domingo, 4 de dezembro de 2016

És lindo, Ricardão!


Querido Ricardo Araújo Pereira, 

como justificação para este tratamento tão próximo devo explicar-lhe que, embora não me conheça, conheço-o eu a si muito bem. Mantenho consigo um sólido e pacífico relacionamento de muitos anos, para além de que está no top dos homens que mais prazer me deu. Escrevo em meu nome e no de cerca de cinco, seis ou sete milhões de portuguesas e portugueses, e estou certa de que ninguém me espancará no Facebook pela abrangência numérica.
Estive a vê-lo ontem em entrevista ao programa Alta Definição. Não costumo assistir, por me custar o chafurdanço na lágrima, mas pensei, "é o RAP, e dele ninguém arranca um alfinete". Não me enganei. Não sabia o que iria ver, mas amor é amor. Rapidamente descobri estar envolvida numa lição sobre como falar sobre a vida privada e o que de mais caro se guarda, conseguindo o malabarismo de selecionar apenas um naipe de situações da esfera íntima que se aceita tornar público, acabando por pouco falar sobre o sumo da vidinha e o que de mais caro nela existe. É um feito difícil e perigoso. Eu tenho tendência para abrir a boca e começar a descrever o material e o design das cuecas e do soutien, mas uma pessoa tem de aprender a defender-se. Houve uns momentos, no final, em que ia sendo apanhado, mas sentiu a terra abrindo-se sob os pés e escapou-se com o fora de jogo do "ah, estamos a entrar na fase das perguntas diretas." Boa! 
O que aprendi eu? Enumero.
1. Como falar sobre as pessoas que amamos sem as magoar
Falar sobre mortos. Divagar sobre a avó falecida em mil novecentos e troca o passo evita opiniões sobre os pais, a mulher, as filhas e as tias. "E a sua mulher, como é que gosta de se vestir? " A minha mulher é complicado, mas a minha avó era roupa simples, tudo em escuro. A minha avó isto, a minha avó aquilo." E nós, não sabendo se é verídico, apreciamos a substituição, porque a história é bastante verossímil e queremos, seja qual for a sua natureza. Estamos por tudo. Por outro lado, a senhora já cá não está para desaprovar. 
Sobre pessoas muito próximas e afins devemos dizer o que sabemos pensarem sobre nós e nunca o contrário. "O que sente sobre a sua mulher e filhas?" "As minhas filhas e a minha mulher dizem sobre mim x e y." Sempre assim. 
2. Como referir o que gostamos ou odiamos sem ferir suscetibilidades?
Entrar na temática do futebol. Gosto do Benfas, não gosto dos outros clubes. Gosto das pessoas do Benfas que metem golos, odeio as que não os afinam. É exatamente a estratégia dos homens no meu café. Enquanto se insultam com base na performance dos jogadores e treinadores, não se magoam a sério, com base na ratice gratuita que os caracteriza. Isto é mais difícil para quem não gosta de futebol e não tem referências no departamento. No meu caso, vejo-me na contingência de declarar amar os camaradas Jerónimo e Catarina, confessando desejar encerrar Passos e Portas num submarino, a 200 metros de profundidade, escutando discursos das irmãs Mortágua no Parlamento. Mas há que ter cuidado, porque nunca se sabe quando é que Passos e Portas voltam a ter poleiro, e nesse caso podem muito bem  aproveitar a ideia e voltá-la contra mim. Já tenho idade para ter juízo.
3. Como abordar os grandes temas da vida que dominam a nossa mente emitindo juízos profundos?
Falar da morte. É uma contrariedade lixada, bem pior que a bicha da ponte quando temos de apanhar o Alfa Pendular ou um pneu rebentado numa estrada regional no Alentejo muito deserta, sendo que uma pessoa nem manusear o macaco sabe. E está sempre a acontecer, inesperadamente, não nos deixando acabar o que estamos entretidos a fazer, e terminando definitiva e radicalmente com a ação quando o romance ainda vai a meio. 
A partir de agora quem é que me vai apanhar a falar sobre o colonialismo ou andarmos a ser maltratados verbalmente por outros meninos?! Ninguém. Vou debruçar-me sobre a morte. Também sou contra e quero dizer coisas profundas e intensas com um ar sério.
E por hoje é tudo, Ricardão. Agradeço-lhe a leitura desta carta, sabendo antecipadamente que não terei resposta, o que não me dissuade, porque já estou habituada a falar para o boneco nas aulas sobre Os Lusíadas, o Padre António Vieira, e restantes temas do programa de Português do 3º ciclo e ensino secundário. Muito obrigada pela lição. Prometo que não esquecerei. Aceite um repenicado beijo em cada bochecha desta sua dedicada namorada e discípula.


Isabela

terça-feira, 8 de novembro de 2016

domingo, 30 de outubro de 2016

A Gorda

Dia 1 de novembro nas livrarias.
Diverti-me muito a escrever isto e também sofri mais do que apenas um bocado. Divirtam-se e sofram agora os outros, porque o meu trabalho está feito.




sábado, 29 de outubro de 2016

Que deontologia do poder?


