terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Os meus amigos partidos





Lembro os rostos dos meus mortos, que partiram antes do tempo admitido à morte. Lembro como eram os seus rostos antes de partirem. Vejo-os no meu cérebro, sorrindo, como se estivessem vivos. A cor e espessura dos cabelos. Os penteados. Os dentes com uma falha. A papada dupla. As roupas que usavam. Um deles tem um guarda-chuva na mão, não sei porquê. Os sorrisos eram tão francos. A forma como caminhavam, como andavam e paravam, ficando a falar. Vejo-os tão bem. Tive tanta sorte por nos termos conhecido, por termos passado tão profundamente pelas vidas uns dos outros. O destino deu-me amigos muitos bons. Talvez não muito presentes, mas gente mesmo gente, que se ama sem vontade, porque é impossível não os amar. E nisso tive sorte.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A memória





A matéria da memória é indefinida e insegura e nela como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória) se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória.
(...)
Por essa altura, eu já só tinha no bolso pouco mais de 7 dólares. (7 dólares e 33 cêntimos... A memória é, às vezes, estranhamente precisa, sem que o significado de tal precisão, se tem algum significado, nos seja compreensível, como se a memória se determinasse por motivações autónomas que nem sempre nos dizem respeito, ou não dizem respeito àquilo a que chamamos "nós".)
(...)
De qualquer modo, a memória é uma ficção e o passado uma espécie de sonho que nos sonha tanto quanto o sonhamos nós.

Manuel António Pina, Os Papéis de K.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O mundo dos católicos ateus

O Papa renunciou ao mandato e a sociedade (blogues, redes sociais, media, conversas de café), comenta a notícia, ironiza e censura. 
Qual é o problema?! Bem, eu cá preferia que comentassem a situação política grave que se vive na Síria ou no Irão, entre outros. O mundo estala de tragédias que merecem a nossa dedicação, e de assuntos mesquinhos que valem a nossa troça. A abdicação do Papa equivale à reforma do senhor Evaristo Cabral, dono do da empresa de velas que fornece o santuário de Fátima. O homem está velho e cansado e quer descansar como qualquer pessoa velha e cansada. Fait-divers. 
Mas o que observo de curioso, do ponto de vista sociológico, a partir deste súbito interesse pela abdicação do Papa, é que ele vem da parte de não crentes. A questão é a seguinte: se eu me declaro crente e me estou nas tintas para o Papa em funções e para o que se segue, uma vez que tem, para todos, a importância de um político, de um diplomata, e nada mais, e o facto é conhecido, que relevo poderá a notícia ter para ateus e agnósticos?
Resposta rápida: o que as pessoas são não corresponde ao que admitem. A maior parte dos ateus e agnósticos está profundamente atenta aos movimentos da igreja católica, mesmo não possuindo estes qualquer relevo social ou espiritual, e isso acontece porque os não crentes, afinal, no substrato, nunca deixaram de ser... culturalmente... católicos. E, oh, meu Deus! Nossa Senhora dos Remédios valha a esta mulher!

O abuso sexual pancultural

A propósito da filha de Ravi Shankar, que veio revelar, após a morte do pai, ter sido abusada em criança, tragam-me todas as resmas de papel disponíveis no mercado. Quero começar a recolher os depoimentos de todas as vítimas, embora não saiba se arranjarei não abusados em número suficiente para colaborar numa tarefa que exige certo distanciamento emocional.

