Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Carne viva

Fotograma de Em Carne Viva, de Pedro Almodovar




O silêncio das manhãs de domingo é o mais completo. Não se escutam as crianças a gritar na escola. As mulheres e o homens pararam de circular, cruzando-se na azáfama das compras. Os automóveis circulam devarinho, e o ruído dos pneus sobre o alcatrão desvanece-se. Não ouço os autocarros descendo a avenida nem o metro de superfície. Parece que a humanidade desertou e estou só no mundo, finalmente, como fantasiei a vida inteira. Deixaram-me em paz com as minhas memórias e fantasmas, desistiram de me julgar, e posso finalmente ser apenas o que sou dentro da carne. Carne viva sem tribunal.

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

A subalterna

Fotograma de Lolita, por Stanley Kubrik



A Nini chegou mais tarde ao colégio. O diretor chamou-me à sala das visitas. O que tinha eu em comum com Nini? Os pais em África. De resto, entrou na minha vida para me tornar mais consciente de que eu não prestava. Os meus cabelos eram claros, finos e quebradiços. As mamas grandes demais, a anca, as pernas. Celulite, miopia. Ventre dilatado.

Nini, magra, longos cabelos fortes, ondulados e castanhos-escuros repuxados nas têmporas, com intuito de ajaponesar os olhos, jeans muito justos torneando a perna fina, barriga chata, peito pequeno.
Eu era amiga e subalterna. A boa, a inteligente, a serviçal feia que lhe lavava as cuecas, a massajava aos sábados com loção hidratante, e se sentia amada por ser útil e tocar esse corpo tão perfeito como desejaria o seu.
Acompanhar Nini era uma fonte de stress. Nini atraía os olhares dos rapazes, e isso piorava a minha situação. Estando ao seu lado, facilmente veriam a bela e, dois passos atrás, o monstro. Íamos de férias, clandestinas, mentirosas, para casa da família. Viajávamos de comboio pela manhã azul e orvalhada em direção ao Alentejo. Depois, no apartamento desabitado que pertencia aos pais, onde nos refugiávamos das proibições e regras impostas às meninas, Nini queria ser uma estrela, vestir-se como uma, ir à piscina, à discoteca, aos bailes, e isso implicava despir, expor o meu corpo, a minha voz e alma triste. Os rapazes rodeavam-na. Chamava-me. Esta é a minha amiga, dizia. Eles riam-se, troçando de mim. Troçavam?! Certamente. Seria possível não troçarem, eu, tão feia, temendo a sombra humana como loba acossada, seria possível verem-me graça?! Ajeito-me a mim. O meu corpo tão teso que mais tarde sentirei dores nos músculos das pernas. Calo-me. Oh, esqueçam-me, por favor. Insultem-me, mandem-me para um lugar muito distante. Digam-me o que espero e não façam mesuras, como se me aceitassem. Sei que não. Digam-me, ó gorda, vai ver se lá fora está a chover, desampara. De bom grado ficarei encostada à porta dos bombeiros, escutando as grosserias dos velhos disformes, bêbedos, violadores reais ou mentais. Digam-me, olha lá, ó barril de banha, quando é que fazes dieta? Não fumas? Não, respondo. Não bebes?! Bebo. Pode ser qualquer coisa doce e muito alcoólica. Beber, bebia, claro. Beber era fácil, toldava primeiro devagar, depois sem freio.
Fumavam-se charros em grupo, e a gorda passava sem travar. Não queres? Não, obrigada. Obrigada?! Maldita eu. Aprender a falar, já que não sabia fumar, seria oportuno. Como é que falavam?! Iá. Passa, meu. Toma, pá. Não me bastava ser gorda, mas não conhecia os códigos, não sabia soltar-me, dizer coisas sem sentido, verdadeiramente jovens. Era straight. Tinha engolido o pau da vassoura.
No final da noite dormiria com ela na cama torneada dos pais. A melhor altura do dia. Conversaríamos antes de dormir, conversaríamos ao acordar. Confecionaríamos o jantar como se fôssemos um casal e comê-lo-íamos à luz das velas como crescidas e príncipe uma para a outra. Bem vestidas e penteadas, eu sempre feia, mas arranjadinha, falaríamos devagar, e já era o futuro. Pronto, agora eu já tinha 20 anos e o meu pai já me deixava namorar, onde quer que ele se encontrasse, e faz de conta que agora estávamos juntos; ela faz de conta que era o meu amor, e gostava de mim assim, assim tal e qual como eu era, com a barriga, o rabo, as mamas caídas. Sentia-me bem, o calor do amor, devia ser amor, percorria as minhas veias. O meu sangue fluidificava-se. Ser amada era bom. Agora não era gorda. Faz de conta. Agora esqueço isso de ser gorda. Somos só as duas e ela gosta tanto de mim e depois vamos dormir. Contar-me-á histórias de quando era campeã de motocross numa Kawasaki e campeã de ténis com o Bjorn Borg, que conhecia pessoalmente, de a ter cumprimentado, e campeã do sangue, porque o seu era único, o melhor do mundo, por isso é que os americanos da CIA a levavam todos os anos, nas férias, para uma infraestrutura subterrânea, num deserto, e a sujeitavam a todo o tipo de testes, em ambiente estéril, transportando-a de olhos vendados para que jamais pudesse seguir a pista, e ninguém sabia disto, só ela e os pais, e eu não podia contar, não, não contaria, claro, a quem iria eu contar uma coisa dessas, e se era segredo, era segredo, um sangue único, sim, e descobriram-no ao fazer-lhe testes por causa do desporto, sabe-se tudo e um dia chegaram junto dos pais e pediram para lhes falar - e também era campeã de wind sur, estás a ver esta foto?!, esta prancha que se vê ao longe, sou eu. Era um campeonato; ganhei o primeiro prémio. Também sabe fazer wind surf, como se não bastasse ter as mamas pequeninas e direitas e a cinturinha sem pneu! Perfeita. E depois deitávamo-nos nos nossos pijaminhas com lacinhos e o seu corpo era um sofrimento, uma quentura, uma perdição.

