Créditos

A imagem de topo corresponde à manipulação [corte] de um desenho da autoria de Andrew King.

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Que vergonha tenho de vós, colegas!

Que exemplo pode dar aos seus alunos um professor que se cala, que se agacha e obedece tremendo? Que valor transmite aos seus educandos um professor que trai uma greve realizada em defesa da sua própria sobrevivência, da dos colegas, e do direito dos alunos à boa educação pública, que lhe cabe defender como um pai defende um filho do mal, mesmo contra sua vontade? Como poderá ele educar outros para a cidadania, competência transversal a todas as disciplinas? Que moral lhe resta para exortar os seus alunos à perseverança por um ideal justo, à construção de uma sociedade desenvolvida ao nível dos valores humanos? Nomeará Ghandi ou Mandela como ficções? Que cidadãos são estes professores? E que pais serão?
Que vergonha tenho de quem espera que rolem cabeças alheias, para que a sua se mantenha intacta, mas beneficiada pelos que se sacrificaram no ritual da ação!
Eu não espero nada dos nossos patrões, mas de vós, colegas, por cujos direitos eu me hei-de arranhar até à carne, para que deles beneficiem sem ter descontado um duodécimo, mesmo que se tenham agachado, mesmo que tenham sido vis e traidores, que vergonha tenho de vós! Como conseguem, ao final do dia, olhar os vossos filhos nos olhos? Que terrível legado de cobardia e humilhação lhes deixam! 

Sexta-feira, 31 de Maio de 2013

Sentença V

Detestamos a segunda-feira porque rejeitamos intuitivamente a escravidão.

Máquina de moer carne

Destruimo-nos, alimentando com o nosso sacrifício uma estrutura que depende de nosso sacrifício para nos destruir.

Relatório

 Imagem: Joseph Lorusso, 1966
 
A pombinha branca caiu esta noite do ninho. Encontrei-a debaixo de uma cadeira.
A Morena já comeu e foi dormir.
O almoço da mamã ainda está ao lume.

Sentença IV

As pessoas não acreditam nisso do karma porque não vivem a minha vida.

Um broche num beco, sem outra moral

Passei-me com os miúdos. Estando a falar-lhes sobre o caso em que a poesia é catarse, e não sabendo eles o isso era, expliquei. Gozaram. Não sei porquê. Porque a palavra tem graça. Porque alguém disse uma piada. Porque a poesia não lhes interessa nem a catarse nem nada que não seja o que nós valorizávamos na idade em que estão. Depois vinguei-me. Dei um dos poemas mais gay do Cesariny sem nunca perceberem que aquilo era, afinal, um broche num beco. Também, não lhes disse (que era um broche num beco).

Sentença III

É urgente mudar. Foquemo-nos nesta ideia, agora. O que será a mudança é um assunto para depois. Há uma ordem na mudança que nos escapa. Deixemo-la seguir o seu curso. Há uma outra coisa adiante, lá fora. Vamos ver.

Estado da cultura

Passei pela livraria. Estava nos escaparates o Servidões do Herberto. 22 euros. Um livro de 22 euros, sobretudo um bom livro, não é caro. Depois pensei que tinha de pagar a conta do gás. Faz-me falta para a comida e um ou outro banho, só de vez em quando. O Herberto ou o gás, o Herberto ou o gás, o Herberto ou o gás. Em nome da poesia falida, ganhou o gás.

Sentença II

Envelhecemos, ao correr dos anos, e o que antes podia esperar, torna-se inadiável.

Sentença I

Cada vida tem o seu assunto por resolver. Algumas nunca o resolverão. Não está nas suas mãos.

Dias de sol

  Imagem: Denise Nestor


Nos dias de sol, a tristeza do fundo deixa-se ver melhor. Aquece e sobe como o leite no fervedor. Ouço o barulho e vou ver. Transbordou. Tenho de a apanhar com um pano da cozinha. Ninguém gosta que a tristeza transborde. Não é bonito e dá trabalho.

Médico do Hospital Garcia de Orta a explicar procedimento ao enfermeiro

Sobre a reutilização de "material hospitalar sujo".

A gente ferve o cateter bem fervido e mete-o noutro doente. Depois a gente ferve outra vez, desinfeta com vinagre, que sai mais barato que o álcool, e usa de novo, e assim sucessivamente até o cateter derreter a meio da colonoscopia. A culpa não é da gente, mas do sistema. Tamos sempre a salvo, entende?!

