Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério?
[Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Créditos
A imagem de topo corresponde à manipulação [corte] de um desenho da autoria de Andrew King.
Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Os escravos livres
Por
Isabela Figueiredo
Às
8 da manhã, o elevador anda para baixo e para cima com uma frequência
que me agonia. Escuto os passos apressados das pessoas nos
outros andares e o ruído do trânsito lá fora, acelerando. Levanto-me para iludir os barulhos do exterior, produzindo os meus. Sinto-me mal disposta, com o estômago às voltas, como quando aos sete anos me acordavam para ir para a escola,
sabendo tão bem que se preparava mais um dia de pancadaria, de dor e resistência
sem esperança. O meu estômago sempre me assinalou a angústia.
Começamos a ser
escravos demasiado cedo, e, se não estivermos alerta, ou não pudermos libertar-nos - raramente estamos, podemos - somo-lo a vida inteira,
tomando-o como a ordem natural da existência, aquilo que tem de ser feito porque outros fizeram antes de nós, porque é assim, é assim, pronto.
Não tomo o pequeno-almoço. Não consigo. Tenho o estômago às voltas. Bebo um chá para mitigar o
vómito. Preparo rapidamente o meu fardo e sigo em direção ao campo de concentração
onde trabalho para manter o direito a trabalhar.