sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A cadela loura e a cadela morena

Foto em http://jamesmoropets.com/about/

A cadela loura não gosta de cães. Gosta, mas tem medo. Gosta, mas não gosta, porque não sabe gostar, não aprendeu. Há pessoas assim. Eu talvez seja como a cadela loura.
É muito difícil gostar da cadela loura, mas eu amo-a profundamente, como às pessoas. Amo sem princípio nem fim. Quando começo a gostar, já gostava. Amo pessoas que me odeiam, porque sou incoerente e errática ou porque têm medo da minha crónica falta dele. Não compreendo o amor. Parece-me os pombos da minha rua. Estão por ali, materiais, reais, e a nossa vontade não conta. Os meus vizinhos enxotam-nos com os pés. Voam três metros, pousam adiante. Atiro-lhes migalhas, estimo-os.
Não compreendo o amor, mas sinto-o e alimento-me desse pãozinho que aproveito duro, esfarelado, em sacos pendurados atrás das portas.
A minha cadela Morena gostava de todos os cães, ao contrário da cadela loura. A Morena foi criada com muita liberdade e amor, como eu teria criado um filho humano. Comia-a de beijos. Tanto que me fugia para detrás do sofá. Comi-a de beijos a sua vida inteira, sempre que podia, como se o seu corpinho fosse o torrão do amor. E era. Gosto de beijos e se calhar sou chata com eles.
A Morena gostava de cães grandes e pretos. Quando os encontrava na rua tínhamos de parar para uma festa. A sua cauda rodava como os ponteiros de um relógio louco. Quando era pequena, em Alcácer, a Morena conheceu um doberman preto que morava na calçada alcunhada pelos locais como Chupale a Pele. Morávamos perto. Abria-lhe o portão e ela corria à procura do doberman, muito grande, ela muito pequena. Brincavam à desgarrada. Era um farrapinho de cadela. Os vizinhos vinham avisar-me, “olhe que a cadelinha anda ali na calçada e pode ser atropelada”, e eu lá ia, muito preocupada.

Choro muito a Morena. Nenhum cão compensa outro cão e o amor nunca morre. É tudo o que sei. 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Glucose

Ilustração de Gerard Mulot

A médica explicou-me que tenho de comer mais doces, de ter uns chocolatinhos em casa, para que o corpo não precise de roubar tanto açúcar ao sangue. Rio-me. Sou a única mulher no mundo ocidental com ordens clínicas para se encher de guloseimas? Saio do consultório pensando que, a pouco e pouco, sem perceber, estar viva tornou-se o meu único excesso cometido.

Não quero, não basta. Sacudo a cabeça com cuidado e rumo ao Central, para me sentar, comendo um duchesse dos grandes, e pedir que me pesem duzentos e cinquenta de húngaros, areias e tarteletes de amêndoa. Venha a revolução do açúcar.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Flor da Idade sobre Varoufakis

Flor da Idade - Claro que preferimos os machos-alfa, mas a verdade é que os machos-alfa não são bons para as mulheres.
Um Bocado Passada - Pois não.
Flor da Idade - Portanto fiquemos pelos beta.
Um Bocado Passada - É uma vida mais sossegada.
(Risos de cumplicidade entre ambas.)
F da I - E como é que andas?
UBP - Um bocado... triste.
F da I - Sabes o que é que me anima os dias?! Olha que te digo isto mesmo a sério. É o Varoufakis. Chego a casa, ligo o meu radiozinho na TSF. ouço-o dizer "I cannot express my view on that. because I've got what we call good manners", e até pulo.
UBP - (riso) E já leste aquilo sobre o que ele chamou ao choninhas alemão, a meio da reunião do Eurogrupo?
F da I - (com enorme entusiasmo) LIAR! O outro nem podia crer.
UBP  - Liar. Liar. Liar. Aquilo é que é um macho-alfa.
F da I - Ah, pois. Acho que vou abrir uma conta no Twitter para o seguir. Escreve coisas giras. Acho que ontem foi ao teatro e depois publicou um texto dizendo que tinha assistido a uma peça de Beckett, e que foi ótimo para o ajudar a recuperar de "you know what". Mais ou menos assim.
UBP - No Twitter?! Também vou abrir. (Pausa.) Mas o problema é que nós, em Portugal, não temos políticos destes, sem vergonha, sem medo...
F da I - Nem políticos nem homens nenhuns, nada que se possa apresentar ao Menino Jesus!
UBP - (Em voz baixa, constrangida.) Nada






sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Os pequenos que comem os pequenos

Os mais destituídos de riqueza e poder, indivíduos ou nações, são exatamente os que mais defendem as estratégias autoritárias impostas pelo mesmo. Não sabem existir sem os modelos que lhes são transmitidos, mesmo que esses os destruam. Todos os poderes contam com este comportamento bovino para se manterem e alastrarem. É trágico uma pessoa ou um povo não ser capaz de pensar por si, sem os moldes propagados pelos sistema. É como se o gado defendesse o matadouro

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Imposto sobre o saco de plástico

Já comecei a roubar sacos de plástico dos contentores do lixo do meu bairro, de maneira que lá para o fim da semana já devo conseguir ter a quantidade suficiente para me postar na fila de caixas do Jumbo a vendê-los a 5 cêntimos a peça. 
Grande negócio que arranjei. Vou arrecadar para aí uns 10 milhões este ano.

sábado, 14 de fevereiro de 2015