terça-feira, 24 de maio de 2016

Os papás não fodem






Cada mulher tem a sua obsessão.
Quando vim para a casa decidi que o quarto da frente seria o dos papás. O quarto da frente é o principal no lar, portanto, pertence aos mais altos na hierarquia familiar. Talvez tenha sido eu que me coloquei sempre, à partida, numa posição subalterna.
Quando, de costume, afirmo que, ao chegarem de África, nenhum deles era capaz de me olhar como adulta, talvez queira dizer que nunca fui capaz de ver-me como adulta junto deles. Que não sabia ter, com eles, o poder de uma pessoa crescida, ao seu lado, como igual. Não tive essa escola lenta de ir progredindo em companhia. Fui criança e depois mulher, e o que ficou pelo meio perdemos os três. Saltámos dez anos no tempo e no espaço sem que as nossas mentes tivessem conseguido ajustar-se a viver na ausência e depois na presença alterada. Como é que se fazia para discordar dos papás? Para fazer valer a minha opinião? A história não se compadece de emoções privadas, mas é a sua frieza que dá à nossa resistência uma dimensão épica. Tudo se atravessa como se não estivéssemos sempre mortos e vivos, no mesmo instante, lutando por adiar a transição.

A mobília do quarto de casal dos papás era a da Matola, em umbila bem escura, a que a mamã puxava o lustro com cera preta para a aproximar o mais possível das madeiras exóticas que tinham muito valor. Cama com cabeceira e pés montados num gradeamento de colunas, com mesas-de-cabeceira, cómoda, pechiché, banco, e cadeira, estofados, em napa branca, linhas muito direitas, estilo Império. No caixote veio também um guarda-fatos adquirido em Tete, que nunca fez parte da mobília da Matola, casa na qual existiam armários embutidos na parede, o que excluía a necessidade da peça. O guarda-fatos proveniente da fábrica de Tete, apresentava design dos anos 70, com um aileron ao alto, quebrado por um pináculo a meio, ponto a partir do qual o acrescento crescia, alargando a partir dali as suas asas retas. Foi das peças de mobiliário mais feias que encontrei. Tentei dar a volta a essa herança, colocando-a em vários quartos, em diferentes paredes. Imaginei-o pintado com uma patine romântica em desgastado falso, mas nunca ficou bem em assoalhada alguma, onde quer que a colocasse, e nem sequer na minha imaginação. Considero mau sinal a minha fantasia não conseguir visualizar o que um objeto pode ser, ainda não sendo, ou não lhe agradar o que vê.

Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não fodiam, embora eu tivesse começado uns tempos antes.
Era sumarento, sem palavras certas nem regras. Era uma brincadeira de animais, e não pode ser possível nem verdade que os nossos pais se entreguem a um gosto que nos ensinaram a encarar como vergonha.
Não somos capazes de ver os papás como pessoas iguais a nós, como penso que eles não sejam capazes de nos ver como pessoas que eles também já foram, antes de ser o que são. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem, se temem.
Portanto, os meus pais não fodiam, mas a mamã dizia-me que havia a mulher ruiva do talho, com as calças verdes, mal jeitosa, que o cortejava. Ria-me e respondia-lhe que não podia ser, não passaria de um convívio de vizinhos, e nada mais. Uma mulher entrada na idade a cortejar o papá, que ideia mais ridícula. E o papá a cortejar alguém, aos sessenta anos, gordo e estragado, honestamente, que ideia! Ria-me e exclamava “que exagero”. Não poderia ser mais do que uma brincadeira, uma troca de piropos. A mamã clamava que não, que o gerente do talho era putanheiro e levava o papá para maus caminhos. Chamava-me ao quarto, abria gavetas e mostrava-me comprimidos e elixires medicinais à base de pau de Cabinda e ginseng que o papá tinha comprado na ervanária para ter mais força naquilo.
“Ainda tem a mania destas coisas.”
“Oh, mãe, não é isso!”
Ria-me, envergonhada.
É só uma vitamina para dar força. Deixa-o ter as suas alegrias.”
“Ele é maluco, já sabes. Tem a mania que é novo. Sempre gostou destas brincadeiras parvas.”
A minha mãe não tinha amigas. Teve a sua mãe, mas morreu cedo. Eu nunca me importei de ser a sua amiga preferida, o seu desabafo.

