domingo, 21 de junho de 2009

O futuro da leitura

A filosofia do Jornalismo, permitam-me criar esta área de estudos, caso não exista, interroga-se sobre o fim das edições em papel. A disponibilização on line da maior parte dos conteúdos editoriais veio causar o fim da imprensa escrita?

Por um lado é uma ideia algo apocalíptica, por outro é de um realismo ensurdecedor.

Para pessoas como eu é impensável trocar a leitura do jornal ou do livro em papel pela leitura num écran luminoso, seja ele qual for. A leitura não é, para mim, um acto de pensamento meramente associado ao visual. A leitura é táctil. Recordo o tipo de papel dos melhores livros que li. Consigo descrever o grafismo do Diário de Notícias ou de A Capital ou do Independente, nos anos 80. Consulto os jornais on line apenas para confirmar alguma informação que me transmitiram de boca ou para comparar uma notícia lida num título, com a forma como a trataram noutro. De resto, detesto ler no écran do computador, que tão útil me é de tantas formas.

Cumulativamente, não consigo compreender esta modernice que consiste em os jornais permitirem comentários às suas notícias e artigos on line, no final da última coluna de texto. Leio totais aberrações; emendo, não leio. Recuso ler o que quer que seja escrito como comentário a uma notícia. Claro que temos que dar voz aos malucos, mas por enquanto ainda existe o Júlio de Matos, as portas das casas-de-banho e a rua, a libérrima rua onde cada um pode gritar o que lhe apetecer e insultar o comum transeunte. A mim costumam calhar-me todos, até já estou habituada.

As notícias não devem ter caixas de comentários, nem os jornalistas ou cronistas devem ter que indicar o seu e-mail para receberem correspondência dos leitores. Se o leitor tem alguma opinião, que terá sempre, até porque defendo o direito à loucura e à indignação, escreva para a direcção do jornal e explique-se.

A democracia, infelizmente, tem de reescrever os seus limites. Eu, que sempre defendi que os blogues deviam manter caixas de comentários abertas, e critiquei, aberta e ferozmente, quem as fechava, acho hoje que os outros tinham razão, e que me cabe fazer um mea culpa nesse ponto. Não podemos ser demasiado ingénuos e pensar que quem nos lê, chega até nós com boas intenções, boa educação. Alguns, chegam. De resto, a saúde mental dos portugueses não anda grande coisa, e uma pessoa tem o direito de se defender. Penso, hoje, que permitir a livre expressão de opinião em caixas de comentários, nos blogues ou nos jornais, pode contaminar e abastardar o conteúdo comentado. Nos blogues, enfim, ainda se tolera, mas nos jornais é inadmissível.

Não é impossível que a edição jornalística em papel desça para metade, ou menos, nas próximas décadas, mas nesse caso será absolutamente necessário, por uma questão de sobrevivência, que as edições on line só estejam disponíveis mediante assinatura. Eu não faria uma assinatura on line do meu jornal preferido, a menos que estivesse no estrangeiro, mas a avaliar pela relação de osmose quase total que os jovens mantêm com o computador, penso que o futuro, todo o futuro estará on line. Os produtos em papel serão artigos de luxo para élites; eventualmente mais caros.

Pode haver quem diga que não está disposto a pagar uma assinatura on line, mas eu também já disse que nunca pagaria acesso à net, e estou a pagá-lo todos os meses. Portanto, o que dissemos ontem não corresponde necessariamente ao que faremos hoje.
A edição em livro, no entanto, manterá o seu formato em papel, por uma questão de tamanho e facilidade de leitura. É acessível, a qualquer par de olhos, ler textos curtos num écran, mas não estou a prever grande interesse pela leitura de O Ensaio sobre a Cegueira num computador, por muito bom que seja - o livro e o écran. Ler um livro ou um jornal na esplanada, à sombrinha, não é o mesmo caso o suporte seja um livro ou um notebook muito jeitoso. O problema da edição em livro prende-se, a meu ver, com o tipo de leitura que oferecerá, e não tanto com as características do suporte.
O leitor que hoje tem 15 ou 16 anos prefere temas actuais, práticos, numa linguagem fácil e bem ilustrada. Detestam romances e novelas com muitas personagens, intervenções inovadoras do narrador, ordens temporais complexas, símbolos. Gostam dos livros de auto-ajuda. Como fazer isto e aquilo? Como foi ou é a vida do cantor tal? Gostam de humor. Quanto à poesia, ao contrário do que afirmam os editores, penso que se transformará na grande fonte de literariedade, por um motivo bastante prosaico: normalmente, é um texto curto e de rápido acesso à emoção. Livros de poemas bem ilustrados, bem escritos, são muito apetecíveis aos jovens, ao contrário do que se pensa. Pena é não existirem muitos, porque a poesia continua a ser encarada como um texto muito, muito, muito sério que deve ser empacotado numa capa muito, muito, muito chata. Para mim, a poesia, é de todos os textos literários o mais intenso, o mais poderoso, o que mais facilmente captará para o mundo dos livros um potencial leitor.

Foto minha, captada a partir de imagens televisivas.