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Louca bem comportada

Passei a tarde com o senhor Simões. Solicitou-me audiência para tentar perceber por que não escrevo no blogue há um mês e perceber como está o próximo livro. Expliquei-lhe que tenho uma vida profissional que consome as energias criativas, que ao fim-de-semana tenho estado ocupada com afazeres caseiros, que aguardo férias, que preciso de realizar uma viagem espiritual, eventualmente um retiro.
- A menina precisa é de se dar. – respondeu. – A menina precisa é de sair, conviver, conhecer o mundo. A menina precisa de se inspirar no contacto com os outros ou não desencalha.
Não respondi, porque, ultimamente, o senhor Simões cansa-me.
- Passa muito tempo no Facebook. O seu problema é esse.
Os moralismos do senhor Simões. A lista de preconceitos própria dos infoexcluídos.
- A menina, se lhe tiram o Facebook, sofre de sindroma de abstinência. Mas que o use para se promover, vá. Use-o bem, por amor de Deus. Continue a publicar no blogue, para o mundo perceber que está no ativo, e meta o linquezinho para o Facebook, como fazem os espertos. seja inteligente. Não gaste as suas energias numa rede social fechada onde tem apenas meia dúzia de amigos.
- Quinhentos e tal, senhor Simões.
- Ena, tanto amigo! Aproveite, saia da sua redoma e misture-se com eles, jovem. Deixe de ser a filha única dos papás. Não está farta de se portar bem?! Já pensou na quantidade de experiências que não viveu e que lamenta não ter vivido porque quis portar-se bem a vida inteira?! Se quer escrever deve conhecer o mundo, sair.
- Como é que sabe? Para o que lhe deu hoje, senhor Simões. Nunca o vi tão interessado na minha vida social. Tem de escolher se quer que escreva ou que saia. Ou uma coisa ou outra. Pensei que me censurasse os convívios.
- Engana-se. O que lhe censuro são as más figuras nos convívios. Que fale alte, que se exprima toda como se fosse o Álvaro de Campos. Pense na Lídia Jorge. Tenha-a como exemplo. Pense nas outras grandes figuras que sabem pensar um discurso e mantê-lo inalterável dez, quinze vezes seguidas, e exprima-se com comedimento. Mas, primeiro, escreva. E para escrever, viva. Viva, menina, viva. Observe, sobretudo. Ouça. Peça explicações.
- Bem, como é que faço, deixo de me portar bem ou continuo a ser uma menina que não dá desgostos à mamã? Decida-se.
Ficou pensativo. Passou a mão pela testa, suspirou de cansaço e bebeu um golo de Dona Ermelinda, tinto, 2010.
- Não consegue ser tudo isso junto? Uma louca bem comportada?
- Consigo. O senhor está agora aí sentado e existe na minha vida porque fui louca e muito bem comportada a vida inteira.
- Então ponha isso a render e dê-nos dinheiro a ganhar, menina.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Como manter a esperança?


A minha mãe nasceu em 1924 e encontra-se a poucos dias de completar 88 anos. Quando penso na sua vida, reparo que atravessou três quartos do século XX, a ditadura do Estado Novo, a II Guerra Mundial, a emigração dos portugueses para o estrangeiro e colónias e o seu regresso, no caso das últimas. Devo dizer que embora a veja encarar o atual período da nossa história com cuidados, não a vejo assustada ou desanimada. Não lhe pergunto nada, porque percebo que o seu presente não é mais grave ou mais duro que o seu passado, e nunca passou fome, nunca, diz-me - uma assunção de vitória.
A descolonização foi uma época duríssima para todos os que vieram de África, e essa é uma história diversa, que continua por fazer. Perder tudo, as coisas e as referências, atira-nos para um desamparo exilado, um nada inseguro. Porém, na altura em que vivi esta situação, entre os 11 e os 17 anos, e atiro a segunda idade ao acaso, uma vez que não sei quando deixei de ser exilada - penso mesmo que possa nunca ter deixado de o ser - havia em mim esperança. A vida era um perigo, os dias corriam em sobressalto, não sabia onde estaria amanhã nem com quem nem como, mas era temporário. Tinha a certeza absoluta que um dia teria a minha casinha, os meus móveis e gavetas, o meu mundo, outra vez. Questão de meia dúzia de anos, paciência, e, acima de tudo, resistência. Tinha razão, mas falhou-me uma previsão: imaginei que a paz seria eterna. Que não voltaria a sentir-me tão perdida como no dia de hoje. Não me podia ocorrer que as crises são cíclicas, mesmo que o estudasse em história. A história era o que tinha acontecido lá para trás. As guerras com os mouros, com os castelhanos, as intrigas cortesãs, os favorecimentos, tudo acabado, histórias. Eu estava na vida para furar por dentro dela, e era exatamente isso que ia fazer: rasgá-la como espada bem afiada. Acreditava nas ideias, nas pessoas, na justiça humana e divina, na moral, numa ética. E neste enunciado reside a grande diferença: hoje resta-me a justiça divina; a crença no resto foi-se. Perdi a inocência e, sem inocência, como manter a esperança?

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Sentença

Nunca tomei uma estrada principal, e esbracejei sem etiqueta ao longo dos atalhos e desvios pelos quais transportei aqueles que amei, mas eles não sabem.
Depois cheguei a esta clareira e há sol e sombra sobre a terra, e eu saio, e sei - e mais ninguém - que não há estradas principais. Se isso não estava escrito, escrevi-o eu.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Questões politicamente incorretas que me dou ao luxo de propor

Iniciei um processo de adoção em 2007. Em 2008, após visita domiciliária e entrevistas várias com a assistente social e a psicóloga da Segurança Social para apurar a minha idoneidade e capacidade para criar uma criança, fui aceite como candidata, estatuto que determinou a emissão de um certificado de adotante.

Contactei a Segurança Social no mesmo ano, para saber o estado da minha candidatura, que sempre me disseram ser de solução fácil, já que aceitava um filho de qualquer raça, sexo, com mais de 3 anos de idade e algumas doenças crónicas. Sempre parti do princípio que, caso tivesse um filho biológico, de igual forma não poderia escolher uma série de caraterísticas que são determinadas pelo destino - lamento que este vocábulo seja pouco caro à maioria dos leitores.

Em 2009 voltei a contactar a Segurança Social tentando saber o motivo da demora, num caso fácil como o meu. A assistente social afirmou que não havia crianças que cumprissem os meus requisitos. Perguntei quantas pessoas tinha à frente na lista de espera. Duas, fiquei a saber. Só duas, porque ninguém aceitava crianças negras e muito menos com mais de três anos de idade.

Deixei de telefonar e fiquei à espera. Entretanto, o meu projeto de vida sofreu alterações. Já não quero o queria há quase cinco anos. As prioridades mudaram. Vou fazer 49 anos, tenho o meu tempo ocupado em permanência: ter um filho, nesta altura, não seria uma boa ideia. Deveria ter vindo antes.

A semana passada recebi uma carta da Segurança Social na qual me pedem que manifeste por escrito, no prazo de dez dias, a intenção de adotar, caso contrário a minha candidatura será considerada inválida. E ao lê-la, acendeu-se na minha mente uma luz de certeza intuitiva relativamente ao que não passava de uma suspeita: embora a Lei não permita a discriminação de uma mulher solteira num processo de adoção, os motivos pelos quais nunca me foi apresentada qualquer criança (lembro que sempre me foi dito que o meu caso era fácil) terão estado relacionados com o facto de ser sozinha. O celibato põe-me à parte.