Domingo, 26 de Maio de 2013

Esquecer tudo o que nos ensinaram

 Imagem: Denise Nestor

E se a cultura ocidental estabelecesse que comer cães e gatos estava muito bem, porcos e vacas é que não? Qual a diferença entre uns e outros? Os cães e os gatos merecem mais viver do que porcos e vacas? A resposta é "não sabemos. Estabeleceu-se que era assim e realizamos os atos que aprendemos, sem pensar neles".
Contudo, comer vaca ou porco é exatamente o mesmo que comer cão. As vacas e os porcos sentem exatamente o mesmo que sentiriam os cães e os gatos se vivessem e fossem abatidos nas mesmas condições.
Pertencer à espécie humana tem sido uma travessia  complicada, tumultuosa, incompreensível e incompreendida. Teria sido muito mais fácil nascer porco, ser engordada e abatida. Juro-vos, teria sido uma vida muito melhor. Viver durante um ano na corte dos porcos e ser abatida com  uma faca espetada no coração?! Grande vida, meus amigos! A morte não temo: um instante de perda que resulta em ganho.
A dificuldade advém de ter como muito certa uma lógica da existência que configura toda uma moral e ética de que não se pode abdicar.
Um pombo não ganha salário, não produz trabalho. Perguntam-me, como podes gostar desses bichos nojentos? Nojentos porquê? Porque não abatem porcos para fazer chouriço? Porque cagam em cima dos automóveis e não na sanita? Não compreendo o ódio aos pombos, de acordo com a lógica universal, tal como não compreendo que uma vaca seja mais abatível do que um cão. E não compreendo, porque a lógica não existe. É o mesmo que defender que um homossexual ou um preto carecem de tratamento diferente. Na minha lógica, que é a da dignidade e da justiça, ser homossexual ou preto é tão relevante como distinguir um louro de um moreno. Não tenho um juízo de valor, hoje, como não o tive no passado, e foi assim desde sempre, apesar do que a sociedade ditava. Acreditei no meu juízo, sempre, mesmo quando o ridicularizavam.
Não escutei os ditos da sociedade, mas os da minha intuição.Cheguei à terra totalmente equipada. Sabia tudo o que era preciso saber. O caminho tem sido duro, exatamente porque a maior parte dos humanos pensa saber nada, e confuso, perdido, apoia-se na bengala da tradição. Sabemos tudo. Nenhum de vós é diferente de mim. Estamos todos a caminhar na mesma estrada.


Sábado, 25 de Maio de 2013

Viver no primeiro mundo


Ontem dia bom. Patrão deu gorjeta escrava. Escrava contente vai loja patrão compra comida, bebida. Vai loja amigo patrão compra carvão. Vai loja filho patrão compra casaco, manta. Compra tudo precisar, acaba gorjeta depressa. Agora escrava ter força trabalho patrão, todos dias, sempre todos dias. Depois, patrão ganhar dinheiro outra vez e dar gorjeta, outro dia. Dia tem gorjeta, escrava ficar contente, comprar comida, bebida loja patrão, amigo patrão, e trabalhar muito. Patrão, todos amigos ficar rico. Patrão sempre ter escrava trabalhar toda vida.

Terça-feira, 7 de Maio de 2013

Há uma luz vaga entre as nuvens

Sem comentários:
Imagem: @Paulo Sérgio BEJu


Levanto-me cedo. Trabalho. Nos intervalos bebo garotos para acordar. Leio e explico poemas e também a diferença entre uma preposição e uma conjunção. Respondo aos miúdos. Ralho com eles. Ouço-os. Mando-lhes bocas. Nunca minto. Digo-lhes que são uns traidores quando são uns traidores, ou que são o que de melhor o mundo alberga, quando são o que de melhor o mundo alberga. Parece fácil. Admito que chegue a parecer bonito, mas são horas a fio de interpretação em improviso, apesar do guião, e nunca nada está pronto nem completo nem satisfaz ninguém. Quem manda, pensa que não valho nem faço, que sou um falhanço, um balão de ar.
Conduzo o automóvel. Penso que um dia destes até podia aspirá-lo. 
Almoço durante dias a mesma refeição, porque a confecionei em grande quantidade para evitar trabalho. 
Dou beijos à cadela e aos borrachinhos. A cadela cheira-os, ansiosa. Explico que não pode fazer-lhes mal e o seu instinto contempla-me intocado. Beijo os borrachos e a cadela. Beijo a cadela e os borrachos. Um da varanda de trás, deve ser o macho, aponta-me o bico, defensivo. O pedaço de carne poupada ao tacho! Dou-lhe beijos. E à cadela. "Só podes ver. Não podes tocar nos passarinhos".
Penso que deveria arrumar a cozinha, mas amanhã é melhor. Rego as plantas. Acudo sempre primeiro ao que tem fome e sede.
Tenho muito sono. Não devia dormir. Durmo. Depois, amanhã.
Trabalho com papéis, canetas, lápis e computador. Muitas horas seguidas. Faço telefonemas, mas poucos. Estou sempre em silêncio. O silêncio concorda com a minha cabeça. Não penso no que não me interessa. Faço de conta que a vida é pássaros, cães, papéis e silêncio, simulação de paz à qual me sinto com direito, em certos dias. E beijo o silêncio.
Quando a cadela tem fome dou-lhe a ração à boca. "Tem de ser. Toma mais um bocadinho". Sentamo-nos ritualmente no chão da cozinha, alheadas como mãe, filho, mama. Enquanto enche a barriga, escuto o ruído crocante dos grãos triturados pelos seus dentes. A língua lambe-me a palma da mão.
Tomo os comprimidos. Fico na sala a ler, esperando que surtam efeito. Quando me chegam à cabeça, pego na cadela, entorpecidas pelo sono, e carrego-a nos braços até o quarto. Cheira a baba e pelo. É frágil, macia e doce. Ao meu pensamento acorre que levo nos braços a minha Marilyn Monroe. Deposito-a na cama, ela suspira e fica como a deixo. Deito-me e dormimos para aguentar recomeçar. Um dia havemos de morrer, mas agora ainda temos esta noite.

