sexta-feira, 22 de abril de 2016

Doce, fundo, claro poço da verdade

Foto: Jessica Dimmock

A verdade é demasiado pura para ser desperdiçada.
Em 1978, as mamas da Nicha estavam em crescimento e eram pequeníssimas pêras assimétricas e duras com mamilos marron.
Hoje consigo admitir que tive uma paixoneta pela Nicha. Lavava-lhe as meias, os soutiens e as cuecas, mesmo as manchadas pelo período, como se lavasse a roupa do meu corpo, mas sagrado. Um reboliço desejado, oloroso, comestível onde me enfiaria inteira de bom grado, se a fusão dos corpos existisse. Servia Nicha como servimos sempre a quem amamos, por bem, por vontade, sem esforço nem favor. Passava-lhe o creme pelo corpo, aos sábados de manhã, exceto nas mamas e nas partes do pudor genital. Tinha acesso ao resto. Nicha despia-se devagar, e era melhor que uma estátua modelar, porque estava viva, os músculos pulsavam sob a pele, e meneava-se iluminada pela claridade da luz matinal, insuportável para os olhos, mas coada pela cortina bordada da janela da nossa camarata, sorrindo, murmurando vagamente um “sinto um bocado de frio para estar descoberta”, deixando uma impressão de enfado pela ação que se seguiria, embora lhe desse jeito hidratar a pele, sobretudo a das costas, onde não conseguia chegar. Estendia-se de bruços e eu fazia a massagem render enquanto Nicha relaxava com os braços pendurados, um de cada lado da cama, e se deixava passar para o outro mundo do prazer. Tinha a pele grossa como cabedal, ligeiramente escurecida, e o cabelo em cachos castanhos-escuros muito compridos. Era angolana branca e aquilo devia ser uma pele de angolanos brancos um bocado misturados. Depilava-se aos 15. A mãe fazia depilações para fora. Eu não possuía informação sobre depilações, utilidade nem funcionalidade, e escutava com atenção a descrição das técnicas. O pai era mecânico de Kawasaki e Angola era praticamente toda dele, nas palavras da filha. A Restinga ou lá o que era, também. Eu trabalhava devagar nas suas costas, braços e pernas.
As nossas colegas, bem como as perfeitas, acharam os rituais sabatinos ligeiramente questionáveis, embora nada pudessem censurar do ponto de vista “legal”. Estava tudo dentro dos costumes entre raparigas, mas pelo colégio começaram a correr certos rumores, sobre mim e a Nicha, que em nada beliscaram a sua reputação de beleza africana branca, bela entre as belas.
Num dos sábados, a mão direita resvalou-me e escorregou, cheia de body milk ou óleo Johnson, pela mama da Nicha, segurando-a pelo lado externo, deslizando depois por baixo, desejando palpá-la no côncavo da mão, sentir a densidade daquele pomo de formidável viço, a borracha tensa e morna que me chamava, inteira. Foram três segundos. Nicha despertou, gritou “és parva”, e bateu-me na cabeça com o objeto que lhe veio à mão, no caso, um dos sapatos que tinha comprado na semana anterior para assistir ao concurso de dança, no colégio, essa noite, em camurça preta, com salto agulha. Não tinha a intenção de me agredir, mas apenas de me fazer parar com o abuso de confiança. Não pretendia magoar-me, mas marcar a sua posição de virgem inatingível e inatacável, cuja sensualidade não se encontrava guardada para as minhas mãos, mas para as do domador de leões que seis anos mais tarde a engravidaria numa rapidinha ao ar livre no Campo Grande, e a levaria para viver nos bastidores baços do circo. O seu corpo era material reservado, eu não passava de uma servente, e ela estava ali para ser servida. Era só o que a Nicha pretendia esclarecer quando me atingiu com o fino salto alto do lindíssimo sapato de camurça, abrindo-me um lanho na pele do crânio, ao mesmo tempo que se virava para me esbofetear com a mão esquerda. Não foi preciso. Não teve oportunidade. A ponta do salto, em formato agulha, prendeu-se na pele rasgada do golpe aberto, e tendo ela puxado o sapato, para que saísse, traçou na minha cabeça uma ferida maior, uma estrada de sangue. Foi um