Aprender

Meninos, expliquem-me, por favor, como é que pessoas tão à frente, tão informadas sobre tudo, como vocês se consideram, têm tantos preconceitos relativamente aos comportamentos sexuais das personagens da peça?
Oh, stora, é que aquilo valia tudo! Era só sexo sem compromisso...
Riem-se. Rio-me.
Mas têm de pensar no contexto: é uma época de revolução, tudo arde ao redor, objetiva e subjetivamente; além disso, os franceses nunca foram conhecidos pelo seu conservadorismo sexual, muito menos num ambiente de artistas, sempre mais livre, licencioso e libertário, e ainda por cima numa taberna partilhada por criminosos, prostitutas e atores... A França não é Portugal, Espanha ou Itália. A moral católica, que condiciona a generalidade dos nossos comportamentos, nunca teve a mesma força em França. Pensam que no meio do qual venho, profundamente católico, me era permitido falar como vocês falam ou ler o que lêem? A minha mãe nunca me autorizou a usar a palavra sexo. Era tabu enquanto tema e vocabulário! Lembro-me de ter levado uma bofetada, pelos 10, 11 anos, ao comentar que uma senhora amiga estava grávida. As mulheres ficavam de esperanças, esperavam bebé...
Indignam-se.
Então como é que aprendeu coisas assim sobre o sexo?
Mais riso.
Como vocês.
Está bem, mas se em casa não podia perguntar nada... como é que sabia, depois...
Como vocês. Exatamente como vocês. Não é em casa que aprendem, pois não?
Mas é que no seu tempo nem havia internet, nem...
Pois não, nem televisão. Olhe, se quer que lhe diga, já não me lembro bem. Uma coisa é certa, aprendíamos. Aliás, era o que mais nos interessava aprender.
Risota geral.