Foto de Koen Hauser

Não considero necessário que os cargos de adjunto de ministro e chefe de gabinete de secretário de estado careçam de licenciaturas. Nem sequer o dos próprios ministros. Parece-me fundamental, por outro lado, que sejam pessoas cultas, experientes, competentes e bem formadas, conscientes dos reflexos que as suas ações projetam sobre os cidadãos. Consigo mesmo abdicar da exigência de comprovado grau de cultura e experiência; basta-me que reúnam competência e boa formação: a cultura e a experiência vêm por acréscimo, havendo boa vontade. Infelizmente, o mundo que idealizo ainda não foi inventado. Os recentes casos de falsas licenciaturas detetados no governo de António Costa vêm confirmar que:
- os cursos universitários continuam a valer pelo poder social que acarretam, não pela aprendizagem que implicam. É uma ideologia ainda prevalecente;
- os graus académicos dos boys e girls que entram para os diferentes governos, da direita à esquerda mais puras, não são comprovados por quaisquer certificados de habilitações, condição sine qua non para qualquer candidato que almeje uma função pública ordinária com salário correspondente. Na prática, eu posso ser candidata para um cargo de vulto em qualquer ministério, com base num alegado doutoramento que nunca concluí - e nunca o desmentir;
- se a Imprensa se desse ao trabalho de investigar todas as licenciaturas, pós-graduações, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos de antigos membros de Governo seria necessário publicar as desconformidades em volume com as dimensões da última atualização do dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, mas em papel Bíblia. Isso e o resto: os favores e as corrupções que o meu trabalho e o trabalho de todos nós tem alimentado com impostos.  
Não defendo que este País seja ingovernável. Não é. Mas precisamos de líderes capazes de pôr em prática uma exigente deontologia do poder, caso contrário o vício de hoje perpetua o de ontem e transmite-se para amanhã. Um exemplo, para terminar: o adjunto do secretário de estado tem um motorista que o vai buscar e levar diariamente à sua casa em São Martinho do Porto?! Mas não basta pagar-lhe as ajudas de custa em gasolina?! Se eu, que vivo em Almada, for colocada a dar aulas em Alcobaça ninguém se preocupa com as minhas deslocações. Tenho um salário e ponto final. Ora eu também sirvo o Estado e a minha licenciatura está comprovada(1). Não pode haver servidores de primeira e de segunda. Cada um serve de acordo com a especificidade da sua função e quem aperta parafusos não é menos importante do que quem vende a máquina aparafusada ao comprador. 

1) Grave é também que as nomeações dos referidos adjuntos e chefes de gabinete tenham saído em Diário da República, acompanhadas da confirmação de habilitações inexistentes, nunca tendo sido ressalvadas. Se passasse, passava.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença pública


Edward Hopper

Poucos são os verdadeiros. 
Acontece-me observar aquilo que passo a descrever quando vejo programas televisivos de debate e apresentação: os intervenientes são uma construção que se exibe no espaço público. Imitam-se uns aos outros em aparente invulnerabilidade, distância, status social, emocional e financeiro. Não têm tiques nem manias nem neuras nem se sujam com nódoas no peitilho. Não fazem afirmações ridículas nem insensatas e não se indignam nem se emocionam. Estão acima de todos nós. Não são pessoas comuns como eu. Encontro este género de comportamento noutro espaço público como o da Academia ou o das relações laborais. Longos espaços e demoradas horas de construção. As pessoas têm vergonha da sua humanidade e carnalidade. Como se pudessem ser qualquer outra coisa - gostariam de poder transformar-se nisso em permanência. Não serem elas. Serem a construção em exercício. O fingimento que percebo. Levanto a cabeça e estou sempre a vê-las como realmente são nos momentos em que estão sós. Animais tão sujos quanto eu. Por vezes mais sujos do que eu.
E os meus amigos avisam-me, "no espaço público tens de ser como os outros, tens de fingir. No espaço público não te podes mostrar tal como és.  A tua honestidade pode ser usada contra ti." Escuto-os incrédula, como se me estivessem a pedir para mudar de espécie. Como poderia eu transformar-me naquilo que me sacrifico para atravessar imunemente?

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Só dois tipos de mulheres: as honestas e as putas

Foto de João Vítor Bolanids
Corre o ano de 2016, altura na qual, segundo se vaticinava em 1966, todos os humanos teriam em casa computadores para uso pessoal, capazes de realizar operações complicadas, e os carros seriam aéreos.
Pretendo alugar um quarto fora da cidade, onde passe uma semana a descansar e a conhecer os hábitos locais. Consulto a Imprensa da região e consigo dois números de telefone, que contacto para me informar sobre as condições. Para mim está tudo bem, sou pouco exigente, sobretudo quando o meu objetivo é não ser exigente. Sinto-me com paciência para ouvir senhoras contarem-me mexericos, histórias de casamento e doenças até me começar a cair a pele, bem como façanhas de senhores enaltecendo-se aos meus sentidos tão femininos, desde que não tenham aquelas ideias que os senhores costumam ter às vezes. Apenas me incomoda uma das condições impostas: a obrigação de honestidade, que me atiram como um aviso, para me dissuadir caso não me enquadre. "Só aceitamos senhoras honestas", declaram. É muito embaraçoso! Fico em silêncio. Como posso provar pelo telefone que sou honesta? "Pretende referências?", pergunto. Não me respondem. Continuam o discurso sobre acessos e a proximidade de supermercados. Deduzo que não queiram referências algumas. Pretendem dizer-me, através deste enunciado, que na sua casa não se albergam putas.  O que é uma puta e uma mulher honesta? Conheço um bom punhado de mulheres ditas honestas que gostariam de chegar ao nível de certas putas com as quais me cruzo. Tenho à partida muito medo das mulheres honestas. Se fosse para a tropa e me dessem a escolher entre a caserna das mulheres honestas ou a das putas, provavelmente escolheria a das segundas, para me sentir mais à vontade. Ser uma mulher honesta consiste no quê? Ter cuidado com os decotes? Não tenho. Não usar calão? Uso. Não dever dinheiro? Devo. Aparentar desinteresse pelo nefando exercício do sexo? Não aparento.  Sou capaz de apostar que se fosse um marido meu a telefonar, ninguém esperaria dele que fosse o que não é. Poderia usar calão e arranjar amásias. São homens. Os homens, já se sabe. Isto, se eu tivesse um marido que me garantisse a honestidade, como um selo de lacre. Não tenho. A vida para mulheres como eu é sempre mais difícil.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Nós, que temos mais, exigimos pagar o Imposto Mortágua, já!