acidente vulgar. Levei a mão ao local da pancada e ardor, trouxe-a ensanguentada junto aos olhos, gritei, ela gritou, enquanto tapava as mamas, senti o sangue escorrer pelo pescoço, a perfeita acorreu, um número indeterminado de colegas assomou à porta da camarata, onde nos tinham deixado “naqueles lindos preparos”, alguém me levou de urgência para o hospital no automóvel da senhora diretora, que ficou com os assentos todos manchados, limpeza que mais tarde o meu pai teve de pagar, e pelo colégio inteiro, feminino e masculino, correu o boato de que eu e a Nicha tínhamos tido uma violenta briga de casal e acabáramos. Errado. Não acabámos a não ser meia dúzia de anos mais tarde, e não voltei a tocar-lhe nas mamas, porque não se pode ter tudo, vamos aprendendo a preço de sangue. Mas fui olhando. Olhar não está regulamentado pelos costumes.
Nicha continuou a ser a rapariga mais linda e desejada do colégio, e eu singrei na carreira de barril de sebo, também orca, a fúria dos mares, também baleia azul, também bola de Berlim ou boneco Michelin, e na obtenção de boas notas na escola, ao mesmo tempo que lhe realizava os trabalhos de todas as disciplinas e oferecia explicações de línguas, para que chegasse à positiva, a custo, é certo, mas dando para passar. Continuei a lavar e esfregar a sua roupa no tanque do quintal, numa bacia azul escura, quadrada, na qual se formava, sobre a água da lavagem, uma espuma castanha, quando lhe vinha o período. Ficava com os dedos engelhados e muito brancos da água gelada, de esfregar com força e pingos de lixívia, para que a sua roupa interior, que depois estenderia no varal e passaria a ferro, ficasse branca como o meu olhar já cego, que ainda julgava ver, nesses dias. A minha roupa podia ter nódoas. O que importava o que era meu?!
Esta é a verdade.
Ficou-me, para o resto da vida, uma feíssima e extensa cicatriz na têmpora direita, acima da orelha, que escondo sob o cabelo, mas por vezes tenho de exibir, quando realizo exames médicos, testo óculos ou corto o cabelo.
Poderia dizer a verdade quando me perguntam “o que foi isso”. Não é uma história longa nem complexa. Poderia contá-la sem pormenores, a seco. “Foi um acidente quando era adolescente; na brincadeira, uma colega pegou num sapato e atingiu-me.” Não o faço. Minto. Invento histórias. Já contei que tinha sido vítima de violência doméstica de um namorado que depois denunciei, e dissertei sobre a necessidade de as mulheres não se subordinarem nem deixarem passar qualquer tipo de ataque dos companheiros. Expliquei que o dito namorado era um monstro, inventei-lhe um nome, contexto de encontro, família, situações do relacionamento, o que gerou muita discussão e catarse de experiências semelhantes. Já contei que tinha sido um acidente automóvel. O meu pai via bastante mal, por causa da miopia, ficou encadeado com os faróis do carro que vinha em sentido contrário, e enfaixámo-nos contra uma árvore na berma da estrada, a caminho das Caldas da Rainha. O carro não teve arranjo e parte da chapa ficou-nos espetada no corpo, rasgando-nos a pele. Se me magoei apenas na cabeça? Não, fiquei igualmente muito rasgada no peito e no abdómen, e explico, de uma virada, com uma única narrativa, quase todas as cicatrizes do meu corpo. Segue-se conversa sobre os problemas de se conduzir num país como Portugal, onde ninguém cumpre as regras, o custo de seguros contra todos os riscos, problemas de visão graves, e grande catarse de experiências relacionadas com acidentes de viação. Devo confessar que a narrativa envolvendo um  acidente com o meu pai é a minha preferida, porque me pedem muito menos precisão de detalhes. Toda a gente parece saber muito bem que é um acidente de viação, e não escandaliza, já a pancada do namorado excita ânimo, curiosidade e desejo de vingança.
Mas a mentira rende e o meu objetivo cumpre-se. Rapidamente a assembleia esquece a cicatriz na cabeça e adiante. Estou aceite.
Eis a doce mentira.

