sábado, 17 de setembro de 2016

O meu amigo já não gosta de mim

 Foto: Saul Leiter
Não há grande diferença entre conhecer e manter amigos e amantes. O processo é idêntico. Conhecemo-nos em contextos diversos e inesperados, mostramos o o que achamos dever mostrar, e o contacto inicial gera empatia ou antipatia. Se gera antipatia, o caso fica arrumado. Se existe empatia, tudo se complica. Dá-se início a um demorado processo de convívio com o objetivo não explícito do conhecimento mútuo. Quando eu era criança e adolescente, recordo que me era transmitida a ideia de que o namoro correspondia a uma fase de conhecimento durante a qual os envolvidos percebiam se os hábitos e interesses eram compatíveis, e o encontro tinha potencial para se transformar numa relação duradoura. Era uma ideia mais ou menos explícita. Era uma fase de experiência, de conversa. Era para ver "se dava". A ideia perdeu-se com as novas gerações. Quando chegou a minha altura de namorar, passei a entrar no amor arrebatadamente com a ideia de que tudo era para sempre. Erro. O namoro, com ou sem sexo, com promessas de amor eterno ou sem ele, é sempre um processo de conhecimento. É um durante, um por enquanto com dois fins possíveis: termina com ou sem dor ou mantém-se, e nesse caso sempre com dor, pelo menos ocasional, porque onde existe uma alma existe dor, e onde se encontram duas, existem duas. A dor é intrínseca aos transportes do ser numa realidade social mundana, similar à das pessoas que leem crónicas como esta. Não é possível expurgar a dor do quotidiano. Contentemo-nos com o que há. 
Se assim é no amor, porque seria diferente na amizade?! Que magia extraordinária seria essa capaz de transformar todas as empatias fraternais em relações eternas e sem convulsões?! Estão em jogo egos e almas diferentes, com diferentes características, desejos, medos, propensões. Conhecem-se e ao longo desse caminho encontram sombras demasiado sombrias, luzes demasiado incómodas. Quando dois potenciais amigos se conhecem há igualmente uma fase de namoro na qual se apura "se dá". Pode não dar. A maior parte das vezes não dá. Não tem mal. Não é necessário ficar-se magoado. Não há culpa a atribuir quando não somos compatíveis com outros. Ao longo da minha vida houve imensa gente com quem desejei dar-me e que não me quis. E vice-versa. Não é um atestado de incompetência nem de inferioridade para mim, como não o é para os outros. Há mais quem queira. Há outros possíveis amigos e amantes. O mundo está cheio de gente e de oportunidades. Não dramatizemos. Adiante.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Prendas

Tinhas-me dado duas pedras que colheste no deserto, uma no Saara, negra, queimada, nunca pisada, disseste, a outra na fronteira com a Líbia. Só duas pedras. Tinhas-me dado um seixo redondo muito polido, apanhado na Praia dos Cães, e uma concha grande, não me lembro de onde. Tinhas muito amor por mim. Fodíamos no carro e, considerando mau jeito, fodias bem. Um dia pagaste metade do meu jantar. Foi uma grande prenda. Se me der ao trabalho de fazer as contas, mas não darei, acho que me saíste a mil euros a foda, mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Repetição

Hoje veio de novo o período à Ana Margarida, mas ela e o namorado não quiseram saber e fizeram amor toda a tarde e ficaram cheios de sangue outra vez.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O dia em que perdi o coração





 Foto - Bill Henson

No meu quarto, ao longo dos anos, brilha um pénis ereto e fresco como um legume colhido pela madrugada. Cheira bem, morno e içado.

Percebo as veias que o percorrem à luz muito filtrada pelas cortinas. Quer-me. Quero-o. Beijo-o, desenho com a ponta da língua as curvas da glande, saboreio a camarinha que se forma no meato da uretra, e roço nele o rosto, os cabelos, o peito, as mamas, a barriga. Uso o brinquedo como me apetece. É só da menina.

No meu quarto, na minha cabeça, ao longo dos anos, há um pénis ereto como nenhum outro. Quantos anos viverei? Sempre o mesmo, mil anos ereto, os mil da minha vida. No dia em que me atirarem à cova, ainda ereto. Enquanto houver uma célula da minha pele perdida atrás da porta, na casa vazia, ou um resto do odor das minhas axilas, ereto.

No meu quarto na minha cabeça, ao comprido de décadas, brilha um pénis ereto ao qual me encosto. Um nervo flexível, um elástico bem esticado, retesado. Só eu posso vê-lo. Só eu conheço o seu cheiro a erva ceifada rente ao chão. Sinto-o duro contra a minha anca. Treme. É só meu. Acorda-me. Anima-me. Parece um cato tenro e sem espinhos, esse meu pénis vertical, o altar junto ao qual deixei de rezar quando perdi o coração.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Os papás não fodem






Cada mulher tem a sua obsessão.
Quando vim para a casa decidi que o quarto da frente seria o dos papás. O quarto da frente é o principal no lar, portanto, pertence aos mais altos na hierarquia familiar. Talvez tenha sido eu que me coloquei sempre, à partida, numa posição subalterna.
Quando, de costume, afirmo que, ao chegarem de África, nenhum deles era capaz de me olhar como adulta, talvez queira dizer que nunca fui capaz de ver-me como adulta junto deles. Que não sabia ter, com eles, o poder de uma pessoa crescida, ao seu lado, como igual. Não tive essa escola lenta de ir progredindo em companhia. Fui criança e depois mulher, e o que ficou pelo meio perdemos os três. Saltámos dez anos no tempo e no espaço sem que as nossas mentes tivessem conseguido ajustar-se a viver na ausência e depois na presença alterada. Como é que se fazia para discordar dos papás? Para fazer valer a minha opinião? A história não se compadece de emoções privadas, mas é a sua frieza que dá à nossa resistência uma dimensão épica. Tudo se atravessa como se não estivéssemos sempre mortos e vivos, no mesmo instante, lutando por adiar a transição.

