quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Alguém tinha de me comprar V


Este conto tem vindo a ser publicado no Le Monde Diplomatique. A última parte pode ser lida na edição de outubro.

Florência continua.
 “Sarmento tinha uma casa de cimento pintada de amarelo bonito, com mobília de tudo, e rede de mosquito nas portas, janelas. Tinha torneiras na casa, latrina, chuveiro. Eu estava curiosa. Já não ia carregar latas de água com os pés queimar na terra. Ia comer carne e arroz. Comida boa mesmo. Gostava. Sarmento era esperto. Levou na loja, comprou chinelo, comprou sapato, vestido encarnado, amarelo, verde, capulanas novas, lenços para cabeça, anel, pulseira, tudo de mulher. Gostei. Era prenda alegre.”
“Foi-te comprando…”, concluo.
“Ele já tinha-me comprado. Alguém tinha de comprar-me, é isso tu não entendes”, responde-me.
“Família ficou para trás. Mãe, pai só vi quando nasceu Arlinda. Sarmento foi mostrar filha. Minha mãe falava comigo como com mulher igual. Já não era minha mãe. Eu estava na vida de branco. Eles diziam. Depois guerra Frelimo-Renamo. Não havia comida na cantina, supermercado, tudo vazio, prateleiras só. Sarmento ia ajudar na aldeia. Carregava comida da machamba, ia na picada, sempre levava, com os mulatos dele. Ia mostrar. Eu ia frente na carrinha, sentada como branca. Toda gente ficava olhar, mas sabia era só mulher do branco, mulher de prazo, como falavam os brancos. Um preto para chegar perto de branco tem de ir na escola. Não fui. Nesse tempo, já estava mulher grande. Gostava da casa. Sarmento ao meu lado era homem pequeno. Mandava muito, mas branco pequeno, sempre andar, sempre mexer, magro de cão.
No tempo da guerra, Sarmento tinha brancos que davam ajuda; traziam leite em pó de candonga, traziam comida na lata, salsicha, sardinha, cerveja, vinho. Chegavam brancos do Songo. Barragem. Fazíamos troca. Levavam banana, papaia, manga, couve, alface, cenoura, tudo na machamba. Deixavam lata de feijão, saco de arroz, massa, café, bolacha.
Na guerra só havia carvão. Tudo carvão. Renamo queimava. Vinha Frelimo, queimava. Todos matavam. Comboio não carregava. Carro não passava. Povo todo fechado na terra. Sem coisa para comer. Só medo.” 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Alguém tinha de me comprar IV

Foto: Paul Strand
Este conto tem vindo a ser publicado no Le Monde Diplomatique. A última parte pode ser lida na edição de outubro.

No início da vida do corpo ainda não sabemos como pretendemos rodar a roda dos dias. Não vemos a roda nem os dias, que se sucedem sem pensamento. Somos animais. 
Um dia chegam-nos planos à cabeça. Pretendemos ser uma coisa, sonhamo-la, fazemos diligências para a realizar. Mas roda dos dias circula sobre nós, de metal, pura e fria, e num momento, que chegará, cai-nos nas mãos o próprio corpo esfacelado. O que fazemos com ele?
Suspiro. Respondo.
“Não, não consigo conceber a vida se tivesse estado no teu lugar, Florência. Não é normal. Tu eras uma criança. Vejo rapto...”
Florência dá uma risada breve, e nela vejo uma catadupa de imagens, memórias, anos. Consigo perceber isso. Não, eu não posso compreender, concorda.
“Passou. Faz muitos anos”, justifica. “Sabes uma coisa não ter maneira de conserto e precisas viver na mesma? É isso! Um dia é igual outro dia, mas é diferente. Começas tudo de novo. Habituas. Trabalhas o dia inteiro. Não estás pensar. Depois dei filho nos 13 anos adiantados. Antes não. Nunca era capaz. Arlinda, primeiro. O branco servia de mim à noite, depois dormia. Eu dormia. Normal.
Comecei de fazer comida de preto, farinha com peixe, depois ele ensinou comida de branco. Eu lavava roupa, limpava casa, varria quintal, ficava vassoura na mão ver outros pretos da machamba, falava nas escondidas. Eles faziam cumprimento, diziam, tens tudo, agora és branca. Meu pai vinha cumprimentar como eu fosse branca...
Sarmento não falava muito. Só coisa de casa, comida, trabalho, filhos. Quatro mulatos grandes, bonitos, riam, corriam, trabalhavam duro na machamba, lado do pai; rapazes e Arlinda.
Foi só depois ela nascer, ouvi tal conversa de Sarmento com outros brancos. Mulher em Portugal. Filhos grandes. ”
Fita-me como se quisesse consolar-me, com os olhos vivos ligeiramente subidos nos cantos exteriores e muito sossegados. O rosto bonito, de bochechas lisas. O corpo vigoroso, muito desamarrotado, ainda.
“Digo o quê?! Nesse tempo não pensei mais nada. Não havia maneira. Era criança, não podia correr, fugir. Negócio estava feito. Tinha de habituar. Tens de entender. Era antigamente. Eu era preta. Sarmento era branco. Era negócio permitido, bom para minha família. Ele pagou caro. Pagou bem. Eu tinha braços e pernas grossos, força, dentes bonitos, olhos grandes. Negócio bom para minha família. Fazia o quê?”
E volta a recordar-me: “Sarmento carregou a carrinha dez vezes, entrou na picada e entregou pagamento no embondeiro, no lado das palhotas. Festa grande quando o sol começou de cair. Beberam toda noite. Dançaram. Tocaram. Chamaram feiticeiro. Os espíritos foram perguntados. Fizeram oferta de flor, vinho, comida. Responderam com permissão. Podia ser. Podia ir, não havia problema. Eles disseram “rio vai continuar correr muito tempo até chegar no mar e atravessar caminho, longe”. No final da noite, ouvia barulho de hienas, chitas, bichos bravos, bichos da noite à volta, mexer no mato, e branco levou para casa, puxou braço, arrastando. Sim, eu chorava, afundava pés fundo na areia para não ir. Era criança. Tinha de chorar.”
Lembra os faróis da carrinha cortando a noite na terra da picada e os insetos cortando os fachos de luz. Lembra o caminho muito longo. Muito mais longo do que quando o calcorreava com os seus pés. Lembra a chegada a casa do branco. O desligar do motor, dos faróis. A mão cerrada no seu braço como uma argola de ferro para a vida inteira. O ruído da porta de casa que se abria, primeiro a de rede mosquiteira, depois a de madeira que trancava. O chão de cimento da cozinha, onde se sentou, e ele disse, bebe, vais ficar melhor.
“E eu bebi. Pouco, pouco, parei chorar. Sentado na minha frente. Olhava. Eu, agarrada barriga. Ele disse chamava-se João. Primeiro só sabia Sarmento. Depois fiquei deitada cabeça em cima da mesa. Ele levou no quarto, deitou na cama. Dormi na cama do branco. Princípio agarrou. Mais nada.
“E os dia seguintes? Não fugiste porquê?”, pergunto. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Da responsabilidade do autor