Podem perguntar-me porque invento. Porque não minto com a verdade, contando-a fria, parcial? Haveria de se seguir conversa sobre os excessos dos adolescentes, as parvoíces que lhes passam pela cabeça, as coisas próprias da idade, e catarse sobre experiências semelhantes que todos viveram. Seria certinho como Deus não estar lá em cima a olhar para mim, castigadoramente. Por que não o faço? Porque a elaboração da mentira me evade e me protege de mim, do que sinto e do que fui? Porque sou o que fui, acrescentando-lhe dois ou três empréstimos desnecessários, mas, genuinamente, o que veio primeiro? Porque a verdade é bela demais para a devassa, excessivamente pura para a profanação?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mijo

Foto: Bruno Boudjelal


Porque me leva todo o presente para a experiência do passado? Precisa a vivência presente de validação ou apenas se reconhece na repetição?
- Quando chegarmos, tenho prioridade na ida à casa de banho - esclareceu Cláudia enquanto acelerava. 
- Certo, mas não fizeste o xixi todo no campo? - perguntei, brincando.
- Foi uma mija parcial.
Ri-me. Olhei para fora. Estava escuro e não se via nada. Na cabeça vi-me a chegar a casa com a minha mãe. As alucinações que não me afligem, apenas me ocupam. O meu pai estacionava o carro, nós corríamos para a casa de banho, para ver quem chegava primeiro, ambas aflitas. Chegava eu, mas baixava as cuecas e ocupava o bidé, a rir, a rir, mijando no espaço não autorizado, enquanto ela me dizia, complacente, "aí não podes, menina; não se faz xixi no bidé, menina." E eu, "agora já está."
Nessa altura ainda não sabia que ela ia morrer, apenas que se morria, mas não ela nem eu. Não podia conceber que um dia a sua voz, tão clara e viva no meu cérebro, como a ouço neste momento, não estaria comigo nunca mais. Carne prolongada de mim. A carne inimiga mais amiga.  A voz vinda do passado. Uma doçura firme, "não podes fazer, não quero que faças, não te deixas dobrar, menina". Amantes inimigas sem explicação, mijando juntas pela eternidade fora, rindo, rindo e mijando, um retrato parado. Não são rosas nem vinho nem ouro nem jasmim, mas mijo louro, que alívio. Este retrato parado da minha mãe que me amou sem mansidões nem afetos. 
Cláudia estaciona à porta e corre para casa. Saio devagar, esvazio a bagageira. Sorrio enquanto recordo a voz da minha mãe. Um dia todos percebemos que o tempo acaba. E está certo.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pela economia paralela, marchar, marchar