A mobília do quarto de casal dos papás era a da Matola, em umbila bem escura, a que a mamã puxava o lustro com cera preta para a aproximar o mais possível das madeiras exóticas que tinham muito valor. Cama com cabeceira e pés montados num gradeamento de colunas, com mesas-de-cabeceira, cómoda, pechiché, banco, e cadeira, estofados, em napa branca, linhas muito direitas, estilo Império. No caixote veio também um guarda-fatos adquirido em Tete, que nunca fez parte da mobília da Matola, casa na qual existiam armários embutidos na parede, o que excluía a necessidade da peça. O guarda-fatos proveniente da fábrica de Tete, apresentava design dos anos 70, com um aileron ao alto, quebrado por um pináculo a meio, ponto a partir do qual o acrescento crescia, alargando a partir dali as suas asas retas. Foi das peças de mobiliário mais feias que encontrei. Tentei dar a volta a essa herança, colocando-a em vários quartos, em diferentes paredes. Imaginei-o pintado com uma patine romântica em desgastado falso, mas nunca ficou bem em assoalhada alguma, onde quer que a colocasse, e nem sequer na minha imaginação. Considero mau sinal a minha fantasia não conseguir visualizar o que um objeto pode ser, ainda não sendo, ou não lhe agradar o que vê.

Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não fodiam, embora eu tivesse começado uns tempos antes.
Era sumarento, sem palavras certas nem regras. Era uma brincadeira de animais, e não pode ser possível nem verdade que os nossos pais se entreguem a um gosto que nos ensinaram a encarar como vergonha.
Não somos capazes de ver os papás como pessoas iguais a nós, como penso que eles não sejam capazes de nos ver como pessoas que eles também já foram, antes de ser o que são. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem, se temem.
Portanto, os meus pais não fodiam, mas a mamã dizia-me que havia a mulher ruiva do talho, com as calças verdes, mal jeitosa, que o cortejava. Ria-me e respondia-lhe que não podia ser, não passaria de um convívio de vizinhos, e nada mais. Uma mulher entrada na idade a cortejar o papá, que ideia mais ridícula. E o papá a cortejar alguém, aos sessenta anos, gordo e estragado, honestamente, que ideia! Ria-me e exclamava “que exagero”. Não poderia ser mais do que uma brincadeira, uma troca de piropos. A mamã clamava que não, que o gerente do talho era putanheiro e levava o papá para maus caminhos. Chamava-me ao quarto, abria gavetas e mostrava-me comprimidos e elixires medicinais à base de pau de Cabinda e ginseng que o papá tinha comprado na ervanária para ter mais força naquilo.
“Ainda tem a mania destas coisas.”
“Oh, mãe, não é isso!”
Ria-me, envergonhada.
É só uma vitamina para dar força. Deixa-o ter as suas alegrias.”
“Ele é maluco, já sabes. Tem a mania que é novo. Sempre gostou destas brincadeiras parvas.”
A minha mãe não tinha amigas. Teve a sua mãe, mas morreu cedo. Eu nunca me importei de ser a sua amiga preferida, o seu desabafo.

As gavetas da mesa-de-cabeceira, como as da cómoda e as do pechiché da mobília do quarto dos papás sempre abriram mal, como se estivessem enferrujadas. Pareciam ter sido feitas maiores do que as caixas que as recebiam, e emperravam se não fechassem direitinhas e à primeira tentativa.

Desde que mudaram de Lourenço Marques para a Matola, em 1971, até morrerem, em Almada,  os papás tiveram sempre a mesma mobília de quarto em umbila escura que pouco se  estragou com os anos. A certa altura desencaixou-se o espelho do pechiché e o móvel passou solitário para o sótão. Servia pouco. O papá usava-o para preencher os totobolas, escrever relatórios do serviço. Aí se pousavam relógios, perfumes, medicamentos, e nas gavetas havia peúgas e lenços de assoar.
A mobília permaneceu em bom estado até ao fim, sendo que fim foi ter seguido para o Alentejo, para uma casa no campo que a Guidinha lá tem. Imagino que esteja tudo a ser útil e que muitos anos depois de eu passar para o o lado misterioso, os netos dos que poderiam ter sido meus filhos, possam nascer na cama do quarto da Matola transferida para o Alentejo.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Cartolina de cidadã



Na entrada do meu prédio afixaram um aviso para os condóminos, mas o problema é que sou  condómina. Não é para mim, foi a ideia que me passou pela cabeça. 
É assim há muitos anos, noutros contextos semelhantes, e não consigo habituar-me. O antigo impresso para pedir as ajudas de custo da gasolina, quando recolhia exames para corrigir, no agrupamento, contemplava um espaço para a assinatura do servidor do Estado, não da servidora, e tinha de o corrigir manualmente. 
Se o dicionário não contempla o feminino de condómino, deverá considerá-lo a partir deste momento. Está inscrito no ciberespaço. Passou a existir.
Tal como eu, no mesmo condomínio, há outros três apartamentos de condóminas. O mulherio abunda. Somos resistentes, desenvolvemos estratégias de sobrevivência ao longo dos milénios e vamos durando como a pedra.
Tenho andado toda a vida à procura de lugar no mundo, como se não tivesse direito a ele, embora eu e as outras sejamos um polo da existência sem a qual nunca se teria concretizado. Não sinto que tenha de pedir licença nem desculpas. Não sei se em mim está o positivo ou negativo da pilha, nem me interessa, mas tenho consciência de que sou uma carga tão valiosa como a do outro polo, e que sem mim não existiria energia, portanto, contemplem-me obrigatoriamente.
O aviso na entrada do meu prédio deveria, assim, destinar-se ao condomínio. Sempre que exista uma palavra neutra, deverá ser escolhida, porque inclui. Não há ninguém que o neutro exclua. Isto parece irrelevante?! Não é.
Tem tudo a ver com a recente proposta do Bloco de Esquerda relacionada com a alteração da designação do cartão de cidadão para de cidadania. O Estado deve proceder no sentido de promover a inclusão nos discursos, portanto ou se regista a existência de cidadãos e cidadãs, no mesmo documento, ou a da cidadania sem género. Ou identidade. Como prefiram. Estes assuntos são faróis para a mudança. Habituámo-nos a olhar para o mundo a partir de uma perspetiva ideológica masculina, e não haveria nisso mal se não tivesse provado não servir. Provou abundante injustiça e por aqui procura-se um mundo diferente, com novas designações, novo discurso. As palavras valorizam, simbolizam, orientam, mostram caminho. Não há civilização sem discurso verbal. Quando o mundo muda, os discursos mudam, e vice-versa. Habito uma realidade na qual existem cidadãs, presidentas e graus académicos de mestra, portanto se estas denominações não se encontram incluídas nos discursos oficiais, incluo-as eu. Quero-as em toda a parte, porque lhes cabe um papel modelar e ideológico importante.
No Público do passado fim‑de‑semana, alguém se indignava com a ideia de passar a existir um cartão de cidadania, propondo, caricaturalmente, a mudança para feminino de todas as palavras. Cartão passaria a cartoa ou cartolina. Nesse caso, eu passaria a ser detentora de uma cartolina de cidadã e, o meu vizinho, de um cartão de cidadão. A retórica do ridículo faz rir e resulta, mas é vazia.
A expressão cartoa ou cartolina está tão profundamente conotada com uma menoridade do feminino que assusta. Se querem viver num mundo em que o feminino de cartão é a cartolina, vivam, mas é o vosso, não o nosso. É um mundozinho particular que só não é grave se não sair dessa circunscrição. 
O que ponho em causa é uma consciência de mundo centrada na experiência e ponto de partida do masculino certo, valioso e universal. A vivência masculina será com certeza muitíssimo rica, mas, não mais do que a minha, portanto, não me apaguem e venham os cartões inclusivos.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Uma selva na sala