Joseph Beuys


Toda a existência, material ou imaterial, depende da percepção individual por parte de um sujeito.

Por exemplo, tenho um vestido verde que a minha prima afastada me garante ser azul.
Outro exemplo, o meu pai achava que eu cantava bem ópera, mas a minha prima paga para me calar, de todas as vezes que ensaio uma ária.

Lembro-me da minha visita à Darmstad Galerie para ver algumas obras maiores de Joseph Beuys, nomeadamente, as que se relacionam com o holocausto dos judeus na II Guerra Mundial. Numa sala inteiramente dedicada a Beuys, encontravam-se caixas de vidro, dentro das quais, usando objectos fora do contexto para que foram criados, o autor recriava ou aludia simbolicamente a situações da guerra. Por exemplo, um chouriço seco seria carne morta, para mim. Para outro, não sei. Um chouriço seco e cortado, pintado a tintura de iodo, seria o que quiséssemos que fosse.

Volto à primeira frase, tudo o que existe, material ou imaterial, possui duas naturezas: aquilo que é, e o que queremos que seja. Ambas valem por igual.
Há casos em que o sujeito não consegue ter consciência do enorme desfasamento existente entre o real, e o real tal como ele o concebe, e, nesse caso, a distorção pode tornar-se perigosa para si e para outros.

O que se faz com o que existe, um ferro de engomar, uma embalagem de massa cotovelinho, uma farpa de madeira, pode não ser exatamente aquilo para que o objecto foi criado. Posso usar o ferro para alisar os cabelos; posso colar as massas numa tela e fazer uma obra de arte; posso usar a farpa de madeira como arma.
Um criador não pode ser responsabilizado pelo uso que se deu ao objecto; a pessoa que concebeu o ferro para uma determinada função não tem culpa que o jovem roqueiro tenha queimado os cabelos finos, enquanto os alisava. Essa primeira natureza do que existe, ou seja, o que, à partida, ela é, defende o criador do sopro de vida com que animou a sua criação. Não é da sua responsabilidade o que outros fazem com o que criou, mesmo que se cometa vileza.
Joseph Beuys não pode ser responsabilizado por eu me ter sentido deprimida, após conhecer as suas composições sobre os campos de concentração. Se alguém usa o Lolita, de Nabokov, como manual de pedofilia, caso isso seja possível, isso escapa ao controlo do autor, encontra-se fora do seu poder.

Quem cria, desenvolve e reserva uma consciência pessoal e inviolável relativamente ao que cria. Esse consciência é o seu refúgio, a sua defesa, a sua obra; o resto, é de quem o apanhar. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O lugar 6D

Gente de todas as idades, bem e mal vestidas, com ou sem perfume, em negócios ou de férias; gente de todas as raças e maneiras. Deitados nos bancos das cabinas. Dormindo muito direitos, entrincheirados entre corpos. Ressonando ligeiramente, com a cabeça caída sobre o ombro vizinho. Sentados ou deitados no chão do corredor, ou em pé tomando o ar da janela. Comendo sandes, coxas de frango frito, bolos da pastelaria A Minhota, rissóis e pastéis que as mães aconchegaram num taparuere, antes de saírem. Bebendo Coca-Cola, Sumol de laranja, cerveja, e águas de litro e meio. Havia quem tivesse sono, fome e sede. Encontrava nesse grupo, em pé no corredor do comboio, olhando para a escuridão de fora , sem lugar para me sentar, embora viesse muito bem descriminado no meu bilhete, lugar 6D. O comboio para Paris ia cheio nesse final de tarde de Agosto. O comboio para Paris chegou com excesso de passageiros a Coimbra B, ou seja, havia ali, à vontade, mais três ou quatro 6D que haviam chegado primeiro. Esperava-me uma noite longa e dura. A primeira de muitas.

A noite

Há sempre alguma coisa para se fazer no desconforto de uma viagem pela noite. Olho para fora da carruagem, observando a noite, a luz protectora da lua, os espectros das árvores onde pousam os espíritos, as casas de luzes apagadas; depois, a claridade da madrugada, e nas casas acendendo-se pequenas luzes de gente que acorda cansada para um novo dia de escravidão; no passo seguinte, a luz crua, depressiva, estupidamente laranja do amanhecer. Como se não estivéssemos todos tão bem na noite a escrever frases nos cadernos de viagem, conjecturando o futuro próximo e praguejando contra os amores passados, sem interrupções.
Há sempre a manhã no final da noite. A luz que acorda tudo e todos, que ilumina o que vale a pena e o que não vale, e que por piedade devia deixar-nos repousar lentamente na sua ausência mais algumas horas. Adiar-se para o dia seguinte, ou para o outro, talvez.

E chegamos a Hendaie com o primeiro raio de sol que não houve. Uma manhã cinzenta. Um formigueiro de gente remexe bagagem. Há nervos. Pressa. Na transição para o lado francês, feita a pé, a polícia alfandegária escolhe passageiros para mostrar documentos. Escolhe os negros, os mulatos, os assim-assim. Eu sou branca, loura, nunca me escolhem, nunca olham para mim. Eu, cuja carne é tão desterrada, tão apátrida, tão só e desesperada como a daqueles homens e mulheres, não logro chamar a atenção de uma alma inquisitiva que olhe para mim e me descubra, escolhendo-me para mostrar o passaporte, ser interrogada, dizerem-me, je vous ai choisi, car, vous savez, je vous ai vu par dedans et vous avez l’air coupable. Não. Ninguém. Em frente como se não levasse as veias cheias de um contrabando intemporal.

