segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Amor



Aos 20 não podia compreender o amor de Borges e Kodama. Hoje posso. A diferença mostra que aprendi finalmente alguma coisa sobre os laços que os seres humanos estabelecem. O amor. 
O que sentimos aos 20 é normal e é bom. Gasta-se muita energia, sofrem-se muitas deceções, mas a loucura, a mística envolvida paga bem tudo isso. Os 30 são uma idade complicada, porque começamos a sentir a pressão social para, como eles dizem, "assentar", e não assentamos enquanto à nossa volta já tudo vai assentando, tendo meninas primeiro, meninos depois, para completar o parzinho. Idade a esquecer. Aos 40 vem uma bonança. Já desacreditámos do amor, se não veio é porque já não vem, e afinal para que serve, temos as nossas atividades, a nossa vida organizada, gostamos dela, para quê complicar? Aos 40 mudamos. Não é só o corpo que vai envelhecendo devagar; a forma como pensamos torna-se muito mais prática, de certa forma matemática. Não perdemos a velha loucura, mas juntamos-lhe uma pitada de razão. A mistura resulta. A conceção do amor também muda. Já não olhamos para ele da mesma forma, já não embarcamos nas mesmas coisas, sobretudo se formos honestos e bem formados. O tempo esculpe bem, como escrevia a Yourcenar. Esculpe aleatoriamente bem. E é neste tempo de bonança, já sem tanta loucura e sede que estamos disponíveis para apreciar aqueles que não são o que à partida idealizávamos, pensávamos, mas que aparecem na nossa vida e, de repente, fazem sentido nela.  E é um amor mais sossegado, muito mais tolerante, simples, sem ciúmes, medos, expectativas. Estamos com o outro porque é bom, mais nada. Não para construirmos uma vida, para termos filhos, nada. Estamos porque nos faz bem, porque a companhia e o diálogo nos completam. Já não sei amar como amei no tempo fresquíssimo dos meus 20, mas ainda bem que amei dessa forma, porque se esgotou o filão, e seria uma pena não ter vivido a dor que desatina e dói a sério.
Tenho a certeza de que sou muito mais feliz do que era aos 20, mas não sinto nada de especial. Não ouço a música dos anjos.
Porque não revelo o que realmente aprendi sobre o amor? Porque é tão simples que se torna indizível. Não há nada a explicar. O amor é voluntário, sem imposições. Por outro lado, raro. É mais fácil um rico entrar no reino dos céus. Continuo a lutar. Eu estou sempre nisso, mas minha luta já não é não perceber, mas ter percebido e afinal ser só isto. O amor é diferente de tudo o que imaginámos sobre o amor. E a culpa é da cultura. Ninguém nos diz, honestamente, que o amor é companhia privilegiada, íntima. E que é bom como é. Simples.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Nós

Melhores partes do meu dia: abraçar a Morena, levar a Morena à rua, dar comida à Morena, roubar beijos à Morena, olhar para a Morena, ouvir os ruídos da Morena a dormir, falar com a Morena, levar a Morena à rua, abraçar a Morena e beijá-la até ela fugir porque está farta, lavar o xixi da Morena na varanda, ter a Morena deitada aos meus pés e imaginar que vamos dormir as duas.

Purga

Sou perita internacional em catástrofes económicas. Trabalhei muitos anos na Jökulsárgljúfur Instutionem, deu aulas na Skaftafell Universitet e fui consultora do Snæfellsjökull Bank, trabalhando diretamente com Marks Þingvellir. Fui eu que ajudei a Islândia a resolver a sua crise, criando as condições internas e externas para que esta se resolvesse. Neste momento, analisando a situação portuguesa, a Jökulsárgljúfur Institutionem, da qual sou diretora, pensa que não nos resta outra solução a não ser contratar meia dúzia de snipers do leste ou do médio oriente, posicioná-los no sítio correto, e realizar uma necessária purga política e económica. É a única solução, e, reparem, isto não é uma opinião pessoal. Muitos defendem o mesmo.