Foto de Vítor Cid

A um técnico superior devidamente assalariado, em Portugal, convém manter contabilidade doméstica. Digo técnico superior porque estou a pensar num rendimento mensal superior a mil euros, ou seja, uma fortuna. O técnico superior não pode gastar levianamente em extras, e jamais sem consultar o saldo bancário, mesmo em básicos. Vamos lá ver: se o técnico superior precisar de pintar a casa, e de realizar nela um conjunto de reparações diversas, entre contratar uma empresa qualificada, que emitirá um recibo para dedução no IRS, a troco de boa nota, ou combinar o trabalho com um biscateiro que faça o mesmo, trabalhando à razão de 50 ou 60 euros diários, não passando recibo, não declarando, nada, tudo em paralelo, que solução escolherá o técnico superior por muita civilidade que tenha acumulado? Dar trabalho na economia paralela ao sr. Maurício, desempregado da construção civil, que se conhece do café, vive do rendimento mínimo, e precisa de ganhar algum por fora, para sobreviver,  beneficia duas casas. Há que fazer pela vida. Para onde prefere o técnico superior que a sua parca poupança vá? Claro que a empresa desconhecida, fria, formal, careira, porque paga os seus impostos certinhos e contribuições sociais, tudo legal, vai à falência e a economia não se aguenta. Poder-se-ia contratar o Sr. Maurício enquanto empresa, mas o sr. Maurício não aguenta os impostos, portanto a economia paralela continua a ser a única opção de vida para a classe baixa a que se chama média. As empresas servem empresas e ricos (não especulemos agora sobre como acumularam riqueza, mas a trabalhar não foi) com dinheiro para o offshore. Os pobres desenrascam-se uns com os outros nos dias em que não estão a vergar a mola para ganhar os seus mil euros mensais, caso sejam técnicos superiores muito bem pagos. Portanto, caros economistas, políticos e afins, ou os salários sobem ou os impostos descem, mas sem uma destas prerrogativas não há hipótese de eliminar a fuga ao fisco nem de os cidadãos sentirem algum orgulho em contribuir para o desenvolvimento da nação através do pagamento de taxas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Indigente sofre

Pela primeira vez em muitos anos, o pobre retém a ideia de que talvez haja, em Portugal, um primeiro-ministro competente, solidário e atento aos problemas do País. E vem-lhe um surto de medo. Quando a fartura é alguma o pobre desconfia no minuto
O pobre continua pobrezinho, mas percebe movimentações que poderão ter desenvolvimentos propícios a uma descida na hierarquia de indigência para a qual foi atirado. Reza aos santinhos todos para que as suas impressões não o enganem.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cagando sobre as massas



Eis uma crónica que vão detestar. Avisei.
No seu primeiro volume intitulado Adolf Hitler Ascent, Volker Ulrich aborda a questão do culto do líder e do nascimento de uma ideologia como o nazismo. Defende a ideia da "centralidade de Hitler na definição do que veio a ser o nazismo". Fica claro que não é da ideologia que sai o líder, mas o reverso. Pelo menos, neste caso concreto, e a história não estará isenta de muitos outros. A isto chamo fenómenos de massas ou pressão dos pares, comportamentos disseminados pelas diversas esferas culturais: política, desporto, moda, sexo, ecologia, consumos alimentares, religião, e por aí fora. 
Os fenómenos de massas não são bons nem maus, tal como o telefone, a televisão, a internet, um pau ou uma pedra: depende do uso. Na última meia dúzia de anos gerou-se um culto do gin como bebida de eleição para momentos de lazer e convívio. Antigamente existiriam umas duas marcas conhecidas, hoje há cerca de 30, e em Lisboa e Almada encontram-se autodenominados gin bars. Lembro-me dos anos do vodka, do uísque, mas agora estão fora de moda. Só os cotas os consomem. Cotas como eu ou mais ou menos. Mas o gin tem a sua graça.
Sendo eu jovem adulta, recordo que esteve na moda sairmos pela cidade velha, almoçando ou jantando bacalhau à Braz ou carne de porco à alentejana e vinho tinto. Lisboa: Alfama, Costa do Castelo, Graça, Mouraria. Não havia turistas como hoje. Um ou outro que passava sem alarido. Uma calmaria. Mas agora temos restaurantes veggie, ou pelo menos com essa opção, e essa admirável mudança, sendo de massas, como o turismo, parece-me positiva. 
Também me lembro do tempo em que não se reciclava uma única embalagem, qualquer que fosse o material nem se apanhavam dejetos de cães. Eis outro fenómeno de massas que veio por bem. Se o cãozinho calha fazer cocó sem que tenhamos saco com que apanhar, sentimo-nos devorados pela culpa de desprezíveis cidadãos prevaricadores e imaginamos mil olhos que nos vigiam e censuram. E vigiam.
Passemos a outro fenómeno de massas, igualmente relacionado com escatologia, que chegou aí pelos finais dos anos 80: chamar ratazanas com asas aos pombos. Durante muito tempo foram pombinhos lindos, e as crianças e pessoas sensíveis atiravam-lhes milho e pão esfarelado, ficando a vê-los debicar. Estimavam-se no adro das igrejas, nas praças, nos telhados e jardins. Existiam pombais aqui e ali. Nos dias de hoje, transformaram-se em "transmissores de doenças que cagam tudo", mas só os da cidade e os cinzentos. Se forem do campo ainda se lhes pode chamar pombinhos, mesmo que trucidem couves, e se forem brancos mudam de género e passam a designar-se pombinhas imaculadas, cagando menos, penso eu, porque os aceitam mais facilmente. Há que, coerentemente, iniciar o revisionismo da iconografia de São Francisco de Assis, mandando apagar pombos e outras aves que alimenta amorosamente, porque o exemplo manda servis os puros e excluídos. Já não estamos no tempo dos santos nem dos mártires nem do bagaço nem da tasca nem da pureza nem da humildade nem de nada que seja livre, sobretudo pombos, pensamento e vontade. É em tempos destes que costumam aparecer os hitleres, mas não devo estar muito longe da verdade se considerar que os tempos vêm sendo quase iguais desde o início, portanto resta-me resistir a mais um fenómeno de massas, cuja origem e sentido me ultrapassa, como tantos outros, continuar fiel aos meus princípios e a tudo o que seja anarca e cague sobre as massas sem pensamento nem piedade. Santos pombos!

