terça-feira, 11 de agosto de 2015

Como é que se vive?

Foto: @Jessica Dimmock
Estou sozinha na casa que comprámos para o meu futuro. A nosssa casa minha casa. Sozinha no lugar onde o meu pai e mãe já não regressarão um dia, porque não estão em África a trabalhar na barragem, a juntar dólares para comprarmos um carro, pagar o empréstimo ao banco, viver com dignidade. Não espero um dia em que cheguem com um caixote de mobílias e recordações de um tempo que mudou e acabou, e de um espaço que já não é nosso. Partiram para onde não posso vê-los nem senti-los. Estão a trabalhar onde? Não espero ninguém nem nada, e tudo o que era para ser, já foi. 
Agora estou tão só comigo como no dia anterior à minha conceção. Mais, ainda, porque não me espera a ideia de que vou ser feita e poderei vir cheirar rosas nos jardins, ver com os olhos as pétalas, os rostos, o horizonte, sentir a brisa de estar viva.
Mas eu ainda estou na vida, lembro-me. Preciso de me acordar com este pensamento: tu ainda estás na vida! Obrigo-me a comer sopa repetindo esta ideia: estás viva, tens anos para cumprir.
E agora, repito, e agora? A mesma pergunta, ciclo após ciclo. E agora? O que me resta sem eles, sem nada por que esperar, a que obedecer, desobedecer, respeitar, cuidar?! Sem amarras, sem âncora, sem desejo de fuga? Como é que se vive?!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Uma casa vazia


Foto: @Saul Leiter



À minha espera há uma casa sozinha e uma cadela feliz.
Porque é ela feliz? Com que sonha? O que espera amanhã? A solidão da casa não a atormenta. A sua casa sou eu, mas ela não é a minha casa. Totalmente. Eu devo ser a minha única casa quando adormeço, porque a solidão da casa que me espera me atormenta.
Junto à casa onde vivo, construíram, há anos, um centro de apoio a velhos. Aí vão almoçar e passam parte das horas que se lhe antecedem e seguem. Estão sentados à porta ou na escadaria. Têm um ar vazio. Fazem palavras cruzadas ou olham a rua, apenas. Esperam. Não falam muito. Alguns chamam a cadela. Fazem-lhe festas. Brincam com ela. Dão-me migalhas de pão que têm nos bolsos. Trocamos algumas palavras de circunstância. Olho-os. Olham-me. Contemplo o seu olhar  triste e cansado. Dá vontade de os abraçar. Seria como se me abraçasse.
Se fico uns tempos sem passar à porta do centro, mudam os velhos. Já são outras caras. Não pergunto pelos anteriores. Tenho vergonha e medo do que me dirão. Mas não esqueço os seus rostos e gestos. Tenho-os guardadas no coração da memória. A forma como sorriam, olhavam, faziam palavras cruzadas. Nem os seus nome sei. José? João? Pessoas com casas vazias à sua espera. Talvez pessoas com com cães felizes aguardando ansiosos a sua chegada.

Houve dias em que a vida foi uma festa.