Gosto muito de pagar impostos. Sem ironias. Quando pago os meus impostos tenho a ideia de que estou a contribuir para uma grande cooperativa da qual todos beneficiamos. Colocando a ideia a uma escala ainda mais pequena: imagino que Portugal é mais ou menos como o condomínio do meu prédio, mas com mais condóminos. Dividimos as despesas e também nos quotizamos para conseguir fazer pinturas e obras. É o que é justo. 
Parto sempre do princípio de que ninguém se está a apropriar das minhas contribuições e de que elas serão usadas para o bem comum, e esse é o pressuposto correto. 
Pago muito mais impostos do que colegas de profissão com o mesmo rendimento, mas com filhos. É justo. Vivendo sozinha tenho menos despesas, logo mais rendimento. Se tem de haver um aumento de imposto e um escalonamento de sobretaxas, compreendo que eu seja mais penalizada. Tenho mais, pago mais. 
O último veículo automóvel que comprei custou-me cerca e 16 mil euros e é uma bela máquina. Paguei o imposto. Se tivesse comprado um automóvel de 160 mil euros, embora confesse não saber se se vendem carros por tal preço, teria muito gosto em pagar o devido imposto calculado com base nesse património. 
Vamos imaginar que acabou de me sair o Euromilhões e posso adquirir uma boa propriedade  para ter horta, jardim, animais, enfim o meu sonho. Não digo uma propriedade de luxo, digo só uma propriedade bem localizada, com uma casa bem construída, bom terreno com água, coisa no valor de meio milhão de euros. Caramba, meio milhão é muito guito! Meio milhão são mais de 5 casas iguais aquela onde vivo! Nesse caso parece-me que teria de pagar um imposto imobiliário de valor mais elevado. Muito mais elevado mesmo. É que quem tem mais pode contribuir mais, e temos de ser uns para os outros, porque foi o que a nossa avózinha e o Senhor Jesus nos ensinou. As pessoas da classe social à qual pertenço são muito solidárias. Sabem que há quem tenha muito menos e gostam de contribuir socialmente e de partilhar as graças concedidas. Não participamos em guerras nem sequer acreditamos que as pessoas devam viver melhor ou pior de acordo com um grupo social. Como poderíamos nós defender que o Zeca das pinturas deve viver com menos posses, porque é só o Zeca das pinturas, não tendo nascido numa família como deve de ser económica, cultural e socialmente, que por sua vez também já não teve a mesma sorte quanto à ascendência,  e por aí fora sempre retroativamente?! O Zeca das pinturas é uma pessoa e tem as mesmas necessidades que eu. Graças a Deus não vivemos na cultura de castas do hinduísmo, logo não temos os bramanes e os intocáveis nos topos da pirâmide. Somos católicos. Ou então somos cristãos. Ou ateus, vá. Mas o que não podemos permitir é que o nosso pensamento retroceda a hábitos recuados e anacrónicos. Estamos muito agradecidos pela vida confortável que temos vivido e queremos agradecer contribuindo mais.  Por isso, colocamos a fasquia mais alta do que Mariana do Bloco e exigimos pagar o Imposto Mortágua, já, a partir de um valor imobiliário superior a 400 mil euros. É que é muito guito!

sábado, 17 de setembro de 2016

O meu amigo já não gosta de mim

 Foto: Saul Leiter
Não há grande diferença entre conhecer e manter amigos e amantes. O processo é idêntico. Conhecemo-nos em contextos diversos e inesperados, mostramos o o que achamos dever mostrar, e o contacto inicial gera empatia ou antipatia. Se gera antipatia, o caso fica arrumado. Se existe empatia, tudo se complica. Dá-se início a um demorado processo de convívio com o objetivo não explícito do conhecimento mútuo. Quando eu era criança e adolescente, recordo que me era transmitida a ideia de que o namoro correspondia a uma fase de conhecimento durante a qual os envolvidos percebiam se os hábitos e interesses eram compatíveis, e o encontro tinha potencial para se transformar numa relação duradoura. Era uma ideia mais ou menos explícita. Era uma fase de experiência, de conversa. Era para ver "se dava". A ideia perdeu-se com as novas gerações. Quando chegou a minha altura de namorar, passei a entrar no amor arrebatadamente com a ideia de que tudo era para sempre. Erro. O namoro, com ou sem sexo, com promessas de amor eterno ou sem ele, é sempre um processo de conhecimento. É um durante, um por enquanto com dois fins possíveis: termina com ou sem dor ou mantém-se, e nesse caso sempre com dor, pelo menos ocasional, porque onde existe uma alma existe dor, e onde se encontram duas, existem duas. A dor é intrínseca aos transportes do ser numa realidade social mundana, similar à das pessoas que leem crónicas como esta. Não é possível expurgar a dor do quotidiano. Contentemo-nos com o que há. 
Se assim é no amor, porque seria diferente na amizade?! Que magia extraordinária seria essa capaz de transformar todas as empatias fraternais em relações eternas e sem convulsões?! Estão em jogo egos e almas diferentes, com diferentes características, desejos, medos, propensões. Conhecem-se e ao longo desse caminho encontram sombras demasiado sombrias, luzes demasiado incómodas. Quando dois potenciais amigos se conhecem há igualmente uma fase de namoro na qual se apura "se dá". Pode não dar. A maior parte das vezes não dá. Não tem mal. Não é necessário ficar-se magoado. Não há culpa a atribuir quando não somos compatíveis com outros. Ao longo da minha vida houve imensa gente com quem desejei dar-me e que não me quis. E vice-versa. Não é um atestado de incompetência nem de inferioridade para mim, como não o é para os outros. Há mais quem queira. Há outros possíveis amigos e amantes. O mundo está cheio de gente e de oportunidades. Não dramatizemos. Adiante.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Prendas