Nunca mais

A próxima vez que uma testemunha de jeová me abordar com um panfleto no qual se lê que "o fim do sofrimento está para breve", terei de voltar atrás para lhe perguntar se é um breve a curto, médio ou longo prazo, porque ando a ler o mesmo há mais de 30 anos, e penso ser possível  fazer queixa por práticas publicitárias enganosas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O suicida



Fui hoje encontrar-me com o senhor Xavier Zabriskie de quem recebi um enigmático email a semana passada, dizendo-me, "Cara Josefa, estive na sua terra, finalmente. Tenho apreço por si e leio tudo o que vai escrevendo. Gostava de lhe falar sobre algumas das ideias que defende publicamente, porque creio que corre certo perigo. Cordialmente." Seguiam-se assinatura e contactos. 
Recebo correspondência de muita gente. Uns, loucos varridos, outros, ainda não. Leio tudo por igual, e respondo, se vale a pena. Não discrimino. Considero-me, portanto, profissional em blind dates, uma vez que passo a vida a tomar cafés com gente que não conheço de lado algum. Normalmente, boas experiências. 
Não hesitei em aceder à solicitação do senhor Zabriskie, cujo nome me causava perplexidade. O que teria o senhor a dizer-me era assunto para depois.
Encontrámo-nos no café O Manjar, na Baixa, onde o homem era conhecido dos funcionários por "o senhor doutor". Não fiz perguntas. Nunca faço. A verdade é que não quero saber. Para mim é tudo igual. Oh, é mesmo, não se duvide.
Quando cheguei, levantou-se e fez-me sinal. Conhecia-me das redes sociais e da imprensa, desde a última vez que sugeri uma ação de desobediência civil, nomeadamente a ocupação do hemiciclo do parlamento, o que não chegou a acontecer, porque em Portugal não há gente, mas corpos desabitados, e agravadamente sem sombra, sem rasto.
O senhor Xavier era um homem alto, moreno, bem arranjado. Não parecia maluco. Apertou-me a mão, apresentou-se e iniciou a conversa.
- Há uma coisa que me espanta em si, Josefa. Uma dúvida. Você é funcionária pública, não sente medo em expor as suas opiniões como tem vindo a fazer? Não receia ver-se sujeita a um processo disciplinar?
- Refere as minhas tomadas de posição políticas? 
- Exato.
- Sei o que faço. É consciente. Perdi o medo lá atrás. Foi-se. Puf. Tenho direito a ter opinião e a exprimi-la.
- Admiro-me, porque você não tem as costas quentes. Não tem papá, não tem mamã...
- Não, nada. Só eu. Mas não ter papá nem mamã faz de nós os melhores kamikazes, sabe?!. Não estamos presos a nada. A ninguém. Libertaram-nos. A mim libertaram-me cedo, eu é que me prendi muitos anos. Pensei que tinha de tomar conta de mim, tinha um futuro a proteger, ilusões, esperanças. Agora não. Repare, vivi dois terços da minha vida, quero lá saber. O senhor não é mais novo. Não sente o mesmo?! 
- É uma questão retórica?!
- Não. Sim. Enfim, não interessa. O sistema que tome sobre mim as decisões que lhe apetecer. Veremos, depois de tomadas, quem joga melhor o jogo.
- Você não tem qualquer hipótese de se sair bem.
- Por que não?
- Não tem poder.
- Julga o senhor.
- Sejamos honestos, cara Josefa, que hipóteses tem de se safar se lhe for instaurado um processo disciplinar com base  no facto de não actuar no sentido de criar confiança na acção do Estado? É uma agitadora. Apela a ações violentas...
- Nunca apelei.
- Sugere-as.
- Nunca defini um alvo.
- As pessoas percebem.
- Catch me, if you can.
Encostei-me ao espaldar da cadeira, dei uma passa no cigarro, respirei fundo.
- E mesmo que me apanhassem, caro senhor? O que se seguiria?  Aposentação compulsiva?  Já viu o favor que me faziam?!
O homem não respondeu. Outra passa no cigarro.
- Era. Acredite. Dependo do salário que me pagam, tem toda a razão, e a miséria de reforma que auferiria não chegaria para me manter com o nível de vida que tenho. Mas, pense nisto, eu, sozinha, pelo meu próprio pé, nunca terei coragem para os mandar à merda. Nunca terei coragem para chegar à repartição e gritar-lhes, "não sou escrava, grandes cabrões. Nem vossa, nem das vossas iniquidades encomendadas, nem de ninguém. Apenas da minha vontade." Nunca o farei porque tenho faturas a caírem todos os meses e não me libertei disso. Imagine que me apanhavam. Libertavam-me, amigo!
Sorri e baixei a cabeça, pensativa, gozando a ideia.
- Libertavam-me, já viu?! Era à força, e claro que depois ficava tesa e andava a chular quem aparecesse. O senhor. Outros. Ouça, eu também sustentei muita gente, enquanto pude. Há-de haver por aí quem me sustente e me dê casa. E se não houver, rouba-se. Vamos com a maré. Sempre me adaptei a novas circunstâncias. As mudanças à força nem sempre são más. Já viu o tempo que tinha para me dedicar ao ensaio político ou mesmo à militância num partido que defenda o mesmo que eu?!
- Josefa, você é um bocado louca.
- Não sou. Tornei-me prática. Tenho um modo de vida horrível da qual não me consigo libertar. Levanto-me todos os dias para sofrer uma escravidão sem fim, que não serve senão para prolongar a mesma escravidão. Trabalho para viver tesa. O que chama a isto? Não é escravidão?!
- Não sei, acho que podia desistir do carro, por exemplo.
- Não posso. Quer dizer, por agora não posso. Faz-me muito falta.
Estivemos ambos um bocado em silêncio enquanto eu fumava e ele bebia café.
- Ainda bem que me pediu este encontro, amigo. Confesso: nunca tinha revelado o que acabei por lhe dizer. Tinha-o pensado para mim com alívio, apenas. Uma coisa meio inconsciente, que me passa pela cabeça enquanto espero no semáforo, e no momento seguinte já não me lembro, porque acendeu o verde. Passa. Mas é isto mesmo.
- Você lembra-me um potencial suicida que não tem coragem de se matar.
- Sim, mas dos que se colocam num ponto perigosíssimo da estrada, esperando que um carro se despiste e o atinja.
Rimo-nos.
- Isso.
- Ora bem.
Levantei-me. Estava na hora. Despedimo-nos. Esqueci-me de lhe perguntar a origem do apelido.