É fácil ser-se aventureiro sentado no sofá

Algures em Hendaye surge um TGV confortável, iluminado por luz branca, que nos desinfecta da noite anterior, mas que não é verdadeiramente um comboio, antes uma nave espacial - rasa o solo e desemboca na Gare du Nord, em Paris, donde saltamos para a de l´Est, onde apanharemos ligação para Munique, queira Deus, e depois para Viena. Em Viena, finalmente, estará o comboio para Bucareste, e a partir daí olhe por nós todo o panteão de santos.
Não visitámos Paris nem Munique nem Viena. Em Paris houve tempo para Su comprar rolos de fotografia, e alguma comida, enquanto eu guardava as mochilas na Gare de l’ Est. Seria impraticável movermo-nos pela cidade de Paris atracaçadas com bagagem. Não conhecia Paris, e permanecer horas sentada na estação guardando mochilas foi deveras frustante, mas tínhamos de ser práticas. Cada uma deveria dedicar-se ao que sabia fazer melhor, e naquele momento a minha especialidade era guardar mochilas. Tínhamo-las preparado judiciosamente para o que não sabíamos ir encontrar; kit de salvação para um mês em território agreste e desconhecido. Mochilas grandes nas costas, bem pesadas. Mais pequenas, mas não demasiado, encostadas ao peito, com os artigos mais importantes. Tudo o que pudesse fazer-nos muita falta, em caso de roubo, estaria na mochila que nos esmagava o peito. No caso de Su, documentos, dinheiro e máquinas fotográficas. No meu, óculos, lentes de contacto, líquidos das lentes de contacto, caderno e esferográfica, documentos e dinheiro.
Lembro-me do Sol em Munique. Lembro-me de me sentar na escadaria da estação, apanhando o ar da manhã e contemplando os homens a beber cerveja nos bares fronteiros. Alemães feios, falando alto. Mas era manhã e estava optimista. A seguir, Viena de Áustria, e Viena era uma evocação de valsas e música. Não saímos da estação.
O comboio para Bucareste saía de Viena ao final da tarde, via Budapeste e Praga, cheio de romenos e contrabando. Eu e Su, desconfiadas como cães de fila, e preparadas para uma viagem dura. Preparada, ela. Eu rapidamente descobri que não tinha preparação alguma para uma “viagem de investigação, miscigenação e descoberta”. É muito fácil ser-se aventureiro sentado no sofá da sala, lendo a National Geographic. Fazemos isto e o mundo. Claro que dormimos em qualquer lugar. Não teremos medo de nada. Chegados aos locais, alguém faça o favor de nos indicar hotéis limpos e seguros, e depressa.
Apanhamos o comboio para Bucareste com ele já em andamento. Corremos. Conseguimos, com os bofes à boca. Talvez nos tenhamos enganado na hora. Talvez fosse muito curto o tempo que mediava entre uma e outra ligação. Agora, já não interessa, porque agora conseguimos, e estamos já a procurar uma cabine relativamente vazia, uma que nos pareça segura, com mulheres, de preferência, ou turistas. O ideal seria mulheres turistas. Nada. Tudo cheio. Quase tudo. Há dois lugares numa cabine onde já se encontram seis romenos. E é nessa que vamos viajar até à Roménia.

Dizem que o esperanto se baseia essencialmente nas línguas românicas. O que falámos naquela cabine, pela noite fora, foi uma língua que se exprimia com o corpo e que se inventava à medida das necessidades. Ensaiámos com Pompiliu e amigos, nessa noite, e pela madrugada, um esperanto que era sede de saber e cansaço. Era uma língua que se ia tornando mais entaramelada e permissiva com o abatimento da viagem, das horas sem dormir, da mistura gasosa dos nossos suores agridoces pelo compartimento. Chapinhávamos, primeiro, em verbalidade românica imperfeita, mas comunicacional, justaposta, aglutinada, e avançávamos até momentos em que, sinceramente, já chafurdávamos num caldo de línguas que nunca seríamos capaz de reconstituir. Era um romance com traços germânicos e eslavos. Pronunciávamos combinações ultra-heterodoxas de radicais, prefixos e sufixos que julgávamos existirem na língua do outro ou numa língua que o outro conhecesse. Na prática, falávamos todas as línguas e nenhuma delas.
Nessa extraordinária língua nos descreveu Pompiliu, esgotado, esperançoso, agarrado ao contrabando que nunca vimos, o antes e o depois da loucura romena.

Um braço a menos

Não sei por que se viaja. Não estamos tão sossegadinhos nos nossos respectivos lugares macios, esperáveis?! Para quê darmo-nos ao incómodo do cansaço, de afogueados exercícios de comunicação, de conversas de surdos? Que queria eu saber de Pompiliu nessa madrugada terrível em que me aproximava cada vez mais do fim do mundo? O que haveria naquela terra de ciganos para se ver e sentir? Gente triste e pobre, como eu? Gente brutal e doce? Quem eram os homens com quem partilhávamos a cabine? Tão jovens e tão preocupados. Tão velhos, já. De mãos gastas pelo desenrasque. Que queria Pompiliu dizer-me de si, da vida na Roménia, e dos motivos que o tinham levado até ali? Que poemas eram os que me dizia? Um poeta romeno? Não faço ideia. Nem os compreendia. Eram uma cantiga que me lia porque queria mostrar-me a beleza, a ordem dessas palavras, como se fosse a última oportunidade de falar, de dizer alguma coisa antes de morrer. Ele, Pompiliu, nascido perfeito a milhares de quilómetros de mim, para quem eu era um nada ao qual convinha deixar claro que nós, romenos, sabemos poesia, não, não somos o fim do mundo.
O comboio arrastava-se na noite cada vez mais clara. Já não falávamos. Dormitava-se como se podia. Menos eu. Olhava através do vidro e fixava sombras. Claro. Escuro. Claro. Uma árvore rápida. Claro. A fachada de um edíficio ao longe. O luar. Escuro. Riscos. Escuro. Que noite desamparada! Viajamos para quê?
A minha mãe diz-me que quando nasci era um bebé muito perfeitinho, mas sei que não é verdade, que nunca foi verdade. Faltou-me sempre qualquer coisa, como um braço ou uma perna; nada que me tenha vedado uma vida relativamente normal, mas que sempre soube faltar-me. Por acaso, uma vez encontrei um estrangeiro que andava a pé na Serra da Estrela. Caminhava há dois anos. Vinha de Sudoeste pela antiga rota das especiarias. Tinha rapado o cabelo com uma lâmina e ferira-se copiosamente. Quando dormíamos juntos ele sussurrava o meu nome, muitas vezes. O meu nome era uma ladainha, uma oração. E eu gostava. Adormecia-me. Isabela, Isabela, Isabela, Isabela, muito baixinho, como um vento. Viajava sozinho à procura de um amor que lhe fugira. A certa altura pensei ser eu esse amor. Delirava. No delírio, julguei sentir crescer o braço que me faltava. Posso jurar que via a carne esticar-se toda, e ficar quase inteira. Ele dizia-me, um dia serás livre, um dia serás livre, um dia serás livre. Vais libertar-te sozinha. Depois seguiu para Norte e nunca mais o vi.
Quando dormimos juntos, nesses momentos, fui livre.
E agora, era livre? Viajava para me libertar no meio do caos, da loucura, da execução sumária? Que mulher tão complicada, meu Deus. Que mulher tão casmurra, tão incapaz de sossegar no lugar que lhe estava destinado.

