domingo, 31 de maio de 2015

Um buraco de marquises e maçãs reinetas

Pediram-me um prefácio, e escrevi nele uma frase muito linda sobre Portugal, mas ocorreu-me pedir ao Sr. Simões que o editasse, que visse se não me estava a espalhar muito. 
Riscou-ma toda e escreveu por cima, numa caligrafia dos anos 40, a tinta permanente azul indigo "não passa de um buraco de marquises e maçãs reinetas". 
Se ele diz.

Nos tempos da escravatura, o senhor dava comida e alojamento, se nos portássemos bem

Tenho uma amiga que até consegue arranjar emprego na sua área, mas auferindo o salário mínimo - 505 euros. Sortuda, pensarão os leitores.
Analisemos a situação.

Renda de casa - 350 euros

Água, luz e gás, estimativa para os meses quentes - 80 euros
Comunicações e transportes, estimativa que depende de muitas variáveis - 50 euros.
Ora bem, 350+80+50=480 euros
Portanto, a minha amiga tem 15 euros para comer durante o mês, e deve esquecer o luxo de comprar casacos ou sapatos.
Qual ir ao cinema, teatro ou comprar um livro!
Trabalhar para ganhar a vida?!

(Esta história baseia-se num facto real e pessoas são seriamente magoadas todos os dias, enquanto a escrevo.)

Foto: copyright Jesica Dimmock

A minha barriga


Isabela - Doutora, não se justificam estes valores de colesterol: eu não como carne, não como gorduras, não abuso de nada...
Médica de família - Pois não, e já vem de longe, mas há uns comprimidos....
Isabela - Comprimidos, não. De químicos já eu ando cheia, doutora.
Médica de família - Isso, sem ser químico, assim natural como gosta, só se for beringela.
Isabela - Beringela?!
Médica de família - Beringela, sim, pergunte nas ervanárias, no Celeiro... Muito bom. E depois tem um plus... (Sussurra.) Tira-nos a barriga toda. (Agarra o seu ventre com as duas mãos.) Desaparece tudo! Adeus!
Isabela - Oh, doutora, deixe lá a barriga. Se desaparece, fico aqui com um avental pendurado que é capaz de me incomodar, e a barriga não cai tanto!

sábado, 30 de maio de 2015

Eat me in Feira do Livro


Na Feira do Livro de Lisboa não há wc's nem máquinas ATM. Há wi fi na zona do auditório, mas a organização desconhece a password. 

Na Feira do Livro há aspersores de rega aéreos, na aldeia da Leya, e seguranças de meter medo a um fundamentalista do Estado Islâmico. Há roulottes de comida, editora sim, editora não, de doces e salgados com nomes e preços estrangeiros. Lembra uma feira de província para civilizados de cidade. 
Uns turistas compraram, à minha frente, um livro intitulado "Eat Portugal", e eu estive, vai não vai, para lhes dizer, eat me, too.

Um homem, uma guitarra

Pessoas que não conheço, e que amo, porque me fazem continuar a gostar de viver: Mdou Moctar, descoberto por mim, ontem, através de um artigo de jornal, escrito à antiga, como nos tempos em que ainda se escrevia memorável imprensa.

No Ípsilon, de 29 de maio de 2015, O estrelato num cartão SIM, por João Bonifácio.

"(...) na última digressão pelo Ocidente descobriu «um músico extraordinário» que é agora o seu «preferido». "Foi a grande descoberta da minha vida. Chama-se Jimi Hendrix. Conheces?"






sexta-feira, 29 de maio de 2015

Corpo colonizado

Pertenço a uma geração de pessoas que já compreendeu que não deve discriminar os aleijadinhos, porque os aleijadinhos são gente válida, como os ditos "perfeitos", mas a geração a que pertenço gasta os oceanos monetários do planeta em cremes e elixires diversos para disfarçar as estrias, a celulite, o papo, a barriga, para que os outros não as olhem nem discriminem como aleijadinhos inválidos, sem valor de mercado.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Querida Europa

Um jovem amigo estrangeiro explica o estado a que chegaram as economias da Europa do Sul da seguinte forma: "a crise não vai acabar nem os salários voltarão a subir, porque não interessa aos países do Norte ter destinos de férias que sejam caros ou quase tão caros como a vida nos seus próprios países."

Despedimento coletivo

As pessoas são alvo de despedimento coletivo da empresa onde trabalham. Depois, são contratadas pela mesma empresa, como free lancers, para fazer o mesmo serviço, mas não o podem assinar. 
Sou eu que tenho um parafuso a menos, não sou?!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Avec le temps

Não gosto de ir a Lisboa. As pessoas já não são como eram. Talvez nunca tenham sido grande coisa e já não me lembre. O tempo atenua as manchas.
Evitar sair da rive gauche.