Tinhas-me dado duas pedras que colheste no deserto, uma no Saara, negra, queimada, nunca pisada, disseste, a outra na fronteira com a Líbia. Só duas pedras. Tinhas-me dado um seixo redondo muito polido, apanhado na Praia dos Cães, e uma concha grande, não me lembro de onde. Tinhas muito amor por mim. Fodíamos no carro e, considerando mau jeito, fodias bem. Um dia pagaste metade do meu jantar. Foi uma grande prenda. Se me der ao trabalho de fazer as contas, mas não darei, acho que me saíste a mil euros a foda, mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Repetição

Hoje veio de novo o período à Ana Margarida, mas ela e o namorado não quiseram saber e fizeram amor toda a tarde e ficaram cheios de sangue outra vez.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O dia em que perdi o coração





 Foto - Bill Henson

No meu quarto, ao longo dos anos, brilha um pénis ereto e fresco como um legume colhido pela madrugada. Cheira bem, morno e içado.

Percebo as veias que o percorrem à luz muito filtrada pelas cortinas. Quer-me. Quero-o. Beijo-o, desenho com a ponta da língua as curvas da glande, saboreio a camarinha que se forma no meato da uretra, e roço nele o rosto, os cabelos, o peito, as mamas, a barriga. Uso o brinquedo como me apetece. É só da menina.

No meu quarto, na minha cabeça, ao longo dos anos, há um pénis ereto como nenhum outro. Quantos anos viverei? Sempre o mesmo, mil anos ereto, os mil da minha vida. No dia em que me atirarem à cova, ainda ereto. Enquanto houver uma célula da minha pele perdida atrás da porta, na casa vazia, ou um resto do odor das minhas axilas, ereto.

No meu quarto na minha cabeça, ao comprido de décadas, brilha um pénis ereto ao qual me encosto. Um nervo flexível, um elástico bem esticado, retesado. Só eu posso vê-lo. Só eu conheço o seu cheiro a erva ceifada rente ao chão. Sinto-o duro contra a minha anca. Treme. É só meu. Acorda-me. Anima-me. Parece um cato tenro e sem espinhos, esse meu pénis vertical, o altar junto ao qual deixei de rezar quando perdi o coração.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Os papás não fodem






Cada mulher tem a sua obsessão.
Quando vim para a casa decidi que o quarto da frente seria o dos papás. O quarto da frente é o principal no lar, portanto, pertence aos mais altos na hierarquia familiar. Talvez tenha sido eu que me coloquei sempre, à partida, numa posição subalterna.
Quando, de costume, afirmo que, ao chegarem de África, nenhum deles era capaz de me olhar como adulta, talvez queira dizer que nunca fui capaz de ver-me como adulta junto deles. Que não sabia ter, com eles, o poder de uma pessoa crescida, ao seu lado, como igual. Não tive essa escola lenta de ir progredindo em companhia. Fui criança e depois mulher, e o que ficou pelo meio perdemos os três. Saltámos dez anos no tempo e no espaço sem que as nossas mentes tivessem conseguido ajustar-se a viver na ausência e depois na presença alterada. Como é que se fazia para discordar dos papás? Para fazer valer a minha opinião? A história não se compadece de emoções privadas, mas é a sua frieza que dá à nossa resistência uma dimensão épica. Tudo se atravessa como se não estivéssemos sempre mortos e vivos, no mesmo instante, lutando por adiar a transição.

A mobília do quarto de casal dos papás era a da Matola, em umbila bem escura, a que a mamã puxava o lustro com cera preta para a aproximar o mais possível das madeiras exóticas que tinham muito valor. Cama com cabeceira e pés montados num gradeamento de colunas, com mesas-de-cabeceira, cómoda, pechiché, banco, e cadeira, estofados, em napa branca, linhas muito direitas, estilo Império. No caixote veio também um guarda-fatos adquirido em Tete, que nunca fez parte da mobília da Matola, casa na qual existiam armários embutidos na parede, o que excluía a necessidade da peça. O guarda-fatos proveniente da fábrica de Tete, apresentava design dos anos 70, com um aileron ao alto, quebrado por um pináculo a meio, ponto a partir do qual o acrescento crescia, alargando a partir dali as suas asas retas. Foi das peças de mobiliário mais feias que encontrei. Tentei dar a volta a essa herança, colocando-a em vários quartos, em diferentes paredes. Imaginei-o pintado com uma patine romântica em desgastado falso, mas nunca ficou bem em assoalhada alguma, onde quer que a colocasse, e nem sequer na minha imaginação. Considero mau sinal a minha fantasia não conseguir visualizar o que um objeto pode ser, ainda não sendo, ou não lhe agradar o que vê.

Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não fodiam, embora eu tivesse começado uns tempos antes.
Era sumarento, sem palavras certas nem regras. Era uma brincadeira de animais, e não pode ser possível nem verdade que os nossos pais se entreguem a um gosto que nos ensinaram a encarar como vergonha.
Não somos capazes de ver os papás como pessoas iguais a nós, como penso que eles não sejam capazes de nos ver como pessoas que eles também já foram, antes de ser o que são. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem, se temem.
Portanto, os meus pais não fodiam, mas a mamã dizia-me que havia a mulher ruiva do talho, com as calças verdes, mal jeitosa, que o cortejava. Ria-me e respondia-lhe que não podia ser, não passaria de um convívio de vizinhos, e nada mais. Uma mulher entrada na idade a cortejar o papá, que ideia mais ridícula. E o papá a cortejar alguém, aos sessenta anos, gordo e estragado, honestamente, que ideia! Ria-me e exclamava “que exagero”. Não poderia ser mais do que uma brincadeira, uma troca de piropos. A mamã clamava que não, que o gerente do talho era putanheiro e levava o papá para maus caminhos. Chamava-me ao quarto, abria gavetas e mostrava-me comprimidos e elixires medicinais à base de pau de Cabinda e ginseng que o papá tinha comprado na ervanária para ter mais força naquilo.
“Ainda tem a mania destas coisas.”
“Oh, mãe, não é isso!”
Ria-me, envergonhada.
É só uma vitamina para dar força. Deixa-o ter as suas alegrias.”
“Ele é maluco, já sabes. Tem a mania que é novo. Sempre gostou destas brincadeiras parvas.”
A minha mãe não tinha amigas. Teve a sua mãe, mas morreu cedo. Eu nunca me importei de ser a sua amiga preferida, o seu desabafo.

