sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Não ralhem comigo

Não sei gerir o tempo. Ralham comigo porque não sei gerir o tempo. Ou melhor, não chego a horas aos sítios. Fico a olhar para o objeto da minha falta e vou dizendo que sim. 
Tínhamos combinado isto, não tínhamos?!
Sim. 
E podias ter telefonado a avisar, não podias?!
Sim.
Fizeste as coisas à tua maneira sem te preocupares em dar contas a ninguém, não foi?
Sim. 
Conseguiste fazer tudo o que querias?
Não
Tens algum argumento em tua defesa?
Não.
Não tenho nada contra ninguém. Estou só a viver como consigo. Giro mal o tempo, é verdade. Não sou perfeita, de facto. É muito importante ser perfeita? Tenho o trabalho. No trabalho tenho de cumprir horários e ser perfeita. Depois canso-me, quero descalçar-me. Já fui um bocado atinada, mas depois saltei fora Nem saberei dizer qual foi o momento exato em que aconteceu. Saltei. Estava cansada. 
Não quero que ralhem comigo porque não sei gerir o tempo. Eu fui uma criança exemplar. Agora não mais. Acabou.

Velha ridícula

É uma velha ridícula, magra, baixa, vestida com roupas largas, antiquadas, que vai falando com os cães e gatos que encontra pelo caminho. 
- Olá, menino, o que fazes tu por aqui sozinho? Gosto tanto de ti. Cheira-me a mão para veres que sou tua amiga. Ah, é da senhora! Ai, minha senhora, a noite passada tive de telefonar para o médico, que o meu coração não parava. Um cão abandonado na minha rua, chorava, toda a noite chorou, cheio de sarna, sofria, gemia. Como puderam abandonar aquele cãozinho?! Qualquer clínica o abatia e nem dinheiro levava. Como puderam os donos?! Qualquer clínica... Tivemos de chamar a carroça. Sofri tanto. Eu já não gosto das pessoas, sabe? Já não consigo gostar das pessoas. Não se faz. 
"Não se faz, não se faz", foi dizendo enquanto se afastava.
Ouço a velha ridícula na rua. Paro. Concordo. Veem-me lágrimas aos olhos. Ela e eu estamos unidas. Eu também serei uma velha ridícula que fala com os cães sem vergonha, porque é pacífico falar com cães, porque eles escutam, lambem-nos as mãos. Eu, que nunca fui bem gente, hei-de ser aquilo sem vergonha.
Logo hoje que tinha estado a fazer festas à Moreninha lembrando-me da Micas.
Acredito que quando ficamos velhos precisamos de muito carinho. Estamos frágeis e precisamos que nos mostrem que não somos tralha, que gostam de nós. Faço festas à Morena, muitas, para que perceba que a quero comigo, e para enganar o seu corpo velhote. Se a Morena estiver muito feliz, o seu corpo esquece que começa a ficar velha, e ela viverá muitos anos. É preciso enganar o corpo. Fazia o mesmo com a Micas: tratava-a nas palminhas. Mas aconteceu um acidente que eu não controlei e o corpo descobriu a verdade. Fiquei sem ela neste tempo e espaço.
Sinto que anda por aí à minha volta. Alimento a fantasia de  que o meu pai, com quem passeio em sonhos, possa tê-la recolhido do lado de lá. Era bom que assim fosse. Os dois disfrutariam a companhia mútua. Até ficava mais descansada, se tivesse a certeza que aqueles que amei estão juntos para sempre em algum lugar.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A importância de um bom ator