Uma farpa enterrada na mão

Podia ser um tempo qualquer. Podia ser Londres em 1810 ou Moscovo em 1921. Mas não, era Bucareste em 1994.

Um adolescente semi-nu, lazarento, de cabeça rapada, esbofeteia a própria cabeça, grita, grunhe, espojando-se no chão imundo da gare da estação de Bucareste-Norte. Ninguém lhe dá atenção. Dizem, ao nosso lado, não recordo em que idioma, nem quem, que é uma forma de viajar sem pagar bilhete. Fraca desculpa. A mim parece-me um indigente, um desgraçado que nasceu louco, ou enlouqueceu, o mais provável, e não tem outra linguagem, num mundo onde os sãos também gritam e grunhem, na melhor das hipóteses, escondidos.

Na estação principal de Bucareste é possível depararmo-nos com um concentrado da miséria romena. Sobretudo velhos e crianças sozinhos, no limiar da sobrevivência, muito aquém da dignidade, dispostos a tudo para viver mais um dia, por uma questão animal, uma mera questão animal, não importando o risco ou a dor envolvidos. Enquanto arranjarem álcool e cola para consumir até entorpecer, dormirão enrolados no chão da gare ou das vias férreas como matilhas de cães abandonados. Ganindo, levando porrada, cheios de feridas abertas e parasitas.

Os miúdos que aí vivem e mendigam, rodeiam-nos. É o seu território. Querem ser fotografados. Querem receber dinheiro. Observam as máquinas ao peito de S. Não conhecem as daquele tipo. Estão habituados a roubar das automáticas, muito mais sofisticadas. Sabem os nomes do equipamento. Falam com S. sobre o assunto, em rominglês, essas crianças que não têm um metro quadrado de sumaúma sobre a qual estender os ossos. Já estão mortos, ou estarão dentro em pouco; é coisa de um mês, dois, seis... Talvez quando vier o Inverno e inspirarem cola a mais para se manterem quentes dentro de um buraco qualquer.

Apesar de tudo existe nesses rapazes de oito, dez anos, a estranha inocência de quem não pôde ser criança e nunca chegará a adulto. Não importa a idade que têm, e não importa porque não permite defini-los. São pessoas especiais, animais urbanos capazes de comunicar com um único objectivo: viver: acordar, fumar, arranjar comida, roubar, fugir, dormir, acordar. Não importa quem são. São carne e ossos e energia, por enquanto. Os animais da industria da carne pensam quem são ou atiram-se à ração para sobreviver a mais um dia? O instinto não os obriga a sobreviver, quando seria tão mais lógico obrigá-los morrer, a cair de borco e sem remédio?!

Estação de Bucareste-Norte


S. negoceia com os rapazes Coca-Cola em troca de fotos. Sim, aceitam, claro. Excitados, confirmam uns com os outros. É verdade?! Surgem mais rapazes vindos de todos os pontos da gare. Uma multidão de crianças esfarrapadas que ri descontroladamente, com a cara e o cabelo negros do carvão das linhas. Um deles chama-se Ivan. Sei isto e mais nada. Ivan. Pai? Mãe? Asilo? Escola? Não sabemos. Ivan, foto, Coca-Cola. É só.

Entrámos na Roménia de noite, ainda, e a luz do dia apresentou-nos um cenário industrial, repleto de chaminés de fábricas e centrais de produção de energia. Um cenário cinzento de terra infértil, queimada pelo fumo químico. A chegada a Bucareste enervou-nos. Um excesso de gente que se movimentava no comboio, que se apressava a sair, as pessoas lá fora que nos esmagavam, oferecendo-nos alojamento, querendo vender algo e extorquir bagagem desacautelada. Um vespeiro, um bazar oriental, um dormitório de corações com a alma moribunda, diversas filiais das diversas máfias, vícios e tráficos. O desespero, a miséria, a degradação. Quando é que temos comboio de volta? Vamos embora? Ah, não, não. Decidimos que viríamos à Roménia, que queríamos viver esta experiência, fotografá-la e escrevê-la. Quero escrever isto? Não, nem por isso. Se fosse possível, o que queria escrever agora era uma história de amor perdido. A minha disfarçada história do meu amor perdido para sempre. Mas nós sabíamos perfeitamente que encontraríamos a miséria, não sabíamos? E tudo isto é perigoso mas emocionante, não é? Sim, sim, é, claro, muito bem, mas uma coisa é pensar na miséria e no perigo, e outra, encontrá-los de frente.
Vamos embora? Não, não. Estamos em viagem, e viagem é isto, uma farpa enterrada na mão, que tanto dói se a deixarmos como se a extrairmos. Vamos, vamos a isto.

Reencontramos Ivan quando voltamos a Bucureste-Norte no dia da partida. Na altura pareceu-nos o líder do grupo. Era o mais expressivo, o mais bonito, mais sexuado, também. Oferece-se de novo como modelo fotográfico em troca de outra lata de Coca-Cola. S. Fecha negócio. Por mim, tanto faz, desde que não se atrase a partida. Onde está o comboio que nos vai levar dali para fora? Em que linha? Não nos atrasemos.