Caladium

Quando a mamã chegou de Moçambique encheu a sala de estar com vasos de filodendro, caladium, erva-da-fortuna e tronco do Brasil. Colocou os vasos de filodendro na última prateleira da estante de pau-rosa que veio desmontada no caixote de retornados. Foi das poucas peças que couberam no elevador e não tiveram de ser carregadas pelas escadas estreitas e escuras, ganhando mossas enquanto subiam e suávamos.
O filodendro alastrou pelas paredes da sala. A mamã encaminhava as hastes pelo percurso das quatro paredes, passando-as cuidadosamente por cima da porta, segurando-as com ajuda de pequenos pregos. Tinha muito orgulho na proliferação de metros de haste de filodendro que se produziam a partir a partir de pés nascidos em pequenos vasos pousados na estante, exigindo frequente e abundante rega, sendo esta difícil sem encharcar a prateleira ou o chão, o que me irritava. Trazer selva para dentro de casa exigia um estúpido trabalho.
Num dos cantos da sala, sobre uma mesa de pau-preto com tampo de vidro, ergueu um altar de enormes caladiuns de diversas cores e matizes; brancos, só brancos, vermelhos com branco, vermelhos com rosa, só vermelhos ou só rosa matizado. Os caladiuns eram a beleza natural completa. 
Havia troncos do Brasil sobre a mesa de centro e no chão, e vasos de erva-da-fortuna pela casa toda, porque davam sorte. A mamã trouxe as plantas de Moçambique, disfarçadas na bagagem. Raízes, bolbos ou estaca. Não se podia entrar com elas na fronteira, mas cá chegaram. As raízes vinham embrulhadas em algodão molhado embrulhado em pano, depois em plástico e dentro de sacos bem atados. Foram experiências de transplante e proliferação vegetal bem conseguidas.
A mamã tinha sorte com as plantas como com tudo o que lhe nascesse das mãos. Menos comigo. A mamã tinha o dom de Deus, o da reprodução e manutenção. A mamã era sagrada e sacralizava. Nenhuma planta lhe morria. Tinha tanta sorte com as decorativas como com as da agricultura. Tudo crescia viçoso e saboroso. Não apreciava, contudo, o trabalho da terra, que considerava uma escravidão, embora lhe conhecesse todos os segredos e manhas. Sempre que me ouvia sonhar com um metro quadrado de chão para plantar a minha horta e ter os meus animais, dissuadia-me. “Tira essas ideias da cabeça, menina. Isso dá muito trabalho, menina. Nem penses nisso, menina.” Contemplava-a sem palavras, sorrindo, desacreditando, observando-a sem perceber como é que uma mulher que toda a vida tinha feito crescer da terra a luxúria vegetal, ajoelhada sobre os seus grãos, a evitava tanto.
A minha mãe nunca viveu no mato. Nunca fomos propriamente para a selva. A Lourenço Marques branca era ordenada e limpa, tropical, é certo, mas domesticada. Os vasos de filodendro, ao princípio, não me pareceram mal, mas quando a sala se transformou numa floresta cerrada de hastes alastrando por todas as paredes, senti-me em expedição pelos trópicos húmidos, ao ar livre, onde não há casa, portanto sem refúgio nem esconderijo. Odiava os filodendros que forravam as paredes, estação após estação, com folhas viçosas, perfeitas, quase de plástico, a que ela dava brilho, mescladas de branco e amarelado entre tons de verde. O excesso vegetal tornava a casa desconfortável. Sentia que na minha sala moravam as criaturas que protegem os jardins, com os seus brilhos fátuos, o que encerrava uma dimensão contra natura, porque morávamos num quinto andar do Feijó, perto do centro-Sul. Da janela das traseiras  avistavam-se uns prédios inacabados, de construção clandestina suspensa, onde habitavam famílias negras com inúmeras crianças cujos pais trabalhavam na construção civil e as mães em limpezas ou cozinhas de bar e restaurante, fazendo puxadas clandestinas do poste de eletricidade para conseguirem ter luz nos altos prédios vadios e acartando baldes e jerricans de água pelas escadas acima, que enchiam na rua, fornecendo-se numa casa próxima. Do lado da frente existia um enorme terreno baldio onde as crianças do bairro brincavam e mexiam nos pipis umas dos outras pela primeira vez. À beira da estrada, numa barraca de ciganos, a paz doméstica exigia que o cigano espancasse a cigana, que gritava ao longo do dia, enquanto lhe atirava com pedaços da barra de sabão azul e branco com que lhe lavava a roupa. Os filhos berravam todos ao mesmo tempo. O cigano zurrava. Os ciganos eram o espetáculo da janela da frente. Pretos atrás, ciganos à frente. Estava-se muito bem. Para lá do baldio, que se estendia até ao Centro Sul, via-se o Cristo-Rei de costa para nós, é certo, mas Cristo é sempre lindo, mesmo de costas, e todo o casario branco de Almada, elevando-se, uma grande vista.
Eu estava nos vintes, fascinada com as leituras da geração do Orpheu,  Rimbaud, Duras, o que apanhasse de bom, e a selva da sala transcendia a minha escassa tolerância estética. Considerava a mamã uma pessoa de mau gosto, antiquada e assaloiada. Tinha vergonha do tropicalismo e desdenhava a casa, destilando a minha raiva em sugestões desagradáveis sobre o seu aspeto, com secura e amargueza. Não se podia negar que tinha nascido em Moçambique, que estava cheia desse ar, mas tirando o Arcanjo, que viera de Benguela e com quem tivera algumas discussões sobre a beleza e valor das duas ex-colónias, todos os meus amigos eram portugueses, e não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os meus pais acabados de chegar de Moçambique. Odiava-os de morte. Desejava que morressem num acidente automóvel com o Renault 9 cor de café com leite, a caminho de qualquer localidade onde fossem visitar os outros retornados com os quais auguravam o pior dos futuros para a África negra. Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avançar. Não via futuro para mim. Ser órfã tardia constituía a única salvação ao meu alcance. Se os meus pais desaparecessem, o meu caminho ficaria livre, como já estava mais ou menos, desde que tinha chegado de Moçambique. Livre para ler, para beber e chegar tarde, para o sexo com quem me apetecesse, e como apetecia, embora as condições físicas se apresentassem desfavoráveis. O meu corpo não se conformava. Os pneus na cintura, a barriga saliente, as mamas grandes e suspensas não se adequavam ao padrão, mas havia outros trunfos que me iam permitindo furar; uma cara bonita, com lindos olhos amarelos, lábios pulposos, atrevimento e palavra forte. E escrevia bem. Escrever bem era uma fonte de admiradores.
As minhas palavras duras, o meu desdém e repúdio da casa levaram a que a mamã fosse lentamente retirando as plantas da sala, até que um dia cheguei do emprego e as cortara todas, abdicando do seu grande orgulho decorativo. Odiava a minha mãe. A minha mãe odiava-me, contudo queria que a casa fosse minha, que a casa me agradasse, que eu estivesse na casa. Aprovei, arrogantemente. Respondi-lhe que já o devia ter feito há mais tempo. Não agradeci, sempre me julguei dona e senhora, sempre considerei que o mundo tinha de me prestar a devida vassalagem. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Doce, fundo, claro poço da verdade

