terça-feira, 29 de setembro de 2015

Alguém tinha de me comprar I


Este  conto tem vindo a ser publicado no Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa de agosto, setembro e outubro (por sair).

“Eu tinha medo do branco. A pele encarnada escura do branco fazia impressão. Suja de terra. Mordida de mosquito. Cortada do trabalho. Cheirava a branco. Fruta estragada.”
Florência sacode a cabeça, acompanha a confissão com uma carantonha e um gesto de encolhimento no corpo grande, enrolado na capulana puída de 30 anos.
“O branco era velho. Conhecia mal. Agarrou o meu braço, assim, puxou para dentro da carrinha e levou. Era noite. Tinha festa do casamento na aldeia. Eles beberam todos. Família. Vizinhos. O branco. Comeram a comida que o branco ofereceu, levou. Tocaram batuque. Fiquei sentada volta da fogueira. Tinha de esperar. Sabia ia acontecer. Podia fazer nada. Depois eu fui.”

Florência fala olhando para baixo, sorrindo envergonhada. Temos a mesma idade. Cinquenta e dois. É uma mulher alta, gorda, pele muito negra, brilhante, lisa.


“Chorei. Sim, chorei. Fazia lamento pelo caminho, na minha língua. Português, sabia pouco, só palavras de comprar comida na cantina, os números, só isso.
Na carrinha, o branco disse, não chora, agora és minha mulher. Vais fazer tudo de uma mulher. Vou dar tudo de uma mulher. Não chora mais. Segurou meu queixo com a mão e beijou na minha boca. Fechei com força. Continuou conduzir."


(continua)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Convite para o lançamento de Caderno de Memórias Coloniais

Dia 1 de outubro, 18h30, Livraria Buchholz, em Lisboa - com apresentação de Gustavo Rubim e Lídia Jorge. Convido.



Caderno de Memórias Coloniais - edição revista e aumentada

Já está nas livrarias a nova edição (revista e aumentada) do Caderno de Memórias Coloniais, com prefácios de Paulina Chiziane e José Gil, e sob a chancela da Editorial Caminho.

Pode ser também adquirido em ebook, no site da LeYa.


Hoje vais ser outro

Precisamos de ser capazes de nos imaginar na pele alheia. 
Precisamos de nos vestir com a pele de outra raça, de outra nacionalidade, de outro género, de outra classe social, cultural ou de outra espécie; apenas cinco minutos por dia, como se fosse um exercício físico ou uma oração. 
Hoje vais ser negro. 
Hoje vais ser sírio. 
Hoje vais ser cão.
Precisamos de atores/encenadores, muitos, nas escolas, para dar esta disciplina: "Hoje vais ser outro".

Dona de casa

Paulo Portas tem razão: pago as contas sempre no dia certo, cuidei dos mais velhos e aturei os mais novos até ao esgotamento, e o melhor de tudo: gosto muito de ficar sentada no sofá, lendo, enquanto tomo conta da casa. Desde há uns anos sai-me mais barato do que ir ao cinema ou ao teatro. Sou, portanto, uma excelente dona de casa.

Namasté

Antigamente, era uma espécie de cristã católica não praticante, e vivia entre a culpa e a revolta. Agora, sou uma cristã-budista-xintoísta-hinduísta-new age e mudou tudo; não só perdi o sentimento de culpa, como sinto um desmesurado amor por todas as pessoas, mesmo as que são muito parvas, mesmo muito, muito parvas, das que justificam cacetada até ficarem todas negras de namasté. 
Melhorei muito

sábado, 5 de setembro de 2015

As fotos de crianças afogadas no Mediterrâneo fazem bem ou mal?

Os budistas defendem um princípio segundo o qual não devemos ver o mal, ouvir o mal nem praticá-lo. A minha mãe, católica devota, que nunca escutou um ensinamento budista, seguia o mesmo, transmitiu-mo, e neste ponto nunca divergimos. Reconheci este princípio como verdadeiro quando me foi transmitido. Há uma sabedoria universal. 
O mal existe, mas eu não quero atravessá-lo, tal como as lixeiras existem, mas eu não as quero visitar. A violência agride-me, mesmo que não me seja dirigida, porque não é uma ação que se possa compartimentar, individualizar. O mal que atinge os outros, também me atinge, na medida em que eu não estou separada de nada do que existe à face da Terra. A violência sobre os animais, a destruição da natureza, a injustiça e iniquidade praticadas sobre outros humanos, onde quer que seja, por quem seja, atingem-me, violentam-me também, porque eu estou viva no mundo, ligada a ele, e a dor e alegria que o afetam, influenciam-me, direta ou indiretamente, a curto ou médio prazo. 
Estou portanto alerta e sensível à narrativa do mundo. Mas sou, para todos os efeitos, uma privilegiada que recebeu educação cívica, religiosa e escolar, cuja autoestima e espírito crítico foram estimulados, nunca repreendidos, e que consegue ver e pensar autonomamente. Sou uma entre alguns. Aquilo que me serve não satisfaz os outros, frequentemente, e vice-versa. No caso das imagens das crianças afogadas, que evito, que me ferem, admito que podem ser necessárias para despertar muitas consciências. É certo que são brutais, chocantes. Não as quero ver. As feridas do mundo já me acompanham todos os dias, mas aqueles que se pensam absolutos, imunes, acima da dor do mundo, talvez devessem contemplá-las com caráter compulsivo. 
Decisões como a que a Imprensa teve de tomar, no que se prende com a divulgação das imagens, são difíceis e questionáveis, mas se, de alguma forma, serviram para que um bom punhado de indiferentes acordasse, e outro, de opositores à solidariedade, questionasse o seu pensamento, colheram fruto. 
Nada é apenas mau. Nada é apenas bom. Esse 100% não existe.