Após as fotos, Ivan vai-se embora, exibindo a cobiçada lata como um troféu. Um homem sai de um carro, aproxima-se do rapaz, grita-lhe e soca-o no rosto. Expulsa-o. Fita-nos por segundos com cara de muito poucos amigos. Ambos sabem porque espancam e são espancados; nós, não. Assistimos às cenas sem as compreender. Ou melhor, compreendemos que por nossa causa Ivan quebrou uma regra qualquer. Refugiou-se do outro lado da praça, frente à estação. Chora. Na fuga deixou cair a lata de Coca-Cola. Acercamo-nos dele. Queremos devolver-lha. Aquilo parte-nos o coração. Olha-nos com raiva. Insulta-nos. Atira fora a lata enquanto nos responsabiliza pela sova. Pouco depois recupera-a, quando lhe parece possível, e volta a nós pedindo de novo para ser fotografado, mais fotos, mais fotos, mas não na gare, na rua. Mafia, máfia, diz. E vai olhando para todos os lados.

O esquecimento

Não me lembro de nada.
Não se lembra.
Por que que é entoou dessa forma?
Eu não entoei.
Não entoou?!
Não. A Isabela é me atribuiu o seu pensamento.
Pensei que estava a censurar-me por não me lembrar.
Não. A Isabela é que se censura por não se lembrar.
Silêncio.
Diz que não se lembra da Roménia.
Não é da Roménia. De Bucareste. Lembro-me da chegada; da partida, vagamente, e de pouco mais.
Há quanto tempo lá esteve?
Há 16 anos.
É muito tempo. Não é de estranhar que não se lembre.
Considerando que passei todo esse tempo a querer esquecer… foi uma experiência violenta. Não resolvi aquilo. Mas não é como Moçambique, se é isso que está a pensar…
Não estou a pensar em nada.
… eu nunca quis esquecer Moçambique.
Nunca quis esquecer...
Não, nunca. Queria muito lembrar-me de tudo. Contar.
Mas mudou aquilo que tinha para contar.
Bem, quando cheguei a estas sessões tinha construído uma memória mais aceitável. Considerava que tinha tido uma infância feliz, uma infância de ouro. Lembra-se de lhe dizer isto?
Lembro-me.
Sorrio um bom bocado, olhando para o tecto. Entretenho-me, nos silêncios, a analisar o padrão axadrezado do tecto falso, fazendo desenhos com os olhos, seguindo linhas, saltando de motivo em motivo.
A Isabela pensa que se constroem memórias.
Doutora, tenho a certeza que se constroem e se destroem. Ou melhor, destruímos e edificamos depois, por cima, aquilo que suportamos.
Não é o caso da Roménia.
Não é, porque quis apenas destruir.
Mas veio cá para relembrar.
Sim.
É importante para si.
Não suporto o fracasso… não atiro para trás das costas, como os outros.
É essa impressão que a Isabela tem dos outros?
Oh, sim, a leviandade das pessoas impressiona-me. Por isso é que elas aguentam três Roménias e dois Iraques, e chegam todas sorridentes dizendo que foi fixe! Não dão por nada… é como se estivessem de férias em Ibiza. As pessoas não vivem as situações, não as sentem.
Você sente.
Demais.
E Bucareste?
Fecho os olhos.
Bucareste... eu sei lá! Estava muito calor. Recordo bem aquela brasa. O sol forte, a luz muito clara, as sombras pintadas de um negrume... Uma rua transversal ligava duas artérias principais. Uma basílica ortodoxa de um dos lados, prédios do outro. Era um lugar acolhedor, mas apareceu alguém que pretendia roubar-nos. Um homem jovem ou rapazes. Houve confusão. Tenho esse slide na cabeça. Está a ver?! São apenas impressões! Tenho fotografias mentais de outros lugares desconexos. Uma rua que subimos e onde fomos comer uma iguaria romena. Uns pastéis salgados. Eu andava cheia de fome, mas nessa altura da minha vida ainda não admitia a fome. Comia bolachas às escondidas…
Agora já admite a fome.
Que remédio! Como é que posso esconder? Quando olha para mim não vê nitidamente o resultado da fome?!
Silêncio.
...é difícil descrever ruas com prédios. Ruas batidas por um sol cruel ou sombrias, fétidas. Prédios e portas degradados. Restos de um regime que se foi mas não pôde ainda remover-se das fachadas. A certa altura fomos visitar o palácio de Ceausescu, ainda por terminar à data do seu fuzilamento – um portento de betão. Gigantesco. Do tamanho da Baixa de Lisboa, com dezenas de andares. Altíssimo. Feiíssimo desde os alicerces. Um eloquente exemplo da arquitectura que agrada aos poderes que não se questionam. A grandeza medonha. Acredite que metia medo. Fiquei com a sensação que quem lá entrasse já não saía. Andámos à volta daquilo, apenas. Um descampado… tudo fechado. Mas era uma visita obrigatória. tinha que se fazer. Perto, uma zona residencial qualquer... casas de gente mais endinheirada… percebia-se. Árvores cuja sombra não refrescava. Comprámos uma garrafa de água numa loja muito ocidentalizada. Estava mortinha por sair dali.

