sábado, 28 de março de 2015

Sibila 1

Ilustração: John Collier



José Sócrates, o português comum


Está tão inocente nas questões do enriquecimento ilícito como no caso da sua licenciatura.
Usou influência e poder, manipulou e jogou com pleno conhecimento das formas legais de fintar a Lei. Não é mais culpado do que qualquer outro português, independentemente da classe social e cultural a que pertença. Foi esperto e desenrascado. Agiu de acordo com a informalidade da nossa cultura, um agradável laissez faire, laissez passer, nada calvinista, portanto facilitador, útil e, em alguns casos, até desejável - desde que não prejudique outrem. A chave reside na incontornável questão moral: o que nos serve é sempre correto, desde que não leve prejuízo a terceiros.
As manobras que José Sócrates desenvolveu para gerar enriquecimento não as aprendeu sozinho. Outros, antes de si, fizeram o mesmo, à vez e simultaneamente. Não deve haver muita gente no Governo nem na Oposição ou em cargos de poder nas altas finanças, antes ou depois, cujo percurso possa ser investigado sem se encontrarem caminhos sinuosos, becos, pura magia em crédito bancário. É toda uma geração e filiação de roubalheira pública com origens eventuais nos primórdios da Primeira República. Ou antes, porque tudo se compra e tudo está à venda onde existe pobreza, de que esta terra é mãe e filha.
Puxem-se um pouco mais as redes e virá o grosso do peixe, já sem surpresas. Todos nós sabemos quem e onde. 
Um dia descobrir-se-á de onde vieram os milhões de José Sócrates, como os de outros. E os favores pagos a pequenos e grandes. Toda a teia, que envolverá direta ou indiretamente, gente tão de fora como eu. De nada nos servirá, a não ser para memória futura, porque aqueles que tiveram de morrer para que alguns vivessem e vivam como faraós lusitanos, estão já mortos. Nós, por exemplo.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Há um cão que te abraça através da poeira

Andrew Wyeth

Manuel António Pina, escrevo-te sentada junto ao portão de embarque, no aeroporto, com um dos teus livros no colo, sob este caderno. Requisitei-o na biblioteca pública. Não tenho dinheiro para comprar livros. Marco a lápis as páginas onde quero voltar para copiar versos. Os livros da biblioteca pública não são meus, mas se não são meus, são de quem? Imagino-me a próxima leitora do teu livro, interrogando-me sobre as motivações de cada traço da anterior leitura anónima. A partilha dos livros da biblioteca pública une-nos uns aos outros neste reconhecimento de coisas indizíveis que não nos conformamos em calar.
Escrevi-te um email há uns 4 ou 5 anos, ainda tu por cá andavas. Falava-te sobre os meus cães e a bicharada em geral. Não me respondeste. Talvez fosse uma carta pomposa demais. Talvez tu estivesses doente. Talvez tenha ido parar ao spam. Não pensei muito sobre o caso, porque quase nunca espero respostas. Estou aqui tão só comigo, que o que vier é uma oferta, e o que não vier, nunca existiu.
Lembro-te, hoje, dessa carta, porque agora já cá não estás, portanto acabou-se-te a doença, e não corres o risco do spam. É provável que tenhas mais tempo e disposição para me ler e eu estou a esforçar-me tanto por não ser pomposa que quase ia começando esta mensagem por "meu bom irmão".
Se puderes responder-me agora, se quiseres, se te parecer que valho a pena... queria dizer-te que sou estou mais pequena, mais nada, mais cão, cada vez mais cão que já não conhece a mãe nem o dono nem a casa. Só cão. E que estou a ler-te enquanto espero um avião. E que queiras ou não, o cão abraça-te através da poeira.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Não impeças de dormir os que não sabem acordar

De segunda a sexta jogamos um jogo horrível chamado "A semana". Ao sábado e domingo jogamos um jogo maravilhoso chamado "O fim de semana". Ambos são jogos.

Fantasia para olhos imprevistos

Se o meu caminho se cruzasse com o de Jesus, numa despovoada estrada de terra, e eu o sentisse, parava-o para lhe dizer, "cura-me, Mestre". Jesus olhar-me-ia como olha um cão, porque o olhar de Jesus é animal, tenho a certeza, e desenharia um arabesco no ar, frente aos meus olhos. Logo eu veria de novo, sem manchas nem mágoas, como se tivesse acabado de nascer perfeita. Prostrar-me-ia aos seus pés, por instinto, chorando de gratidão, e ele dir-me-ia, "vai, mulher. porque a tua fé te curou". Seria assim. 

Abraço

A minha mãe nunca me abraçava ou beijava. Uns beijos, sim. Uns beijos à despedida ou à chegada. A minha mãe adorava-me, por isso esforço-me por entender. Olhava-me com orgulho. Os olhos dela brilhavam, mas não me abraçava. A minha mãe tirou-me para fora de si e depois manteve-me dentro. Gostava de ter morrido no abraço da minha mãe. Não me bastou ter cuidado do meu cabelo, ter-me vestido, calçado e alimentado. Ter-me dito, "estás muito gorda". "Se não emagreces, acabas como o teu pai." Não me basta nada, porque me falta o abraço de ferro que o seu corpo não me deu cá fora.

quinta-feira, 12 de março de 2015