Os aleijadinhos

Não acreditem em mim, por favor, não acreditem. Pensem por vós.
Tenho um passado que me persegue como um bom fantasma. Um eco de vozes, de palavras populares bebidas pelo sangue.
Tem cuidado com os aleijados. São maus. Tens pena deles? São dignos de pena, mas maus. Havia um homem... Ouço dentro da cabeça discursos guardados num lugar onde nunca puderam morrer, embora sem valor, e não pudesse compreendê-los então. Fui boa filha, porque soube esperar, porque não desmenti, aguardei. Fui boa filha porque quis sê-lo, mais do que qualquer outra coisa que se deseje ser: a boa filha.
Eis aqui o atleta sul-africano sem pernas que superou todas as dores e assassinou a sangue-frio a namorada com qualidades. Pensavam que o atleta sem pernas era um herói do atletismo e da bondade? Se tivessem nascido sem pernas não estariam cheios de raiva, não vos levaria ela ao pódio? Oh, eu, sim. A raiva leva-nos longe, aperfeiçoa-nos na ambição e na obsessão de nos igualarmos. Eu sou melhor sem pernas do que tu com duas sem mácula. Sim, sou melhor sem nada do que tu com tudo.
Porventura acreditam que um ser humano sem pernas tem uma vida como a nossa?. Levanta-se, toma banho, veste as calças... Não, não. Mesmo que dance, mesmo que tenha mulheres à sua volta, um homem sem pernas é um ser mutilado, cujo objetivo maior consiste em provar não apenas uma ideia de igualdade, mas de superioridade. Eles são maus, ouço este som vindo das regiões mais antigas das minhas memórias. Não confies neles. Não tenhas pena.
Um aleijado, e a palavra vem de trás, deixemo-nos do socialmente correto, tem como objetivo de vida diário a superação da sua diminuição. Não acreditem em mim, claro. Sabem que eu tenho estas manias de acreditar nas vozes antigas. Desacreditem-me. Os aleijados pensam todos os dias que não são iguais. Que a vida dos outros é tão mais fácil,. Fui uma aleijada a vida inteira, sê-lo-ei para sempre, mas não me deem razão. Procurem a vossa. Entretanto, Oscar Pistorius, o homem mais rápido do mundo, sem pernas, assassinou a tiro a namorada. E, simultaneamente, recordo que nos piores dias do meu pai, os dias que antecederam a morte, nos quais mal comunicava, e tinha dores, e não se podia mexer, e estava zangado e tinha raiva de tudo, de nós, da vida, de si, cuspia para o chão a comida que lhe púnhamos na boca e se atirava da cadeira de rodas abaixo, de propósito, para que tivéssemos de gemer para conseguir levantá-lo. Porque ele estava aleijado, e por isso tínhamos de lhe prestar atenção, porque ele valia, porque tinha raiva, porque não era um desvalido qualquer, mas o meu pai.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Maldadezinha humana

Há turmas ostensivas, com as quais não conseguimos estabelecer uma ponte que transcenda a passagem de conhecimento científico. Tenho pena que aconteça, porque a existência de um certo grau de empatia entre professores e alunos facilita o processo de aprendizagem. Tornamo-nos muito mais disponíveis uns para os outros. É raro não conseguir fazê-lo. Ao longa da minha carreira de mais de 26 anos, só me lembro de duas turmas com as quais aconteceu não haver empatia.
O episódio que passo a relatar é recente e perturbou-me.
Pretendia explicar aos alunos em que consistia a caracterização indireta, pelo que decidi tornar-me personagem, em lugar de escolher qualquer outra figura. Expliquei que se num texto me declarasse uma pessoa nervosa ou com picos de humor, ou alguém por mim, estaria a caracterizar-me diretamente. Uma aluna nas carteiras de trás exclamou que a isso se chamava bipolaridade. Esclareci que no meu caso, não. A bipolaridade é uma perturbação psiquiátrica distinta da mera alteração de estado de espírito. Continuei.
"Se quiserem escrever um texto sobre mim com base no meu comportamento, naquilo que eu não digo, mas que observam e concluem, estarão a caracterizar-me indiretamente. Por exemplo, o que é que o Tiago escreveria sobre mim?" 
O Tiago afirmou não querer responder. Ok. "Então, e o Dionísio?!" Também preferia manter-se calado. Estranho, mas passo à terceira tentativa. "E a Jessica, diga lá, parece estar aí cheia de vontade de falar". "Sobre a stora não quero dizer nada, mas posso falar sobre a de Biologia?", pergunta com certa euforia, preparada para discursar.
"Não, não pode falar sobre os outros professores", apressei-me a responder, assim que percebi que ia seguir-se uma lista de acusações à personalidade da professora de Biologia. E tornou-se claro que os anteriores não tinham arriscado caracterizar-me indiretamente, não por pudor, mas porque o que tinham a dizer era desagradável e não pretendiam arranjar problemas.
Acabei com o momento, concluindo com um "ainda bem que todos compreenderam", ficando pensativa e triste. Eles não gostam de mim. Não pensam bem de mim. Ter de me confrontar ali com o espírito ostensivo do grupo, a solidariedade muda que estabeleciam contra mim, não foi um osso fácil de roer, até porque era preciso continuar a aula enquanto me recompunha da deceção.
Perturbou-me. Não devia. Não altera nada. Mas havia naquilo uma maldadezinha gratuíta, adolescente, ingrata. Uma maldadezinha humana como as outras. Nestas ocasiões concluo que nunca cheguei a sair da moralidade dos contos de Dickens. Ainda sou uma personagem de princípios, lutando contra o mal sem nunca desistir. Ainda sou, em essência, o que me manteve viva nos piores momentos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Gente da minha idade

