sexta-feira, 18 de março de 2016

Educação religiosa nas escolas?

Missa nas escolas?! Não nos faltava mais nada!
A formação religiosa não cabe às escolas públicas. Posso admitir que um colégio religioso tenha atividades extracurriculares dessa natureza, mas a função da escola é formar para a cidadania. Nas escolas públicas não deveríamos sequer ter Educação Moral ou Religiosa Católica ou de outras tendências religiosas. O Estado deve aceitar as diferentes expressões religiosas, mas não promovê-las nem financiá-las. A escola forma cidadãos, não cultiva crentes. 
Já nos basta a lavagem cerebral de duvidosa normalidade social que os jovens recebem no nosso sistema de ensino. Eu sou o grão de areia na engrenagem. Não contem comigo.

O meu enorme ego


No meu círculo de amigos, ultimamente, fala-se muito de ego, e normalmente a conversa acaba no meu. Sou autoritária. Não gosto de ser contrariada. Continuo muito teimosa. Estou convencida de que eu é que sei, e faço só o que bem entendo sem piedade pela opinião alheia. Por aí fora. É tudo verdade. Sou autoritária, não gosto de ser contrariada e a maior parte das vezes eu é que sei, e faço mesmo só o que entendo. Sou teimosa, felizmente, o que me tem tornado capaz de viver autonomamente, portanto levo décadas a desistir de projetos. Esgoto as suas possibilidades. Registe-se uma ressalva em minha defesa: digo o que observo e penso, mas não pretendo converter. Se o que penso e exprimo serve alguém, melhor, se não, adiante. Não têm de me prestar contas das suas ações nem de se justificar. Aceito cada um com as contingências que o caracterizam, durante algumas horas por dia, desde que me seja possível recolher ao meu habitat, onde sou autoritária e teimosa só comigo. É o Jardim do Éden. Não passo os dias a nomear e censurar o ego alheio. Não me ocorre. As pessoas são como são. No máximo penso "é chato(a), livra!" e circulo. A constante nomeação do ego, do aquietar da mente e do namasté,om shanti om, por vezes, a mim, parece-me um estado autoritário, por enquanto soft. Há quem leia este enunciado e pense "coitada, está num estádio de desenvolvimento espiritual ainda muito primitivo". Estarei, mas estados autoritários só se não lhes puder fugir. Sou a favor do desprendimento, do nirvana, do desaparecer daqui para fora e não ter de sofrer o mundo, tudo o que queiram, mas evitem culpar os gigantescos egos dos vizinhos do lado. Há momentos em que me apetece responder como quando andava na primária e nos insultavam: "quem diz é quem é".

quarta-feira, 9 de março de 2016

No living "la vida loca"



A cadela ladrou de manhã, mas sosseguei-a e voltámos a dormir. Era apenas Hans que saía. Levantei-me tarde e vi um bilhete manuscrito sobre a mesa da cozinha. “Ir resto semana Marrocos, porque amanhã centenário declaração de guerra  Alemanha para Portugal e não aguentar questões estúpidos de colegas da faculdade”. Haverá quem possa considerar esta atitude um bocado cobarde da sua parte, mas o rapaz não herdou as dívidas políticas dos seus antecessores.
Por outro lado, não sei se este intercâmbio foi a melhor ideia. A disciplina cansa-me bastante, e viver com Hans is no “la vida loca”.
Continua obcecado com o seu trabalho focado na renegociação da dívida, de acordo com a orientação de Yanis Varoufakis, mas lamenta a falta de bibliografia existente nas nossas bibliotecas. De imediato, lhe pedi que desse notícia a Frau Angela Merkel. Não gostou. Considera que o sul da Europa acumula muitos preconceitos em relação aos alemães. A parte não é o todo e o todo não é a parte, reclama.
Queixa-se da reduzida carga de trabalho exigida pelos professores. A excelência pede sacrifício do prazer. Não podemos obter recompensas imediatas. Há que perseverar. Insistir. Exercício. Confirmar e melhorar pela repetição. Cita o seu avô Friedrich: “o bom trabalho é o trabalho completo”, enquanto limpa o chão de toda a casa com lixívia e esfregona, embora a Ninah só tenha mijado na entrada da porta. Grito-lhe, “estás a molhar mais, estás a molhar tudo”. Responde “o bom trabalho é o trabalho completo”.
Não suporto a lida doméstica, portanto, havendo mais um em casa, mandei vir de novo a mulher-a-dias, para facilitar. Hans mostrou-se agradado, por darmos trabalho a mais uma pessoa. Pareceu-lhe, por segundos, que eu poderia estar num grau civilizacional semelhante ao seu, mas logo se desiludiu e indignou ao descobrir que a empregada recebe pouco mais de 6 euros à hora.
“Tão pouco? Como é possível? Como poderá sobreviver? Temos de pagar mais.” Respondi que não poderíamos fazê-lo sem correr o risco de desestruturar os orçamentos familiares de toda a Margem Sul. Expliquei que esse é o preço do trabalho doméstico, por aqui, logo, se pagarmos acima, ela exigirá mais dinheiro nas outras casas, o que, por sua vez, num efeito de contágio, levará as restantes empregadas a exigir o mesmo. Ora, as pessoas já fazem grande sacrifício para pagar o atual valor. Disse-lhe mesmo, “de economia percebes tu e o Varoufakis, mas isto parece-me elementar”. Olhou-me duvidoso e retorquiu que teríamos de a recompensar principescamente na Páscoa. Para atalhar disse que sim. Este rapaz não tem a menor ideia de como se vive no Sul, mas deixemo-lo andar com o projeto de renegociação da dívida. Precisamos de milagres e a verdade é que o bom trabalho é o trabalho completo.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Odeio poesia

