Cheguei à caixa do supermercardo poucos segundos antes de
um homem de barba e cabelo branco, da minha idade ou mais novo. Com a máscara
não se percebe bem. Não o conseguirei reconhecer se nos voltarmos a cruzar. Fiquei com a sensação de que queria
passar-me à frente porque tinha menos coisas. Estive quase para lhe dizer “pode
passar”, mas desisti, porque a funcionária estava a despachar. Senti-o
olhar para mim. Senti a impressão de que estavam a avaliar-me. Ainda eu não tinha
acabado de colocar os produtos na passadeira, ele aproveitou o momento em que
me baixei para retirar artigos da cesta de compra, inclinou-se também na minha direção e balbuciou umas palavras atrás da máscara, sempre com a mão direita metida no
bolso volumoso das calças. Não percebi o que disse. Ele repetiu: “Posso oferecer-lhe esta Virgem?” Fiquei sem
resposta, surpreendida. Ele tirou do bolso uma imagem de uma Senhora em
porcelana com os pastorinhos ajoelhados aos seus pés e mostrou-ma discreta,
envergonhadamente. Logo a recolheu. Não percebi a situação. Não era uma abordagem de Testemunha
de Jeová e ele não estava a vender, mas a dar. Eu disse que não,
não queria, que desculpasse. Insistiu comigo: “Não gosta da Senhora de Fátima?»
Não lhe disse que não gostava. Tive de ser muito assertiva, muito firme. “Não,
não quero, desculpe. Já lhe disse que não. Desculpe." E mostrei-me insensível,
como as pessoas quando lhes pedem esmola e recusam. Mas senti-me mal. Era a
figura de uma Senhora. Toda a minha vida existiram em minha casa esses
ícones. Passaram-me muitos pensamentos pela cabeça enquanto transitei para o
lado da caixa onde se metem os produtos nos sacos e se paga. O que é que ele
viu em mim? Porquê eu? Quem é que anda a dar imagens da Senhora em filas da caixa
do supermercado? Que imagem era aquela? Onde a tinha ido buscar? Porque queria
dá-la? E se um anjo lhe tivesse soprado ao ouvido que eu era a pessoa certa? Se
tinha sido escolhida, como recusar? Senti-me envolvida num dilema e num mistério. Ele passou os
artigos dele para o espaço ao lado, enquanto eu ainda enchia os sacos. Quando
se foi embora, não resisti e interpelei-o. “Porque quer dar-me essa imagem?” Deu
uma resposta que não compreendi. Mais uma vez a máscara. Perguntei de novo: “porque quer dar-me a Virgem?”. Ele tentou responder. Não sei se percebi bem. “Não sei quê deram-me
ali.” “Deram-lhe e você não quer?” “Mas a senhora quer a imagem? Quer a Virgem?" E eu
disse “sim”, porque não fui capaz de lidar com a situação, precisava de tempo
para saber o que fazer com a situação inédita. Tirou a imagem do bolso e passou-ma. Fiquei com uma garrafa de azeite numa mão e uma imagem de 15 centímetros na outra, sem saber o que fazwe.
Pousei-a no chão junto aos sacos já cheios. Penso que a aceitei porque tive medo do
que ele fosse fazer à imagem. Iria abandoná-la? Atirá-la para o lixo? Não
suportei a ideia. Aceitei-a para a proteger embora ao mesmo tempo sentisse o nojo
de não saber onde esteve, a quem pertenceu. Não quis metê-la nos sacos das compras
nem na minha mala. Não tinha bolsos. Entalei-a entre as calças e o abdómen. Para
a afastar o mais possível de mim, encostei-a a mim.
Fui carregada para o carro. Abri a bagageira. Pousei as
compras. Tirei a imagem da barriga, olhei para ela por segundos. É bonita. Mas não gosto de ter senhoras de Fátima em casa. Nem nenhum símbolo religioso que
não seja escolhido por mim. Assim, embrulhei a Senhora num saco de plástico da
fruta e coloquei-a no separador da bagageira onde tenho os coletes refletores e
outras bugigangas. Não sei o que fazer à imagem. Se calhar vou ter de a
abandonar. Tenho de pensar em deixá-la num sítio onde apareçam pessoas católicas
que possam encantar-se com ela. Apenas transferi
para mim a responsabilidade e as condições do seu futuro abandono.