E ocorreu-me que ninguém se preocupa em comprovar a idoneidade parental das mães e pais que destroem crianças, por esse mundo fora. Qualquer psicopata nazi pode ter e educar filhos, desde que lhes transmita os genes. E a esses, cá por mim, era esterilizá-los nos centros de saúde, a bem ou a mal. "O senhor Adolfo e a dona Eva vão levar estes injetáveis gratuitos e cheios de vitaminazinhas para lhes darem saúde e energia". E poupava-se muito sofrimento ao mundo.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Uma miúda sentada no degrau da cozinha

Olho para a minha carita de miúda, nas fotos, e penso, não sabias nada. Sonhavas, e tudo se perdeu.
Sorrio nessas fotos da infância, muito impregnada de vida, de modelos, de histórias. Observo-me com ternura, e lamento ter-me enganado e ter sido enganada. Afinal não era como imaginei.
O que sonhei?! Já não me recordo, mas sei que não o tive. Tive-me, e já não foi mau. Decidi as minhas decisões, escolhi o que pude.
Mas quando olho para o meu rosto de menina tenho pena da inocente criança. Eu já sei o seu futuro e ela ainda não, coitadinha. Não imagina que vai comer o pão do diabo. Tão ignorante! E imagino que volto lá atrás, ela está sentada no degrau da cozinha, descalça, com as mãos segurando o queixo, e lhe segredo ao ouvido, querida, não tenhas medo, não deixes que te domestiquem. Ouve, tudo será diferente. E estou junto dela, ajoelhada, amando-a, quando percebo que afinal não se deixou domesticar. Digo-lhe, segue então o teu caminho. Tens tempo para aprender. E enquanto lho digo, sei que vai surpreender-se, lutar, reclamar, e no fim, aceita, porque aceitar é a única saída. Deixo-a sentada no degrau. É bonita. Tem sonhos. Não a posso ajudar.

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Não vão ao ginásio

Preparam a festa de Natal na escola primária frente à minha casa. Cantam à noite, ensaiando as músicas em coro. São mulheres jovens. Talvez mães, professoras, auxiliares. As suas vozes elevam-se e entram-me em casa meio da noite, soltas, livres. Sentem-se contentes. Sozinhas não sabem cantar, mas em conjunto a canção ganha força, liberta. Quero cantar como elas, no meio delas, sem voz, pelo prazer de libertar a música que existe em mim. Andamos tão calados, vamos ao ginásio perder calorias, mas, oh, se cantássemos ao final de dia e regressássemos a casa aliviados! Se cantássemos canções alegres e tristes, populares e eruditas, sem voz, sem pretensões, apenas porque cantar projeta os cansaços à distância. Seríamos todos mais sorridentes, mesmo com cinco cêntimos no bolso,não seríamos?

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

Uma gorda que sorria sempre

Enquanto arrumo armários, abro peças, observo-as, e mal acredito que era a minha roupa de há um ano atrás. O que uma pessoa veste para esconder a gordura!
Não suporto a maior parte das camisolas, mesmo que ainda se encontrem em condições, e possa vesti-las largas, para um efeito blasé. São de má memória. Não quero meter-me dentro desses panos, como se contivessem o efeito simbólico de me transportar muitos quilos atrás; recuso voltar ao espaço-tempo da clausura.
As cuecas grandes, os soutiens velhos. Roupa que comprei por ser a que me servia, não aquela de que gostava. Os pijamas nas gavetas, que abandono! Camisolas sem calças. Tudo desemparceirado, gasto. Dormia com estes trapos? Oh, que gorda tão triste, sorrindo ao longo da travessia!
Lixo! Repenso: esta roupa vestiu-me e não sou desapegada. Custa-me. Talvez possa reciclá-la, cortá-la às tiras para fazer tapetes; em quadrados grandes para panos de limpeza com diversos fins.
Entretanto, onde guardo as roupas antigas da gorda? Escondo-as atrás da porta da casa de banho pequena? Ganho uns dias e logo decidirei o que fazer aos trapos inúmeros, larguíssimos, coçados na anca e nas mamas.

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Em mim, nela

Dei-lhe banho e ajudei-a a sair da banheira. Sentei-a num banco frente ao espelho, enquanto a vestia. Uma camisola interior fina, outra camisola interior grossa, a blusa do pijama, as cuecas, as calças, um casaco, as meias.
- Tens frio?
Não tinha.
A pele muito fina e seca, as costas dobradas em ângulo reto incorrigível; na anca direita, a marca de uma escara cicatrizada.
- Sentes-te bem?
Sentia.
- Agarra as mangas do pijama, para não ficarem dentro do casaco.
Era o que me dizia quando era miúda, "segura as mangas, Isabela, segura as mangas". E eu, fazendo ouvidos de mercador, sabendo que iam subir e dar uma trabalheira a puxar, mas não me apetecia. Nesse instante lembrei-me de mim, pequena, à sua mercê, frágil, contrariada, sendo não mais que a sua vontade e nenhuma outra coisa.
E sem querer, enquanto ela procurava o buraco da manga do casaco, olhei o espelho e vi-nos. Era eu a vesti-la. O meu corpo adulto, cheio de força. O seu, velho, torcido, de onde saí, agora dependente da minha ação, como se trocássemos de identidade. Era eu, mas não me via nitidamente. Via-me ela, antes. Via-a em mim nesse tempo. E por respeito desviei os olhos desse reflexo. Quis deixá-la ficar nesse éter vestindo-me enquanto eu resistia, e ela reclamava, "tens um génio que nunca nenhum homem te conseguirá aturar. "

Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Usar tupperwares mata




Lembrei-me hoje deste caso enquanto arrumava a prateleira das caixas tupperware.

Há poucos anos trabalhei numa fábrica onde me davam pouco tempo para almoçar. Restava-me levar para o emprego uma caixa de plástico com alimentos já cozinhados, e pedir à funcionária do bar que mo aquecesse no microondas. A sua cara de enfado evidenciava que detestava fazê-lo, que não era a sua missão, mas, sem argumentos, lá me aquecia o almocinho enquanto eu esperava com cara de quem nada percebe, sempre sorrindo, como se quem está do outro lado fosse o cúmulo da simpatia. Era uma mulher jovem, franzina, nervosa, intervalando de meia em meia hora para fumar do lado de fora do portão. Tirar o avental e a touca, despir a bata e caminhar até ao exterior não só era uma trabalheira como não permitia ver rendimento nas tarefas do dia, mas ela ia e vinha do portão, pálida, tristonha, de cara fechada.