As gavetas da mesa-de-cabeceira, como as da cómoda e as do pechiché da mobília do quarto dos papás sempre abriram mal, como se estivessem enferrujadas. Pareciam ter sido feitas maiores do que as caixas que as recebiam, e emperravam se não fechassem direitinhas e à primeira tentativa.

Desde que mudaram de Lourenço Marques para a Matola, em 1971, até morrerem, em Almada,  os papás tiveram sempre a mesma mobília de quarto em umbila escura que pouco se  estragou com os anos. A certa altura desencaixou-se o espelho do pechiché e o móvel passou solitário para o sótão. Servia pouco. O papá usava-o para preencher os totobolas, escrever relatórios do serviço. Aí se pousavam relógios, perfumes, medicamentos, e nas gavetas havia peúgas e lenços de assoar.
A mobília permaneceu em bom estado até ao fim, sendo que fim foi ter seguido para o Alentejo, para uma casa no campo que a Guidinha lá tem. Imagino que esteja tudo a ser útil e que muitos anos depois de eu passar para o o lado misterioso, os netos dos que poderiam ter sido meus filhos, possam nascer na cama do quarto da Matola transferida para o Alentejo.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Cartolina de cidadã



Na entrada do meu prédio afixaram um aviso para os condóminos, mas o problema é que sou  condómina. Não é para mim, foi a ideia que me passou pela cabeça. 
É assim há muitos anos, noutros contextos semelhantes, e não consigo habituar-me. O antigo impresso para pedir as ajudas de custo da gasolina, quando recolhia exames para corrigir, no agrupamento, contemplava um espaço para a assinatura do servidor do Estado, não da servidora, e tinha de o corrigir manualmente. 
Se o dicionário não contempla o feminino de condómino, deverá considerá-lo a partir deste momento. Está inscrito no ciberespaço. Passou a existir.
Tal como eu, no mesmo condomínio, há outros três apartamentos de condóminas. O mulherio abunda. Somos resistentes, desenvolvemos estratégias de sobrevivência ao longo dos milénios e vamos durando como a pedra.
Tenho andado toda a vida à procura de lugar no mundo, como se não tivesse direito a ele, embora eu e as outras sejamos um polo da existência sem a qual nunca se teria concretizado. Não sinto que tenha de pedir licença nem desculpas. Não sei se em mim está o positivo ou negativo da pilha, nem me interessa, mas tenho consciência de que sou uma carga tão valiosa como a do outro polo, e que sem mim não existiria energia, portanto, contemplem-me obrigatoriamente.
O aviso na entrada do meu prédio deveria, assim, destinar-se ao condomínio. Sempre que exista uma palavra neutra, deverá ser escolhida, porque inclui. Não há ninguém que o neutro exclua. Isto parece irrelevante?! Não é.
Tem tudo a ver com a recente proposta do Bloco de Esquerda relacionada com a alteração da designação do cartão de cidadão para de cidadania. O Estado deve proceder no sentido de promover a inclusão nos discursos, portanto ou se regista a existência de cidadãos e cidadãs, no mesmo documento, ou a da cidadania sem género. Ou identidade. Como prefiram. Estes assuntos são faróis para a mudança. Habituámo-nos a olhar para o mundo a partir de uma perspetiva ideológica masculina, e não haveria nisso mal se não tivesse provado não servir. Provou abundante injustiça e por aqui procura-se um mundo diferente, com novas designações, novo discurso. As palavras valorizam, simbolizam, orientam, mostram caminho. Não há civilização sem discurso verbal. Quando o mundo muda, os discursos mudam, e vice-versa. Habito uma realidade na qual existem cidadãs, presidentas e graus académicos de mestra, portanto se estas denominações não se encontram incluídas nos discursos oficiais, incluo-as eu. Quero-as em toda a parte, porque lhes cabe um papel modelar e ideológico importante.
No Público do passado fim‑de‑semana, alguém se indignava com a ideia de passar a existir um cartão de cidadania, propondo, caricaturalmente, a mudança para feminino de todas as palavras. Cartão passaria a cartoa ou cartolina. Nesse caso, eu passaria a ser detentora de uma cartolina de cidadã e, o meu vizinho, de um cartão de cidadão. A retórica do ridículo faz rir e resulta, mas é vazia.
A expressão cartoa ou cartolina está tão profundamente conotada com uma menoridade do feminino que assusta. Se querem viver num mundo em que o feminino de cartão é a cartolina, vivam, mas é o vosso, não o nosso. É um mundozinho particular que só não é grave se não sair dessa circunscrição. 
O que ponho em causa é uma consciência de mundo centrada na experiência e ponto de partida do masculino certo, valioso e universal. A vivência masculina será com certeza muitíssimo rica, mas, não mais do que a minha, portanto, não me apaguem e venham os cartões inclusivos.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Uma selva na sala