domingo, 10 de abril de 2016

A minha avó Margarida


Hoje, dia 10 de abril, fosse a minha avó paterna viva e faria 113 anos. Desconheço as datas de nascimento dos meus restantes avós, não podendo celebrá-las. Não acalento qualquer estima particular pela celebração de aniversários e tenho até má memória para datas, combinações de números e nomes. Contudo, recordar as datas relacionadas com a vida dos meus antecessores é a minha forma de me rebelar contra a morte, e pior, o esquecimento. 
Não senti grande amor pela minha avó, mulher já afetada pela doença de Alzheimer quando a conheci, mas admirei essa mulher resistente e teimosa, um espírito compassivo, habituado à solidão e ao sacrifício. Uma santa na sua cela anónima. Era quase cega e trabalhava como se visse. Amava os seus pombos, bem como todos os animais que lhe surgissem ao caminho. Fazia um grande esforço para ler, com as folhas do jornal quase coladas ao globo ocular, porque saber ler e escrever era um luxo, o seu único luxo. Não tinha vícios. Rezava. Cantava. Pensava. A sua grande dor não foi o filho ter-lhe fugido para África nem ser pobre, mas ter de vender pombos, rolas e galinhas que os outros depois matavam para comer. Isso doía-lhe. E a mim também. Poupou uma fortuna em notas de vinte escudos que guardou numa lata enterrada na capoeira nas galinhas. Quando descobrimos a herança, décadas mais tarde - ainda era viva, mas já não sabia quem era - as notas enroladas transformaram-se em pó no momento em que foram tocadas. Ficámos com as mãos cheias de farinha de papel, pensando, cada um à sua maneira, que não é grande ideia adiar a felicidade.
Os meus restantes avós tiveram outras netas que poderão manter viva a sua memória. Esta não. Não há ninguém que possa dizer "chamou-se Margarida de Almeida e nasceu a 10 de abril de 1903, no lugar da Columbeira, na Roliça, filha de Maria Vitória e de pai cujo nome a lei da morte já soterrou." Portanto, cá estou eu cumprindo a minha revolta, e conjurando contra o nada que um dia me levará. Feliz aniversário, avó Margarida. Lembro-me de ti.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma espécie de psicose