Foto: Jessica Dimmock

A verdade é demasiado pura para ser desperdiçada.
Em 1978, as mamas da Nicha estavam em crescimento e eram pequeníssimas pêras assimétricas e duras com mamilos marron.
Hoje consigo admitir que tive uma paixoneta pela Nicha. Lavava-lhe as meias, os soutiens e as cuecas, mesmo as manchadas pelo período, como se lavasse a roupa do meu corpo, mas sagrado. Um reboliço desejado, oloroso, comestível onde me enfiaria inteira de bom grado, se a fusão dos corpos existisse. Servia Nicha como servimos sempre a quem amamos, por bem, por vontade, sem esforço nem favor. Passava-lhe o creme pelo corpo, aos sábados de manhã, exceto nas mamas e nas partes do pudor genital. Tinha acesso ao resto. Nicha despia-se devagar, e era melhor que uma estátua modelar, porque estava viva, os músculos pulsavam sob a pele, e meneava-se iluminada pela claridade da luz matinal, insuportável para os olhos, mas coada pela cortina bordada da janela da nossa camarata, sorrindo, murmurando vagamente um “sinto um bocado de frio para estar descoberta”, deixando uma impressão de enfado pela ação que se seguiria, embora lhe desse jeito hidratar a pele, sobretudo a das costas, onde não conseguia chegar. Estendia-se de bruços e eu fazia a massagem render enquanto Nicha relaxava com os braços pendurados, um de cada lado da cama, e se deixava passar para o outro mundo do prazer. Tinha a pele grossa como cabedal, ligeiramente escurecida, e o cabelo em cachos castanhos-escuros muito compridos. Era angolana branca e aquilo devia ser uma pele de angolanos brancos um bocado misturados. Depilava-se aos 15. A mãe fazia depilações para fora. Eu não possuía informação sobre depilações, utilidade nem funcionalidade, e escutava com atenção a descrição das técnicas. O pai era mecânico de Kawasaki e Angola era praticamente toda dele, nas palavras da filha. A Restinga ou lá o que era, também. Eu trabalhava devagar nas suas costas, braços e pernas.
As nossas colegas, bem como as perfeitas, acharam os rituais sabatinos ligeiramente questionáveis, embora nada pudessem censurar do ponto de vista “legal”. Estava tudo dentro dos costumes entre raparigas, mas pelo colégio começaram a correr certos rumores, sobre mim e a Nicha, que em nada beliscaram a sua reputação de beleza africana branca, bela entre as belas.
Num dos sábados, a mão direita resvalou-me e escorregou, cheia de body milk ou óleo Johnson, pela mama da Nicha, segurando-a pelo lado externo, deslizando depois por baixo, desejando palpá-la no côncavo da mão, sentir a densidade daquele pomo de formidável viço, a borracha tensa e morna que me chamava, inteira. Foram três segundos. Nicha despertou, gritou “és parva”, e bateu-me na cabeça com o objeto que lhe veio à mão, no caso, um dos sapatos que tinha comprado na semana anterior para assistir ao concurso de dança, no colégio, essa noite, em camurça preta, com salto agulha. Não tinha a intenção de me agredir, mas apenas de me fazer parar com o abuso de confiança. Não pretendia magoar-me, mas marcar a sua posição de virgem inatingível e inatacável, cuja sensualidade não se encontrava guardada para as minhas mãos, mas para as do domador de leões que seis anos mais tarde a engravidaria numa rapidinha ao ar livre no Campo Grande, e a levaria para viver nos bastidores baços do circo. O seu corpo era material reservado, eu não passava de uma servente, e ela estava ali para ser servida. Era só o que a Nicha pretendia esclarecer quando me atingiu com o fino salto alto do lindíssimo sapato de camurça, abrindo-me um lanho na pele do crânio, ao mesmo tempo que se virava para me esbofetear com a mão esquerda. Não foi preciso. Não teve oportunidade. A ponta do salto, em formato agulha, prendeu-se na pele rasgada do golpe aberto, e tendo ela puxado o sapato, para que saísse, traçou na minha cabeça uma ferida maior, uma estrada de sangue. Foi um acidente vulgar. Levei a mão ao local da pancada e ardor, trouxe-a ensanguentada junto aos olhos, gritei, ela gritou, enquanto tapava as mamas, senti o sangue escorrer pelo pescoço, a perfeita acorreu, um número indeterminado de colegas assomou à porta da camarata, onde nos tinham deixado “naqueles lindos preparos”, alguém me levou de urgência para o hospital no automóvel da senhora diretora, que ficou com os assentos todos manchados, limpeza que mais tarde o meu pai teve de pagar, e pelo colégio inteiro, feminino e masculino, correu o boato de que eu e a Nicha tínhamos tido uma violenta briga de casal e acabáramos. Errado. Não acabámos a não ser meia dúzia de anos mais tarde, e não voltei a tocar-lhe nas mamas, porque não se pode ter tudo, vamos aprendendo a preço de sangue. Mas fui olhando. Olhar não está regulamentado pelos costumes.