Palácio do Povo, Bucareste

Queria sair dali.
Sim, logo no início. Aconteceu assim que cheguei. Senti-me mal. Longe de casa. Estrangeira. Estranha. Desprotegida.
Mas as pessoas ameaçavam-na?
Penso que sim. Não lhe sei dizer como. Éramos duas mulheres sozinhas num lugar onde ainda bastava ser mulher para se ganhar vulnerabilidade. Creio que tentavam apanhar-nos distraídas para nos roubarem. Havia gente mal encarada, e aquilo era triste, sujo, e pobre
Isabela, já a ouvi descrever assim um outro lugar...
Não havia muita diferença entre a pobreza e sujidade de Bucareste e a de Portugal, por todo o lado, quando cá cheguei. Bucareste até ficaria a ganhar. É uma cidade monumental. Impressiona mais. Tenho essa ideia de edifícios enormes, estatuária de uma solenidade impressionante… mas triste. Tudo triste.
Silêncio.
Somos parecidos no atraso, penso eu. Na ruralidade. Nos horizontes limitados. Na obediência à ordem e, por outro lado, na indisciplina.
Essa semelhança fê-la desgostar os Romenos?
Não desgostei. Depende dos Romenos. E eu também gosto dos Portugueses…
Mas não se sente Portuguesa?
Porquê?
Disse “eu também gosto dos Portugueses”…
Sinto! Mas sou uma Portuguesa que se questiona permanentemente sobre essa pertença, sobre a sua identidade. Sinto-me Portuguesa como penso que um filho adoptivo se sente filho, que deve ser algo do género, aquela é a minha mãe, mas toda a gente sabe, eu, ela, o mundo, que não sou seu filho.
Mas vai adoptar.
Vou, mas convém ser realista. À cautela. Deixe-me contar-lhe isto…
Conte.
Quando trouxe para casa a Lili, que hoje é a cadela da minha mãe, não sentia nada de especial por ela. Estava abandonada, e eu quis ajudá-la, protegê-la, amá-la. Mas no momento em que quis amá-la, ainda não nos amávamos. Tínhamos simpatizado uma com a outra e pareceu-nos que viríamos a amar-nos. Melhor, tivemos a certeza. Mas a Lili foi uma cadela difícil, vadia, cheia de vícios… Mas aceitei. Tinha de aceitar, de entender-me com ela. Lembro-me de nos primeiros tempos olhar para aquele doce de animal e pensar “ainda não te amo”. Ainda não a amava como à Micas. Mas depois, devagar, dia-a-dia… quando voltei a pensar no nosso amor já estávamos presas com mil laços.
É uma história bonita.
É.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cega

No ensino secundário, tive, como professor de Introdução ao Direito, um juiz que defendia os homens de convicçao contra os de opinião. A opinião valia pouco. A convicção, isso sim! Nada a demovia. Forte. Segura. Por algum motivo me lembro disto. Por algum motivo, passadas dezenas de anos, continuo a culpar-me por ser tão pouco uma mulher de convicção, por ser tão incoerente, tão contraditória, por ler o que escrevi há meia dúzia de anos e pensar, "mas a seguir fiz o contrário".
Vivo como um cego numa casa desconhecida. Às apalpadelas.

Abraça-me e beija-me

Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei.

Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.

Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me  e sorriu. É uma menina tão doce! Sinto-me uma menina grande, e ela é uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro", mas não tive tempo para reparar.

A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai bebe. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Conta-me:
- Eu era pequena, tinha dois ou três anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:
- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada. Reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha, crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus neste instante, só por agora, esperando que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.

O valor da dignidade

O tráfico de drogas, armas, influências, órgãos, pessoas constitui uma profissão? E o lenocínio? E a corrupção? Vamos imaginar a seguinte situação: precisamos de preencher um impresso escolar para fins estatísticos. Profissão da mãe? Traficante de crianças africanas para fins de escravidão ou extração de órgãos; profissão do pai? Pedófilo de média dimensão. Rimo-nos pela incredulidade, mas pessoas destas cruzam-se connosco na rua, moram ao nosso lado e vivem do lucro que fazem no exercício da atividade ilegal. Aquilo que torna a tarefa ilegítima aos nossos olhos não é a troca comercial de moeda ou serviços, mas o facto de ser indigna tanto para quem exerce como para quem se sujeita à prática ou a estimula; o consentimento ou dependência do corrompido não altera a natureza da indignidade. É indigno para os envolvidos, independentemente do papel que desempenham. É-o mesmo que não tenham consciência da injustiça. Uma coisa é a indignidade e a injustiça, outra a responsabilização e criminalização pelo acto cometido. Ou seja, o traficante, o corrupto e o pedófilo também praticaram injustiça e indignidade sobre si, o que não atenua a sua culpa.
Isto é tudo difícil de perceber, porque, como qualquer ciência, assenta sobre o pressuposto de conhecimentos adquiridos em fase primária, formal ou informalmente. O que é a dignidade?
Ser indigno não é um problema que atormente a maioria do seres humanos: não se conhece bem o sentido do termo, embora já se tenha ouvido a outros, sem perceber o contexto. Portanto, a indignidade não é obrigatoriamente intencional; também acontece ser-se digno: acerta-se aleatoriamente, como se fosse um cinco no totoloto.
Se formos para a rua perguntar às pessoas se se sentem indignas, é provável que metade delas nos diga que não, que nunca sofreram disso.

Somos aparentemente livres, relativamente prósperos, e sentimos que quase tudo nos é permitido. Insultar outro, agredi-lo, não é grande problema. Há quem defenda que a desigualdade e a injustiça, como não se podem solucionar sem perigo de irremediável desestruturação económica, devem ser socialmente aceites e tributadas.
A dignidade é um princípio moral, mas por esta via também me meto em trabalhos. O que é um princípio? E a moral? Para facilitar a comunicação, digamos que a dignidade implica que encaremos a nossa existência humana exactamente como se encara o símbolo do nosso clube de futebol. Orgulhamo-nos do que simboliza. Não queremos queremos vê-lo sujo nem rasgado. Não queremos que o usem para fins inapropriados, que o desrespeitem. O nosso clube de futebol não é o melhor na medida em que ganha os jogos todos. Não; mesmo que perca é bom, está é em baixo de forma. O nosso clube de futebol é um valor indiscutível. Como um diamante. O valor de um diamante não depende da sua utilidade. Pode nunca sair de um saco de veludo e mantém o valor. É riqueza. A dignidade é mais ou menos isso. Como se fôssemos um clube de futebol cuja claque somos nós. Como se fôssemos, para nós, a garantia de um diamante dentro de um saco de veludo, dentro de uma gaveta.

Há realmente práticas indignas universal e intemporalmente. Não creio que alguém se sinta orgulhoso por ter um filho corrupto. Que espalhe a notícia. “Ah, o meu filho está muito bem, entrou para a corrupção, e a minha nora ajuda na contabilidade.”
Isto é lógico, para mim, mas não tenho a presunção que o seja para todos. Há tantos advogados da indignidade como do diabo; é possível vesti-la bem, dar-lhe bom ar e inocentá-la. Há quem pretenda dar-lhe nome de firma. Pessoalmente, mesmo contemplando heróis e heroínas românticos não creio que a dignidade seja relativa. Um pícaro pode ser superlativamente inteligente, atraente e divertido na sua indignidade, mas não digno. Ou pode ser digno e indigno, conforme o destinatário ou o contexto. Ou pode aparentar ou construir uma aparência de indignidade e nunca ter corrompido o coração. A dignidade não é extrínseca nem visível a olho nu.  É tudo o  que sei.