A menina do bar

 Para a menina do bar e para as minhas colegas dos sorrisos e dos abraços. 


 Imagem: @ Paulo Sérgio BEJu


Uma colega apanhou-me sentada num dos computadores da sala dos diretores de turma e abraçou-me de costas. Fiquei no ninho dos seus braços quentes, enquanto a ouvia dizer "a minha menina precisa de abracinhos". Os colegas de artes e eu temos uma aliança silenciosa. Conhecemos o mesmo segredo mas não temos vocábulos para o comunicar.
Tenho colegas que me sorriem com bondade e compreensão. Sobretudo as mulheres, o que parece contrariar tudo o que o vulgo afirma sobre as relações laborais no feminino. 
Também aqui tenho dez centímetros de papel de tabuleiro onde, há semanas, a menina do bar escreveu a seguinte mensagem: "Um sorriso para alegrar o seu dia". Fez o desenho de uma boneca com um grande smile de boca aberta. Tudo a esferográfica azul. Dobrou o papelinho e meteu-mo no bolso do casaco. Deve ter sido uma altura em que não consegui esconder a tristeza. Li-o, entrei para o lado de dentro do balcão e abracei-a com força, porque ela me viu.
No outro dia perguntou-me como ia de amores e contei-lhe que já não tinha namorado. Disse-me, "deixe lá, isso passa", e à tarde, quando me voltou a ver, já me escrevera um papelinho dobrado, como os que os alunos passam nas aulas. Quando cheguei ao carro desdobrei-o e li: "Ainda é jovem e bela e o seu príncipe está para vir." Sorri. Coisinha mais linda! A menina do bar tem trinta e tal.
As pessoas não são só malvadas por natureza ou viciosas nem passam a vida a armadilhar-se. O mundo está cheio de almas bonitas, ainda simples e autênticas, que me dedicam generosidade. Nunca serei capaz de responder com justiça a estes fluxos de afeto desinteressado, mas sinto o impulso que os motivou. Não fazem de mim uma pessoa feliz, mas compreendo ser uma afortunada.

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

Uma professora medíocre

Estávamos a falar sobre Fernando Pessoa e disse aos miúdos que o poeta ter-se tornado a sensibilidade que conhecemos seria inevitável, porque falávamos de um garoto órfão de pai aos seis anos, amputado da sua terra natal e levado para um país com clima, língua e cultura estranhas, um padrasto que o trataria com distância, e a quem a mãe, viúva, devia o desposado culto da generosidade, que lhe gerou mais quatro meios-irmãos. Acrescentei que Fernando Pessoa sabia o que era perder o pai, a mãe, a terra, a língua materna, as referências, e que poderíamos, se quiséssemos, considerá-lo um traumatizado das circunstâncias, portanto, a literatura, a arte em geral seria inevitável. Estava o caminho aberto. Ficaram a olhar-me baralhados. Não sei se me perceberam. 
De repente lembrei-me que a Paula tinha perdido o pai aos cinco e ido para França com a mãe alternadeira, onde desaprendeu o português; que o Rafa tinha vindo sozinho de Angola e vivia com uns tios traficantes de droga; que o Samuel vivia com a mãe e a avó porque o pai desapareceu antes de ele nascer, e depois soube-se que morrera de overdose; que a Renata fora criada pelos avós e não sabe dos pais, sendo que o único amigo que teve morreu ao cair a um poço na Sobreda e que a Micaela vive só com o pai porque a mãe emigrou para Espanha, onde arranjou um emprego que ela não sabe dizer... E foi quando achei melhor rematar que obviamente não era isso o que explicava a genialidade de Pessoa, porque traumatizados como ele havia muitos. E passei ao talento que, como o caráter, embora alguns digam que não, nasce conosco.

Esperar tem uma mística qualquer

 Foto: Mike Brodie

Nos dias em que há futebol na televisão sinto-me feliz, porque fico só na terra. Os outros emigraram para alhures e recolho-me à minha solidão e minudências. Que bom esquecerem-se de mim, deixarem-me só, finalmente. Tudo só meu. O silêncio das ruas, das folhas remexidas na noite crepitante. Tudo meu e eu. Tudo verdade e inteiro como se acabasse de nascer. Até o ruído dos autocarros que passam vazios me parece belo. De vez em quando o bairro grita, ouve-se um clamor e são felizes. Ocorre-me a alegre ceifeira de Pessoa, mas não os invejo. Sorrio. Eu nunca planeei nada a não ser isto: o meu canto, a paz dos meus bichos. Mesmo escrever sempre foi uma estúpida ilusão da alta. Porque haveria de aspirar a mais que um salário fixo, uma profissão certa, rotineira? Eu nunca nada! Esperei. Espero.

Ser

Eu nunca hei-de ser nada na vida por saber demasiado bem que não sou nada na vida.