Nicha continuou a ser a rapariga mais linda e desejada do colégio, e eu singrei na carreira de barril de sebo, também orca, a fúria dos mares, também baleia azul, também bola de Berlim ou boneco Michelin, e na obtenção de boas notas na escola, ao mesmo tempo que lhe realizava os trabalhos de todas as disciplinas e oferecia explicações de línguas, para que chegasse à positiva, a custo, é certo, mas dando para passar. Continuei a lavar e esfregar a sua roupa no tanque do quintal, numa bacia azul escura, quadrada, na qual se formava, sobre a água da lavagem, uma espuma castanha, quando lhe vinha o período. Ficava com os dedos engelhados e muito brancos da água gelada, de esfregar com força e pingos de lixívia, para que a sua roupa interior, que depois estenderia no varal e passaria a ferro, ficasse branca como o meu olhar já cego, que ainda julgava ver, nesses dias. A minha roupa podia ter nódoas. O que importava o que era meu?!
Esta é a verdade.
Ficou-me, para o resto da vida, uma feíssima e extensa cicatriz na têmpora direita, acima da orelha, que escondo sob o cabelo, mas por vezes tenho de exibir, quando realizo exames médicos, testo óculos ou corto o cabelo.
Poderia dizer a verdade quando me perguntam “o que foi isso”. Não é uma história longa nem complexa. Poderia contá-la sem pormenores, a seco. “Foi um acidente quando era adolescente; na brincadeira, uma colega pegou num sapato e atingiu-me.” Não o faço. Minto. Invento histórias. Já contei que tinha sido vítima de violência doméstica de um namorado que depois denunciei, e dissertei sobre a necessidade de as mulheres não se subordinarem nem deixarem passar qualquer tipo de ataque dos companheiros. Expliquei que o dito namorado era um monstro, inventei-lhe um nome, contexto de encontro, família, situações do relacionamento, o que gerou muita discussão e catarse de experiências semelhantes. Já contei que tinha sido um acidente automóvel. O meu pai via bastante mal, por causa da miopia, ficou encadeado com os faróis do carro que vinha em sentido contrário, e enfaixámo-nos contra uma árvore na berma da estrada, a caminho das Caldas da Rainha. O carro não teve arranjo e parte da chapa ficou-nos espetada no corpo, rasgando-nos a pele. Se me magoei apenas na cabeça? Não, fiquei igualmente muito rasgada no peito e no abdómen, e explico, de uma virada, com uma única narrativa, quase todas as cicatrizes do meu corpo. Segue-se conversa sobre os problemas de se conduzir num país como Portugal, onde ninguém cumpre as regras, o custo de seguros contra todos os riscos, problemas de visão graves, e grande catarse de experiências relacionadas com acidentes de viação. Devo confessar que a narrativa envolvendo um  acidente com o meu pai é a minha preferida, porque me pedem muito menos precisão de detalhes. Toda a gente parece saber muito bem que é um acidente de viação, e não escandaliza, já a pancada do namorado excita ânimo, curiosidade e desejo de vingança.
Mas a mentira rende e o meu objetivo cumpre-se. Rapidamente a assembleia esquece a cicatriz na cabeça e adiante. Estou aceite.
Eis a doce mentira.

Podem perguntar-me porque invento. Porque não minto com a verdade, contando-a fria, parcial? Haveria de se seguir conversa sobre os excessos dos adolescentes, as parvoíces que lhes passam pela cabeça, as coisas próprias da idade, e catarse sobre experiências semelhantes que todos viveram. Seria certinho como Deus não estar lá em cima a olhar para mim, castigadoramente. Por que não o faço? Porque a elaboração da mentira me evade e me protege de mim, do que sinto e do que fui? Porque sou o que fui, acrescentando-lhe dois ou três empréstimos desnecessários, mas, genuinamente, o que veio primeiro? Porque a verdade é bela demais para a devassa, excessivamente pura para a profanação?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mijo

Foto: Bruno Boudjelal


Porque me leva todo o presente para a experiência do passado? Precisa a vivência presente de validação ou apenas se reconhece na repetição?
- Quando chegarmos, tenho prioridade na ida à casa de banho - esclareceu Cláudia enquanto acelerava. 
- Certo, mas não fizeste o xixi todo no campo? - perguntei, brincando.
- Foi uma mija parcial.
Ri-me. Olhei para fora. Estava escuro e não se via nada. Na cabeça vi-me a chegar a casa com a minha mãe. As alucinações que não me afligem, apenas me ocupam. O meu pai estacionava o carro, nós corríamos para a casa de banho, para ver quem chegava primeiro, ambas aflitas. Chegava eu, mas baixava as cuecas e ocupava o bidé, a rir, a rir, mijando no espaço não autorizado, enquanto ela me dizia, complacente, "aí não podes, menina; não se faz xixi no bidé, menina." E eu, "agora já está."
Nessa altura ainda não sabia que ela ia morrer, apenas que se morria, mas não ela nem eu. Não podia conceber que um dia a sua voz, tão clara e viva no meu cérebro, como a ouço neste momento, não estaria comigo nunca mais. Carne prolongada de mim. A carne inimiga mais amiga.  A voz vinda do passado. Uma doçura firme, "não podes fazer, não quero que faças, não te deixas dobrar, menina". Amantes inimigas sem explicação, mijando juntas pela eternidade fora, rindo, rindo e mijando, um retrato parado. Não são rosas nem vinho nem ouro nem jasmim, mas mijo louro, que alívio. Este retrato parado da minha mãe que me amou sem mansidões nem afetos. 
Cláudia estaciona à porta e corre para casa. Saio devagar, esvazio a bagageira. Sorrio enquanto recordo a voz da minha mãe. Um dia todos percebemos que o tempo acaba. E está certo.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pela economia paralela, marchar, marchar