Um dia disse-me, de rompante, "não traga mais estas caixas". Olhei para ela, perplexa. Teria coragem de se negar a aquecer-me o almoço? Passaram-me mil pensamentos pela cabeça e nenhum deles estava certo. "Como?", respondi. Ela repetiu, "não traga caixas destas; só se for das apropriadas para microondas que se vendem no Continente; este plástico é cancerígeno, não presta; fica com a comida toda envenenada". E enquanto me transmitia a sua mensagem de saúde pública, que nunca cumpri, meteu o recipiente no microondas, pegou no isqueiro e no maço de tabaco e rematou, "olhe, vou lá fora fumar um cigarrinho; quando ouvir o aparelho apitar, pode entrar e tirar a comida, que deve estar quente."

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

A balança

Enquanto aguardava que me atendessem na farmácia, fui passeando pelas estantes com produtos de beleza, para bebés, animais, suplementos vitamícos que costumam ocupar prateleiras de acesso ao público.

A certa altura do percurso ouço uma voz gravada que me diz, "Avalie o seu peso". Tinha-me aproximado da balança, cujo sensor despertara com os meus movimentos. Senti-me incomodada.

Quero avaliar o meu peso, mas, na verdade, prefiro não o fazer. E se engordei um quilo desde Agosto, a última vez que me pesei? No Inverno como alimentos mais calóricos e mexo-me menos.

A minha mente defende-se, "talvez, não, Isabela, talvez estejas na mesma. Talvez tenhas emagrecido um pouco."

A minha mente responde, "Impossível. A barriga estava mais pequena. Tenho a sensação que te está a aparecer, de novo, um pneuzinho na cintura."

E afastei-me da balança e dos meus pensamentos. Tenho de me pesar, obviamente. Não posso evitá-lo. Mas a eterna luta contra o corpo é um fantasma que me assombra os dias. A gorda está sempre presente.

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Cool e desinfetados

Vinha a ouvir rádio enquanto conduzia, e apanhei um programa no qual uma figura pública era convidada a passar discos, justificando as razões da sua escolha.

Escutei a voz de mulher jovem, grave, cava, bem colocada, pausada. Uma voz profissional, o que se confirmou poucos minutos depois, ao referir a sua carreira musical. Penso que fosse cantora solista ou numa banda. Não cheguei a sabê-lo com exatidão porque mudei de canal: irritei-me. Era aquilo a que chamo uma voz encaixilhada, feita para agradar a um grupo urbano, comprometido com uma cultura, uma estética e um chorrilho de clichés na moda, nos quais acreditam e que não pensam ultrapassar. Uma voz que não fala alto, que não muda de tom, não se irrita, não dá um grito, não sai da cama ensonada, enfim, que "sabe estar", escolhendo as músicas aceitáveis, que o meio aceita como cool, alternativas, diferentes.

O meio é tão establisment como o que não o é. Ninguém está aqui para pensar pela sua cabeça, de acordo com os seus valores. Ninguém corre o risco de ser o que é, sem almofadas. Nada de de desvios, de inovações não autenticadas. Não se correm riscos.

Quando ouço o discurso do meio fico com a impressão que já eram apreciadores de Lou Reed, Tom Waits e Diamanda Galla na creche, enquanto os outros meninos aprendiam o "atirei o pau ao gato". Quando me confronto com semelhantes manifestações de parecer, lembro-me sempre do Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos. Serei a única que enrolo os pés nos tapetes das etiquetas e tenho de suportar o piscar de olhos dos moços de hotel? Os outros não vão à casa de banho, não têm dores nos ovários nem infeções oftálmicas? O meio nasceu cool e desinfetado?!

Se o senhor Lima tivesse brasão...

Duarte Lima (foto DN)



Duarte Lima nunca me pareceu flor de bom cheiro. De resto, não sei se tem culpas no caso Rosalina, se é culpado de fraude do BPN ou se deve milhões ao IRS. Até confesso que, sabendo como o Estado tem desperdiçado os nossos impostos, deduzidos em nome de um bem comum nacional, da justiça social, mas acabando em bolsos aos quais nunca chegariam se houvesse justiça económica e social, também sinto um luxurioso desejo de prevaricação.

Em relação a Duarte Lima tenho apenas duas certezas. Primeira, o homem enriqueceu depressa e incompreensivelmente. Em poucas horas desencantou 500 mil euros para liquidar a fiança do filho. O que são 500 mil euros?!

[Num país a sério, a política não serviria para fazer dinheiro, mas em Portugal, quem passa por tutelas acaba com contas no estrangeiro e familiares entupidos de bens, embora apresente saldos pessoais moderados em contas à ordem e a prazo nacionais. A peneira com que tentam tapar o sol tem a moldura sem rede.]

Segunda, Duarte Lima vem do torrão de Trás-os-Montes, o que significa que é um Lima, entre tantos. Não tem amigos de família, não pertence a um clã. As proteções que granjeou na política desapareceram rapidamente. O Lima que se desenrasque, porque. sem família. não se impõe o dever de proteção. Por outro lado, o poder precisa de nomes sacrificáveis para levar à fogueira. E o Lima, lá do torrão, serve.
Se o senhor Lima tivesse outro apelido, família, amigos de família, outro galo cantaria. Uma boa proteção torná-lo-ia alvo difícil.
Quem conta amigos pode dar-se ao luxo de escapar ao braço da Lei e desfrutar a honra de possuir diplomas emitidos aos domingos e dias feriados. Ou isso ou ser giro e pertencer a um lobby qualquer, mas gajos como o Duarte Lima serão sempre alvos fáceis para um sistema nepótico na política, cultura e justiça.

