segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Os 7450 euros do Padre Milícias

Segundo dados de 2011, o Padre Vítor Milícias aufere uma pensão de 7450 euros. Atualmente, será menos, porque os cortes chegaram a todos. Imaginemos, fazendo contas por baixo, que lhe tiraram 2500 euros mensais. Ainda me dá 5 mil. Se me tirassem do ordenado 2500 euros, todos os meses teria de arranjar 1200 euros, algures, para pagar ao meu patrão. Sei eu lá o que são 5 mil euros! Só queria juntar o suficiente para mandar substituir os vidros das janelas de trás e da frente, que deixam entrar frio e chuva. Estou  tão cansada de apanhar água com a esfregona! Mas sei que sou uma privilegiada, nos dias de hoje. O salário cai mensalmente, sem falhas. Consigo pagar as minhas contas. Tenho comprado um livro por mês, assistido a um espetáculo, pelo menos, ido ao café. Até tenho jantado fora. Pelo menos uma vez por mês! Um luxo, reconheço!
Não sei que funções exerceu o Padre Milícias para conseguir auferir uma pensão tão "razoável", nas suas palavras, mas imagino que tivesse sido um cargo nobre, de grande importância humana e social, no contexto dos seus votos franciscanos. Muito mais  humano e social do que o de um professor que trabalha na escola e em casa um número de horas que o Estado até nem se importa de permitir que sejam oficialmente 35, porque convém que nunca chegue o dia de apurar o seu cálculo real. Ou de um médico(a) do SNS. Ou de um juiz(a). Professores, médicos e juízes nunca poderão estar tão enfiados na vida, no podre escuro e na luz das maravilhas como uma padre franciscano que foi iluminado pela vocação espiritual, de natureza imaterial, e manifesta uma compreensão e tolerância da fraqueza e grandeza humana incomparáveis com o de qualquer outro ser racional. Não me incomoda que o padre Milícias tenha uma pensão tão "razoável", porque a prosperidade alheia me causa satisfação, mas sendo ele não só um coração bondoso, como um oficial apóstolo de Cristo, espero que siga o seu exemplo e despenda parte significativa dos valor auferido para prestar apoio aos que precisam, que são muitos.
Eu ganho 1300 euros mensais para poder dar-me ao luxo de ser professora numa escola com cursos de formação para  jovens do bairro social. Não sei se viram o filme da Michelle Pfeiffer, em que atirava chocolates ao alunos para os amansar. Sempre gostei de ser professora, mas agora é pior. Já não acalmam com chocolates. Apesar de tudo, consciente do meu privilégio, guardo parte do que aufiro para ajudar amigos, associações, e por aí fora, porque me pedem, porque tem de ser, porque sei que, tendo pouco, tenho muito, e, sobretudo, tenho a graça de ser muito ajudada quando preciso, e estou agradecida como Lázaro, portanto, o Padre Milícias, que consagrou a sua vida ao Outro, há-de ser bem melhor do que eu.
Gosto sempre de dizer quanto ganho, faço até questão, para que a orgânica social se torne para todos mais clara. Se não partilharmos informação, ainda se chega ao ponto de pensar que o senhor padre ganha 1300, e está com sorte, porque um padre não pertence ao "sistema", e a professora é que se alapa com os 7 mil; o que, pensando bem, até é justo, porque estes funcionários públicos que vão levando com as sequelas dos cancros sociais gerados pela economia e pela política merecem a canonização em vida.
Não tenho nada contra o Padre Milícias. Não tenho mesmo. De certeza que teríamos ambos uma excelente conversa sobre diversas matérias, e teria muito a aprender com ele. Peço perdão antecipado por usar o seu nome com o objetivo de fazer valer esta minha mania selvagem de perceber que, sendo todos nós o mesmo organismo, há partes dele inexplicavelmente destituídas de irrigação sanguínea.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A jihad católica

Não sei o que aconteceu a este país nas últimas décadas, mas gostaria de lembrar que, pelos meus 20 anos, tinha vergonha de dizer que não era ateia nem agnóstica, que por acaso até acreditava em alguma coisa, e conhecia a tradição católica de trás para a frente. Parecia mal. Éramos ostracizados. Comprávamos discussão.
Qualquer dia não se pode fazer uma piadinha com o Menino Jesus nem com Deus sem enfrentar uma jihad. Há que fazer sempre piadas com a religião, porque a religião é negócio, é Continente, é Vodafone. E Deus gosta de rir.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Não precisa

Fui muito alegre a casa dos meus pais. O meu pai permanecia sentado na cadeira de rodas junto à janela. Lá fora, chovia. Observava-me seriamente. Reparei nisso e lembrei-me que estava ressentido comigo, de pé atrás. Vi no seu olhar que me escrutinava. Ignorei. Disse-lhe, apontando o prédio onde agora vivia, no último andar, "tens de me ir visitar, embora estejas doente. Ao menos para confirmares que sou boa pessoa e tenho feito certo." Respondeu, "não preciso dessa desculpa para te ir visitar." Disse-o e senti de novo que o que nos ligava era uma atracção indissolúvel, eterna, infinita como o princípio do tempo que jamais acabaria. Pensei, "bolas, isto é o amor!"