sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Só dois tipos de mulheres: as honestas e as putas

Foto de João Vítor Bolanids
Corre o ano de 2016, altura na qual, segundo se vaticinava em 1966, todos os humanos teriam em casa computadores para uso pessoal, capazes de realizar operações complicadas, e os carros seriam aéreos.
Pretendo alugar um quarto fora da cidade, onde passe uma semana a descansar e a conhecer os hábitos locais. Consulto a Imprensa da região e consigo dois números de telefone, que contacto para me informar sobre as condições. Para mim está tudo bem, sou pouco exigente, sobretudo quando o meu objetivo é não ser exigente. Sinto-me com paciência para ouvir senhoras contarem-me mexericos, histórias de casamento e doenças até me começar a cair a pele, bem como façanhas de senhores enaltecendo-se aos meus sentidos tão femininos, desde que não tenham aquelas ideias que os senhores costumam ter às vezes. Apenas me incomoda uma das condições impostas: a obrigação de honestidade, que me atiram como um aviso, para me dissuadir caso não me enquadre. "Só aceitamos senhoras honestas", declaram. É muito embaraçoso! Fico em silêncio. Como posso provar pelo telefone que sou honesta? "Pretende referências?", pergunto. Não me respondem. Continuam o discurso sobre acessos e a proximidade de supermercados. Deduzo que não queiram referências algumas. Pretendem dizer-me, através deste enunciado, que na sua casa não se albergam putas.  O que é uma puta e uma mulher honesta? Conheço um bom punhado de mulheres ditas honestas que gostariam de chegar ao nível de certas putas com as quais me cruzo. Tenho à partida muito medo das mulheres honestas. Se fosse para a tropa e me dessem a escolher entre a caserna das mulheres honestas ou a das putas, provavelmente escolheria a das segundas, para me sentir mais à vontade. Ser uma mulher honesta consiste no quê? Ter cuidado com os decotes? Não tenho. Não usar calão? Uso. Não dever dinheiro? Devo. Aparentar desinteresse pelo nefando exercício do sexo? Não aparento.  Sou capaz de apostar que se fosse um marido meu a telefonar, ninguém esperaria dele que fosse o que não é. Poderia usar calão e arranjar amásias. São homens. Os homens, já se sabe. Isto, se eu tivesse um marido que me garantisse a honestidade, como um selo de lacre. Não tenho. A vida para mulheres como eu é sempre mais difícil.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Nós, que temos mais, exigimos pagar o Imposto Mortágua, já!


Gosto muito de pagar impostos. Sem ironias. Quando pago os meus impostos tenho a ideia de que estou a contribuir para uma grande cooperativa da qual todos beneficiamos. Colocando a ideia a uma escala ainda mais pequena: imagino que Portugal é mais ou menos como o condomínio do meu prédio, mas com mais condóminos. Dividimos as despesas e também nos quotizamos para conseguir fazer pinturas e obras. É o que é justo. 
Parto sempre do princípio de que ninguém se está a apropriar das minhas contribuições e de que elas serão usadas para o bem comum, e esse é o pressuposto correto. 
Pago muito mais impostos do que colegas de profissão com o mesmo rendimento, mas com filhos. É justo. Vivendo sozinha tenho menos despesas, logo mais rendimento. Se tem de haver um aumento de imposto e um escalonamento de sobretaxas, compreendo que eu seja mais penalizada. Tenho mais, pago mais. 
O último veículo automóvel que comprei custou-me cerca e 16 mil euros e é uma bela máquina. Paguei o imposto. Se tivesse comprado um automóvel de 160 mil euros, embora confesse não saber se se vendem carros por tal preço, teria muito gosto em pagar o devido imposto calculado com base nesse património. 
Vamos imaginar que acabou de me sair o Euromilhões e posso adquirir uma boa propriedade  para ter horta, jardim, animais, enfim o meu sonho. Não digo uma propriedade de luxo, digo só uma propriedade bem localizada, com uma casa bem construída, bom terreno com água, coisa no valor de meio milhão de euros. Caramba, meio milhão é muito guito! Meio milhão são mais de 5 casas iguais aquela onde vivo! Nesse caso parece-me que teria de pagar um imposto imobiliário de valor mais elevado. Muito mais elevado mesmo. É que quem tem mais pode contribuir mais, e temos de ser uns para os outros, porque foi o que a nossa avózinha e o Senhor Jesus nos ensinou. As pessoas da classe social à qual pertenço são muito solidárias. Sabem que há quem tenha muito menos e gostam de contribuir socialmente e de partilhar as graças concedidas. Não participamos em guerras nem sequer acreditamos que as pessoas devam viver melhor ou pior de acordo com um grupo social. Como poderíamos nós defender que o Zeca das pinturas deve viver com menos posses, porque é só o Zeca das pinturas, não tendo nascido numa família como deve de ser económica, cultural e socialmente, que por sua vez também já não teve a mesma sorte quanto à ascendência,  e por aí fora sempre retroativamente?! O Zeca das pinturas é uma pessoa e tem as mesmas necessidades que eu. Graças a Deus não vivemos na cultura de castas do hinduísmo, logo não temos os bramanes e os intocáveis nos topos da pirâmide. Somos católicos. Ou então somos cristãos. Ou ateus, vá. Mas o que não podemos permitir é que o nosso pensamento retroceda a hábitos recuados e anacrónicos. Estamos muito agradecidos pela vida confortável que temos vivido e queremos agradecer contribuindo mais.  Por isso, colocamos a fasquia mais alta do que Mariana do Bloco e exigimos pagar o Imposto Mortágua, já, a partir de um valor imobiliário superior a 400 mil euros. É que é muito guito!