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Sr. Simões desmonta Isabela

Sábado de manhã. Mercado situado algures na Margem Sul, extremamente multirracial.
Quando Chico o encontra, o sr. Simões encontra-se debruçado sobre a banca da d. Irene, escolhendo cenouras para o creme. Já mandou pesar courgete e alho francês, arrumados num saco de plástico, ao lado.
Chico - Sr. Simões, então o Brasil?
Sr. Simões - Oh, rapaz, dê cá um abraço. Já não o via desde quando?
Chico - Desde o Verão. Foi para o paraíso e deixou-nos.
Sr. Simões - O paraíso, diz bem, Chico! Lá é que você arranjava uma rapariga dessas de que gosta. Há para todos os gostos, homem!
Francisco ri-se.
C. - Sr. Simões, a minha coluna está pior que uma estrada no interior do Kosovo...
Sr. S. - Ah, não diga isso. Não se faça de menos.
Francisco mudando de conversa, embaraçado.
C. - Estranho vê-lo na praça, sr. Simões. Costumo encontrar a sua esposa.
Sr. S. - (esboçando uma careta) - Desde que cheguei do Brasil está com uma crise de fígado que não se lhe pode dirigir a palavra. Uma bílis! Há uns tempos, sempre que lhe falo em Brasil, fica assim. Até parece que não tem tudo em casa. Olhe que não lhe falto com nada!
C. - Encontrei-a pelas Almadas a tomar chá com a Isabela, há umas semanas.
Sr. S. - O mal é esse: a Isabela não é boa companhia!
C. - A Isabela não é boa companhia?!
Sr. S. - Para a minha senhora, não. Para si, essas intelectualices de que falam, vá. A Isabela tem ideias muito modernas, percebe?! Muito cheia de opiniões, eu isto, nós aquilo. A minha mulher é doutra geração e a abordagem dá-lhe a volta à cabeça. Quando as sei ao telefone, tremo. As maluquices da Isabela são sempre de evitar.
C. - Mas agora anda sossegadinha!
Sr. S. - Pensa você. Aquilo está sempre a ferver. Você não lê o que ela mete no Facebook?! Estou sempre receando a próxima loucura a sair do forno.
C. - Vamos lá ver: é uma loucura literária, controlada.
Sr. S. - Uma loucura literária?! A Agustina tem loucuras literárias?!
C. - Não é a mesma estética.
Sr. S. - A Lídia Jorge tem loucuras controladas?!
C. - Não é o mesmo estilo, sr. Simões.
Sr. S. - Maluqueira...
C. - São uma metacoisas. A Isabela vive muito à artista, confundindo arte e quotidiano... Eu acredito nela, sr. Simões.
Sr. S. - Oh, Chico, você tem piada! Gostava era que me dissesse como se promove uma escritora que não se dá ao respeito!
C. - Eu não iria tão longe, Sr. Simões! São artistas, o senhor sabe bem... dá-se um desconto.
Sr. S. - É ridículo, meu amigo. Aquilo é ridículo, ridículo, rídículo.
C. - Para uns...
Sr. S. - Para todos!
C. - Há quem lhe ache graça!
Sr. S. - Você parece estar do lado dela.
C. - Conheço-a há muito tempo, sr. Simões. É boa rapariga. Tem o seu feitizinho, mas sei o que tem sido a sua vida.
O Simões franze a testa.
Sr. S. - Não me diga que você é do tempo do Anticristo?!
C. - Isso.
O Simões estala os dedos duas vezes e abana a cabeça outras tantas.
Sr. S. - Esse gajo teve uma sorte - e um azar! Sabe, Chico, eu, a Isabela, tenho cá a minha teoria...
Francisco não responde.
- ... aquilo é material... (hesita) Aquilo é material que nos vem à mão uma vez na vida.
Francisco treme.
- ... e ou se apanha... e é sorte, ou se larga... e nesse caso... sorte é!
Simões ri-se sozinho.
- Com a Isabela dá no mesmo, percebe?!. Tudo depende da quantidade de adrenalina que se está disposto a gastar. E no caso do Anticristo...
Simões não consegue parar de rir.
- ... o gajo acabou por ter sorte. Não tinha pedalada para um motor com aquela cilindrada. Quando fica sem travões, quem é que segura um bicho daqueles?! Você já a viu quando...
C. - Eu não vi nada! Nunca vi nada. Não sei de nada.
Sr. S. - Sorte a sua. É cada guinada!
C. - O sr. não a larga.
Sr. Simões - Sim, mas a Isabela é como trabalhar pro bono. Não leva aquilo a sério. A mulher devia ter-me entregue um romance em Julho.
C. - É a escola, Sr. Simões.
Sr. S. - Ela inventa desculpas: a escola, a mãe, as cadelas, uma cirurgia... Tem catálogo de desculpas.
C. - Agora arranjou um namorado.
Sr. S. - O canadiano?
C. - Sim.
Sr. S. - E você acredita nisso?
C. - Por que havia de duvidar?
Sr. S. - Oh, Chico, homem, acorde! A Isabela inventa tudo. A mulher não tem vida! Cria-a na literatura e consome-se nela. Uma solteirona diplomada daquele gabarito arranjava um canadiano em Nova Iorque, como nos quer vender?! Oh, senhor, nem um operador de call center que morasse ao Rato. Esqueça isso. É preguiçosa, é o que ela é!

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

O que nos separa do mundo




Trieste

Nesse Verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
O mundo é aquilo que nos separa do mundo


José Tolentino Mendonça, O Viajante sem Sono

Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

Uma esperança, um se, um talvez



Olhei para trás e meti-me com a Morena, então, querida, vais com calor? Enquanto o dizia, revi mentalmente a Micas com o pescoço estendido para apanhar a brisa que entrava pela janela, sempre sentada, sempre atenta ao movimento na rua. Lembro-me de ter pensado, numa das últimas vezes em que andou comigo de carro, nem doente ela desiste, nem paralisada se conforma e deita. Lembro-me de me ter sentido feliz com a força, a vivacidade da Micas e de ter pensado, sem pensar, apenas uma certeza, a dona trata de ti, meu amor. Tudo isto no tempo que se leva a articular uma frase tão curta como "então, querida, vais com calor?". No segundo seguinte a realidade informou-me que a Micas já não existe, e no outro, ainda, equacionei para mim essa perda. Foi o pior segundo, aquele em que confrontei a imagem mental da Micas procurando a brisa que entrava pela janela do carro, e a consciência da sua ausência. A perda causada pela morte é um nunca mais. É uma dor diferente de todas, porque não nos resta uma esperança, um se, um talvez. O que a morte nos leva, sabemos que não voltaremos a encontrar no tempo da nossa vida.

Precisei, de novo, de trazer à memória os momentos bons da Micas, quando passeávamos pelo campo, quando se deitava no chão com a cabecinha sobre os meus pés, enquanto eu escrevia. Foi-me necessário pensar, foi feliz, sei-o muito bem, porque cuidei dela, estive presente, sei como vivemos; não morreu precocemente, viveu o que tinha de viver, e teve uma boa vida. E nisto há uma busca da minha isenção de culpa. Ela morreu. Eu não tive culpa. Eu fiz o que pude.

E pus-me a pensar na dificuldade que experimentamos perante a ideia de morte, sem a qual não haveria nascimento. Na carga negativa, na culpa com que a vivenciamos.

O Facebook está cheio de manifestações de pesar relativas à morte de Steve Jobs, ideólogo da Apple. Julgo que nenhum dos meus amigos tenha chegado a almoçar com ele, visitado em casa, o conhecesse intimamente. Contudo, as pessoas sentem a perda como própria. Era jovem. Não viveu nem realizou tudo o que estaria ao seu alcance caso lhe fosse oferecida mais vida.

