sábado, 18 de julho de 2015

Uma pedra sobre o coração

Eu já não escrevo para ti. Nenhuma palavra. Para ti nem a próxima vida. Para ti nada. E enquanto escrevo estas palavras sei que ainda escrevo para ti.

Uma casa em ruínas

foto: @Alixandra Fazzina

Quando aqueles que amamos se vão embora, já não há por quem esperar nem ninguém nos espera. Nada. Mas há uma voz estúpida dentro de nós, que talvez sejamos nós, não deixando de ser estúpida e teimosa, que clama manter a crença de que alguém ainda existe para nos telefonar de algures, nos provocar, nos dizer sem palavras que precisa de nós, que importamos ainda, que tudo pode acontecer na medida de tempo que nos resta. Estúpida porque tudo em nós morre quando os que amamos se vão embora. Estúpida porque seria tão mais fácil irmo-nos todos, já que é preciso fazer mudanças. O coração vazio é também uma casa em ruínas.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobreviver


Foto - @Bruno Boudjelal

Se eu queria o sacrifício do povo grego? Não, não queria. Queria a dignidade.
Eu vivia em Moçambique, em 1975, quando deixamos de ter escudo e passamos ao metical. Eu estava no Maputo nessa época em que os portugueses largaram a terra, e parou tudo; não havia ninguém capacitado para fazer nada; não havia nada. Um sistema tinha falido, e o seguinte ainda estava a tentar orientar-se. Não havia bens de consumo disponíveis. Não havia pão nem sabão nem aspirina. Vivíamos o dia presente, porque só tínhamos esse. Eu saí do país, mas muitos ficaram. Houve guerra civil duríssima. Os meus pais atravessaram-na e sobreviveram. Só não sobrevivemos à morte. Arranjamos maneira. Trocamos. Desenrascamos. Sobreviver é fazer o que nunca se fez antes. Eu vi a minha mãe fabricar sabão caseiro para nos podermos lavar.
Como é que eu posso ser moderada? O que é ser moderado? Como podem pedir-me que esqueça o que vivi?

terça-feira, 14 de julho de 2015

O fluxo sorri

Entre as coisas que aprendi ao longo deste tempo de vida está a de que não adianta fazer planos a longo prazo. Este paradoxo, tudo tem prazo e não existe prazo em coisa alguma. Há um fluxo qualquer no qual estamos integrados ou que nos integra, e nós vamos flutuando, ao seu ritmo. O que nós queremos, o que desejámos, o que construímos?! O fluxo sorri e vai fluindo.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

As que não jogam

Ilustração: Andreas Lie


Não és fácil de amar. Tens de novo o cherry eye saído. Arranja-te. Não há dinheiro para ração, quanto mais veterinário.
Quando morrermos, convém ser rápido. Uma injeção na veia, certa. Primeiro para sedar, depois para nos parar o coração. As duas ao mesmo tempo, para que não nos sintamos a falta. Nem eu nem tu temos mais ninguém. Diz-se onde cair mortas. Não nos choraremos uma à outra. Terra como animais da floresta. Quando acabar, acabou. Alguém nos roa a carcaça gorda, que é de aproveitar.
Fico a pensar enquanto te vejo a comer ossos podres do chão, porcarias que procuro ignorar. És feliz? Sejas. Só me tens a mim. Mais nada no mundo te possui. Só te tenho a ti. Todos os dias. Como uma Avé Maria.
Não acredites nas pessoas, Acredita em mim. Olha que não és fácil de amar, mas deixa lá. Eu, afinal, era impossível. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Um breve dia


Temos um breve dia para pousar sobre as flores e depois partir como borboletas. Fizemos a nossa estrada, dizem.
Não temos tempo para nos despedir. Estamos sós. Viemos sós.
Os homens e muheres sábios asseguram-me que há grande beleza neste percurso fugaz. Deve haver, vendo de fora, e se os que sabem, dizem. Eu escolheria pousar para sempre sobre as flores dos jardins, as rochas milenares, as folhas de árvores sacudidas pelos elementos sem saber como se chamam, como começaram nem como vão acabar.