São mulheres da minha idade, arranjadinhas. Cabelos, cara, unhas, boa roupa e acessórios, tudo como manda a compostura social. Tiram das malas as carteiras e abrem-nas para pagar os cafés. Não se veem fotos de bebés nem de crianças. Os filhos já devem ter saído de casa e ainda não vieram os netinhos. Em seu lugar, muito visíveis, as fotos dos maridos amados. Portugueses lustrosos ostentando bigodes conhecedores da Sagres mini e da sport tv.
Esta gente, homens e mulheres, podia ter andado comigo na escola. Se calhar andaram mesmo, e eram muito melhores do que eu a matemática. Até podem ter tirado quatros!
Dizem que não há mundos paralelos, realidades alternativas. Eu sei que eles andam cá e cruzam-se connosco na rua todos os dias.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O poder das palavras é uma magia

 Thomas Mann


Em "Desilusão", de Thomas Mann, pequeno conto de quatro páginas integrando a obra Os Famintos, em acesso livre na internet, o narrador equaciona sumariamente, através da personagem de um viajante em Veneza, culto frequentador de esplanadas, a maldição que constitui o precoce conhecimento do mundo através das palavras.
Embora em Veneza, o homem encontra-se impedido de se maravilhar com o que os sentidos lhe permitem experienciar, uma vez que a sua mente viveu já o maravilhamento absoluto através das leituras que realizou ao longo da sua formação adolescente. Que mundo real, visível para os os olhos, pode existir para quem usou os da mente para conceber um outro, todo imaginado, estimulado por palavras grandiosas, de extrema expressividade?! A culpa da sua desilusão é dos poetas, alega, porque abusam das palavras, criando, com elas, falsas expetativas sobre o mundo. Tendo visitado o planeta inteiro sem encontrar beleza comparável à das palavras, o homem aguarda a morte. Existirá na morte grandiosidade comparável à da palavras?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Num país onde o homicídio é a lei


Havia um país onde o homicídio e o assalto eram lei. As pessoas alegavam, em tribunal, ah, mas eu não queria ser assaltado nem morto, por isso reagi e dei-lhe porrada para o acalmar. Não pode ser, responderia o juiz. Se queria cumprir a lei, deveria tê-lo assassinado e assaltado, como reação ao ataque, e depois, logo veríamos, aqui, que penalização lhe atribuiríamos por resistir às regulares tentativas de assalto e homicídio por parte do homem que apenas feriu em vez de matar.

É que a lei é a lei, meus senhores, o que equivale a dizer que a vida é a vida e a morte é a morte. Por outras palavras, nada a fazer, nenhuma explicação, nenhuma justiça, nenhuma lógica. A lei é a lei, entendido?

Nos territórios onde a lei é a lei, os argumentos que a sustentam serão sempre melhores que os meus, porque se baseiam no pressuposto da ausência de lógica. Para ter direito a não pagar 700 euros às finanças, por não os ter, primeiro tenho de os pagar. Posteriormente, numa data não referida, ao contrário do que acontece com o prazo estipulado para o meu pagamento, serei restituída desse valor. Se não pagar ser-me-ão aplicadas coimas para me estimular, acrescidas de execução fiscal, que cortará onde houver, para me estimular ainda mais. Eu continuarei na mesma, com valores acrescidos a liquidar, porque a lei é a lei.

Gosto de viver num país onde o impossível é possível, porque me sinto numa ficção de non sense. Afinal
também posso ser uma personagem de Kafka ou de Lewis Carroll.

Rugas

De manhã observei o meu rosto ao espelho. As primeiras rugas saem do canto interno dos olhos como sulcos de insónia. Já não são olheiras. Transformaram-se em fios marcados na pele, ainda finos, mas que com o trânsito dos anos se tornarão visíveis, e quem olhar para mim ficará na dúvida sobre se aquela mulher está a chorar.
Não me importo de ter rugas. Parece-me justo. Não compreendo como não apareceram mais cedo. Aos 20 e poucos deveria ter ficada coberta delas. Vou acarinhá-las como uma mãe que embala no colo o filho morto até ressuscitar.