Este ano a morte tem ceifado a eito pela seara da precocidade, e deixamo-nos ficar paralisados de um espanto medonho. Estou cansada, confesso: cancro no fígado, no pâncreas, nos pulmões, intestinos, cancro fulminante e metastizado a um ponto que se torna inútil investigar onde teve origem. As pessoas caem atingidas pela doença, aos montões, como cabelo doente, e isto amedronta-me. Agarro as mamas com as duas mãos e penso, tenho de ir fazer uma mamografia o mais depressa possível. Sinto tanto medo de morrer que não reconheço o desprendimento teórico com que defendo o destemor da morte, aceitando-a como parte de um binómio que inclui a vida. Não morremos, passamos, digo-me. Isto é tudo uma passagem. E julgo sossegar-me. Mas, o caraças se me sossego. Teoria.Tudo teoria. Alguém deveria ensinar-nos a morrer como se ensina a fazer reciclagem ou regras de três simples. Devíamos ter a disciplina na escola, com caráter obrigatório, logo a partir do 1ºciclo. Chamar-se-ia Viver e Morrer, e devia ter manual, material obrigatório, testes, trabalhos de casa, individuais, em pares e grupo.

Não sabemos viver nem morrer. Não aceitamos a vida própria nem alheia tal como não compreendemos a morte, esse futuro tão certo, provavelmente tão perfeito.

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

O caril é para sempre


Tenho a ideia de que nada é tão semelhante ao amor como o caril.
Quando eu era pequena a minha mãe comprava-o, em sacos de papel, no bazar de Lourenço Marques, a um monhé com banca na zona dos monhés, uma área-souk, fresca, umbrosa, cheia de cores, odores e idiomas, coberta de lonas coando a luz fresca. O monhé compunha a banca com sacos de pano de cerca de cinco quilos, cada um contendo a sua qualidade de pó colorido, ervas, sementes ou raízes. A banca era, assim, uma longa manta de amarelos, laranjas, vermelhos, castanhos, brancos de vários tons, texturas, densidades. E verdes, e negros. Cada saco tinha a sua colher de medida pousada na pirâmide de pó. A minha mãe parava e pedia meio quilo de caril, austeramente. O senhor Abdul sorria, tentava vender-lhe o quilo, e iniciava uma lesta alquimia de pós cuja memória transportarei comigo no dia do passamento.

Tirava umas quantas partes de acafrão, outras tantas de noz moscada, cravinho, cominhos, anis, gengibre, pimentas diversas, pimentões, piri-piri, mostarda, canela e outros pós indecifráveis, em quantidades que só ele sabia, apresentando-nos, no final, sempre sorridente, o saco de papel cheio e a conta regateada.

Restava sobre a banca um odor intenso e uma poeira turva levantada pelo movimento dos seus braços e corpo alongados sobre os sacos. O caril não era igual em todas as bancas, mas todos os monhés criavam o seu próprio sabor, como mestres perfumeiros.
O tempo passado na área dos monhés foi sempre pouco, pelo que voltaria a esse passado para vivê-lo de novo. A minha mãe não se perdia nestes lugares, porque uma senhora não parava, caminhava sempre com fito doméstico, honesto, e eu precisava de me demorar para absorver o caos e organização das bancas. Fui roubada à contemplação demorada das zonas menos nobres do bazar. Restam-me impressões de panos pendurados pelas bancas, saris de todas as cores, padrões, materiais, repletos de brilhantes, e pessoas sorridentes ou não, de uma diversidade e beleza que suscita a curiosidade das crianças. Essa zona e a dos pretos, ao fundo, onde era tudo diferente, desarrumado dentro dos limites aceitáveis, com montinhos de tomate, piri-piri, carvão, batata doce, folha de abóbora e legumes que não comíamos, prendiam-me. Tostava-se, ali, amendoim e caju, no chão, e assavam-se maçarocas na hora, por uma quinhenta. Pode ignorar-se o paraíso e o inferno misturados num só lugar? E em nome de que maravilhamento viver, depois?
Subíamos mansamente em direção ao Alto-Maé, com o saco de caril na cesta de palha, entre os nabos e as cebolas, eu pela mão, passando pela catedral braquíssima, rasgando devagar a manhã amena, de uma claridade azul clara muito limpa, como nunca depois.
Como poderia eu saber, tão menina, que levávamos connosco, num saco de papel pardo, 750 gramas do melhor amor metafórico?
Demoramos toda a vida a decompor as emoções que aqui nos puseram, mas uma vida inteira não seria tarde demais para o amor. Como um caril, o amor não se compõe com açafrão e cominhos, apenas. Nem com cominhos, gengibre e noz moscada. Carece da quantidade certa dos inúmeros ingredientes, e esta é a base da qual se parte. Aceita-se a alteração das quantidades, ou dois ou três ingredientes que se substituirão sem mácula para o paladar, mas não existe mistura sem essa ponderada diversidade. No saco do amor existem todos os pós da banca do monhé Abdul ou talvez mais. Existem ainda as sementes, as ervas e raízes. Todos os sabores amargos, doces, ácidos, neutros numa combinação cuja essência se complementa, acresce ou anula, mas que resulta equilibrada ao paladar. Dir-me-ão que no amor não há raiva. Oh, mas faz-se caril sem salpicos de mostarda? Não há desprendimento? A que sabe o caril sem uma nozinha de libertador anis? E se os pós forem bem medidos, e contidos na dose certa, sim, juro, o amor cola-se, a galope, como um vício bom, à memória dos sabores. Uma memória de sede e fome que não se sacia, não é de menos nem de mais. Sem espaço ou tempo. Fica para sempre como uma memória de infância

Domingo, 2 de Outubro de 2011

Modo de sobrevivência

Há um capítulo, no Caderno de Memórias Coloniais, no qual eu e uma amiga alfabetizamos os filhos dos negros que saquearam a casa onde esta vivia, no Infulene, após terem torturado e assassinado, de caminho, com crueza, imbuídos do que de mais eufórico e banal existe na crueldade, os vizinhos brancos daquela zona, bem como tudo o que fosse branco e respirasse.

E perguntam-me, o que sentiste ao alfabetizar esses negrinhos? Como foste capaz? Não tinhas medo?

Respondo, não, não tínhamos. Embora fôssemos ainda adolescentes, distinguíamos entre filhos e pais. Temíamos os pais, irmãos e primos assassinos, pela ameaça que constituíam para a nossa segurança e integridade sexual, mas as crianças encontravam-se absolvidas dos seus atos, portanto o nosso trabalho de alfabetização era autêntico, e não só os ensinávamos a ler e escrever como lhes limpávamos a cara e os assoávamos. Por outro lado, ambas sabíamos, sem o ter jamais verbalizado, que o nosso trabalho voluntário garantia, à nossa família, salvo-conduto junto do comité. Os comités de bairro tinham poder de vida e de morte. Tudo se decidia ali, e a informação chegada ao comité influenciava o futuro de cada branco.