Fé e esperança

 Michael Napples, Illuminated Eggs

Acredito no futuro. Os dias nunca serão mais longos, mas as plantas hão-de florir e as árvores cobrir-se de folhas. Os pássaros continuarão a tarefa dos ninhos e deles sairão corações juvenis que voarão entre continentes distantes, como um dia eu, antes de ser isto, gente. Acredito na inocência, e na culpa só se não houver caminho. Acredito no ouro imaterial que todos os dias me reveste quando respiro o bafo dos animais e da terra. Acredito na liberdade que não tenho. Acredito no amor e nos filhos dos outros. Acredito que sabemos dar e receber, mesmo em vergonha e segredo. Acredito porque escolhi, e essa é a minha fé, a minha salvação, e pode vir o meu último dia, porque acredito na morte e a receberei com generosidade.

Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Escritores portugueses que não herdaram da família


São diretores de uma instituição cultural ou diretores de outra coisa qualquer e podem dar as ordens por telefone; têm contratos com editoras que implicam objetivos produtivos e trabalham para isso e bem, em alguns casos; são professores universitários e podem gerir os semestres com alguma maleabilidade; não têm de onde lhes chegue um tusto, nem filhos, mães, pais, cães, gatos, namorados, namoradas, encontros na repartição de finanças, mas encontram um mecenas que lhe vai pagando os antidepressivos e os antipsicóticos, a mercearia e a renda; têm filhos, cães, gatos, encontros com as finanças e ainda não empastaram a fala, portanto conseguem produzir e aguentar-se no sistema como se fossem exatamente iguais ao vizinho do lado, logo a literatura fodeu-se.

Conto sem moral

Havia uma professora que tinha um aluno muito burro no 12º ano. A professora era muito boazinha e não discriminava ninguém por ser burro, pelo contrário, até lhes elogiava os feitos na tentativa de os ver repetidos. Mas o rapaz era mesmo burro, muito burro, e não o sabia. Raramente um burro sabe que é burro. Se sabe é porque há salvação.
Um dia, apanhou o rapaz em conversa com uma colega sobre se havia de seguir um curso de pasteleiro ou de polícia. O rapaz dizia "o meu irmão também é bué de relax como eu e conseguiu entrar para a polícia".
A professora lembrou todos os diálogos com paredes-polícias que tinha tido até então, e percebeu, finalmente, que tudo o que é burro que nem uma porta vai para polícia (ou jogador de futebol, mas isso ela já sabia).
Levantou-se lá do seu lugar de onde conseguia ouvir a conversa e disse ao rapaz muito burro, "olhe, vá para pastelaria, que isso dos bolos há sempre quem compre e não tem de se chatear a comunicar com pessoas que não o entendem".
Era boa professora.

Financiar a cultura

Um dia destes fui com a mana ver um filme britânico muito limpinho e honesto, financiado lá pela Santa Casa da Misericórdia deles com dinheiros provenientes das apostas em jogos. E a questão tornou-se inevitável, porque é que em Portugal o lucro dos jogos só serve para financiar os pobrezinhos? Em Inglaterra há mais pobrezinhos que em Portugal, e diferentes tipos de pobrezinhos. A mana respondeu que o nosso problema é que, para se investir na cultura, é preciso ter cultura. A mana sabe.

Discurso de Paulo Portas ao país

Obrigado, obrigado, obrigado...

Caros concidadãos agricultores, feirantes, homens das obras e, já agora, respetivas senhoras, desque que fiquem em casa, dirijo-me a todos vós nesta época de grande confusão institucional e incerteza relativamente ao futuro, para vos garantir que o meu interesse pelo país não esmoreceu.
Gostaria de deixar bem claro que, embora coligado com o atual governo e desse facto tendo beneficiado, como compreenderão, me tenho mantido reticente e não pactuante com as políticas que magoaram o cerne da vossa qualidade de vida. Tendo estado no Governo sossegado, sem ondas, mantive-me incólume, inatacável, limpinho como uma Nossa Senhora em capela da serra madeirense antes de enxurradas.
Se por um lado consegui fazer parte deste Governo, nunca me afundando com ele, por outro, assisti aos tiros no pé que a oposição se foi autoinflingindo como se nada mais soubesse fazer senão dirigir um clube de sado-masoquistas. Em que medida contribuí para isso, a história o dirá, tal como a outros julgará.
No âmbito das minhas funções, tenho realizado negócios no estrangeiro e em território nacional, em silêncio e no escurinho, muitas vezes "chupando dropes de anis". Não é um trabalho fácil, porque os negócios exigem olho e atenção constante às manobras dos intervenientes.
Esmagados PSD e PS, resta-me agora apelar-vos a que não se deixem levar pelas doces vozes dos comunas. São só os direitos dos trabalhadores e da classe operária até ao momento em que vos levarem os filhos para centros de lavagem cerebral, e nem aos domingos os poderão visitar. O CDS-PP, pelo contrário, oferece-vos a garantia de que terão sempre trabalho a servir os maiores e os mais fortes. Há sempre a roupa e louça velha dos patrões que poderão aproveitar. Os do nosso partido sempre precisaram de serviçais e sempre precisarão. Está agora o caminho aberto para acabar com a confrangedora taxa de desemprego a que a situação nos levou, basta marcarem eleições.
Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, Nossa Senhora do Pópulo vos proteja e ide em paz.