 Da série televisiva Roma

Tenho estado a ver mais uma excelente série da HBO e ocorre-me comentar um ou outro ponto da arte de fazer cinema.
Se tivesse de escolher entre viver muito frugalmente ou assistir a bons espetáculos e manter-me ligada ao prazer da arte, escolheria o segundo. A conceção de um filho é maravilhosa, mas não é uma criação humana, senão da natureza. A arte é a única criação do homem que resultou maravilhosa e que tem assento garantido nesse panteão de divindade: o maravilhoso. O homem assemelha-se a uma ideia de Deus.
Quem realmente gosta de arte já experimentou o estado de encantamento místico perante um texto, um quadro da pintura, uma música, um filme. Eu diria que existe mesmo um atordoamento.
Mas um filme não é uma obra individual, e tudo se complica quando temos de trabalhar coletivamente, porque somos tendencialmente egoístas, agressivos, preguiçosos. Contudo, vá-se lá saber como, o cinema faz-se e resulta. Deve muito a todos os técnicos nele envolvidos, mas deve sobremaneira aos atores. Ontem vi uma cena da série Roma, entre dois velhos amigos falando sobre trivialidades: a família, a vida. E o que me maravilhou foi a capacidade de transformar uma conversa de amigos na própria amizade. Não estavam ali apenas dois atores a interpretar a amizade, porque a amizade era aquilo, estava ali, eu podia cheirá-la. Sim, havia o texto e a câmara e a luz e o som e a fotografia e o guarda-roupa e o diabo a sete, mas havia, sobretudo, desculpem-me, mas não abdico disto, dois atores tremendos capazes de corporizar um sentimento raro e oferecê-lo ao exterior. Maravilhei-me.
O cinema precisa destes atores tremendos.

domingo, 26 de agosto de 2012

História sobre cabelos contada às meninas




Quarenta anos após ter deixado de ser uma criança de nove sem qualquer direito a querer, uma boa, obediente filha é interpelada pela mãe sobre a alegada necessidade de se pentear. A menina evitou contrariar a mamã desde sempre, por ser fiel aos mandamentos do Senhor e da Moral, mas trinta e quatro anos após ter deixado de ser uma adolescente de 15, escurecido o seu coração, resolve enfrentar o touro e iniciar, finalmente, um conflito de gerações.
Nesta cena, a mãe impõe a habitual autoridade. A filha está zangada de muitos anos a obedecer e não aceita. Vamos ver como se sai.

- Eu, se fosse a ti, ia pentear-me.
- Já fui.
- Não parece.
- Problema teu.
- Tens o cabelo todo em pé.
- E depois?! Já te disse, acabei de me pentear.
- Mas não vais para a rua com esse cabelo.
- Porquê? Não me deixas? A polícia prende-me?
- Pareces uma maluca.
- (Suspiro da filha) Como é que achas que ando com o cabelo quando não estás perto de mim? Qual é o teu problema com o meu cabelo? O que é que o meu cabelo te interessa?
- Nada. Nada.
A filha sai da sala e volta com um saco na mão.
- Vamos, então?!
- Eu, se fosse a ti, cortava o cabelo muito curtinho. É uma ponta para cada lado. Isso não tem jeito nenhum.

Moral da história: não deixem os vossos conflitos de gerações para a menopausa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma terra que não existe

Uma moçambicana da minha idade, que veio do Maputo em 2000, e também viveu na Matola, alimentou comigo conversa sobre os lugares onde morámos. Esteve a explicar-me que há uma autoestrada que liga a cidade à fronteira para a África do Sul, e que é preciso apanhá-la para ir para qualquer localidade nessa direção, portanto  Matola, Namaacha, o resto. Perguntei se a antiga estrada da Matola, a que tenho na minha memória, ainda existe. Não, respondeu. Nem a Matola é o que era. Já não há mato de um lado e do outro da estrada, mas vivendas, fábricas, empreendimentos, condomínios. As ruas traçadas na zona nova já pouco são de terra batida. Tentei explicar onde ficava a minha casa, mas à exceção de poucas referências, como a escola preparatória, a igreja, pouco entendimento conseguimos. Ela recorda a Matola de quando lá saiu e não a de 1975, quando eu saí.
Chegada a casa, inconformada, fui ao Google Maps para uma busca de horas, totalmente infrutífera. Não consigo localizar a igreja onde fiz a primeira comunhão, a cantina onde ia buscar as compras à minha mãe, nada. Queria ver a fachada da casa que o meu pai construiu e onde vivi, se ainda existir, mas não posso. É como se todos os percursos que guardo na cabeça tivessem sido varridos por uma bomba atómica. Precisaria que repusessem a estrada antiga para a localizar. Precisaria que estivesse tudo mais ou menos igual, porque na minha cabeça vejo claramente cada pormenor dos 13 quilómetros que ligavam Maputo à casa da Matola, e tenho a certeza que lá chegaria. Guardei este percurso para lá poder voltar um dia. Enganei-me. Na minha cabeça, o cenário passado que se encontra guardado como num cofre, já não existe. O que recordo, morreu. Não posso voltar.