Foto de Vítor Cid

A um técnico superior devidamente assalariado, em Portugal, convém manter contabilidade doméstica. Digo técnico superior porque estou a pensar num rendimento mensal superior a mil euros, ou seja, uma fortuna. O técnico superior não pode gastar levianamente em extras, e jamais sem consultar o saldo bancário, mesmo em básicos. Vamos lá ver: se o técnico superior precisar de pintar a casa, e de realizar nela um conjunto de reparações diversas, entre contratar uma empresa qualificada, que emitirá um recibo para dedução no IRS, a troco de boa nota, ou combinar o trabalho com um biscateiro que faça o mesmo, trabalhando à razão de 50 ou 60 euros diários, não passando recibo, não declarando, nada, tudo em paralelo, que solução escolherá o técnico superior por muita civilidade que tenha acumulado? Dar trabalho na economia paralela ao sr. Maurício, desempregado da construção civil, que se conhece do café, vive do rendimento mínimo, e precisa de ganhar algum por fora, para sobreviver,  beneficia duas casas. Há que fazer pela vida. Para onde prefere o técnico superior que a sua parca poupança vá? Claro que a empresa desconhecida, fria, formal, careira, porque paga os seus impostos certinhos e contribuições sociais, tudo legal, vai à falência e a economia não se aguenta. Poder-se-ia contratar o Sr. Maurício enquanto empresa, mas o sr. Maurício não aguenta os impostos, portanto a economia paralela continua a ser a única opção de vida para a classe baixa a que se chama média. As empresas servem empresas e ricos (não especulemos agora sobre como acumularam riqueza, mas a trabalhar não foi) com dinheiro para o offshore. Os pobres desenrascam-se uns com os outros nos dias em que não estão a vergar a mola para ganhar os seus mil euros mensais, caso sejam técnicos superiores muito bem pagos. Portanto, caros economistas, políticos e afins, ou os salários sobem ou os impostos descem, mas sem uma destas prerrogativas não há hipótese de eliminar a fuga ao fisco nem de os cidadãos sentirem algum orgulho em contribuir para o desenvolvimento da nação através do pagamento de taxas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Indigente sofre

Pela primeira vez em muitos anos, o pobre retém a ideia de que talvez haja, em Portugal, um primeiro-ministro competente, solidário e atento aos problemas do País. E vem-lhe um surto de medo. Quando a fartura é alguma o pobre desconfia no minuto
O pobre continua pobrezinho, mas percebe movimentações que poderão ter desenvolvimentos propícios a uma descida na hierarquia de indigência para a qual foi atirado. Reza aos santinhos todos para que as suas impressões não o enganem.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cagando sobre as massas



Eis uma crónica que vão detestar. Avisei.
No seu primeiro volume intitulado Adolf Hitler Ascent, Volker Ulrich aborda a questão do culto do líder e do nascimento de uma ideologia como o nazismo. Defende a ideia da "centralidade de Hitler na definição do que veio a ser o nazismo". Fica claro que não é da ideologia que sai o líder, mas o reverso. Pelo menos, neste caso concreto, e a história não estará isenta de muitos outros. A isto chamo fenómenos de massas ou pressão dos pares, comportamentos disseminados pelas diversas esferas culturais: política, desporto, moda, sexo, ecologia, consumos alimentares, religião, e por aí fora. 
Os fenómenos de massas não são bons nem maus, tal como o telefone, a televisão, a internet, um pau ou uma pedra: depende do uso. Na última meia dúzia de anos gerou-se um culto do gin como bebida de eleição para momentos de lazer e convívio. Antigamente existiriam umas duas marcas conhecidas, hoje há cerca de 30, e em Lisboa e Almada encontram-se autodenominados gin bars. Lembro-me dos anos do vodka, do uísque, mas agora estão fora de moda. Só os cotas os consomem. Cotas como eu ou mais ou menos. Mas o gin tem a sua graça.
Sendo eu jovem adulta, recordo que esteve na moda sairmos pela cidade velha, almoçando ou jantando bacalhau à Braz ou carne de porco à alentejana e vinho tinto. Lisboa: Alfama, Costa do Castelo, Graça, Mouraria. Não havia turistas como hoje. Um ou outro que passava sem alarido. Uma calmaria. Mas agora temos restaurantes veggie, ou pelo menos com essa opção, e essa admirável mudança, sendo de massas, como o turismo, parece-me positiva. 
Também me lembro do tempo em que não se reciclava uma única embalagem, qualquer que fosse o material nem se apanhavam dejetos de cães. Eis outro fenómeno de massas que veio por bem. Se o cãozinho calha fazer cocó sem que tenhamos saco com que apanhar, sentimo-nos devorados pela culpa de desprezíveis cidadãos prevaricadores e imaginamos mil olhos que nos vigiam e censuram. E vigiam.
Passemos a outro fenómeno de massas, igualmente relacionado com escatologia, que chegou aí pelos finais dos anos 80: chamar ratazanas com asas aos pombos. Durante muito tempo foram pombinhos lindos, e as crianças e pessoas sensíveis atiravam-lhes milho e pão esfarelado, ficando a vê-los debicar. Estimavam-se no adro das igrejas, nas praças, nos telhados e jardins. Existiam pombais aqui e ali. Nos dias de hoje, transformaram-se em "transmissores de doenças que cagam tudo", mas só os da cidade e os cinzentos. Se forem do campo ainda se lhes pode chamar pombinhos, mesmo que trucidem couves, e se forem brancos mudam de género e passam a designar-se pombinhas imaculadas, cagando menos, penso eu, porque os aceitam mais facilmente. Há que, coerentemente, iniciar o revisionismo da iconografia de São Francisco de Assis, mandando apagar pombos e outras aves que alimenta amorosamente, porque o exemplo manda servis os puros e excluídos. Já não estamos no tempo dos santos nem dos mártires nem do bagaço nem da tasca nem da pureza nem da humildade nem de nada que seja livre, sobretudo pombos, pensamento e vontade. É em tempos destes que costumam aparecer os hitleres, mas não devo estar muito longe da verdade se considerar que os tempos vêm sendo quase iguais desde o início, portanto resta-me resistir a mais um fenómeno de massas, cuja origem e sentido me ultrapassa, como tantos outros, continuar fiel aos meus princípios e a tudo o que seja anarca e cague sobre as massas sem pensamento nem piedade. Santos pombos!