Caladium

Quando a mamã chegou de Moçambique encheu a sala de estar com vasos de filodendro, caladium, erva-da-fortuna e tronco do Brasil. Colocou os vasos de filodendro na última prateleira da estante de pau-rosa que veio desmontada no caixote de retornados. Foi das poucas peças que couberam no elevador e não tiveram de ser carregadas pelas escadas estreitas e escuras, ganhando mossas enquanto subiam e suávamos.
O filodendro alastrou pelas paredes da sala. A mamã encaminhava as hastes pelo percurso das quatro paredes, passando-as cuidadosamente por cima da porta, segurando-as com ajuda de pequenos pregos. Tinha muito orgulho na proliferação de metros de haste de filodendro que se produziam a partir a partir de pés nascidos em pequenos vasos pousados na estante, exigindo frequente e abundante rega, sendo esta difícil sem encharcar a prateleira ou o chão, o que me irritava. Trazer selva para dentro de casa exigia um estúpido trabalho.
Num dos cantos da sala, sobre uma mesa de pau-preto com tampo de vidro, ergueu um altar de enormes caladiuns de diversas cores e matizes; brancos, só brancos, vermelhos com branco, vermelhos com rosa, só vermelhos ou só rosa matizado. Os caladiuns eram a beleza natural completa. 
Havia troncos do Brasil sobre a mesa de centro e no chão, e vasos de erva-da-fortuna pela casa toda, porque davam sorte. A mamã trouxe as plantas de Moçambique, disfarçadas na bagagem. Raízes, bolbos ou estaca. Não se podia entrar com elas na fronteira, mas cá chegaram. As raízes vinham embrulhadas em algodão molhado embrulhado em pano, depois em plástico e dentro de sacos bem atados. Foram experiências de transplante e proliferação vegetal bem conseguidas.
A mamã tinha sorte com as plantas como com tudo o que lhe nascesse das mãos. Menos comigo. A mamã tinha o dom de Deus, o da reprodução e manutenção. A mamã era sagrada e sacralizava. Nenhuma planta lhe morria. Tinha tanta sorte com as decorativas como com as da agricultura. Tudo crescia viçoso e saboroso. Não apreciava, contudo, o trabalho da terra, que considerava uma escravidão, embora lhe conhecesse todos os segredos e manhas. Sempre que me ouvia sonhar com um metro quadrado de chão para plantar a minha horta e ter os meus animais, dissuadia-me. “Tira essas ideias da cabeça, menina. Isso dá muito trabalho, menina. Nem penses nisso, menina.” Contemplava-a sem palavras, sorrindo, desacreditando, observando-a sem perceber como é que uma mulher que toda a vida tinha feito crescer da terra a luxúria vegetal, ajoelhada sobre os seus grãos, a evitava tanto.
A minha mãe nunca viveu no mato. Nunca fomos propriamente para a selva. A Lourenço Marques branca era ordenada e limpa, tropical, é certo, mas domesticada. Os vasos de filodendro, ao princípio, não me pareceram mal, mas quando a sala se transformou numa floresta cerrada de hastes alastrando por todas as paredes, senti-me em expedição pelos trópicos húmidos, ao ar livre, onde não há casa, portanto sem refúgio nem esconderijo. Odiava os filodendros que forravam as paredes, estação após estação, com folhas viçosas, perfeitas, quase de plástico, a que ela dava brilho, mescladas de branco e amarelado entre tons de verde. O excesso vegetal tornava a casa desconfortável. Sentia que na minha sala moravam as criaturas que protegem os jardins, com os seus brilhos fátuos, o que encerrava uma dimensão contra natura, porque morávamos num quinto andar do Feijó, perto do centro-Sul. Da janela das traseiras  avistavam-se uns prédios inacabados, de construção clandestina suspensa, onde habitavam famílias negras com inúmeras crianças cujos pais trabalhavam na construção civil e as mães em limpezas ou cozinhas de bar e restaurante, fazendo puxadas clandestinas do poste de eletricidade para conseguirem ter luz nos altos prédios vadios e acartando baldes e jerricans de água pelas escadas acima, que enchiam na rua, fornecendo-se numa casa próxima. Do lado da frente existia um enorme terreno baldio onde as crianças do bairro brincavam e mexiam nos pipis umas dos outras pela primeira vez. À beira da estrada, numa barraca de ciganos, a paz doméstica exigia que o cigano espancasse a cigana, que gritava ao longo do dia, enquanto lhe atirava com pedaços da barra de sabão azul e branco com que lhe lavava a roupa. Os filhos berravam todos ao mesmo tempo. O cigano zurrava. Os ciganos eram o espetáculo da janela da frente. Pretos atrás, ciganos à frente. Estava-se muito bem. Para lá do baldio, que se estendia até ao Centro Sul, via-se o Cristo-Rei de costa para nós, é certo, mas Cristo é sempre lindo, mesmo de costas, e todo o casario branco de Almada, elevando-se, uma grande vista.
Eu estava nos vintes, fascinada com as leituras da geração do Orpheu,  Rimbaud, Duras, o que apanhasse de bom, e a selva da sala transcendia a minha escassa tolerância estética. Considerava a mamã uma pessoa de mau gosto, antiquada e assaloiada. Tinha vergonha do tropicalismo e desdenhava a casa, destilando a minha raiva em sugestões desagradáveis sobre o seu aspeto, com secura e amargueza. Não se podia negar que tinha nascido em Moçambique, que estava cheia desse ar, mas tirando o Arcanjo, que viera de Benguela e com quem tivera algumas discussões sobre a beleza e valor das duas ex-colónias, todos os meus amigos eram portugueses, e não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os meus pais acabados de chegar de Moçambique. Odiava-os de morte. Desejava que morressem num acidente automóvel com o Renault 9 cor de café com leite, a caminho de qualquer localidade onde fossem visitar os outros retornados com os quais auguravam o pior dos futuros para a África negra. Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avançar. Não via futuro para mim. Ser órfã tardia constituía a única salvação ao meu alcance. Se os meus pais desaparecessem, o meu caminho ficaria livre, como já estava mais ou menos, desde que tinha chegado de Moçambique. Livre para ler, para beber e chegar tarde, para o sexo com quem me apetecesse, e como apetecia, embora as condições físicas se apresentassem desfavoráveis. O meu corpo não se conformava. Os pneus na cintura, a barriga saliente, as mamas grandes e suspensas não se adequavam ao padrão, mas havia outros trunfos que me iam permitindo furar; uma cara bonita, com lindos olhos amarelos, lábios pulposos, atrevimento e palavra forte. E escrevia bem. Escrever bem era uma fonte de admiradores.
As minhas palavras duras, o meu desdém e repúdio da casa levaram a que a mamã fosse lentamente retirando as plantas da sala, até que um dia cheguei do emprego e as cortara todas, abdicando do seu grande orgulho decorativo. Odiava a minha mãe. A minha mãe odiava-me, contudo queria que a casa fosse minha, que a casa me agradasse, que eu estivesse na casa. Aprovei, arrogantemente. Respondi-lhe que já o devia ter feito há mais tempo. Não agradeci, sempre me julguei dona e senhora, sempre considerei que o mundo tinha de me prestar a devida vassalagem. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Doce, fundo, claro poço da verdade