Enquanto as meninas brancas fossem professoras, e aceites, cumpriam uma função, mostravam solidariedade, humildade, e isso podia, literalmente, salvar-nos pele, sobretudo a da nossa família. De igual forma, os nossos pais levavam-nos até à casa saqueada e queimada na qual se desenrolava a nossa atividade, sem que a funcionalidade da tarefa, num quadro de estratégia de sobrevivência, fosse admitida. Quando entramos em modo de sobrevivência há palavras que não precisam de ser ditas. Conhecedores da realidade, todos sabemos o que se joga em cada decisão. Há proposta e decisão, que deve ser rápida, porque a sobrevivência não tem paciência para esperar.

Perguntam-me, ainda, e insistem muito nisto, o que sentias? Revelo muita dificuldade em responder a esta questão. Não sentia. Em modo de sobrevivência não se sente, age-se. Faz-se. Anda-se. Tudo é pensado no momento, em função da situação. Não sentia, pensava. Para conseguir x tenho de fazer y, padrão que, aliás, segui toda a vida.

Insistem. Dá-me um sentimento. Não é possível saberes que estás a alfabetizar os filhos dos assassinos que violaram e mataram as tuas conhecidas e amigas e não teres sentimentos acerca disso.

Penso sobre sentimentos que pudessem ter-me dominado e só me ocorre um, que igualmente se transformou num padrão de vida para o resto do meu tempo: a esperança. Sentia esperança. Sentia que o perigo e a banalidade do mal eram superáveis. Sentia que vivia numa conjuntura que ultrapassaria, e que havia algures um futuro para mim. Mantive sempre esta certeza: há um futuro à nossa espera, não nos vai acontecer nada, vamos safar-nos. Sentia isto, mas não sei explicar porquê.

Aprendi também a sorrir com o medo. Conheço o sentimento de medo controlado, disfarçado de afabilidade, cumplicidade. Não interessa a quantidade de medo que se sinta, desde que não se torne percetível para o predador. Sorrir com medo não corresponde apenas a uma ação; há um sentimento associável, carregado de adrenalina.

Nos EUA, a professora Isabel Ferreira Gould, no contexto de uma das suas aulas, perguntou-me se eu me considerava uma sobrevivente. Respondi que sim, se bem me lembro. Tudo em mim cumpre a função da sobrevivência. É uma escolha dura, com custos emocionais elevados, contudo nunca me pareceu ser possível viver de outra forma, portanto poupem-me às teorias sobre o antidepressivo com caráter permanente não passar de um placebo ou a insónia crónica poder vencer-se sem Xanax. Não há escolhas sem custos, e eu pago as minhas.

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

A Confraria da Minhoca





Eu e alguns amigos temos um segredo que guardamos há décadas, porque a sociedade não está preparada para aceitar certas brincadeiras, mas chegou a altura de o revelar, a fim de evitar confusões: sim, é verdade, um grupo alargado de intelectuais portugueses, todos pela minha idade, têm uma minhoca tatuada no dedo médio da mão direita.

Nos anos 80, formamos um grupo para andar à minhoca, ao quilo, no Canadá. Ganhava-se dinheiro para os luxos, e era divertido, todos juntos na paródia, no escurinho da noite, metidos em lama luxuriosa até às virilhas. Éramos jovens e procurávamos sensações novas e o supremo estatuto da diferença, acima do comum mortal. Ninguém poderia saber que nos divertíamos com as minhocas, mas desde que nunca viesse a saber-se.

A tatuagem no dedo médio direito identificáva-nos enquanto membros da Confraria da Minhoca. Quem queria trabalhar com uma rapariga tatuava uma minhoca fêmea, quem preferia um rapaz, a minhoca macho, e quem era "boa boca", a minhoca hermafrodita. Isto servia para nos distinguir de outros grupos que também andavam à minhoca, mas com diferentes objetivos, sobretudo indigentes. Nós estávamos acima dessas insignificâncias. Note-se que alguns de nós chegavam a ser filhos de operários da Lisnave. Que nos interessava o dinheiro?! Não éramos emigrantezinhos: tínhamos orgulho na função, e métodos próprios. Apanhávamos minhoca com as mãos (manual), a boca (oral), com os dedos dos pés (podológica) e chegávamos a rebolar-nos na lama para trazer um ror delas pegadas ao tronco (total). Usávamos avental, como qualquer confraria, e quando combinávamos reunir-nos, cada indivíduo, para se fazer identificar, como senha, esticava o médio da mão direita e exibia a minhoca tatuada, ou seja, a sua pertença. Foram tempos bem passados.

Vemo-nos agora sujeitos a vil chantagem: um minhoqueiro do grupo ameaça contar tudo sobre esses tempos se a minhoqueira, com a qual acabou por casar, não lhe deixar a casa, o carro e as jóias, pelo que combinámos esclarecer este assunto antes que passe para os jornais, para não desviar as atenções do colapso financeiro internacional, o qual queremos seguir sem distrações.

Domingo, 25 de Setembro de 2011

Dez minutos

Manhã de domingo no meu bairro da Margem Sul, onde as pessoas são pobrezinhas e desempregadas, e num Bairro Bem de Lisboa, onde também devem ser, enfim, mas disfarçando melhor: observação direta.

1. No meu bairro os aviões passam muito mais alto, de maneira que não se sente um tsunami prestes a atingir a costa de 5 em 5 minutos.

2. No Bairro Bem a construção dos edíficios é de melhor qualidade, e existiu ali um evidente planeamento urbanístico. Não há urbanizações em forma de surto de cogumelos, cada um de espécie diferente.

3. No meu bairro não há tanto cocó de cão nos passeios. No Bairro Bem, sim, porque os senhores de idade deixam os animais ir sozinhos à rua e, já se sabe, não limpa o cão, porque não sabe, e não limpa o dono, porque a coluna não permite.

4. Na esplanada do Bairro Bem todos pedem para se sentarem na mesa do outro, só um bocadinho, a beber o café, o que para mim é confiança a mais, mas quando se vai a responder que sim, com certeza, por boa educação, já o outro se sentou. No meu bairro ninguém se senta na mesa da professora, ponto final. A professora está a ler. A professora não se incomoda. No meu bairro ainda há estatuto.

