Da traição

Poço do Inferno, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]


"Achas possível amar uma pessoa e simultaneamente traí-la?", perguntava uma das personagens do filme que vi ontem. O interlocutor respondeu, sem mais justifição, "Acho". "Traí-la", era, naquele contexto, ter ido para a cama com outrém fora da relação amorosa.
Fiquei a pensar nesta troca de palavras tão simples e tão comum, que a todos já aconteceu, um dia. Perante a dor do traído, nós ou outros, a resposta tende a ser "não, não é possível amar uma pessoa e traí-la, fazendo amor com outra".
Por outro lado, quando me lembro do amor que eu já traí, dos amores que aqueles que conheço, e não conheço, traíram, torna-se claro que a ordem natural das coisas é amar e trair. O meu pai traiu a minha mãe vezes sem conta, e adorava-a. A traição não é necessariamente uma declaração de desamor pelo parceiro sentimental.
Os grandes amantes tendem a ser, também, personalidades emocionais, impulsivas, apaixonadas, especialmente frágeis às solicitações do desejo. Depois, caindo no poço do Inferno, caramba, que lugar mais aprazível! Refastelamo-nos, por meia hora, nas lamas sulfurosas do local danado, e, acabado o momento, saltamos para fora, sacudimos a roupa, a cabeça, e toca a andar para casa. Não contamos a ninguém. Para quê? Fumar um cigarro ou comer uma tablete de chocolate inteira também é bom e não vamos a correr contar. Fumou-se, comeu-se, e a vida continua. Uma facada na relação amorosa pode não ser mais grave que isto: fumar ou comer às escondidas.
Para quem está fora de uma relação amorosa é fácil defender esta ideia, concordo. Sei perfeitamente que o mundo desaba quando nos sentimos traídos, mas estou convencida que a cultura valoriza demasiado a importância da traição. Estou convencida, pelo que observo, que trair, na maior parte das vezes, não implica qualquer ruptura com os sentimentos profundos que alimentamos pelos outros. Na maior parte dos casos, a traição é apenas um momento, um apêndice na vida dos traidores e dos traídos. Mas eu compreendo que não foi isso que aprendemos e não sabemos o que fazer aos nossos impulsos animais, que escapam, apesar de tudo, à cultura e à educação.


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