Foto: Jessica Dimmock

A verdade é demasiado pura para ser desperdiçada.
Em 1978, as mamas da Nicha estavam em crescimento e eram pequeníssimas pêras assimétricas e duras com mamilos marron.
Hoje consigo admitir que tive uma paixoneta pela Nicha. Lavava-lhe as meias, os soutiens e as cuecas, mesmo as manchadas pelo período, como se lavasse a roupa do meu corpo, mas sagrado. Um reboliço desejado, oloroso, comestível onde me enfiaria inteira de bom grado, se a fusão dos corpos existisse. Servia Nicha como servimos sempre a quem amamos, por bem, por vontade, sem esforço nem favor. Passava-lhe o creme pelo corpo, aos sábados de manhã, exceto nas mamas e nas partes do pudor genital. Tinha acesso ao resto. Nicha despia-se devagar, e era melhor que uma estátua modelar, porque estava viva, os músculos pulsavam sob a pele, e meneava-se iluminada pela claridade da luz matinal, insuportável para os olhos, mas coada pela cortina bordada da janela da nossa camarata, sorrindo, murmurando vagamente um “sinto um bocado de frio para estar descoberta”, deixando uma impressão de enfado pela ação que se seguiria, embora lhe desse jeito hidratar a pele, sobretudo a das costas, onde não conseguia chegar. Estendia-se de bruços e eu fazia a massagem render enquanto Nicha relaxava com os braços pendurados, um de cada lado da cama, e se deixava passar para o outro mundo do prazer. Tinha a pele grossa como cabedal, ligeiramente escurecida, e o cabelo em cachos castanhos-escuros muito compridos. Era angolana branca e aquilo devia ser uma pele de angolanos brancos um bocado misturados. Depilava-se aos 15. A mãe fazia depilações para fora. Eu não possuía informação sobre depilações, utilidade nem funcionalidade, e escutava com atenção a descrição das técnicas. O pai era mecânico de Kawasaki e Angola era praticamente toda dele, nas palavras da filha. A Restinga ou lá o que era, também. Eu trabalhava devagar nas suas costas, braços e pernas.
As nossas colegas, bem como as perfeitas, acharam os rituais sabatinos ligeiramente questionáveis, embora nada pudessem censurar do ponto de vista “legal”. Estava tudo dentro dos costumes entre raparigas, mas pelo colégio começaram a correr certos rumores, sobre mim e a Nicha, que em nada beliscaram a sua reputação de beleza africana branca, bela entre as belas.
Num dos sábados, a mão direita resvalou-me e escorregou, cheia de body milk ou óleo Johnson, pela mama da Nicha, segurando-a pelo lado externo, deslizando depois por baixo, desejando palpá-la no côncavo da mão, sentir a densidade daquele pomo de formidável viço, a borracha tensa e morna que me chamava, inteira. Foram três segundos. Nicha despertou, gritou “és parva”, e bateu-me na cabeça com o objeto que lhe veio à mão, no caso, um dos sapatos que tinha comprado na semana anterior para assistir ao concurso de dança, no colégio, essa noite, em camurça preta, com salto agulha. Não tinha a intenção de me agredir, mas apenas de me fazer parar com o abuso de confiança. Não pretendia magoar-me, mas marcar a sua posição de virgem inatingível e inatacável, cuja sensualidade não se encontrava guardada para as minhas mãos, mas para as do domador de leões que seis anos mais tarde a engravidaria numa rapidinha ao ar livre no Campo Grande, e a levaria para viver nos bastidores baços do circo. O seu corpo era material reservado, eu não passava de uma servente, e ela estava ali para ser servida. Era só o que a Nicha pretendia esclarecer quando me atingiu com o fino salto alto do lindíssimo sapato de camurça, abrindo-me um lanho na pele do crânio, ao mesmo tempo que se virava para me esbofetear com a mão esquerda. Não foi preciso. Não teve oportunidade. A ponta do salto, em formato agulha, prendeu-se na pele rasgada do golpe aberto, e tendo ela puxado o sapato, para que saísse, traçou na minha cabeça uma ferida maior, uma estrada de sangue. Foi um acidente vulgar. Levei a mão ao local da pancada e ardor, trouxe-a ensanguentada junto aos olhos, gritei, ela gritou, enquanto tapava as mamas, senti o sangue escorrer pelo pescoço, a perfeita acorreu, um número indeterminado de colegas assomou à porta da camarata, onde nos tinham deixado “naqueles lindos preparos”, alguém me levou de urgência para o hospital no automóvel da senhora diretora, que ficou com os assentos todos manchados, limpeza que mais tarde o meu pai teve de pagar, e pelo colégio inteiro, feminino e masculino, correu o boato de que eu e a Nicha tínhamos tido uma violenta briga de casal e acabáramos. Errado. Não acabámos a não ser meia dúzia de anos mais tarde, e não voltei a tocar-lhe nas mamas, porque não se pode ter tudo, vamos aprendendo a preço de sangue. Mas fui olhando. Olhar não está regulamentado pelos costumes.
Nicha continuou a ser a rapariga mais linda e desejada do colégio, e eu singrei na carreira de barril de sebo, também orca, a fúria dos mares, também baleia azul, também bola de Berlim ou boneco Michelin, e na obtenção de boas notas na escola, ao mesmo tempo que lhe realizava os trabalhos de todas as disciplinas e oferecia explicações de línguas, para que chegasse à positiva, a custo, é certo, mas dando para passar. Continuei a lavar e esfregar a sua roupa no tanque do quintal, numa bacia azul escura, quadrada, na qual se formava, sobre a água da lavagem, uma espuma castanha, quando lhe vinha o período. Ficava com os dedos engelhados e muito brancos da água gelada, de esfregar com força e pingos de lixívia, para que a sua roupa interior, que depois estenderia no varal e passaria a ferro, ficasse branca como o meu olhar já cego, que ainda julgava ver, nesses dias. A minha roupa podia ter nódoas. O que importava o que era meu?!
Esta é a verdade.
Ficou-me, para o resto da vida, uma feíssima e extensa cicatriz na têmpora direita, acima da orelha, que escondo sob o cabelo, mas por vezes tenho de exibir, quando realizo exames médicos, testo óculos ou corto o cabelo.
Poderia dizer a verdade quando me perguntam “o que foi isso”. Não é uma história longa nem complexa. Poderia contá-la sem pormenores, a seco. “Foi um acidente quando era adolescente; na brincadeira, uma colega pegou num sapato e atingiu-me.” Não o faço. Minto. Invento histórias. Já contei que tinha sido vítima de violência doméstica de um namorado que depois denunciei, e dissertei sobre a necessidade de as mulheres não se subordinarem nem deixarem passar qualquer tipo de ataque dos companheiros. Expliquei que o dito namorado era um monstro, inventei-lhe um nome, contexto de encontro, família, situações do relacionamento, o que gerou muita discussão e catarse de experiências semelhantes. Já contei que tinha sido um acidente automóvel. O meu pai via bastante mal, por causa da miopia, ficou encadeado com os faróis do carro que vinha em sentido contrário, e enfaixámo-nos contra uma árvore na berma da estrada, a caminho das Caldas da Rainha. O carro não teve arranjo e parte da chapa ficou-nos espetada no corpo, rasgando-nos a pele. Se me magoei apenas na cabeça? Não, fiquei igualmente muito rasgada no peito e no abdómen, e explico, de uma virada, com uma única narrativa, quase todas as cicatrizes do meu corpo. Segue-se conversa sobre os problemas de se conduzir num país como Portugal, onde ninguém cumpre as regras, o custo de seguros contra todos os riscos, problemas de visão graves, e grande catarse de experiências relacionadas com acidentes de viação. Devo confessar que a narrativa envolvendo um  acidente com o meu pai é a minha preferida, porque me pedem muito menos precisão de detalhes. Toda a gente parece saber muito bem que é um acidente de viação, e não escandaliza, já a pancada do namorado excita ânimo, curiosidade e desejo de vingança.
Mas a mentira rende e o meu objetivo cumpre-se. Rapidamente a assembleia esquece a cicatriz na cabeça e adiante. Estou aceite.
Eis a doce mentira.

