A minha vizinha do lado é uma mulher jovem e muito bonita. O marido é um camião TIR com o tubo de escape muito carbonizado. Nunca saem juntos de casa. Nunca entram juntos.
Sei que são casados porque a minha sala dá para a cozinha deles, ambos passamos muito tempo nos respectivos espaços, e as paredes são finas demais. Há dias em que tenho dúvidas sobre se hei-de ver um dvd ou ficar a ouvir a troca de galhardetes do outro lado. Do outro lado há tensão emocional, há dimensão trágica, há ciúme, raiva, desprezo, humilhação, decepção; os intervenientes na acção desempenham os seus papéis com autenticidade e mestria, como se nunca tivessem feito mais nada na vida. Vê-se que não são amadores. Enquanto num filme é sempre incerto.
Quando os ouço penso que tive uma sorte enorme em escapar ao teatro da vida conjugal. Mas depois páro um pouco e sei que é mentira. Isso era o que eu gostava que fosse, para poder justificar, com argumentos imbatíveis, a minha condição de solteira, essa forma de existência tão anormal, como dizia no outro dia uma tia minha.
Porque é evidente que outros casais têm tudo. Os meus vizinhos é que tiveram azar.
10 comentários:
Já me aconteceu inúmeras vezes encontrar conhecidos ou conhecidas da minha juventude, 10 ou 15 anos depois, casados ou solteiros, e notar com grande atenção e distanciamento a sua decadência física, a decadência física dos respectivos cônjuges, e ficar agradecido ao destino por: 1. Não ter estabelecido uma relação com algumas dessas pessoas, pois o que me atraía nelas totalmente desapareceu, 2. Sentir pena dos respectivos cônjuges por estarem casados e "aprisionados" numa relação com aquelas pessoas, que tão pouco "motivantes" se tornaram. Será isto apenas um fraco consolo e um fenómeno de compensação psicológica de que os "solteirões" se socorrem para tornar suportável o seu "fracasso" social? Ou será que, pelo contrário, foram as pessoas que embarcaram impulsivamente em relações que perderam a chama que, embora "sancionados" pela sociedade, se enganaram a elas próprias?... É que, na juventude, as hormonas levam a uma considerável perda da objectividade no que diz respeito ao estabelecimento de relações (de uma forma um pouco semelhante ao consumo de álcool). Muito do que me dava tusa aos 15 anos, manifestamente agora não me dá, não apenas por uma objectiva perda de potência sexual (que existe), mas também por algo mais profundo, que eventualmente terá a ver com o que se costuma chamar "expriência" (mesmo que não se trate de "hands-on experience")...
Isabela, a Primavera está a bater forte em Almada :-)
Outra coisa: se lhe apetecer, deixei-lhe uma corrente no meu blog.
Bj.
Miguel, eu sou solteira, de facto, e tenho as minhas manias e estratégias de sobrevivência social, mas tu não te enquadras na categoria: és apenas um caso bastante problemático de uma mistura de raiva e decepção e desprezo pelos outros. Detestas os outros. Detestas mesmo, e achas que têm todos os defeitos do mundo. Não queria estar na tua pele. Aos outros não importa o que pensas deles, mas a ti a coisa deve doer-te.
É, Gi, o pessoal aqui em Almada anda com as hormonas a badalar!
Porque será que as solteiras têm tanta necessidade de justificar o seu estado civil? Se já provaram por A+B que ser solteira é que é bom, porque continuam a "chover no molhado"?
Já percebemos que ser-se casado (na maioria dos casos) é uma coisa deprimente e que ser-se solteiro (na maioria dos casos)é que é uma festa. E quantas vezes vão ter que o afirmar ou quantos casos de casamentos falhados vão ter que analisar para que se convençam disso?
Vanda
E com as alergias.. malditas!
Os meus vizinhos do 2º andar andam na rua como se dois namorados recentes se tratassem. É amor pr'aqui, amorzinho pr'ali, querida e querido..
Quando estão em casa eu ouço as discussões no r/c. Imaginem.
Casei com 23 anos e fui casada durante 8 anos. Não voltei a repetir a experiência. Mantenho uma relação há 17 anos, mas cada um na sua casa, sem a vivência diária e embora possa já não existir a paixão inicial, a chama mantem-se, principalmente se estamos dois dias sem nos vermos. Falamos 5 e 6 vezes por dia ao télemóvel, e mandamos imensas mensagens. Acabei por chegar à conclusão que o não ouvir ressonar diáriamente, o escovar dos dentes, e ter a tampa da sanita sempre pousada ajuda a manter a relação. Há dias em que tenho necessidade de estar completamente SÓ.
O pouco tempo (e paciência, ultimamente) que vou tendo para a blogosfera fez-me perder esta entrada - há meses que, graças à feliz sugestão de um amigo, substituí post por entrada.
Não conheço o Miguel, não posso pronunciar-me. Sou solteira, sempre fui... e assim quero continuar. Prezo muito a solidão, mesmo adorando estar com pessoas de quem gosto (e comentar blogues até pode ser um prolongamento disso).
O que sei dizer (está bem, posso ter tido azar) é que nunca me senti só, tirando o breve espaço de um ano de pesadelo em que arrisquei viver com uma pessoa. Ele via televisão como s não houvesse amanhã, o que era preciso era estar a ver televisão, nem que fosse o TV Rural. Chegámos ao ridículo de eu chorar baba e ranho a ouvir a Sonnambula de Bellini (de auscultadores postos, claro) e ele me perguntar o que se passava (enquanto fazia zaps frenéticos). Teve de perguntar várias vezes, a última a arrancar-me os auscultadores da cabeça. Não ia perceber. Foi o que lhe disse. Não fui simpática? Claro que não. Mas fui verdadeira. E estava viva. Como continuo a estar. Não há nada de triste ou deprimente em optar por ser solteira e viver sozinha. Sou naturalmente alegre e amo o riso. Só não quero viver com ninguém. Não, não e não.
Aquela experiência foi desastrosa, admito. Mas tenho mais amigos do que amigas, e sou daquelas pessoas a quem os outros confiam segredos. Sei como são os casamentos deles. Não quero isso para mim.
Posso ser diferente, mas quando se tem de lutar muito por um amor, quando se é jovem; a vida toda cultivamos esse terreno "sagrado", que antes nos era proibido. Benditos os casais, que quando chegam á minha idade, se abraçam por amor, deixando os olhos cegos, á "decadência" da carne. É como um jardim bem tratado, cultivado com amor. Consegue espantar-nos, todos os dias!...
Que bem escrito! Obrigada :)
Enviar um comentário