Os meninos que matam

Os meninos nascem puros. Depois, crescem depressa, e são já mais velhos do que o mundo, no momento em que matam.
Mesmo esses meninos nascem puros.
Os meninos que nasceram puros, os de ontem, aprenderam o culto à morte; é a ideologia que conhecem, livremente difundida pela música, pelos jogos, pelos cinema que consomem, os livros que lêem, quando leem. Querem eliminar os que se não lhes igualarem. Tudo o que não suportariam ser. Os meninos que nasceram puros e matam, querem matar-se, mas não sabem.

Houve um tempo em que foi possível chegar aos meninos e ser deles, e eles nossos. Éramos puros. Todos.
Ms os meninos puros sujaram-se pelo desamor, que nasceu do desamor, que nasceu do desamor. E o que é isso, o amor? Serve para quê, esse empecilho, o amor! Os meninos que nasceram puros não viram o amor.

"O que fazes se encontrares uma carteira na rua com dinheiro?" "Tiro o dinheiro e deixo-a lá ficar." "E não entregas à polícia?" "Até posso entregar, mas sem o dinheiro." "Mas não achas que devias entregar a carteira com o dinheiro?" "Não, se não tirar eu o dinheiro, tiram os polícias."

Os meninos que nasceram puros atiram pedras aos negros, aos ciganos. Os meninos que nasceram puros esmagam a cara do colega bichona, porque é bichona, e formam gangs para roubar o que possa ser vendido.

Em Madrid, adolescentes imolaram pelo fogo uma sem-abrigo que se protegia do frio na entrada de um banco, onde se encontravam as caixas atm. Esses meninos também nasceram puros.

São puros estes meninos, e idealmente, talvez ainda pudessem recuperar-se, numa escla qualquer, as carências profundas de uma inexistente educação familiar; mas não nas escolas como existem, não em turmas de 30 alunos, com aulas de 90 minutos, não nos moldes em que vigora. E o mesmo Estado que custeia a prisão e as casas de correcção onde vão parar, não custeia vagas para professores-tutores. Não são necessários.
Por isso é que os meninos, que nascem puros, podem tão livre, tão fácil e impunemente criar, com as suas mãos, o horror, a vileza, a degradação máxima. A mesma a que estão condenados enquanto o sistema educativo depende exclusivamente da política económica.
A escola de hoje chama-se demagogia. Hipocrisia.

Os meninos puros que se envileceram, são produto da hipocrisia política que os envileceu, criando assim os seus legítimos cancros, os seus clientes para castigo exemplar

Falhados

Os bêbados e as bêbadas. Os caloteiros e as mulheres promíscuas. Os que não têm disciplina, e se esquecem e dormem até tarde. Os que se masturbam à falta de parceiro. Os que masturbam os outros e esse é o seu prazer. Os que são enrabados e os que enrabam. Os que são pequenos. Os que são gordos. Aqueles que não aguentam. Fracos. Os míopes, os canhotos, os carecas, as mulheres de barba. Os que caíram e mesmo os que nunca se levantaram. Que não têm dentes nem vergonha nem escrúpulos. Que se atrasam muito tempo, ou nem vão. Os que chulam e os que são chulados. Os que se descontrolam e dizem palavrões. Irracionais, inoportunos. Esses que falham todas as oportunidades. Que aparecem quando não devem e só para fazer asneira. Que podendo ter feito, não fizeram, nem se lamentam. Os que nunca foram ou tiveram coisa alguma, e que na véspera da morte valiam menos que o copo riscado do último vinho. A Camille Claudel e o Fernando Pessoa. Esses e outros que tais.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O dia de hoje

Foto: @Bruno Boudjelal
I

Na casa dos meus pais, depois da minha mãe, agora minha, precisei de alterar quase tudo para fugir à opressão da memória. O meu antigo quarto de solteira é agora quarto de hóspedes. Quando chegam visitas, sinto uma necessidade irracional de explicar, "é o meu antigo quarto de solteira". Digo-o, e fico a rir-me sozinha com os meus pensamentos, a minha consciência.
Gostava de mudar para uma casa na qual não estivesse tão duramente gravada a minha história.

II

Escuto o dia inteiro a minha vizinha a entreter o neto de dois anos. As paredes não são finas, eu é que tenho ouvido de tísica. Em Portugal, os avós são creches. Que paciência! Que disponibilidade! Afinal foi bem melhor não ter sido mãe. Deus escreve direito por linhas muito tortas.

III

Os velhotes da minha rua conversam sentados num banco. Veem-me aparecer e exclamam, "cá está esta jovem!". Sorrio. Cumprimento. Não contradigo. É tudo tão relativo. Há dias em que sou tão mais velha do que eles.

domingo, 11 de outubro de 2015

"Caderno" no Porto.

Porto e arredores. Estão todos convidados.


Natureza viva

Tenho muitas dúvidas, engano-me muitas vezes e, por consequência, mudo frequentemente de opinião.

Isabela foi a "A Ronda da Noite"

Entrevista por Luís Caetano.

A esperança sai de um casulo, como as borboletas

Tudo muda em permanência. Não ao mesmo tempo e nos mesmos lugares, pelos menos de forma perceptível. O que parece estagnado transforma-se invisivelmente, no interior de um casulo. 
A Europa está a mudar e é o Sul que a força. Talvez Fernando Pessoa tivesse profetizado com razão: o rosto da Europa pode ser Portugal.

Alguém tinha de me comprar III

Foto: Paul Strand

Este  conto tem vindo a ser publicado no Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa de agosto, setembro e outubro.

