde e a esfregona, chamo porco e disfuncional a Deus. É abusar de mim. Gozar com a minha cara. 
Não tenho medo nenhum de Deus. É como dos cães. Acho que se ri comigo, que lê através dos meus olhos as palavras que escrevo. 
Os olhos dos meus cães sempre tiveram essa pessoa lá dentro.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Résistance

Excerto da minha reescrita de A Mensagem, de Fernando Pessoa, para os dias de hoje:

(...)
 Sem a esperança que é a mulher
 Mais que a besta sadia,

 Cadáver adiado que procria?


domingo, 5 de abril de 2015

O cão feio

Ilustração: Pisanello

Na minha rua mora uma senhora muito desengonçada com um cão muito feio. Eu gosto dos cães todos, por isso cumprimento a mulher. Os donos de cães, regra geral, cumprimentam-se, portanto, embora nunca deixe ninguém chegar-se-me muito, sou relativamente tolerante a outros donos. 
O cão feio é de uma espécie oriental, de um acinzentado ruço, o focinho esmurrado, os olhos demasiado grandes para o tamanho do crânio, e um enorme tumor benigno caindo de uma das pernas como um testículo negro, disforme, granuloso, balouçando enquanto caminha e corre. Aquele tomate maduro deve pesar-lhe.
Há uns dias, estava a dar os bons dias à senhora desengonçada, e eis que ela, paralisada, com os olhos esbugalhados, exclama, "está a mijar-lhe na perna!". Olhei para baixo com vagares e apanhei o estafermo de perna alçada, assentando-me a mija da ordem numa ponta das calças. Não recuei nem avancei; não o enxotei, em suma, porque terminou mal olhei. A dona paralisada em desculpas. Não lhe disse nada. Apenas sorri. Quero lá saber se o feio do cão me mija nas calças! A senhora começava a aliviar o que julgava ser sua culpa, acrescentando à minha: que devia ser porque eu cheirava à cadela. Respondi logo que sim, que de certeza. E fui andando e sorrindo, convencida de que a senhora desengonçada ficou embaraçada por mim, ao ver-me enrolar os pés no seu tapete das etiquetas. É a sua ordem do mundo, distinta da minha e da do cão feio, que, justamente,
me marcou seu território.

sábado, 4 de abril de 2015

Mistério

Imagem: Justin Bartels

Não reúno grandes características femininas. 
Não tenho medo, de forma geral, e muito menos do ridículo. Acho o ridículo uma ternura a acarinhar. Sempre tive graça e achei graça.
Dou gargalhadas muito sonoras. 
Não sou de sacrifícios nem de fretes. 
Sento-me de qualquer maneira, não faço boquinhas, digo o que quero e mostro o que sou. Parece que as outras mulheres não. Não tenho mistério nenhum. Não sabia que era para ter mistério. Pensava que o jogo bem jogado era o que não se jogava. 
Se é preciso escolher entre ter características femininas e viver a sério com a própria consciência, escolhi certo. Não estou nada arrependida de ser quem sou.