O mangalho

Vi na montra da ourivesaria uma pregadeira de ouro branco com diamantes em forma de cãozinho, só o contorno. Custa 1750 euros. Nunca terei 1750 euros para gastar. Nunca na vida. 
Vi uns brincos de prata, umas pulseiras. Vejo muitas jóias que gostaria de usar. As montras encontram-se repletas de beleza e valor. Contemplo. Já não é mau. 
Ponho-me a pensar à Passos Coelho: nunca aqui estive como estou agora, mas tenho outros tesouros. Os livros, os amigos, a Morena, a força no mangalho. E mais nada. Essencialmente precisava de um contexto para usar o vocábulo. O mangalho. Acabou-se todo o lirismo do ouro e da prata e do cãozinho.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Noite de amor, noite de paz

Após o jantar, Isabela senta-se num sofá perto da mãe com uma caneca meia de Adega de Borba, branco, 2011, olhando para o écran de televisão e aparentando estar a adorar a casa dos segredos.
Mãe - Estás a beber Coca-Cola?
Isabela - Sim.
Mãe (estendendo o braço) - Ah, dá-me um golinho que fiquei cheia de sede.
Isabela (revelando uma capacidade de desenrascanço muito acima da média) - Não, não vais beber pela caneca. Vou buscar-te um copo como deve de ser à cozinha.
E foi o momento mais quente da noite de natal.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Traduzir 2

Miguel Relvas diz "precisamos de um Estado mais eficiente."
Tradução: vamos vender todo o património público que conseguirmos, ao desbarato, até porque o genro do PR está interessado em comprar; também vamos meter na rua milhares de funcionários públicos e cortar mais verba aos ministérios e autarquias.

Traduzir 1

Passos Coelho diz, "as necessidades do ministério da saúde estão identificadas e estamos em condições de proporcionar um serviço médico de qualidade."
Tradução: sabemos perfeitamente que os hospitais e centros de saúde não têm dinheiro e já estão a reciclar agulhas de seringa, portanto estamos certos de que vamos conseguir matar o maior número possível de portugueses, atingindo assim um ratio médico/doente muito mais aceitável, e precisando de menos médicos e hospitais. 
Nós, no governo, vamos sempre à Suiça quando estamos constipados."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Feudalismo com computadores