domingo, 10 de abril de 2016

A minha avó Margarida


Hoje, dia 10 de abril, fosse a minha avó paterna viva e faria 113 anos. Desconheço as datas de nascimento dos meus restantes avós, não podendo celebrá-las. Não acalento qualquer estima particular pela celebração de aniversários e tenho até má memória para datas, combinações de números e nomes. Contudo, recordar as datas relacionadas com a vida dos meus antecessores é a minha forma de me rebelar contra a morte, e pior, o esquecimento. 
Não senti grande amor pela minha avó, mulher já afetada pela doença de Alzheimer quando a conheci, mas admirei essa mulher resistente e teimosa, um espírito compassivo, habituado à solidão e ao sacrifício. Uma santa na sua cela anónima. Era quase cega e trabalhava como se visse. Amava os seus pombos, bem como todos os animais que lhe surgissem ao caminho. Fazia um grande esforço para ler, com as folhas do jornal quase coladas ao globo ocular, porque saber ler e escrever era um luxo, o seu único luxo. Não tinha vícios. Rezava. Cantava. Pensava. A sua grande dor não foi o filho ter-lhe fugido para África nem ser pobre, mas ter de vender pombos, rolas e galinhas que os outros depois matavam para comer. Isso doía-lhe. E a mim também. Poupou uma fortuna em notas de vinte escudos que guardou numa lata enterrada na capoeira nas galinhas. Quando descobrimos a herança, décadas mais tarde - ainda era viva, mas já não sabia quem era - as notas enroladas transformaram-se em pó no momento em que foram tocadas. Ficámos com as mãos cheias de farinha de papel, pensando, cada um à sua maneira, que não é grande ideia adiar a felicidade.
Os meus restantes avós tiveram outras netas que poderão manter viva a sua memória. Esta não. Não há ninguém que possa dizer "chamou-se Margarida de Almeida e nasceu a 10 de abril de 1903, no lugar da Columbeira, na Roliça, filha de Maria Vitória e de pai cujo nome a lei da morte já soterrou." Portanto, cá estou eu cumprindo a minha revolta, e conjurando contra o nada que um dia me levará. Feliz aniversário, avó Margarida. Lembro-me de ti.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma espécie de psicose

Fotograma de Yvone Kane, de Margarida Cardoso



A semana passada vi Ivone Kane, de Margarida Cardoso, na RTP2. Margarida Cardoso filma bem, tem aqui um luxuoso argumento e um naipe de atores excecional. Alguns dos melhores filmes portugueses da última década são sobre África e ainda agora comecámos. Se isto não fosse quase uma heresia, atrever-me-ia a afirmar que há bom cinema em Portugal. 
Vejo e leio muito sobre África e a relação passada e presente com o território. Alguns assuntos deixo passar, porque me cansa. A minha vida seria mais leve se não carregasse comigo parte da história política da descolonização. Estão sempre a convidar-me para falar destes assuntos, e já me ocorreu responder, "desculpe, não sei do que fala, nasci em Almada, nunca saí daqui". 
Nunca vejo filmes como Yvone Kane vendo apenas a obra. Tenho de estar atenta aos décors. Tenho de procurar reconhecer tudo. Lugares. Formas de falar. Traços físicos que me permitam ver, naqueles, os meus africanos. Os meus. Leia-se este pronome possessivo como se entender. Muito depois de eu morrer, e isso levará tempo, o silêncio das memórias estará esvaziado deste inocente e involuntário enunciado. 
Menciono Yvone Kane, porque, enquanto via o filme, rodado em alguns locais da cidade do Maputo e arredores, pensava que deveria regressar. Para visitar. Há mercados na beira da estrada. Bairros de casas pobres. Reconheço aquele caos populacional e habitacional. As cores, a luz, a aparente desarrumação. Respiro fundo, aliviada, revendo a minha casa. É ali. Respiro fundo, mesmo. Aquele é o lugar proibido onde abri os olhos e registei na mente as primeiras sensações. O meu modelo de mundo. Um caos. Pensei que visitar Maputo será perigoso, porque tendemos a querer ficar na nossa casa. Tenho medo que me aconteça. Não sou inocente. Não sou bem vinda na minha casa, sei. 
Falei disto na grupanálise e afirmei que sou um terceiro lugar, um não lugar, aquele "qualquer coisa de intermédio" que não é nada certo. O caos. Fiquei com a ideia que alguém terá enunciado a ideia de que eu própria sou um caos. Ficou-me na cabeça. Não sou inocente. Em psicanálise ninguém enuncia nada por nós. Julgo-me, portanto, um caos. Sim, sim, vendo de fora, ou de dentro, um caos, disfarçado, é certo, mas inegável. 
Vinha para casa de carro, pensando nisto, e ocorreu-me aquela verbalização bíblica do Genésis, de que no princípio era o caos. Pois bem, no princípio sou eu. Estou lá. Mas no princípio e no fim está sempre Deus. E eu. Se calhar, até sou Deus. Seja como for, está na hora de Deus tomar o Xanax e ir dormir, para ver se começa a levantar-se mais cedo. Deus culpa-se.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma pessoa escrevia sobre quê?

As pessoas próximas vivem as horas, falando e agindo na minha presença. Escuto e olho. Depois voltam-se e avisam-me, "isto não é para pores no blogue". Respondo, "ai, não, que não é!", enquanto sorrio. Pensam que estou a brincar. Deixá-los pensar.