“Como é que ele te descobriu, Florência?”
“O branco era patrão do meu pai na machamba, lá em Tete. O meu pai cavava, regava com água do poço, cortava cana, banana, apanhava maçaroca, amendoim, mandioca, e comida de branco. Todos os dias ia lá.
A machamba do branco tinha poço fundo. Ele deixava os pretos entrar, tirar água, levar. Não tinha problema. Eu ia lá. Água muito limpa. Fria mesmo. Não precisava ir no rio, mais longe, no calor, carregar latas, quilómetros debaixo do sol. Na machamba, o branco tinha muita comida, cama, limpeza, criados. Eu ficava sentada nas latas, olhar, debaixo do cajueiro. Ele viu no poço com outras raparigas. Rimos. Agradecemos na nossa língua. Respondeu. Sabia falar um bocado mal, maneira de branco, mas falava. Olhou para mim com os olhos parados, como o leopardo. Depois passou tempo, tempo e ele foi lá comprar.
Quando fiz onze anos o meu pai disse minha mãe, “Sarmento viu Florência no poço. Quer comprar.” Falaram. Chamaram família mais velha. Combinaram preço. Cabritos, sacas grandes de farinha, comida, bebida. Combinaram dia do casamento. Já contei.”

Estamos sentadas em bancos de madeira branca lascada sob uma laranjeira, no quintal da casa de Florência, na Malveira. É um Verão quase tão quente como os de Tete, que me relata. 
Sorri. Sorri sempre como se tudo fosse aceitável, como se o mundo fosse para receber tal como vem.
“Foi como Deus escolheu. Havia de chegar tempo em que alguém vinha e levava... eu sabia”, responde em voz baixa.

Encaro-a por momentos. Como Deus escolheu, disse ela! Deus! Penso. Acordar uns dias a seguir aos outros, sábado, domingo, segunda, terça, trabalho, folga, trabalho, Verão, Inverno; atravessar décadas, empurrando risos e lágrimas tal como se aceita uma missão do outro lado do mundo; resistir a uma viagem longa, mas curta demais para a paz, retalhada de planos desfeitos e refeitos. Morrer em vida. Renascer do pó das derrotas e continuar, como se a alquimia do esquecimento fosse possível. E prosseguir. Como se fosse possível… 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Alguém tinha de me comprar II

Foto: Jessica Dimmock

Este  conto tem vindo a ser publicado no Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa de agosto, setembro e outubro.

Não queria o branco. Não queria casar. Tinha minha mãe mandar carregar latas de água para casa todos dias, apanhar ramos de micaia seca, atear fogueira no jantar, limpar chão com vassoura, levar cabritos na erva, tomar banho no Zambeze com outros da minha idade. Chapinhar, mergulhar longe de jacarés. Isso queria. Casar não.”
Levanta a cabeça. Confirma, “casar foi combinação do branco com minha família. Não fui perguntada”.
Florência continua.
“Em Tete faz 40 graus para cima. Não tem vento. Não consegues respirar. Dia inteiro debaixo do sol. O embondeiro por cima das palhotas não tem sombra para aliviar calor. Corpo incha. Precisa aguentar, aguentar. Esperar chuva. Quando chove, muito forte, pregos de água, hi!, pouco tempo, a terra solta fumo, como atiras água nas brasas, sabes?! Depois, chuva para, de repente, formigas com asas vêm dos buracos no chão, e voam, voam, malucas, perdidas, malucas mesmo, sem casa, até cair, e nós rimos, e saímos para apanhar, meter nos panos, e assar para jantar.”

Agora ri. Não pergunto nada. Deixo-a com o seu pensamento. Está na savana apanhando formigas com asas, os braços estendidos. Rodopia no baile com as formigas agonizantes. Ri. Mal se vê o seu corpinho de braços abertos. Asas brancas. Um zumbido forte de milhares de insetos sem rumo, debatendo-se nos seus últimos momentos.
O riso apazigua-se. Volta devagar ao presente, e olha-me, sorrindo com uma paz que não conheço.
“Na casa do branco havia sombra. Na casa do branco não comia formigas. Só carne, arroz, batata, feijão. Comer muito sabia bem. A seguir veio tempo dos brancos ir embora, da guerra Renamo e Frelimo. Comida era complicado. Mas casa do branco tinha sempre comida. Não fazia fogueira. Tinha fogão. Tudo fácil. De branco, mesmo.
Não gostei do branco durante muito tempo, só da carne, mas o meu coração continuou a viver sozinho, sem irmãos, amigos, só o branco que saía manhã cedo, voltava no almoço e noite.
Não chorava mais. Comecei de engordar, ficar grande. Pele bonita. Depois, muito tempo, não sei quando, devagarinho, já gostava um bocado, mas não sei, não fiz nada. Não percebia. O branco cheirava menos fruta estragada. Habituei ao branco.”
“Tínhamos a mesma rigorosa idade”, digo-lhe.
“Era”, responde.
Florência olha-me. Faço perguntas difíceis. Não pensou. Quero ver e entender aquilo em que não pensou.
Cala-se por um bocado. Depois fala.
“Tu és diferente. Foste na escola. Sabes ler, escrever. Eu estou fechada dentro de ser mulher. Aprendi a tua língua com o branco. Ele é meu homem. Dono. Patrão. Comprou. O tempo não muda. Podia ser outra maneira. Ficava na palhota e havia de vir preto da aldeia perto. Mas o branco quis. Foi lotaria.
Os dias fizeram caminho. Vem luz, depois vem noite. Barriga cresceu. Tive quatro filhos do branco. Uma menina. Três meninos. Não sei como é outra maneira. Só assim. Não tive outro. Ficas presa com a corrente da vida. Toda amarrada sem corda. Tu vais e é assim. Mesmo coração a doer, tu obedeces, aguentas. Vais. Vais. Continuas.”
As mulheres dos brancos vinham, davam roupas para as crianças, diziam, Florência, o teu marido tem mulher, filhos grandes, maiores que tu, lá na Covilhã. Eu ouvia. Nunca fui nessa Covilhã. Fiquei só saber que tinha vida lá. Mulher mais velha. Fazer nada. Falavam com Sarmento. Havia problema. Para mim não era problema.
Sarmento tinha essa mulher e filhos quando comprou-me por 12 sacas de farinha, dez cabritos, galinhas, caixas de cerveja, garrafões de vinho e óleo não lembro, muitos. Tinha 11 anos. Ser branco custou-lhe muito mais caro. Bem feito!

Florência ri de novo. Ri muito. O peito grande abana. “Bem feito! Castigo!”