Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Para que serve a psicanálise

Na primeira sessão perguntou-me, quer sentar-se no sofá ou deitar-se no divã? Respondi-lhe que me convinha o divã. O meu corpo não cabia no estreito sofá. No dia em que couber, estarei pronta a largar a terapia, disse-lhe. Mas larguei-a numa altura em que ainda mal cabia.

Ansiei por me deitar no divã negro durante quatro anos e meio. Nunca fui uma analisada das que se calam. Chegava e disparava com violência e precisão, ininterruptamente. Era a guerra.

Recordo a textura do teto falso. Era branco. Não me lembro muito bem da decoração da sala. Recordo que as lágrimas me escorriam pelas têmporas e me empapavam o cabelo por cima das orelhas. Recordo que me engasgava de choro, que perdia o ar. Caramba, o que chorei!

Um tratamento de psicanálise é trabalho para uma vida inteira. Poderemos largá-lo a a meio, mas a psicanálise continuará com qualquer gato pingado que apanhemos à frente. Ela força o caminho. Continuamos a querer dizer, dizer, pensar, encontrar razões. Passei a ter necessidade de contar todos os meus sonhos, de os recordar e pensar.

A psicanálise soltou-me a língua. Abriu-se o cofre e perdi a vergonha. Não há assuntos tabu. Diz-se a verdade. Estamos a pagar para que seja possível dizer a verdade, compreender a verdade.

Apetece-me rir quando penso nas palavras que fui e sou capaz de dizer aos outros, nos assuntos que menciono, para mim sempre lindamente enquadrados. Rio-me porque revejo a expressão facial dos meus interlocutores, de olhos parados, verbo bloqueado, mal acreditando no que acabaram de me ouvir dizer. Ela disse mesmo aquilo? E agora o que é que se lhe responde?

Sentia-me investida da missão pessoal de esclarecer, pacificar, explicar-me, pedir perdão, reconstruir todo o percurso de vida sem silêncios, sem ressentimentos. Não deixei de estar centrada em mim, mas percebi que os outros importavam, que não podia viver sem eles, que não valia a pena sujeitar-me a esse sacrifício. As pessoas levam a vida sacrificando-se por questões que não valem o sofrimento nem a negação. Viver com a consciência limpinha é um bem cujo valor excede largamente o das três pirâmides de Gizé no mercado imobiliário.

Numa das primeiras sessões, revelei à terapeuta que gostava de escrever, mas que andava parada. Anunciou-me, como certeza absoluta, que eu voltaria a fazê-lo, e interroguei-me: não sendo ela cartomante, em que se baseava para se dar ao luxo da profecia. E paguei para ver.

Aconteceu que ali se criou uma necessidade de verbalização absoluta. Um vício. Dentro e fora da sessão. Acredito que o maior trabalho realizado em psicanálise é o que se faz fora do gabinete. Contínuo, a todas as horas, obsessivamente, como somos quase todos.
Se isso implicou e implica uma enorme carga de exposição pessoal, cá continuo com a cara descoberta. Sujeita à censura dos outros? Aparentemente, sim, mas garanto que para mim esteve sempre tudo muito bem. Nomear o que não se nomeia, arranhar a pele, escavar a carne não é uma vergonha. Se se aprende algo em terapia é que tudo, um tudo vastíssimo, é passível de reflexão, de questionamento. E o discurso tem de aparecer. É necessário falar ou escrever ou ambos, porque precisamos de nos escutar.
Nunca me senti ridicula, mas livre, e quanto a isto, nada mudou. Não me envergonho de fazer ou dizer aquilo que em consciência me é exigido. Não foi só a língua que se soltou, mas uma mola em grande tensão na consciência. Um enorme alívio

Embora tenha interrompido o tratamento, e me faça falta, continuo fazendo a minha terapia todos os dias, na medida das possibilidades, com os utensílios que adquiri. Há quem lhe chame exposição. Há quem diga que até dói ver-me as entranhas e a seguir pegue às sete no matadouro municipal.

Talvez se pudesse questionar se as entranhas expostas serão todas minhas, factualmente minhas. Não me incomoda expô-las, se for o caso, mas também não faço planos quanto ao esclarecimento da respetiva identidade e natureza. O que é que isso interessa?

Há dois dias escreveu-me uma leitora dizendo não valer a pena perguntar-me como estava, uma vez que me lê todos os dias. Eu não estaria tão certa. Mas claro que isso exigiria aqui uma longa explicação que não sinto ter de prestar.