domingo, 31 de agosto de 2014

Do luxo da azeitona

Querida mãezinha e querido paizinho,

escrevo para vos dar notícias da vossa bem amada terra, esperando que esteja tudo por bem por aí.
Eu continuo aqui a ser uma boa menina, digna e bem educada, mesmo quando, às vezes, preciso de emitir palavras à bruta. Não é que queira, mas ainda não controlo bem certas reações, e há alturas em que, no mundo animal, ou se mostram dentes e garras ou se é comido. Falar-vos disto, tendo vós nascido em 1924, e atravessado o século XX, é como ensinar a missa ao padre, pelo que avanço.

Fui hoje comprar comida ao supermercado. Comida, para mim, são os vegetais e frutas, tendência que vinha já dos anos em que estáveis na vossa terra. Comprei melão, alface, tomate, pimentos, rabanetes e azeitonas. Tudo em pouco, só para fazer umas saladas, que agora sou um pisco. Gastei 4,98€, e de seguida sentei-me a beber um café: 0,60€. Como veem, a vida mudou muito por aqui, porque antigamente eu reparava pouco nos preços, e agora sento-me a ler as faturas. Sempre. 


Não são apenas os preços que me prendem a atenção, mas as taxas de iva. Tenho dado valorosas e negras gargalhadas lendo faturas de supermercado; mas hoje não me ri, apenas me lembrei das vossas histórias do passado, era eu pequena, estávamos pelas áfricas, sem "farm", e eu nunca tinha visto uma oliveira, a não ser em ilustrações. Vejam lá se ainda se lembram das histórias sobre os tempos da fome! Nesse tempo bastava uma caneca de café, mais uma mão cheia de azeitonas com pão, e ficava-se de barriga cheia, sem mais nada, esperando o sono dos justos. Era isto?! Comigo seria igual, meus queridos, mas descobri, lendo hoje a fatura, que a azeitona a peso, tirada do tonel na mercearia, é taxada a 23%, como artigo de luxo, o que mostra como evoluiu e superou o rabanete, de longe. O vinho continua nos 13%, devendo nós inferir que é um luxo maior que a alface, mas menor que a cerveja, também na lista dos 23%, como a azeitona, e acima de todas as possibilidades - muito embora os clientes do café Colina continuem a preferir a imperial ao copo de vinho, mesmo desempregados, fenómeno que, nesta fase do meu desenvolvimento terreno, não vos conseguirei explicar.


De resto vai tudo muito bem. Os portugueses continuam conformados na desesperança e maledicência, a pedir emprestado sem pagar e sem mal, a viver em casa dos pais ou a emigrar, quer tenham sido maus para os estudos, quer bons demais. Agora tanto faz. 

Por hoje é tudo. Mais notícias vos darei brevemente.

Um grande beijo da vossa filha que vos adora,

Isabela





segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Falhei a Filosofia

Não tive bons professores de Filosofia no secundário. Eram boas pessoas, mas não foram capazes de me entusiasmar com a matéria, ou o programa era muito desinteressante. 
Digo isto porque o secundário foi uma altura em que tive muito sucesso na escola. Obtinha as notas máximas para a altura. Estudava. Lia. Era realmente boa aluna, inclusive a Introdução ao Direito e Relações Públicas, secas de difícil equiparação no mundo cognoscível, mas não tenho boas recordações da Filosofia. Isto é muito curioso, porque toda a minha vida tem sido uma busca formal e informal da filosofia. Através dos textos de quem produziu pensamento, por um lado, e através dos textos que leio e produzo, por outro. 

Quando leio uma obra, interessa-me a sua filosofia e a das personagens. A forma como elas são. Tomemos Carlos da Maia como exemplo, porque é, em princípio, o pilar de um romance que todos leram. O que me interessa é contemplar as suas tomadas de decisão, de acordo com o seu livre-arbítrio. Sinto-me fascinada com as suas leviandades e incapacidades para resistir aos apelos do desejo. A forma como trata a Gouvarinho, a persistência no contacto sexual com Maria Eduarda, mesmo após conhecimento da existência de laços de sangue. O que é isso do incesto, afinal? Mas que importância tinham os laços de sangue, quando os unia um amor que a maior parte dos seres não encontra na vida?! Eu teria mandado o incesto para os quintos do inferno, e aqueles dois ficavam juntos; depois logo se via onde é que alguém falharia, porque o falhanço tem de existir, algures. As pessoas falham para compreender o acerto. E depois voltam a falhar e a acertar. A amputação desse amor não interessou ao Eça, porque não a trabalhou no romance, mas faz falta, muita mesmo, porque Carlos não falha na vida por ser um diletante e um romântico, como nos aponta o final, embora de facto tudo permaneça igual, e as culturas demorem a evoluir. 
Se passarmos hoje no Chiado, tirando os turistas, veremos a mesma exata paisagem. É um lugar de uma vacuidade impressionante. 
Carlos falhou porque se amputou no amor e na vocação, e fê-lo não por respeito ao que sentia, mas por necessidade de se conformar ao que a sociedade e a cultura esperavam. Carlos nunca quis ser médico. O seu avô, sim, desejou-o! Carlos gostava de discutir ideias, de escrever artigos em jornais, de analisar o mundo. Também havia um filósofo em Carlos. Portanto, falhou parcialmente, porque no momento em que o romance acaba é ainda demasiado novo, e pode acertar a seguir. Mas se falhou até ali, respeitando o ponto do vista do narrador, foi por não ter sido aquilo que estava talhado para ser