Nível zero

A revista do último Expresso contou com a animação do humorista João Quadros. Conhecem? Eu também não. Deixem-me deixar-vos com algumas das notas de humor com que foi animando a publicação:
- a capa apresenta um saco de dinheiro roto de onde saem notas e moedas, o pequeno desenho de uma mota (um concurso) e a foto do próprio humorista - Comentário: Esta capa é o sonho de muitas mulheres: uma vespa, um saco de dinheiro e um indivíduo louro extremamente bem parecido.
- página 6 - notícia sobre polémica que envolve a estátua de uma operária com rosto de Carla Bruni, inaugurada num bairro de Paris. Comentário: Acho que a nossa primeira dama (Maria Cavaco) também já merecia uma estátua. Era digno e era a primeira estátua que tinha a vantagem de afugentar os pombos.
- página 52 - sobre kitesurf. Comentário: O kitesurf é uma boa alternativa à EN 125. 
E por aí fora. João Quadros, um grande humorista. 

Fumem uns charros

O Jornal Expresso, em conjunto com a Prébuild e a EGOR, oferece 30 bolsas de estudo aos alunos que agora terminaram o ensino secundário e se candidataram aos cursos de Marketing, Design, Gestão Industrial e Engenharia de Materiais, num conjunto de Universidades que podem ser consultadas no regulamento.
São, portanto, cursos onde ensinam técnicas de vendas, desenho aplicado, gestão de fábricas e conceção de materiais. Ponho-me a pensar porquê estes e não outros? Que tal Filosofia? Não precisamos de um incentivozinho para quem se proponha estudar Filosofia? E História? Investigar os fenómenos históricos, compreendê-los e explicá-los terá algum interesse? E Sociologia? E Literatura? E Pintura? E uma quantidade de outras formações que aqui listaria? Quantos são hoje os alunos que escolhem cursos nestas áreas? Meia dúzia de loucos com pais ricos? Não faço ideia, mas gostaria de saber.
Eu estudei literatura porque gostava de livros, de ler, e porque, de facto, isso me proporcionava uma saída profissional enquanto professora de Português. Sim, queria ser escritora, mas os livros não pagam contas, portanto era necessário garantir primeiro a sobrevivência. Nesse tempo os professores ainda tinham tempo e poder. Velhos, saudosos tempos.
Mas havia, nos anos 80, a ideia de que o estudo enobrecia, cultivava. Permitia-nos almejar uma profissão, mas, pelo caminho, fazíamos leituras e formavamo-nos; aprendíamos a pensar os fenómenos históricos, sociais e políticos globalmente. Líamos poesia. A perda de tempo que isto constitui nos dias de hoje! As ciências sociais e humanas e as artes eram um veículo que nos transportava de conhecimento em conhecimento, resultando daí um amadurecimento e capacidade para intervenção nas estruturas da sociedade. Não sabíamos vender, não sabíamos desenhar nem construir embalagens nem gerir fábricas, mas numa dada fase saberíamos pensar um projeto, juntar e coordenar esses técnicos e gerar algo.
Hoje, aparentemente, não precisamos que ninguém pense. Convém não pensar de todo. Basta fazer muito, durante muitas horas. Desde o século XIX que não estávamos tão perto da Revolução Industrial.
Há um café junto de minha casa onde, de vez em quando, me deparo com pequenas reuniões informais de jovens executivos de 20 anos, todos de fato e gravata, olhando para papéis com algarismos. Escutam seriamente o líder. Observo-os e tenho pena deles. Tenho vontade de me aproximar e de lhes perguntar, "não preferem deixar isso e fumar uns charros?"