Uma ideia bonita que transmiti a uma amiga

A haver alguma evolução das espécies, terão se de ser os humanos a evoluir para animais, porque os animais, tenho observado, são muito melhores, mais completos e perfeitos do que nós. Portanto, é tudo ao contrário do que pensamos.
Isto foi porque o priminho autista disse à minha amiga que os animais são bons, que os animais são uma boa companhia para os humanos. Os autistas também são melhores do que nós.

Receita (pessoal) para viver

Paracetamol, omeprazol, diclofenac. Alprazolam.
Avie-se.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Educação religiosa nas escolas?

Missa nas escolas?! Não nos faltava mais nada!
A formação religiosa não cabe às escolas públicas. Posso admitir que um colégio religioso tenha atividades extracurriculares dessa natureza, mas a função da escola é formar para a cidadania. Nas escolas públicas não deveríamos sequer ter Educação Moral ou Religiosa Católica ou de outras tendências religiosas. O Estado deve aceitar as diferentes expressões religiosas, mas não promovê-las nem financiá-las. A escola forma cidadãos, não cultiva crentes. 
Já nos basta a lavagem cerebral de duvidosa normalidade social que os jovens recebem no nosso sistema de ensino. Eu sou o grão de areia na engrenagem. Não contem comigo.

O meu enorme ego


No meu círculo de amigos, ultimamente, fala-se muito de ego, e normalmente a conversa acaba no meu. Sou autoritária. Não gosto de ser contrariada. Continuo muito teimosa. Estou convencida de que eu é que sei, e faço só o que bem entendo sem piedade pela opinião alheia. Por aí fora. É tudo verdade. Sou autoritária, não gosto de ser contrariada e a maior parte das vezes eu é que sei, e faço mesmo só o que entendo. Sou teimosa, felizmente, o que me tem tornado capaz de viver autonomamente, portanto levo décadas a desistir de projetos. Esgoto as suas possibilidades. Registe-se uma ressalva em minha defesa: digo o que observo e penso, mas não pretendo converter. Se o que penso e exprimo serve alguém, melhor, se não, adiante. Não têm de me prestar contas das suas ações nem de se justificar. Aceito cada um com as contingências que o caracterizam, durante algumas horas por dia, desde que me seja possível recolher ao meu habitat, onde sou autoritária e teimosa só comigo. É o Jardim do Éden. Não passo os dias a nomear e censurar o ego alheio. Não me ocorre. As pessoas são como são. No máximo penso "é chato(a), livra!" e circulo. A constante nomeação do ego, do aquietar da mente e do namasté,om shanti om, por vezes, a mim, parece-me um estado autoritário, por enquanto soft. Há quem leia este enunciado e pense "coitada, está num estádio de desenvolvimento espiritual ainda muito primitivo". Estarei, mas estados autoritários só se não lhes puder fugir. Sou a favor do desprendimento, do nirvana, do desaparecer daqui para fora e não ter de sofrer o mundo, tudo o que queiram, mas evitem culpar os gigantescos egos dos vizinhos do lado. Há momentos em que me apetece responder como quando andava na primária e nos insultavam: "quem diz é quem é".

quarta-feira, 9 de março de 2016

No living "la vida loca"



A cadela ladrou de manhã, mas sosseguei-a e voltámos a dormir. Era apenas Hans que saía. Levantei-me tarde e vi um bilhete manuscrito sobre a mesa da cozinha. “Ir resto semana Marrocos, porque amanhã centenário declaração de guerra  Alemanha para Portugal e não aguentar questões estúpidos de colegas da faculdade”. Haverá quem possa considerar esta atitude um bocado cobarde da sua parte, mas o rapaz não herdou as dívidas políticas dos seus antecessores.
Por outro lado, não sei se este intercâmbio foi a melhor ideia. A disciplina cansa-me bastante, e viver com Hans is no “la vida loca”.
Continua obcecado com o seu trabalho focado na renegociação da dívida, de acordo com a orientação de Yanis Varoufakis, mas lamenta a falta de bibliografia existente nas nossas bibliotecas. De imediato, lhe pedi que desse notícia a Frau Angela Merkel. Não gostou. Considera que o sul da Europa acumula muitos preconceitos em relação aos alemães. A parte não é o todo e o todo não é a parte, reclama.
Queixa-se da reduzida carga de trabalho exigida pelos professores. A excelência pede sacrifício do prazer. Não podemos obter recompensas imediatas. Há que perseverar. Insistir. Exercício. Confirmar e melhorar pela repetição. Cita o seu avô Friedrich: “o bom trabalho é o trabalho completo”, enquanto limpa o chão de toda a casa com lixívia e esfregona, embora a Ninah só tenha mijado na entrada da porta. Grito-lhe, “estás a molhar mais, estás a molhar tudo”. Responde “o bom trabalho é o trabalho completo”.
Não suporto a lida doméstica, portanto, havendo mais um em casa, mandei vir de novo a mulher-a-dias, para facilitar. Hans mostrou-se agradado, por darmos trabalho a mais uma pessoa. Pareceu-lhe, por segundos, que eu poderia estar num grau civilizacional semelhante ao seu, mas logo se desiludiu e indignou ao descobrir que a empregada recebe pouco mais de 6 euros à hora.
“Tão pouco? Como é possível? Como poderá sobreviver? Temos de pagar mais.” Respondi que não poderíamos fazê-lo sem correr o risco de desestruturar os orçamentos familiares de toda a Margem Sul. Expliquei que esse é o preço do trabalho doméstico, por aqui, logo, se pagarmos acima, ela exigirá mais dinheiro nas outras casas, o que, por sua vez, num efeito de contágio, levará as restantes empregadas a exigir o mesmo. Ora, as pessoas já fazem grande sacrifício para pagar o atual valor. Disse-lhe mesmo, “de economia percebes tu e o Varoufakis, mas isto parece-me elementar”. Olhou-me duvidoso e retorquiu que teríamos de a recompensar principescamente na Páscoa. Para atalhar disse que sim. Este rapaz não tem a menor ideia de como se vive no Sul, mas deixemo-lo andar com o projeto de renegociação da dívida. Precisamos de milagres e a verdade é que o bom trabalho é o trabalho completo.