domingo, 30 de outubro de 2016

A Gorda

Dia 1 de novembro nas livrarias.
Diverti-me muito a escrever isto e também sofri mais do que apenas um bocado. Divirtam-se e sofram agora os outros, porque o meu trabalho está feito.




sábado, 29 de outubro de 2016

Que deontologia do poder?


Foto de Koen Hauser

Não considero necessário que os cargos de adjunto de ministro e chefe de gabinete de secretário de estado careçam de licenciaturas. Nem sequer o dos próprios ministros. Parece-me fundamental, por outro lado, que sejam pessoas cultas, experientes, competentes e bem formadas, conscientes dos reflexos que as suas ações projetam sobre os cidadãos. Consigo mesmo abdicar da exigência de comprovado grau de cultura e experiência; basta-me que reúnam competência e boa formação: a cultura e a experiência vêm por acréscimo, havendo boa vontade. Infelizmente, o mundo que idealizo ainda não foi inventado. Os recentes casos de falsas licenciaturas detetados no governo de António Costa vêm confirmar que:
- os cursos universitários continuam a valer pelo poder social que acarretam, não pela aprendizagem que implicam. É uma ideologia ainda prevalecente;
- os graus académicos dos boys e girls que entram para os diferentes governos, da direita à esquerda mais puras, não são comprovados por quaisquer certificados de habilitações, condição sine qua non para qualquer candidato que almeje uma função pública ordinária com salário correspondente. Na prática, eu posso ser candidata para um cargo de vulto em qualquer ministério, com base num alegado doutoramento que nunca concluí - e nunca o desmentir;
- se a Imprensa se desse ao trabalho de investigar todas as licenciaturas, pós-graduações, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos de antigos membros de Governo seria necessário publicar as desconformidades em volume com as dimensões da última atualização do dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, mas em papel Bíblia. Isso e o resto: os favores e as corrupções que o meu trabalho e o trabalho de todos nós tem alimentado com impostos.  
Não defendo que este País seja ingovernável. Não é. Mas precisamos de líderes capazes de pôr em prática uma exigente deontologia do poder, caso contrário o vício de hoje perpetua o de ontem e transmite-se para amanhã. Um exemplo, para terminar: o adjunto do secretário de estado tem um motorista que o vai buscar e levar diariamente à sua casa em São Martinho do Porto?! Mas não basta pagar-lhe as ajudas de custa em gasolina?! Se eu, que vivo em Almada, for colocada a dar aulas em Alcobaça ninguém se preocupa com as minhas deslocações. Tenho um salário e ponto final. Ora eu também sirvo o Estado e a minha licenciatura está comprovada(1). Não pode haver servidores de primeira e de segunda. Cada um serve de acordo com a especificidade da sua função e quem aperta parafusos não é menos importante do que quem vende a máquina aparafusada ao comprador. 

1) Grave é também que as nomeações dos referidos adjuntos e chefes de gabinete tenham saído em Diário da República, acompanhadas da confirmação de habilitações inexistentes, nunca tendo sido ressalvadas. Se passasse, passava.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença pública


Edward Hopper

Poucos são os verdadeiros. 
Acontece-me observar aquilo que passo a descrever quando vejo programas televisivos de debate e apresentação: os intervenientes são uma construção que se exibe no espaço público. Imitam-se uns aos outros em aparente invulnerabilidade, distância, status social, emocional e financeiro. Não têm tiques nem manias nem neuras nem se sujam com nódoas no peitilho. Não fazem afirmações ridículas nem insensatas e não se indignam nem se emocionam. Estão acima de todos nós. Não são pessoas comuns como eu. Encontro este género de comportamento noutro espaço público como o da Academia ou o das relações laborais. Longos espaços e demoradas horas de construção. As pessoas têm vergonha da sua humanidade e carnalidade. Como se pudessem ser qualquer outra coisa - gostariam de poder transformar-se nisso em permanência. Não serem elas. Serem a construção em exercício. O fingimento que percebo. Levanto a cabeça e estou sempre a vê-las como realmente são nos momentos em que estão sós. Animais tão sujos quanto eu. Por vezes mais sujos do que eu.
E os meus amigos avisam-me, "no espaço público tens de ser como os outros, tens de fingir. No espaço público não te podes mostrar tal como és.  A tua honestidade pode ser usada contra ti." Escuto-os incrédula, como se me estivessem a pedir para mudar de espécie. Como poderia eu transformar-me naquilo que me sacrifico para atravessar imunemente?