sábado, 17 de setembro de 2016

O meu amigo já não gosta de mim

 Foto: Saul Leiter
Não há grande diferença entre conhecer e manter amigos e amantes. O processo é idêntico. Conhecemo-nos em contextos diversos e inesperados, mostramos o o que achamos dever mostrar, e o contacto inicial gera empatia ou antipatia. Se gera antipatia, o caso fica arrumado. Se existe empatia, tudo se complica. Dá-se início a um demorado processo de convívio com o objetivo não explícito do conhecimento mútuo. Quando eu era criança e adolescente, recordo que me era transmitida a ideia de que o namoro correspondia a uma fase de conhecimento durante a qual os envolvidos percebiam se os hábitos e interesses eram compatíveis, e o encontro tinha potencial para se transformar numa relação duradoura. Era uma ideia mais ou menos explícita. Era uma fase de experiência, de conversa. Era para ver "se dava". A ideia perdeu-se com as novas gerações. Quando chegou a minha altura de namorar, passei a entrar no amor arrebatadamente com a ideia de que tudo era para sempre. Erro. O namoro, com ou sem sexo, com promessas de amor eterno ou sem ele, é sempre um processo de conhecimento. É um durante, um por enquanto com dois fins possíveis: termina com ou sem dor ou mantém-se, e nesse caso sempre com dor, pelo menos ocasional, porque onde existe uma alma existe dor, e onde se encontram duas, existem duas. A dor é intrínseca aos transportes do ser numa realidade social mundana, similar à das pessoas que leem crónicas como esta. Não é possível expurgar a dor do quotidiano. Contentemo-nos com o que há. 
Se assim é no amor, porque seria diferente na amizade?! Que magia extraordinária seria essa capaz de transformar todas as empatias fraternais em relações eternas e sem convulsões?! Estão em jogo egos e almas diferentes, com diferentes características, desejos, medos, propensões. Conhecem-se e ao longo desse caminho encontram sombras demasiado sombrias, luzes demasiado incómodas. Quando dois potenciais amigos se conhecem há igualmente uma fase de namoro na qual se apura "se dá". Pode não dar. A maior parte das vezes não dá. Não tem mal. Não é necessário ficar-se magoado. Não há culpa a atribuir quando não somos compatíveis com outros. Ao longo da minha vida houve imensa gente com quem desejei dar-me e que não me quis. E vice-versa. Não é um atestado de incompetência nem de inferioridade para mim, como não o é para os outros. Há mais quem queira. Há outros possíveis amigos e amantes. O mundo está cheio de gente e de oportunidades. Não dramatizemos. Adiante.