Podem perguntar-me porque invento. Porque não minto com a verdade, contando-a fria, parcial? Haveria de se seguir conversa sobre os excessos dos adolescentes, as parvoíces que lhes passam pela cabeça, as coisas próprias da idade, e catarse sobre experiências semelhantes que todos viveram. Seria certinho como Deus não estar lá em cima a olhar para mim, castigadoramente. Por que não o faço? Porque a elaboração da mentira me evade e me protege de mim, do que sinto e do que fui? Porque sou o que fui, acrescentando-lhe dois ou três empréstimos desnecessários, mas, genuinamente, o que veio primeiro? Porque a verdade é bela demais para a devassa, excessivamente pura para a profanação?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mijo

Foto: Bruno Boudjelal


Porque me leva todo o presente para a experiência do passado? Precisa a vivência presente de validação ou apenas se reconhece na repetição?
- Quando chegarmos, tenho prioridade na ida à casa de banho - esclareceu Cláudia enquanto acelerava. 
- Certo, mas não fizeste o xixi todo no campo? - perguntei, brincando.
- Foi uma mija parcial.
Ri-me. Olhei para fora. Estava escuro e não se via nada. Na cabeça vi-me a chegar a casa com a minha mãe. As alucinações que não me afligem, apenas me ocupam. O meu pai estacionava o carro, nós corríamos para a casa de banho, para ver quem chegava primeiro, ambas aflitas. Chegava eu, mas baixava as cuecas e ocupava o bidé, a rir, a rir, mijando no espaço não autorizado, enquanto ela me dizia, complacente, "aí não podes, menina; não se faz xixi no bidé, menina." E eu, "agora já está."
Nessa altura ainda não sabia que ela ia morrer, apenas que se morria, mas não ela nem eu. Não podia conceber que um dia a sua voz, tão clara e viva no meu cérebro, como a ouço neste momento, não estaria comigo nunca mais. Carne prolongada de mim. A carne inimiga mais amiga.  A voz vinda do passado. Uma doçura firme, "não podes fazer, não quero que faças, não te deixas dobrar, menina". Amantes inimigas sem explicação, mijando juntas pela eternidade fora, rindo, rindo e mijando, um retrato parado. Não são rosas nem vinho nem ouro nem jasmim, mas mijo louro, que alívio. Este retrato parado da minha mãe que me amou sem mansidões nem afetos. 
Cláudia estaciona à porta e corre para casa. Saio devagar, esvazio a bagageira. Sorrio enquanto recordo a voz da minha mãe. Um dia todos percebemos que o tempo acaba. E está certo.