A Micas vai fazer 11 anos e está a ficar velhota. Cada vez lhe pesa mais a anca e a pata direita. Caminha devagar, fica para trás, ao seu ritmo.
No elevador, abracei-a, e disse-lhe, deixa lá, a dona adora-te, e quer que tu vivas muitos anos: mais 10, 20, 30, 40 anos... bem, tantos também não, porque depois não estaria cá para cuidar de ti, para te proteger. E em centésimos de segundo compreendi o que passa pela cabeça dos suicidas-homicidas, dos que dão cabo da família toda, inclusive do cão e do gato, antes de se aniquilarem: não suportam que a vida dos outros possa seguir sem eles. Não acreditam. Não conseguem viver no mundo e acham que o mundo não consegue viver sem eles.
Sinceramente, a maior parte de nós vai adormecendo e acordando agarrado à sua psicopatologiazinha.
5 comentários:
Curiosa analogia. Mas não generalizes, a maior parte das pessoas não faz isso. A preocupação com o futuro dos que nos são queridos não pode ser elevada à categoria de patalogia. Excepto se os matamos, claro.
«(...)Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros... (...)»
Etc. Sabemos de quem é este poema desgarrador, ainda mais desgarrador por tão verdadeiro.
A Micas é linda, Deus te a conserve por muito tempo, todo o tempo em que ela possa ter qualidade de vida. A minha Messalina de quase 15 anos partiu há quatro meses e faz-me ainda a falta que fará sempre, que isto não muda, só vai ficando mais suportável com o tempo.
Ah! Messalina era uma gata. Siamesa. A linda carinha que te aparece aqui ao lado. Mas é igual, tanto faz. Acho que eles (elas, neste caso) estão mais próximos de Deus do que nós.
Sim, Carlos, é apenas uma analogia. O que se passa é que houve um momento de compreensão por esses homens. Normalmente acho que matam a família toda por uma questão de poder, por achar que se eles não podem cá ficar, então ninguém ficará, mas não tinha tomado grande consciência de que, nas suas mentes, aquilo pode ser um acto de amor. Uma coisa do género, "vou matar-te para que não fiques a sofrer sem mim, porque eu não poderei proteger-te". É que isto acontece. Claro que me reportei a estes suicidas, porque foi realmente o que me ocorreu, mas eu penso que todos nós, que amamos alguém que depende de nós, temos essa preocupação relativamente ao seu futuro quando já cá não estivermos. Por exemplo, eu apercebo-me que a minha mãe, de quem eu cuido a 90%, tem essa preocupação relativamente a mim. O que será de mim quando ela desaparecer? E, por um lado, Carlos, pensando bem, pensando muito bem, o que será de mim quando ela desaparecer?
Teresa, não tenhas dúvidas. É como dizes. Eles estão mais perto. Um abraço.
Estão muito mais perto! Se quiseres sentir o olhar de "Deus", olha bem, dentro dos olhos de um cão. Através desse olhar estou em contacto directo com "Deus", é o que sinto.
Não, não passa. Fez três anos que a "adormeci" nos meus braços, a minha alma gémea Luna, "setter", vestida de seda e de fogo. A saudade não passa, o amor também não, o nó na garganta continua. Plantei um Àcer vermelho, como ela no jardim, Luna dá-lhe vida para mim, para o poder contemplar,
para que, nos momentos em que estou triste, com ela possa
desabafar. Foi a única que tive desde bébé, não... não passa...
Enviar um comentário