quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença pública


Edward Hopper

Poucos são os verdadeiros. 
Acontece-me observar aquilo que passo a descrever quando vejo programas televisivos de debate e apresentação: os intervenientes são uma construção que se exibe no espaço público. Imitam-se uns aos outros em aparente invulnerabilidade, distância, status social, emocional e financeiro. Não têm tiques nem manias nem neuras nem se sujam com nódoas no peitilho. Não fazem afirmações ridículas nem insensatas e não se indignam nem se emocionam. Estão acima de todos nós. Não são pessoas comuns como eu. Encontro este género de comportamento noutro espaço público como o da Academia ou o das relações laborais. Longos espaços e demoradas horas de construção. As pessoas têm vergonha da sua humanidade e carnalidade. Como se pudessem ser qualquer outra coisa - gostariam de poder transformar-se nisso em permanência. Não serem elas. Serem a construção em exercício. O fingimento que percebo. Levanto a cabeça e estou sempre a vê-las como realmente são nos momentos em que estão sós. Animais tão sujos quanto eu. Por vezes mais sujos do que eu.
E os meus amigos avisam-me, "no espaço público tens de ser como os outros, tens de fingir. No espaço público não te podes mostrar tal como és.  A tua honestidade pode ser usada contra ti." Escuto-os incrédula, como se me estivessem a pedir para mudar de espécie. Como poderia eu transformar-me naquilo que me sacrifico para atravessar imunemente?