A constituição explicada às criancinhas

Aquele reino tinha vivido quase meio século sob o domínio de um rei autoritário e autista, de maneira que numa certa primavera os guerreiros depuseram-no. O povo ficou parvo a olhar para aquilo, mas pareceu-lhe bem, porque evitava uma série de chatices com as zonas longínquas do reino para cujo fossado os jovens eram enviados. Após um par de anos conturbados no "mando eu ou mandas tu", chamaram os escribas e os mais velhos que, em conjunto, redigiram um documento que doravante passaria a regulamentar o exercício da autoridade do rei. Por exemplo, o rei deixou de poder mandar decapitar o povo, mas, por seu lado, passou a estar igualmente protegido pelo mesmo documento. Aquele escrito instituía um conjunto de princípios a cumprir por todos os grupos para o bom entendimento, equitativo, justo, entre todos . Era a bíblia do reino. Como se constituiu um documento de total referência, passaram a chamar-lhe constituição. Muitos outros reis sucederam a revolta dos guerreiros, mas nenhum se atrevia a questionar a importância da constituição que tudo regulava, embora às vezes lhes apetecesse, porque os reis gostam muito de fazer só o que lhes apetece e de não dar justificação, mas essa tendência tinha já sido prevista pelos sábios que a haviam redigido e aprovado, pelo que havia uma garantia de proteção para todo o reino. O povo sabia que a constituição salvaguardava e que mesmo que alguém tentasse ultrapassar as suas regras, existia um conjunto de sábios que julgariam tais tentativas e não o permitiriam, o que também se encontrava salvaguardado nesse livro chamado constituição, porque quem o tinha escrito tinha mesmo muita experiência sobre os perigos da autoridade não controlada.
Um dia apareceu um rei que queria mandar sem limites e roubar o povo para enriquecimento dos seus amigos, o que resultaria, indiretamente, por portas e portinhas, no seu próprio enriquecimento. Outros reis já haviam roubado às escondidas, mas este queria que roubar se tornasse legal, desde que fosse só ele e os amigos a realizá-lo. E o que pensou o malandro? "Vou fazer uma lei para destruir esse livro. Vou convencer o povo de que a constituição não presta, e só prejudica a credibilidade do reino. Vou convencer o povo de que se não aceitar ser roubado lhe vai acontecer uma grande desgraça.
O povo, claro, ficou com medo de que os vizinhos se pudessem roubar uns aos outros e nada fez quando o rei mau destruiu a constituição e mesmo o grupo de sábios que a vigiava. Aceitou, assim ser roubado pelo rei e viveu um século sob o domínio de um rei autoritário e autista. Quer dizer, aqueles que sobreviveram.

Curativos nos genitais

A constituição dos EUA salvaguarda o direito dos cidadãos a possuírem armas para sua própria defesa, por isso os americanos vão ao Jumbo comprar armas automáticas capazes de matar elefantes com a mesma facilidade com que nós compramos um aspirador. É só escolher a marca e os sacos.

Nos EUA, os defensores do lobby das armas acham que onde há armas morre muito menos gente branca. Por outro lado, nos sítios onde há pretos, latino-americanos e asiáticos acho que se morre como se a época de caça estivesse aberta todo o ano sem limites.

Eu não sei, coitada de mim, mas se tivesse uma arma em casa, quando me irrito e isso, não sei, mas, pronto, era capaz de já ter mandado alguém para o hospital fazer uns curativos nos genitais.

A ridícula



Decidi, hoje, dedicar-me à obra de Joana Vasconcelos, artista-ódio da portuguesada, dentro e fora das redes sociais.
Eu cá gosto da Joana Vasconcelos. Não a adoro, não a venero, mas reconheço-lhe valor e admiro-a. Faz-me pensar e rir, às vezes ao mesmo tempo. Um helicóptero forrado a plumas cor-de-rosa? Um automóvel exteriormente artilhado com espingardas viradas para trás e ocupado por bonecos de peluche? Uma cabeça de touro forrada a renda de sangue? Uma autora que se expõe ao público com indumentárias ridículas? Nada disto vos interpela? Contentam-se com o ridículo, não o questionam? Não vos apetece superar por instantes o comezinho, a dimensão vulgar e objetiva das coisas, para pensar em que medida a obra desta artista se insere numa tendência escatológica contemporânea, que, não sendo novidade, no geral, o é no seu específico? Encara-la-iam diferentemente caso não fosse portuguesa? E se não fosse apoiada pelo Estado e não tivesse cheta? E se se vestisse decentezinha, no desejável estilo meio descuidado dos artistas? E se não fosse gorda e pouco bonita? E se não fosse mulher? O que é que vos aborrece mais? Acham que Joana Vasconcelos é parvinha? Acham que é saloia! Desde que a vi com o vestido de cortinados, respondendo "é portuguesa" à jornalista que, na inauguração da exposição, no Rossio, lhe perguntou "quem é Joana Vasconcelos?", fiquei a pensar. Foi uma resposta que me aborreceu. "É portuguesa", se isto é resposta que se dê! Entretanto fui ao site ver o seu trabalho e parece-me que tem razão, entre o muito que é, que representa e nos quer mostrar, Joana Vasconcelos, nascida em Paris, é portuguesa.

A imagem é uma peça de Joana Vasconcelos, de 2011. Intitula-se Wang.