5. Na esplanada do Bairro Bem discutem-se:

a) marcas de antidepressivos e estabilizadores e outro tipo de calmantes. O antidepressivo toma-se à noite. Não, de manhã. Nem, pensar, sempre à noite. Então e o estabilizador, é de que laboratório? No meu bairro ninguém toma antidepressivos, e mesmo que tomasse não o revelaria. No meu bairro fala-se sempre do Benfica, e se alguém é do Sporting tem uma má manhã.

b) o casamento estudado e bem sucedido da mana com um fulano riquíssimo da linha de Cascais, que vai a lojas Dior e compra o que lhe apetece, e chega de visita ao Bairro Bem em carro com motorista. No meu bairro, as miúdas costumam engravidar de um preto que mora na rua da minha mãe, mas não sei explicar porquê.

c) marcas de tabaco e respetiva qualidade. Numa mesa, há quem enrole cigarros numa maquineta, uns atrás dos outros, porque sai mais barato e de qualidade e, sobretudo, porque SG nem pensar, e Gitanes é só carbono. No meu bairro fuma-se o tabaco mais barato da máquina e ninguém enrola tabaco nas mesas para evitar parecer amaricado.

6. Na esplanada do Bairro Bem os homens dão-se luxo de falar mexendo as mãos e traçando a perna. No meu bairro podem fazer tudo isso em casa, mas no café são machos, muito machos, cada um deles mais do que o outro, e ninguém duvida.

Nos dois bairros, o sol e a frescura da manhã são as mesmas.

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Os do lado de lá

A propriedade servia de canal de entrada, no país onde eu vivia, a clandestinos, negros, provindos do regime autoritário cujo território se iniciava nas traseiras desse mesmo terreno. Saltavam a vedação e penetravam na propriedade, deslizando como cobras entre o capim alto.
Do lado de lá a vigilância era permanente, cerrada, mas os negros conseguiam, apesar de tudo, encontrar abertas, momentos de distração, golpes de sorte. Arriscavam. Todos os dias havia gente apanhada no salto e gente que saltava. Mulheres, crianças, homens, famílias inteiras.
A propriedade não me pertencia. A casa estava abandonada desde que os donos morreram. Frequentava-a para alimentar animais perdidos ou abandonados que aí se recolhiam. Cães e gatos. Havia lagartixas, osgas, insectos, ratos pela propriedade abandonada, para gáudio dos cães e gatos, mas que eu temia.
Via os clandestinos rastejarem, no escuro da noite, lentamente, pelo capim, escondendo-se nas árvores e arbustos, procurando que os seus movimentos não acordassem os sensores sonoros e luminosos que aí existiam, e lembrava-me desses animais asquerosos, embora pequenos, com os quais se cruzariam.
A minha passagem costumava despertar os sensores, e era desagradável, mas os guardas, sempre do lado de lá, com acesso ao lado de cá, confirmavam a minha presença pelas câmaras, conheciam-me, e comigo não havia problema. Eu era branca e pertencia ao lado de cá. Não queria saltar para o outro lado. Eu era a mulher dos animais, não representava qualquer perigo. Não interessava.
Os clandestinos sabiam da minha existência, conheciam as minhas horas, e esperavam que eu passasse, e os alarmes fossem acionados, para aproveitar o minuto seguinte de nova escuridão e restabelecimento da ordem e conseguirem sair. E eu, vendo na noite os seus vultos parciais, por vezes sentindo-os, apenas, um coração bater, uma respiração apressada, a erva roçada, fingia não os ver. Nunca trocámos uma palavra. Nunca contei a ninguém que os via todas a noites procurando salvar a vida. Era um segredo que ninguém revelava.

A sua coragem engrandecia-me, mas estava para além disso. Eu sabia o que era movermo-nos no silêncio e na escuridão em direção a uma luz futura. Sabia o que era arriscar tudo para salvar a vida.

Simulava trancar o portão, mas deixava-o aberto, apenas encostado, para que pudessem sair por ali sem saltar o muro. Era assim todas as noites.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

Fica

Abrimos a porta de casa e dispersámo-nos farejando os teus lugares. Queríamos encontrar o cheiro da tua vida.

A Morena sentiu-o logo no tapete laranja da sala, e eu fui direta à tua cama do quarto, peguei nos teus lençóis e cheirei-os fundo. Ainda estás lá. O teu sangue, a tua carne fendida. Depois chorei longamente, rasgada, de joelhos, como as pessoas fazem quando são derrotadas, e não podem recuperar o que perderam.
No corredor percebemos o rasto do teu corpo arrastando-se em direção à varanda, devagarinho, e escutámos o teu latido baixo, vem dar-me uma ajudinha.
A tua taça de água, entre a casa de banho grande e o quarto, tinha uma capa de pó. Quebrei-a, e, por baixo, a água continha o sabor doce e morno do teu hálito, que a Morena bebeu.
Não devia ter lavado na véspera da partida o teu edredão do escritório, manchado de pus e sangue, porque agora poderíamos cheirá-lo e rebolar-nos sobre essa parte de ti ainda presente. Consola-me saber que temos o teu pêlo atrás das portas, e um pouco por toda a casa. Vamos recolhê-lo e guardá-lo, porque o pêlo nunca morre.
Na sala cheira a desinfetante, a pomada antibiótica e cicatrizante, e ficaram espalhadas compressas, ligaduras, adesivo, tesoura, e os medicamentos que tomavas a horas certas, para ficares boa.

Cheira-me também, não sei se é por saber agora demais, à morte que um corpo adia, não compreendemos porquê. Adia por acaso, não por amor, porque nesse caso tê-lo-ias antecipado, porque era a mim que me cabia tratar-te, aliviar-te, consolar-te, e, se nada pudesse alterar-se, cavar a tua cova com os meus braços, embrulhar-te numa mortalha, e enterrar-te, sentindo uma última vez o teu peso e cobrindo-te de terra. Isso era um assunto nosso e de mais ninguém, e tu sabe-lo muito bem. De mais ninguém. Era minha missão.
Já farejámos os teus lugares, já perguntei à Morena, sentes o vazio, sentes? E queríamos que ficasses, porque amanhã vai estar sol na varanda frente, logo de manhã, e tu adoras o sol da manhã. Por isso, fica connosco. Não lavo os teus cobertores. As tuas camas estão nos mesmos lugares e não sei se a Morena se atreverá, por ora, a ocupar o que sabe pertencer-te. Chama-me baixinho uma só vez, pela manhã; eu levanto-me, pego-te ao colo e levo-te para o sol.

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Minha querida, minha muito querida, minha menina

Micas



A Micas morreu dois dias depois de sair de Portugal.

Contaram-mo agora. Que tinha um cancro.

Não tinha cancro nenhum. Não tinha. É uma desculpa qualquer.

A Micas era tão feliz. Éramos tão felizes as três.

Quando a deixei em casa da minha mãe, antes de vir, abracei-a, beijei-a e disse-lhe, "a mãe volta, a mãe não te abandona".

Morreu sem mim. Abandonei a minha Micas.

Esta é a última foto que lhe tirei, uma semana antes de vir para os EUA. Olhava assim para mim, e falava comigo.

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011