Fotograma de Yvone Kane, de Margarida Cardoso



A semana passada vi Ivone Kane, de Margarida Cardoso, na RTP2. Margarida Cardoso filma bem, tem aqui um luxuoso argumento e um naipe de atores excecional. Alguns dos melhores filmes portugueses da última década são sobre África e ainda agora comecámos. Se isto não fosse quase uma heresia, atrever-me-ia a afirmar que há bom cinema em Portugal. 
Vejo e leio muito sobre África e a relação passada e presente com o território. Alguns assuntos deixo passar, porque me cansa. A minha vida seria mais leve se não carregasse comigo parte da história política da descolonização. Estão sempre a convidar-me para falar destes assuntos, e já me ocorreu responder, "desculpe, não sei do que fala, nasci em Almada, nunca saí daqui". 
Nunca vejo filmes como Yvone Kane vendo apenas a obra. Tenho de estar atenta aos décors. Tenho de procurar reconhecer tudo. Lugares. Formas de falar. Traços físicos que me permitam ver, naqueles, os meus africanos. Os meus. Leia-se este pronome possessivo como se entender. Muito depois de eu morrer, e isso levará tempo, o silêncio das memórias estará esvaziado deste inocente e involuntário enunciado. 
Menciono Yvone Kane, porque, enquanto via o filme, rodado em alguns locais da cidade do Maputo e arredores, pensava que deveria regressar. Para visitar. Há mercados na beira da estrada. Bairros de casas pobres. Reconheço aquele caos populacional e habitacional. As cores, a luz, a aparente desarrumação. Respiro fundo, aliviada, revendo a minha casa. É ali. Respiro fundo, mesmo. Aquele é o lugar proibido onde abri os olhos e registei na mente as primeiras sensações. O meu modelo de mundo. Um caos. Pensei que visitar Maputo será perigoso, porque tendemos a querer ficar na nossa casa. Tenho medo que me aconteça. Não sou inocente. Não sou bem vinda na minha casa, sei. 
Falei disto na grupanálise e afirmei que sou um terceiro lugar, um não lugar, aquele "qualquer coisa de intermédio" que não é nada certo. O caos. Fiquei com a ideia que alguém terá enunciado a ideia de que eu própria sou um caos. Ficou-me na cabeça. Não sou inocente. Em psicanálise ninguém enuncia nada por nós. Julgo-me, portanto, um caos. Sim, sim, vendo de fora, ou de dentro, um caos, disfarçado, é certo, mas inegável. 
Vinha para casa de carro, pensando nisto, e ocorreu-me aquela verbalização bíblica do Genésis, de que no princípio era o caos. Pois bem, no princípio sou eu. Estou lá. Mas no princípio e no fim está sempre Deus. E eu. Se calhar, até sou Deus. Seja como for, está na hora de Deus tomar o Xanax e ir dormir, para ver se começa a levantar-se mais cedo. Deus culpa-se.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma pessoa escrevia sobre quê?

As pessoas próximas vivem as horas, falando e agindo na minha presença. Escuto e olho. Depois voltam-se e avisam-me, "isto não é para pores no blogue". Respondo, "ai, não, que não é!", enquanto sorrio. Pensam que estou a brincar. Deixá-los pensar.

Uma ideia bonita que transmiti a uma amiga

A haver alguma evolução das espécies, terão se de ser os humanos a evoluir para animais, porque os animais, tenho observado, são muito melhores, mais completos e perfeitos do que nós. Portanto, é tudo ao contrário do que pensamos.
Isto foi porque o priminho autista disse à minha amiga que os animais são bons, que os animais são uma boa companhia para os humanos. Os autistas também são melhores do que nós.

Receita (pessoal) para viver

Paracetamol, omeprazol, diclofenac. Alprazolam.
Avie-se.