As gavetas da mesa-de-cabeceira, como as da cómoda e as do pechiché da mobília do quarto dos papás sempre abriram mal, como se estivessem enferrujadas. Pareciam ter sido feitas maiores do que as caixas que as recebiam, e emperravam se não fechassem direitinhas e à primeira tentativa.

Desde que mudaram de Lourenço Marques para a Matola, em 1971, até morrerem, em Almada,  os papás tiveram sempre a mesma mobília de quarto em umbila escura que pouco se  estragou com os anos. A certa altura desencaixou-se o espelho do pechiché e o móvel passou solitário para o sótão. Servia pouco. O papá usava-o para preencher os totobolas, escrever relatórios do serviço. Aí se pousavam relógios, perfumes, medicamentos, e nas gavetas havia peúgas e lenços de assoar.
A mobília permaneceu em bom estado até ao fim, sendo que fim foi ter seguido para o Alentejo, para uma casa no campo que a Guidinha lá tem. Imagino que esteja tudo a ser útil e que muitos anos depois de eu passar para o o lado misterioso, os netos dos que poderiam ter sido meus filhos, possam nascer na cama do quarto da Matola transferida para o Alentejo.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Cartolina de cidadã



Na entrada do meu prédio afixaram um aviso para os condóminos, mas o problema é que sou  condómina. Não é para mim, foi a ideia que me passou pela cabeça. 
É assim há muitos anos, noutros contextos semelhantes, e não consigo habituar-me. O antigo impresso para pedir as ajudas de custo da gasolina, quando recolhia exames para corrigir, no agrupamento, contemplava um espaço para a assinatura do servidor do Estado, não da servidora, e tinha de o corrigir manualmente. 
Se o dicionário não contempla o feminino de condómino, deverá considerá-lo a partir deste momento. Está inscrito no ciberespaço. Passou a existir.
Tal como eu, no mesmo condomínio, há outros três apartamentos de condóminas. O mulherio abunda. Somos resistentes, desenvolvemos estratégias de sobrevivência ao longo dos milénios e vamos durando como a pedra.
Tenho andado toda a vida à procura de lugar no mundo, como se não tivesse direito a ele, embora eu e as outras sejamos um polo da existência sem a qual nunca se teria concretizado. Não sinto que tenha de pedir licença nem desculpas. Não sei se em mim está o positivo ou negativo da pilha, nem me interessa, mas tenho consciência de que sou uma carga tão valiosa como a do outro polo, e que sem mim não existiria energia, portanto, contemplem-me obrigatoriamente.
O aviso na entrada do meu prédio deveria, assim, destinar-se ao condomínio. Sempre que exista uma palavra neutra, deverá ser escolhida, porque inclui. Não há ninguém que o neutro exclua. Isto parece irrelevante?! Não é.
Tem tudo a ver com a recente proposta do Bloco de Esquerda relacionada com a alteração da designação do cartão de cidadão para de cidadania. O Estado deve proceder no sentido de promover a inclusão nos discursos, portanto ou se regista a existência de cidadãos e cidadãs, no mesmo documento, ou a da cidadania sem género. Ou identidade. Como prefiram. Estes assuntos são faróis para a mudança. Habituámo-nos a olhar para o mundo a partir de uma perspetiva ideológica masculina, e não haveria nisso mal se não tivesse provado não servir. Provou abundante injustiça e por aqui procura-se um mundo diferente, com novas designações, novo discurso. As palavras valorizam, simbolizam, orientam, mostram caminho. Não há civilização sem discurso verbal. Quando o mundo muda, os discursos mudam, e vice-versa. Habito uma realidade na qual existem cidadãs, presidentas e graus académicos de mestra, portanto se estas denominações não se encontram incluídas nos discursos oficiais, incluo-as eu. Quero-as em toda a parte, porque lhes cabe um papel modelar e ideológico importante.
No Público do passado fim‑de‑semana, alguém se indignava com a ideia de passar a existir um cartão de cidadania, propondo, caricaturalmente, a mudança para feminino de todas as palavras. Cartão passaria a cartoa ou cartolina. Nesse caso, eu passaria a ser detentora de uma cartolina de cidadã e, o meu vizinho, de um cartão de cidadão. A retórica do ridículo faz rir e resulta, mas é vazia.
A expressão cartoa ou cartolina está tão profundamente conotada com uma menoridade do feminino que assusta. Se querem viver num mundo em que o feminino de cartão é a cartolina, vivam, mas é o vosso, não o nosso. É um mundozinho particular que só não é grave se não sair dessa circunscrição. 
O que ponho em causa é uma consciência de mundo centrada na experiência e ponto de partida do masculino certo, valioso e universal. A vivência masculina será com certeza muitíssimo rica, mas, não mais do que a minha, portanto, não me apaguem e venham os cartões inclusivos.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Uma selva na sala