Site da odiada artista saloia, onde podem ver algumas das suas obras desde 1994:

http://www.joanavasconcelos.com/menu_pt.aspx

Beleza, energia e desejo

Quando tinha vinte anos frescos e considerava os direitos cívicos e laborais inalienáveis, porque a lei os garantia, e nada sabia sobre o porvir, graças a Deus, e saía à noite, os homens não vinham ter comigo para me darem os seus números de telefone, nem me chamavam para beber uma bebida com eles ou mesmo da deles. Era um desperdício de beleza, energia e desejo.
Trinta anos e muita droga depois, piscam-me o olho e parece que ganhei interesse. Querem dormir com a mãe? Acham que não corro o perigo de engravidar e de pretender contrair casamento? Pensam que, chegada a este ponto, estou tão desesperada que até já cedo à pequenez das conversas de engate? Estou com o cabelo mais louro? Mudei eu ou mudaram eles?

Eternidade

"Temos pouco dinheiro, é chato ser português, pela burocracia, as coisas que nos pedem, mais os ladrões dos bancos e essas merdas. Todas essas golpadas são horríveis. Mas as coisas boas são mais eternas e mais verdadeiras aqui."

Miguel Esteves Cardoso

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"O patriotismo, em Fernando Pessoa, assumia um cariz de sebastianismo messiânico."
- Explique-me essa ideia do sebastianismo messiânico.
Silêncio.
- Não sabe?
- Não.
- Então, mas usou aqui essa expressão, esse conceito e não foi investigar o que significava?
- Não.
- Mas sabe de onde vem a palavra messiânico?
- Não.
- E sebastianismo?
- Também não.
- Está bem, então não lhe pergunto se conhece o significado de cariz.

Última hora do DEO


Vítor Gaspar anunciou hoje que para se atingirem as metas impostas pela troika, os deputados deixarão de ter direito a subsídios e despesas de representação. Acresce que o material de escritório para os membros do governo e da AR passará a ser adquirido pelos próprios, exatamente como as canetas e cadernos dos professores. Os gestores da função pública, bem como os detentores de cargos executivos passarão a auferir salários com um teto máximo de 4 mil euros, quantia mais do que suficiente para se viver neste país, porque os outros vivem todos com muito menos. Os carros do Estado serão todos vendidos para Angola e ministros, secretários de estado e afins passam a "ir trabalhar" em veículo próprio. As grandes fortunas ficam com a obrigatoriedade de se tornarem mecenas de instituições dependentes do Estado, como hospitais, escolas, creches, lares ou associações culturais que não poderão ser geridas por qualquer familiar dos mesmos ou de outra grande fortuna.

Exames teóricos e práticos para candidatos a pais

Se é necessário ter aulas teóricas e práticas e aprovar num exame para se conduzir um carro, não se deveria aplicar o mesmo a quem pretende ter filhos? Como confiar nas capacidades humanas aleatórias e individuais para uma tarefa tão difícil, tão delicada, tão complexa da qual depende totalmente a vida alheia? 
Há muitas pessoas incapazes de conduzir automóveis. Não têm jeito. 
Há muitas pessoas que não deveriam ter filhos. As liberdades individuais têm os seus limites.
Imagino que isto seja uma ideia muito de direita, mas devo esclarecer que não tem a ver com homoparentalidade, mas com parentalidade em geral - se eu quiser adoptar sou sujeita a entrevistas, inquéritos, visitas ao domicilio. Parece-me muito bem. Por que é a adopção tão repleta de cuidados e não a parentalidade biológica?

Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

É tarde

A Noiva Judia, Rembrandt (detalhe)

Estivemos a dar "O amor é fogo que arde sem se ver" e eles estavam a adorar. Uma grande barulheira de récitas privadas em cada carteira. Gostam logo do soneto, mesmo sem o perceberem cabalmente, porque tem fogo, o soneto, e o amor tem fogo, e é bom, magoa, sabem-no, e querem-no. E foi isso que os levei a perceber. Esse "como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade/ se tão contrário a si é o mesmo amor?" Façam-me a paráfrase deste terceto, pedia-lhes. "Se tão contrário a si é o mesmo amor?", o que quer o sujeito poético dizer? O que significa sermos contrários a nós? E lá chegámos onde queria levá-los. Gostaram. Compreenderam. Sim, sim, já tinham sentido, conheciam perfeitamente. Expliquei-lhes que me lembrava muito bem do amor-fogo da juventude, de quando tinha a idade deles. Dos amores loucos, dos não correspondidos, irracionais. Disse-lhes, "aproveitem-no bem, olhem que não há nada igual e nunca mais volta a ser o mesmo." Perguntaram-me se achava que ainda podia encontrar o amor? Eu?! Estão a perguntar-me se ainda posso achar o amor para mim?! Fitei-os a sorrir enquanto pensava. Eles sabem que respondo sempre sem pejo. Pensei. Demorei mais cinco ou seis segundos do que se pretendia. Então?! Olhavam-me, atentos. Que resposta esperariam? Pela expressão nos seus rostos, um sim, sem dúvida. Baixei a cabeça e respondi a verdade. Não, já é demasiado tarde. Oh!, não diga isso. Ainda é tão nova. Sim, sou, mas já é demasiado tarde. Queria tê-los enganado, e enganar-me. Queria estar errada. Mas imaginei o mundo, revi as pessoas, as suas expetativas, a minha intocável meninice insatisfeita e só me ocorreu "é tarde, meninos, é tarde".
.

Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Conversas com a terceira idade

Sem comentários:
Aleksander Kufar

- Tomaste o Lasix de manhã?
Silêncio. Ouve mas não responde, como se lhe tivesse falado numa língua muito estrangeira.
- Hoje de manhã tomaste o diurético?
Continua sem responder, tentando perceber se não compreende pela surdez ou porque eu esteja mesmo a articular uma língua totalmente desconhecida.
- Ó, mãe, tu hoje tomaste o remédio para mijar?
- Tomei, tomei. Logo de manhã. Sempre. Todos os dias. Há anos. Desde que o Dr. Silva Paulino mo receitou pela primeira vez. Nunca falha. Nunca. Sempre de manhã. Aquele pequenino. Tomei. Nunca me esqueço. Oh, há anos e anos! O Dr. Silva Paulino é um grande médico. Ele é que mo receitou. Tomei, pois. O Dr. tinha aquele bigode muito grande. Não gostava nada dele. Depois habituei-me. Ele é que mo receitou já nem sei há quantos anos. É um comprimido de que nunca me esqueço. Tomo sempre. Ai de mim se não tomasse. O que me vale é o Dr. Silva Paulino. Mas que nunca falha! É o segundo comprimido que tomo. O primeiro é aquele do estômago, depois esse, depois a cortisona e o do coração. Logo de manhã. Tomei, pois tomei, e...
- Está bem. Já percebi.
- Agora o pior são os intestinos. Precisava de kivis.

Sábado, 6 de Abril de 2013

Comentadores políticos e a Dona Adelaide.

Os comentadores políticos, a propósito do chumbo do Tribunal Constitucional ao Orçamento de Estado, fazem-me lembrar a D. Adelaide, professora da escola primária, que tão inolvidáveis memórias me outorgou. Dizia ela, todos os dias, após abrir o meu caderno das contas, e empunhando a comprida régua de boa, pesada madeira, "Isabela, mais vale abrires a mão sem resistência. Quanto mais fugires à régua mais sofres com ela. Se te ofereceres para apanhar sofres muito menos". 
A lógica é a de que se levarmos tareia sem resistência a tareia dói menos?

A Constituição explicada às crianças

Sem comentários:
Aquele reino tinha vivido quase meio século sob o domínio de um rei autoritário e autista, de maneira que numa certa primavera os guerreiros depuseram-no. 
O povo ficou parvo a olhar para aquilo, mas pareceu-lhe bem, porque evitava uma série de chatices com as zonas longínquas do reino para cujo fossado os jovens eram enviados. 
Após um par de anos conturbados no "mando eu ou mandas tu", chamaram os escribas e os mais velhos que, em conjunto, redigiram um documento que doravante passaria a regulamentar o exercício da autoridade do rei. Por exemplo, o rei deixou de poder mandar decapitar o povo, mas passou a estar igualmente protegido pelo mesmo documento. 
Aquele escrito instituía um conjunto de princípios a cumprir por todos os grupos para o bom entendimento, equitativo, justo, entre todos . Era a bíblia do reino. Como se constituiu um documento de total referência, passaram a chamar-lhe constituição. 
Muitos outros reis sucederam a revolta dos guerreiros, mas nenhum se atreveu a questionar a importância da constituição, que tudo regulava, embora às vezes lhes apetecesse, porque os reis gostam muito de fazer só o que lhes apetece e de não dar justificação, mas essa tendência tinha já sido prevista pelos sábios que a haviam redigido e aprovado, pelo que havia uma garantia de proteção para todo o reino. O povo sabia que a constituição salvaguardava, e que mesmo que alguém tentasse ultrapassar as suas regras, existia um conjunto de sábios que julgariam tais tentativas e não o permitiriam, o que também se encontrava salvaguardado nesse livro, porque quem o tinha escrito tinha mesmo muita experiência sobre os perigos da autoridade não controlada.
Um dia apareceu um rei que queria mandar sem limites e roubar o povo para enriquecimento dos seus amigos, o que resultaria, indiretamente, por portas e portinhas, no seu próprio enriquecimento. Outros reis já haviam roubado às escondidas, mas este queria que roubar se tornasse legal, desde que fosse só ele e os amigos a realizá-lo. E o malandrou pensou "Vou fazer uma lei para destruir esse livro. Vou convencer o povo de que a constituição não presta, só prejudica a credibilidade do reino. Vou convencer o povo de que se não aceitar ser roubado lhe vai acontecer uma grande desgraça." E assim foi. O rei mandou delegados para todas as feiras com o objetivo de convencer o povo de que o escrito salvador era maldito porque ser roubado pelo rei era o melhor que podia acontecer a cada cidadão, para seu próprio bem.. Era preciso extinguir o livro-salvaguarda.
O povo, claro, ficou na dúvida, porque acreditava que os reis tinham poderes superiores ao comum mortal, e nada fez quando o rei mau destruiu a constituição e o grupo de sábios que a vigiava. Aceitou, assim, passar a ser roubado legalmente pelo rei e amigos e viveu um século sob o seu domínio autoritário e autista. Quer dizer, aqueles que sobreviveram.