Foto @Nicholas Ence McElroy

Já não gosto de ouvir poesia. Antigamente, fazia sessões cá em casa com o meu amor, quando tive um amor. Agora gosto de a ler em silêncio. Ou mudou a poesia ou mudei eu. Talvez tenhamos mudado ambas.
Fujo de todos os recitais para que me convidam. Lê-se poesia com muita importância, como se a poesia tivesse mesmo muito importância. Para mim a poesia é estar aqui a teclar um texto no computador, meio cega, cheia de pressa porque dentro de 9 minutos tenho de estar no café com C., que me convidou para um projeto que vai mudar o mundo. Não gosto de interpretar poemas para outros, embora até leia bem, digam que leio. Gosto de ler poemas sozinha na minha cabeça.
Também já não aguento poemas muito eloquentes. Houve um tempo para isso. Hoje em dia devemos ser práticos, ir diretos à fruta, arrancá-la, mastigá-la e cuspir o caroço. 
Não me venham, portanto, com poemas. Dizem que sou atávica.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O meu estudante alemão



Hans é estudante Erasmus e chegou ontem de Berlim com uma pequena mochila já sem cor. Tentarei enfiá-la numa bacia com água quente e lixívia, num dia em que saia cedo para a faculdade, e regresse tarde. Tudo a seu tempo. 
Frequenta o último ano do curso de ciências sociais e políticas da Universidade Humboldt, no qual é um dos melhores alunos, e escolheu Portugal porque não acredita em pig's, mas quer ser um deles. Os seus avós anarquistas viveram em Lisboa imediatamente após o 25 de abril, e Hans escutou histórias sobre o perfume dos cravos, dos limoeiros e da erva primaveril pisada ao sol. Veio salvar-nos e salvar-se. Da Europa. Mas não será fácil. 
Chegou-me através de um amigo de Facebook, íntimo de Yanis Varoufakis no passado, louco por Yanis Varoufakis,  que entretanto tive de bloquear por se ter tornado um stalker de primeira. Hans está na primeira linha do DieM25, colaborando na criação e implantação do movimento. O meu nome chegou-lhe por esta via: o passa palavra da esquerda à esquerda da esquerda. If you wanna go to Portugal, for you project, you have to meet Isabela. Maybe you can stay with her. Tell her you work with Yanis.
Aqui estamos. 
Hans chegou ontem, como expliquei.  Duas horas e meia após ter pisado solo português, o choque cultural começou a prosperar  Censurou-me a ingestão de línguas de gato, uma porcaria nojenta cheia de óleo de palma e de És 331 e 332. Fui apanhá-lo a esconder-me o saco das bolachas  nas estantes de livros do escritório.  Censurou o corpanzil da cadela. Tem de se mexer, de ir correr para a praia. Obesity is a huge health problem in the West.  Acha que não tenho espaço no congelador que lhe permita confecionar a sua sobremesa favorita de sorvete biológico. Tem de ser sorvete, por ser possível preparar sem leite. Os adultos não precisam de o consumir nem devem. Considera que tenho gelo a mais no congelador, o que consome demasiada energia. Censurou-me as horas a que me deito. Falta de disciplina! Por outro lado, vai arranjar-me o autoclismo. Basta comprar as peças,  de qualidade, numa loja especializada. Temos de ser autossuficientes.
Hans pode ser excelente aluno e extraordinário alemão,  mas findas as primeiras 24 horas penso poder afirmar que Yanis Varoufakis só me mandou o seu estagiário porque não tem de viver com ele.