Caladium

Quando a mamã chegou de Moçambique encheu a sala de estar com vasos de filodendro, caladium, erva-da-fortuna e tronco do Brasil. Colocou os vasos de filodendro na última prateleira da estante de pau-rosa que veio desmontada no caixote de retornados. Foi das poucas peças que couberam no elevador e não tiveram de ser carregadas pelas escadas estreitas e escuras, ganhando mossas enquanto subiam e suávamos.
O filodendro alastrou pelas paredes da sala. A mamã encaminhava as hastes pelo percurso das quatro paredes, passando-as cuidadosamente por cima da porta, segurando-as com ajuda de pequenos pregos. Tinha muito orgulho na proliferação de metros de haste de filodendro que se produziam a partir a partir de pés nascidos em pequenos vasos pousados na estante, exigindo frequente e abundante rega, sendo esta difícil sem encharcar a prateleira ou o chão, o que me irritava. Trazer selva para dentro de casa exigia um estúpido trabalho.
Num dos cantos da sala, sobre uma mesa de pau-preto com tampo de vidro, ergueu um altar de enormes caladiuns de diversas cores e matizes; brancos, só brancos, vermelhos com branco, vermelhos com rosa, só vermelhos ou só rosa matizado. Os caladiuns eram a beleza natural completa. 
Havia troncos do Brasil sobre a mesa de centro e no chão, e vasos de erva-da-fortuna pela casa toda, porque davam sorte. A mamã trouxe as plantas de Moçambique, disfarçadas na bagagem. Raízes, bolbos ou estaca. Não se podia entrar com elas na fronteira, mas cá chegaram. As raízes vinham embrulhadas em algodão molhado embrulhado em pano, depois em plástico e dentro de sacos bem atados. Foram experiências de transplante e proliferação vegetal bem conseguidas.
A mamã tinha sorte com as plantas como com tudo o que lhe nascesse das mãos. Menos comigo. A mamã tinha o dom de Deus, o da reprodução e manutenção. A mamã era sagrada e sacralizava. Nenhuma planta lhe morria. Tinha tanta sorte com as decorativas como com as da agricultura. Tudo crescia viçoso e saboroso. Não apreciava, contudo, o trabalho da terra, que considerava uma escravidão, embora lhe conhecesse todos os segredos e manhas. Sempre que me ouvia sonhar com um metro quadrado de chão para plantar a minha horta e ter os meus animais, dissuadia-me. “Tira essas ideias da cabeça, menina. Isso dá muito trabalho, menina. Nem penses nisso, menina.” Contemplava-a sem palavras, sorrindo, desacreditando, observando-a sem perceber como é que uma mulher que toda a vida tinha feito crescer da terra a luxúria vegetal, ajoelhada sobre os seus grãos, a evitava tanto.
A minha mãe nunca viveu no mato. Nunca fomos propriamente para a selva. A Lourenço Marques branca era ordenada e limpa, tropical, é certo, mas domesticada. Os vasos de filodendro, ao princípio, não me pareceram mal, mas quando a sala se transformou numa floresta cerrada de hastes alastrando por todas as paredes, senti-me em expedição pelos trópicos húmidos, ao ar livre, onde não há casa, portanto sem refúgio nem esconderijo. Odiava os filodendros que forravam as paredes, estação após estação, com folhas viçosas, perfeitas, quase de plástico, a que ela dava brilho, mescladas de branco e amarelado entre tons de verde. O excesso vegetal tornava a casa desconfortável. Sentia que na minha sala moravam as criaturas que protegem os jardins, com os seus brilhos fátuos, o que encerrava uma dimensão contra natura, porque morávamos num quinto andar do Feijó, perto do centro-Sul. Da janela das traseiras  avistavam-se