Quinta-feira, 28 de Março de 2013

O amor perdido




Perder um amor ou a pessoa desse amor ou ambos mereceria alteração radical do curso de vida. Mudaríamos de cidade, de casa, de móveis, objetos e roupa. Se consumíssemos café Delta, passaríamos para o Sical. Que nada nos evocasse o que se perdeu ao perder, porque pior que a dor da memória é a estranheza de se mergulhar num passado ainda erguido, sólido, tocável sem poder atingir-se. O amor perdido mantém-se sensível desde o primeiro oxigénio, mas tão inacessível como a personagem de um romance. Amo Jane Eyre. Conheço-a tão bem que poderia falar em seu nome, mas não está ao meu alcance encontrá-la nem abraçá-la. O amor perdido é a nossa Jane Eyre.

É idealista, coitada




Daniel Stoole

Regressemos à política e para isso convém clarificar a etimologia do vocábulo. A política é a atividade desenvolvida pelos políticos dentro da pólis e a seu favor. A pólis é a cidade e político é cada cidadão. Se seguirmos a etimologia, eu sou uma cidadã profundamente envolvida na política do meu espaço. Sei que estas noções se perderam, mas vale a pena voltar a elas para que sejamos capazes de reedificar uma política na qual nos possamos rever e reencontrar.
O sistema político que temos não só não serve a pólis como nos excluiu da política, tornando-nos agentes passivos que não somos. Portanto, aquilo que temos em Portugal e na Europa já não interessa há muito tempo, o que se tornou óbvio quando percebemos que a corrupção não era exclusiva do terceiro mundo, mas tão nossa como deles.
A minha questão é saber se queremos manter a alternância entre Passos e Sócrates. Uma pergunta  retórica muito básica. Acreditam que Sócrates vive com uma única conta bancária na Caixa Geral de Depósitos, como se fosse professor do ensino secundário? Acreditam que precisou de pedir um empréstimo ao banco para fazer estudos em Paris? É disto que falo. Queremos clareza, autenticidade. Queremos que nós mostrem as grelhas excel com os cálculos verdadeiros, não os forjados. É que eu tenho aqui as minhas feitas para mostrar aos alunos e encarregados de educação que pretendam verificá-las na próxima terça-feira, e portanto não admito exceções. É gramática, 15%; produção textual, 25%; compreensão da leitura, 25%; compreensão e expressão oral, 25%; atitudes, 10%; resultado final, 14,32.
Não tenho um pingo de fatalismo no sangue. O fado não me assenta. Sei que há um futuro a médio prazo, para mim, e a longo para os vossos filhos, e terá de ser melhor porque já aprendemos lições e amadurecemos civilizacionalmente. E a questão é que futuro queremos agora, destruídas as ilusões da Europa? Que ideias temos para uma nova pólis? Como pretendemos contribuir para a sua reconstrução? Quem são os homens e as mulheres em quem podemos confiar para gerir a nossa casa enquanto nos dedicamos a outras tarefas? Partidos? Organizações? Indivíduos? Temos de discutir publicamente tudo isto e organizar-nos.  E mais: é urgente fazê-lo.

Quarta-feira, 27 de Março de 2013

O regresso do Anti-Cristo




A entrevista a Sócrates foi antológica, eventualmente histórica, porque Sócrates argumentou com atenção aos pormenores, vigor, emoção, brilho e precisão. Dominou totalmente a entrevista. Foi o espetáculo retórico, não excluindo a poética! Citou-se Dante, e mesmo sem este encontraríamos nesta entrevista matéria para muito verso épico ou lírico. Temos aqui um mestre, sem ironia! Que pena ter perdido a inocência política, caso contrário teria o meu voto nas próximas eleições. E esse é o motivo que poderá transformar esta entrevista num momento histórico, já que a legítima possibilidade de defesa que lhe foi oferecida, e a presente abertura ao comentário político pro bono, levará à eleição de Sócrates para o próximo Governo, se nada mudar entretanto. Obviamente, voltará à vida política, porque todos aceitamos que os planos de hoje não são os de amanhã.
Ao longo da entrevista repetiu-se várias vezes o vocábulo “narrativa” a propósito da performance do execrável atual governo, e foi essa a ideia dominante do discurso político-ideológico de Sócrates. Apresentou verosivelmente a sua narrativa sobre a narrativa, e o problema é meu, sei, mas já me custa tanta ficção. Não serve. Quero diários, cartas, tudo exposto.
Admito que gostei do espetáculo. Admito que jogador conhece as regras e joga bem. Tirando Paulo Portas, não estou a ver talento similar. É pena ser um espetáculo viciado, como as touradas, no qual sabemos antecipadamente que o touro, cada um de nós, vai morrer, e que, portanto, tem de acabar.
Sempre tive para Sócrates o epíteto do anti-Cristo. Carrego sem carga uma referencial formação católica, que domina o meu discurso e pensamento, e não podia tê-lo classificado melhor. Lembro, por isso, as escrituras, de viés, e muito por alto: o demónio fala bem, fala doce, é belo, agradável, está do nosso lado. Tal e qual como Passos Coelho quando chumbou o execrável Governo PS há dois anos. Estava contra os cortes nas pensões, certo? Ia salvar-nos, certo?

Senhor, Senhor, eu sei que estamos na Quaresma, mas porque nos abandonaste?