segunda-feira, 9 de maio de 2016

Cartolina de cidadã



Na entrada do meu prédio afixaram um aviso para os condóminos, mas o problema é que sou  condómina. Não é para mim, foi a ideia que me passou pela cabeça. 
É assim há muitos anos, noutros contextos semelhantes, e não consigo habituar-me. O antigo impresso para pedir as ajudas de custo da gasolina, quando recolhia exames para corrigir, no agrupamento, contemplava um espaço para a assinatura do servidor do Estado, não da servidora, e tinha de o corrigir manualmente. 
Se o dicionário não contempla o feminino de condómino, deverá considerá-lo a partir deste momento. Está inscrito no ciberespaço. Passou a existir.
Tal como eu, no mesmo condomínio, há outros três apartamentos de condóminas. O mulherio abunda. Somos resistentes, desenvolvemos estratégias de sobrevivência ao longo dos milénios e vamos durando como a pedra.
Tenho andado toda a vida à procura de lugar no mundo, como se não tivesse direito a ele, embora eu e as outras sejamos um polo da existência sem a qual nunca se teria concretizado. Não sinto que tenha de pedir licença nem desculpas. Não sei se em mim está o positivo ou negativo da pilha, nem me interessa, mas tenho consciência de que sou uma carga tão valiosa como a do outro polo, e que sem mim não existiria energia, portanto, contemplem-me obrigatoriamente.
O aviso na entrada do meu prédio deveria, assim, destinar-se ao condomínio. Sempre que exista uma palavra neutra, deverá ser escolhida, porque inclui. Não há ninguém que o neutro exclua. Isto parece irrelevante?! Não é.
Tem tudo a ver com a recente proposta do Bloco de Esquerda relacionada com a alteração da designação do cartão de cidadão para de cidadania. O Estado deve proceder no sentido de promover a inclusão nos discursos, portanto ou se regista a existência de cidadãos e cidadãs, no mesmo documento, ou a da cidadania sem género. Ou identidade. Como prefiram. Estes assuntos são faróis para a mudança. Habituámo-nos a olhar para o mundo a partir de uma perspetiva ideológica masculina, e não haveria nisso mal se não tivesse provado não servir. Provou abundante injustiça e por aqui procura-se um mundo diferente, com novas designações, novo discurso. As palavras valorizam, simbolizam, orientam, mostram caminho. Não há civilização sem discurso verbal. Quando o mundo muda, os discursos mudam, e vice-versa. Habito uma realidade na qual existem cidadãs, presidentas e graus académicos de mestra, portanto se estas denominações não se encontram incluídas nos discursos oficiais, incluo-as eu. Quero-as em toda a parte, porque lhes cabe um papel modelar e ideológico importante.
No Público do passado fim‑de‑semana, alguém se indignava com a ideia de passar a existir um cartão de cidadania, propondo, caricaturalmente, a mudança para feminino de todas as palavras. Cartão passaria a cartoa ou cartolina. Nesse caso, eu passaria a ser detentora de uma cartolina de cidadã e, o meu vizinho, de um cartão de cidadão. A retórica do ridículo faz rir e resulta, mas é vazia.
A expressão cartoa ou cartolina está tão profundamente conotada com uma menoridade do feminino que assusta. Se querem viver num mundo em que o feminino de cartão é a cartolina, vivam, mas é o vosso, não o nosso. É um mundozinho particular que só não é grave se não sair dessa circunscrição. 
O que ponho em causa é uma consciência de mundo centrada na experiência e ponto de partida do masculino certo, valioso e universal. A vivência masculina será com certeza muitíssimo rica, mas, não mais do que a minha, portanto, não me apaguem e venham os cartões inclusivos.