uns prédios inacabados, de construção clandestina suspensa, onde habitavam famílias negras com inúmeras crianças cujos pais trabalhavam na construção civil e as mães em limpezas ou cozinhas de bar e restaurante, fazendo puxadas clandestinas do poste de eletricidade para conseguirem ter luz nos altos prédios vadios e acartando baldes e jerricans de água pelas escadas acima, que enchiam na rua, fornecendo-se numa casa próxima. Do lado da frente existia um enorme terreno baldio onde as crianças do bairro brincavam e mexiam nos pipis umas dos outras pela primeira vez. À beira da estrada, numa barraca de ciganos, a paz doméstica exigia que o cigano espancasse a cigana, que gritava ao longo do dia, enquanto lhe atirava com pedaços da barra de sabão azul e branco com que lhe lavava a roupa. Os filhos berravam todos ao mesmo tempo. O cigano zurrava. Os ciganos eram o espetáculo da janela da frente. Pretos atrás, ciganos à frente. Estava-se muito bem. Para lá do baldio, que se estendia até ao Centro Sul, via-se o Cristo-Rei de costa para nós, é certo, mas Cristo é sempre lindo, mesmo de costas, e todo o casario branco de Almada, elevando-se, uma grande vista.
Eu estava nos vintes, fascinada com as leituras da geração do Orpheu,  Rimbaud, Duras, o que apanhasse de bom, e a selva da sala transcendia a minha escassa tolerância estética. Considerava a mamã uma pessoa de mau gosto, antiquada e assaloiada. Tinha vergonha do tropicalismo e desdenhava a casa, destilando a minha raiva em sugestões desagradáveis sobre o seu aspeto, com secura e amargueza. Não se podia negar que tinha nascido em Moçambique, que estava cheia desse ar, mas tirando o Arcanjo, que viera de Benguela e com quem tivera algumas discussões sobre a beleza e valor das duas ex-colónias, todos os meus amigos eram portugueses, e não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os meus pais acabados de chegar de Moçambique. Odiava-os de morte. Desejava que morressem num acidente automóvel com o Renault 9 cor de café com leite, a caminho de qualquer localidade onde fossem visitar os outros retornados com os quais auguravam o pior dos futuros para a África negra. Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avançar. Não via futuro para mim. Ser órfã tardia constituía a única salvação ao meu alcance. Se os meus pais desaparecessem, o meu caminho ficaria livre, como já estava mais ou menos, desde que tinha chegado de Moçambique. Livre para ler, para beber e chegar tarde, para o sexo com quem me apetecesse, e como apetecia, embora as condições físicas se apresentassem desfavoráveis. O meu corpo não se conformava. Os pneus na cintura, a barriga saliente, as mamas grandes e suspensas não se adequavam ao padrão, mas havia outros trunfos que me iam permitindo furar; uma cara bonita, com lindos olhos amarelos, lábios pulposos, atrevimento e palavra forte. E escrevia bem. Escrever bem era uma fonte de admiradores.
As minhas palavras duras, o meu desdém e repúdio da casa levaram a que a mamã fosse lentamente retirando as plantas da sala, até que um dia cheguei do emprego e as cortara todas, abdicando do seu grande orgulho decorativo. Odiava a minha mãe. A minha mãe odiava-me, contudo queria que a casa fosse minha, que a casa me agradasse, que eu estivesse na casa. Aprovei, arrogantemente. Respondi-lhe que já o devia ter feito há mais tempo. Não agradeci, sempre me julguei dona e senhora, sempre considerei que o mundo tinha de me prestar a devida vassalagem.