A Morena tem mais carisma que o Che

Barack Obama fez uma piada sobre o carisma retórico da família na qual incluiu as seguintes personagens por ordem de importância: a mulher, as filhas, o cão, a sogra e ele próprio. Era uma piada, e o mundo inteiro faz piadas com sogras, por alguma razão. Dizem agora que Obama cometeu uma gaffe. A sogra teria de vir antes do cão.
O mundo é todo igual e sensaborão, e as pessoas tem uma falta de humor que as torna muito pequeninas de espírito. Eu, mesmo que quisesse, não poderia concorrer a presidenta da associação de donas de cães do meu bairro.

sábado, 11 de agosto de 2012

A ficção

   Karen Blixen, 1962, por Cecil Beaton

Estou a contar-te esta história, mas, por favor, não vás agora por-te a escrever, seja o que for, sobre o que te revelo.
Não. Nem penses. Nada. Está descansada. Sou um túmulo.
Sim, por favor. Vê lá. É que me deixavas em muitos maus lençóis.
Não te preocupes. Onde é que dizes isso aconteceu?
Em Faro, quando lá vivíamos, na década de 90.
Como é que ele se chamava?
João.
Trabalhava numa loja?
Vendia carros.
E se eu escrevesse essa história situando-a nos anos 80, chamando-lhe José, pondo-o a viver em Braga e a trabalhar como segurança num bar de alterne? Achas que te prejudicava muito?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mudar o mundo

O Jumbo tem as caixas normais onde nos fornecem sacos de plástico gratuitos que se desfazem no momento em que lhes colocamos as compras, e as caixas eco, muito melhores, que, segundo se lê nas próprias, estão a mudar o mundo. E como, perguntamos. Simples, aceitamos pagar sacos ligeiramente mais fortes.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Primeiro dia de férias

Estou cansada e doem-me os ossos, por isso resolvi dar uma volta aos dossiers velhos. Parece não haver interrelação entre as duas situações, mas se der ordem ao meu mundo, talvez me sinta menos cansada e as dores desapareçam. Além do mais, preciso de espaço para papelada recente. 
Dos dossiers de aulas de 95 até 2005 só se aproveitam as capas de plástico, vulgo micas. Deito fora tudo o que seja ficha, acetato, informação sobre lírica medieval, Fernão Lopes, Bernardim Ribeiro, Antero, Florbela, Torga, Sophia e outras temáticas e autores, bem como gramática. Salvo um recorte antigo de JL, com uma entrevista a Luíz Pacheco, feita em 1997 por Ricardo Araújo Pereira e Rodrigues dos Santos, e aproveito Gil Vicente, Camões, Cesário e Pessoa, encolhendo os ombros e praguejando mentalmente. Trabalhamos para nada. Não há utilidade. Não mudamos nada. Não se vê.
Estou muito cansada. Mudou tudo e eu já não tenho paciência. Acho que no início da carreira os alunos não perguntavam, "porque é que temos de aprender isto?" Eu nunca perguntei tal coisa aos professores. Tinha e pronto. Aprendia. Confiava dever haver uma lógica naquilo. Talvez não houvesse. Era o sistema tal como hoje é o sistema. O que se alterou em mim com os anos foi isso: paciência, energia e crença. Já vi como era vida de adulta e agora gostava de sair, se faz favor. Recebi toda a informação necessária. Sinto que percebi, portanto pôr-me na alheta é que era bom. Não escutar conversas. Não aturar ninguém. Não saber nem querer. Acabar a escravidão. Vão todos morrer longe!
Doem-me as vértebras todas do pescoço. Entretanto, salvo mais micas, enquanto no prédio ao lado picam uma cozinha para remodelação. Sinceramente.