Questões do nosso tempo 3 - Que futuro existe para os nossos filhos?

Confundo-me com a inversão de valores. Confundo-me, porque atenta à "miséria" do presente, questiono exacerbada, o que vai ser deste país num futuro próximo. - Maria
Será que vamos ter tempo para dar a volta a isto??? - Elisa
... aflige-me a incapacidade dos nossos governantes em resolver os problemas do País. - Salvador
A minha grande questão é se seremos capazes de educar as nossas crianças para que se transformem em adultos sensatos, coerentes e responsáveis e honestos. Serão eles que farão um mundo melhor, se as mentalidades forem mudadas. Hoje os educadores demitem-se desse papel e remetem-no para os professores e escolas. Está errado. A educação dá-se em casa, e sem ela nenhuma escola terá sucesso. Acredito que as coisas melhorarão se os miúdos de hoje forem bons Homens amanhã, mas terão os que têm a responsabilidade de os educarem essa capacidade e essa força? - Jacklyn
... por que é que é sempre o mexilhão que paga. - sem se ver
O mundo acabou realmente no ano 2000. Ou talvez tenha sido em 1997 ou em 2001 ou 2005. Foi por aí, mais segundo, menos segundo. Ninguém deu por nada, porque o planeta não explodiu, não colidimos com um asteróide, não ocorreu um sismo de dimensões incalculáveis, seguido de tsunami. Nada disso. O que ruiu, porque já estava podre, foram os alicerces de todo um sistema económico e político que sustentava uma vida rica em artifício, leveza e inconsequência, a diferentes níveis. O fim do mundo foi o fim de um mundo, e para mim foi um belo fim.
Durante muitos anos pensei que não conseguiria ser adulta. Sentia medo do dia em que teria de dar provas. Nunca compreendi as coisas do mundo: as relações de poder, a repartição desigual da propriedade e da riqueza, a indiferença relativamente ao sofrimento alheio, o fascínio pelos palácios, reis e princesas, a escravidão do trabalho, tal como o vejo exercer-se. Na minha papelaria, passei lá há pouco, vendem-se cerca de oito revistas semanais sobre a vida de pessoas colunáveis. Vende-se tudo. Há mercado para essas e outras. Quem são as pessoas colunáveis? O que nos interessa o seu aspeto, a decoração das suas casas, casamentos, gravidezes, batizados, traições, divórcios, funerais, heranças? O que fez essa gente na vida para sentirmos curiosidade pela sua vida privada? São excelentes profissionais na sua área? Salvaram vidas?
Nunca compreendi, por exemplo, o mês de férias tal como o gozamos. Trabalhar 11 meses que nem loucos, com os olhos postos num vindouro mês no qual se continuará a mesma roda viva, mas no inferno algarvio, para regressar ao trabalho louco por mais 11 meses, sempre me pareceu um ciclo vicioso absurdo. Lembro-me de pensar, teria uns 18 anos, eu não vou aguentar isto.
Eis outra interrogação que sempre me ocupou a mente: qual a diferença entre trabalhos forçados e um salário de 500 euros por mês que nos permite pagar consumos de 500 euros? Se me vir condenada a trabalhos forçados começo o mês com zero euros e acabo-o com a mesma quantia, sendo que pelo meio alguém terá providenciado as minhas necessidades básicas. Terei trabalho à força, com desagrado, mas não me preocupei com o almoço, jantar, alojamento, etc.
Se trabalhar "livremente" para ganhar 500 euros mensais, gastarei esse crédito em comida, transportes e alojamento, e terei de acrescentar o esforço realizado em horário póslaboral para transportar os sacos do supermercado, comprar o passe, entre outros. O resultado será chegar ao final do mês com zero euros mas mais esforço. Mas imaginemos que até consigo poupar 20 euros por mês. O objectivo dessa poupança será um consumo futuro, porque todo o trabalho tem como fim a possibilidade de um consumo. Ou melhor, cozemos pão e costuramos camisas para obtermos unidades de crédito que nos permitam comprar pão e camisas. Está visto que nunca compreendi aquilo a que se chama a economia de mercado e que o meu desprezo pela sociedade de consumo é quase indizível.

O mundo que compreendo foi o da minha avó materna, que se levantava cedo para tratar dos animais, da horta e do pomar. Daí tirava que comer. Com algum rendimento da venda de ovos, couves e pêssegos comprava uma máquina de costura, na qual cosia as próprias roupas, ou regateava o valor dumas alpercatas para os filhos, dumas calças que durariam até o tecido se gastar, incluindo o dos fundilhos e joelheiras. Nada se desperdiçava, porque tudo tinha aproveitamento.
Não passo de uma modesta professora de língua e literatura, mas sei que um mundo justo para os nossos filhos, um mundo em que não paga sempre o mexilhão, será aquele em que estaremos de novo mais próximos da terra, mais alheados da necessidade de consumo, menos obcecados com a propriedade, mais afeitos a uma existência modesta, mas autêntica.