Colonização à portuguesa

Estive a trocar impressões por email sobre a especificidade do nosso colonialismo.

Defendi a ideia de que os portugueses teriam sido menos vândalos relativamente aos territórios e povos africanos de que se apossaram. Tudo por uma questão prática, não intencional: os portugueses não tinham uma Inglaterra nem uma França ou uma Bélgica onde regressar. Tinham Portugal, ou seja, quase nada, em alguns casos uma mão cheia de miséria, portanto, interessava-lhes usufruir dos frutos da colonização na própria colónia, porque não sujamos o lugar onde comemos.

Fiquei a pensar nesta minha tese, que não quero que desresponsabilize os portugueses dos seus pecados coloniais, até porque não somos melhores, nem menos racistas nem menos xenófobos do que os outros. O que talvez tenhamos é uma forma dissimulada de fazer o que nos apetece. No fundo, somos especialistas em aparências, em dissimulação, e passamos para nós próprios a ideia de que até estamos a cumprir. Como fingir que somos importantes? Como dar a impressão que percebemos de música erudita? Como deixar os organismos internacionais com a ideia de que pretendemos... combater o deficit? A tal ideia do desenrascanço, que se adequa maravilhosamente a quem tem que apresentar trabalho partindo do nada. Nós somos isso.

Analisemos como este este excerto de uma autobiografia de Mia Couto, meu conterrâneo, ilustra bem o meu pensamento:

[...] A Beira era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada". E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos [...] é uma infância toda vivida ali.
[...] Era um ambiente muito racista, ao mesmo tempo que sucedia este contacto, ou talvez até por causa disso mesmo. Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses. E ele tinha fotografias do
massacre dentro de casa, como uma glória! Eu só andei uma semana naquelas explicações. Nós chamávamos-lhe o "Bengalão", porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas - e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso. Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava horrível.

A escola primária foi na Beira. Recordo-me que na escola primária só havia dois negros. Era tudo brancos, indianos, chineses e mestiços também. [...] Depois no liceu também havia só dois ou três. Na escola técnica, que é, digamos, um curso prático, havia mais negros, não muitos mas mais, muitos mulatos, também.

O relato de Mia Couto, que hoje em dia não se pronuncia sobre estas questões, está muito cheio de pormenores de grande riqueza sobre a cidade da Beira. Não me lembro de em Lourenço Marques existir um apartaide explícito, embora, no autocarro, os brancos se sentassem sobretudo à frente, e os negros mais atrás. Mas penso que muitos brancos ignorarão esta informação, porque não seriam muitos os que andariam de transportes públicos, na capital. Até porque havia horas em que era impossível subir para um machibombo ou permanecer dentro dele sem se ser esmagado. Os autocarros não seriam muito frequentes e os negros que queriam entrar na cidade e sair dela abundavam. Viajavam pendurados nas portas, segurando-se aos guarda-lamas. Era um salve-se quem puder. Nos cinemas, como já relatei, dava-se a situação contrária. Os negros sentavam-se à frente. De forma geral, escolhiam os lugares de segunda sem que fosse preciso mandá-los, ou, pelo menos, sem que eu alguma vez o tenha testemunhado.

Considero particularmente reveladora do que foi o nosso colonialismo a história do professor Bengalão, que chama os rapazes brancos à parte para lhes explicar que na escola tem de baixar as notas aos negros. Vejamos, pela frente, os pretinhos iam à escola, tinham direitos, mas nos bastidores da avaliação, os professores ocupavam-se baixando-lhes as notas. Ou melhor, roubando-os, destituindo-os do seu valor, do seu trabalho. Rebaixavam-nos, não pela pancada, que deixa nódoas, mas de uma forma mais aviltante, pela humilhação, que marca invisivel mas profundamente.

Outra particularidade no nosso colonialismo "suave" reside no desprezo por tudo o que era indígena: casa de preto, música de preto, dança de preto, comida de preto, roupa de preto, fala de preto. Havia as coisas de preto, de menor valor, e as nossas, com relevância. Um preto podia adquirir coisas de branco, mas a gente ria-se dele, como se fosse um palhaço.

Ainda hoje sei imitar lindamente, em registo privado, aquilo a que se chama fala de preto. As pessoas riem-se, mas o que faço sem querer é mostrar que os negros não sabem falar português, o que é, igualmente, uma forma de humilhação, de abaixamento. É por isto que continuam a chamar-nos patrão, quando por lá aterramos. Como se um branco, por ser branco, por falar português "sem sotaque" fosse necessariamente melhor. Deixámos-lhes essa absurda herança mental e, pior, pretendemos mantê-la.

Nota: o texto de Mia Couto encontra-se em Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas, Vega, 1984

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