segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Luxo


Cedo tive a consciência de que me seria possível viver com muito pouco. A memória mais antiga dessa consciência remonta aos meus primeiros tempos em Portugal, provavelmente porque vivia com quase nada. Tenho um slide na memória do momento em que vou a pé para a escola, em Alcobaça, e fantasio com uma casa muito modesta, mas muito confortável e quente, no interior. Estou nela sozinha. Tenho livros, plantas e animais. Quem passa fora não tem qualquer ideia da riqueza que existe no interior. Lembro-me bem disto, consigo até visualizar a fachada dessa casa imaginária. 
Calor, conforto, abrigo e segurança. Foi isto que desejei. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Bacalhau frio

Fui trabalhar como jornalista porque pensava que os jornalistas escreviam. Como diz o Cavaco, a realidade derrota sempre a ideologia.
Quando trabalhei como jornalista tinha a fantasia de que havia de ser destacada para estar de serviço na noite da consoada e da passagem de ano e, assim, escaparia, com justificação, às celebrações tradicionais.
Uma noite de consoada, no início de 90, atrasei-me de propósito, e cheguei a casa pelas dez e meia da noite. Os meus pais estavam à minha espera com o bacalhau quase frio. Iam-me matando.
Ainda não havia telemóveis. Era uma paz de vida.