A Constituição da República Portuguesa existe em livro, mas é entendida pelos poderes como se fosse uma obra de ficção. É imaginação literária, não para se respeitar. Claro que, perante uma atitude deste calibre, não há razão para a existência de um Tribunal Constitucional. Se existir, as suas decisões são igualmente ficcionais, portanto sem peso real. O que interessa que considerem que isto e aquilo não cumpre a constituição? Não cumpre, mas pode fazer-se. A prova é que se faz.
Aliás, o cumprimento da Lei depende de quem tem de a cumprir. Se for eu ou o vizinho Manel, sim senhores, aplica-se, mas se for um senhor do aparelho partidário ou das estruturas de poder, sejam quais forem, já não. É uma espécie de feudalismo, mas com computadores

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A normalidade e a realidade

As minhas amigas que querem oferecer um Natal normal às suas crianças, porque o Natal sempre foi normal, e as crianças não têm que sofrer, estão a cometer um erro crasso.
Digam às crianças a verdade
, porque o Natal do consumo, tal como o conhecemos, acabou para sempre. A nossa vida nunca mais voltará a ser o que foi, mesmo que o governo não se aguente e o tribunal constitucional declare inconstitucionais os últimos 30 anos da nossa política económica. Estamos em ruínas. Os mais fortes sobreviverão, mas esqueçam o que consideraram a normalidade. Este será  também o meu primeiro Natal sem prendinhas, sendo que passei a descolonização em África - no Natal de 1974 nem pão tínhamos! - e fui retornada sem pais e sem país.
Esqueçam a normalidade e mostrem a realidade aos vossos filhos. Eles vão precisar dessa aprendizagem, não da ilusão.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Da escravidão

Sei que horas do dia são pelo barulho que me chega da rua. Os escravos fazem demasiado barulho enquanto trabalham para o senhor.

Máfia legalizada

Estive nas Finanças a pagar o IMI, com prazo até 30 de Setembro, pago hoje com 30 euros de multa. Havia gente para pagar IMI, o imposto automóvel, o IVA, porque tem uma loja e paga, porque tem uma mota e paga, porque quer abrir um quiosque, paga, porque não sabe quanto IRS paga para dar um espetáculo, mas paga,  e  para respirar e praticar a cópula... E havia as execuções fiscais, que era o meu caso, as multas. Trinta euros porque se atrasou dois dias, e a penhora do ordenado, se deixou passar os prazos. 
As Finanças são imóveis onde vamos voluntariamente pagar para existir. São como a máfia napolitana, mas legalizada. São como qualquer máfia em qualquer parte do mundo, mas autorizada. Ou seja, ladroagem pura.
O velho ditado português ainda reza que ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão. Proponho, portanto, dinamitar todas as casas de ladrões.

Rasteiras

Gosto de cantores que perderam a voz e continuam a cantar e de atores que deixaram de ser bonitos e se mantêm no palco. Gosto de pessoas que perderam a beleza ignorante da juventude e continuam a viver distribuindo bofetada pelos anos.

Da minha mãe

Diferimos tanto. Contraria-me. Chama-me à realidade. Tão insuportável. Tem uma escara no pé direito que ando a tratar com betadine e pomada. Gosto tanto dela, que nem sei quanto. Quando ela morrer não me resta ninguém, ninguém. A filha fica única. Não morras, amor.

Macha-fêmea

A minha mãe acha que a cadelinha que andava abandonada na primavera, e que recolhemos, é macha-fêmea, porque tem maminhas de cão, passarinha de cadela e nada de cio. Se calhar temos uma cadela com identidade de género misturada.

Secante

Sobre o vocábulo "secante" há a dizer que existe um líquido para se pincelar por cima do verniz de unhas que é secante, um pó secante especial para flores, secantes diversos, em spray, ou não, que cumprem, melhor ou pior, a função da secagem, máquinas de secar roupa e secadores de cabelo com características que produzem a secagem, mas que os dias não podem ser secantes. Os dias podem ser aborrecidos, entediantes, monótonos, tristes, mas secantes, não - a menos que estejamos num lugar sem humidade, sujeitos a um calor extremo, como no deserto. Nesse caso poderemos afirmar que esteve um dia secante, ou, mais precisamente, que sobrevivemos a um clima secante.
Claro que no registo literário, expressivo, tudo se pode dizer, e nesse caso conceder-nos-emos  a liberdade de produzir enunciados como "uma mulher secante" ou "uma lavagem secante".

Os cães

A minha mãe diz que eu sempre atraí os cães, desde pequena. Ela não disse que os cães me atraíam.