Tudo na vida desemboca em questões primordiais, de uma simplicidade que nos corrói quando o percebemos: o que somos nós? Porque somos dessa forma? O que fomos nós antes e nos levou a ser o que somos no momento em que nos pensamos? Como poderemos ser aquilo que sentimos que somos, em lugar do que nos ensinaram que deveríamos ser? Ou seja, resumindo, como podemos reconstruir-nos para regressar ao ser original? E é possível fazê-lo? 

Tudo o que me interessa na vida tem a ver com o verbo ser. Eu ser e os outros serem. E neste ponto sou profundamente exigente. É por isso que acho que, até certo ponto, falhei a Filosofia. Era o que deveria ter dito quando acabei o secundário: quero estudar Filosofia! E mentalmente, enquanto o escrevo e o imagino, sorrio, porque imagino os meus pais a levarem as mãos à cabeça e a caírem de desânimo no sofá, como aves atingidas pelo chumbo do caçador. Mas claro que depois se habituariam à ideia, porque me amavam, e o amor é uma força de verdade ilimitada. Eu sou a única responsável pelo que escolhi. Eu não sabia. Eu tinha dúvidas. E havia que pensar na vida. Queria provar-lhes que era capaz, que podiam orgulhar-se de mim. (Isso foi uma obsessão que ainda não terminou!) Nessa altura, embora tivesse já vivido muitas experiências, ainda era cedo para perceber o que era realmente o mundo. Ainda só conseguia ver com os olhos da cara, estes que agora vêm a falhar muito, e me obrigam a estar parada, com eles fechados, vendo tudo muito claro, muito claro.

Mas não é tarde demais. Falhei algumas coisas. Falhei-as até ao chão, porque sou boa nisso. Mas percebi, e, se me derem licença, vou agora acertar que nem uma louca de manicómio, que precisa de camisa de forças para não partir as paredes com a força do seu arremesso. Mas sem a camisa de forças.






quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O leitor normal de cemitério


O que é este monte de carne animada que sou? Porque me comovem as ações simples e me importa a vida das formigas, que vagueiam como tontas, até que encontram o seu buraco no chão, não sei com que faro? Porque paro a olhar folhas de plantas? Verdes. Secas. As cores na natureza, tão diversas. Os seus pequenos ruídos. Os insectos, répteis e mamíferos que se escondem nos arbustos e restolho quando passo. Tudo.
E no café, as frases que se soltam das mesas, ouvidas sem contexto, ditas com ironia, maledicência, zanga ou mesquinhez. O mundo está tão cheio de informação muda e falante que me interessa e comove.
Quem sou eu? Porque fui como sou até ao dia de hoje? E o que quero, agora?

A minha amiga R. disse-me que o ideal seria eu almejar um prémio literário de grande valor pecuniário. Atirei uma valente gargalhada, mesmo sentida,  e respondi-lhe, “por amor de Deus, mas tu não percebes que quem escreve como eu não ganha prémios literários?! Não escrevo histórias de família. Eu sou mais do género passa-fome, como o Luíz Pacheco ou a Adília!” 
É a verdade. Não escrevo sobre os grandes assuntos importantes: o mal, as intrigas do mal. Não conheço e não quero conhecer. Não escrevo histórias com enredos enlevantes. Escrevo sobre assuntos que não interessam a ninguém, por exemplo, sobre os lugares onde enterrei os meus cães. O que cresceu lá, depois. Escrevo sobre coisas em que não se repara ou sobre que não se fala. Acho que escrevo sobre o sentido das coisas que existem, das ações que se realizam. Sobre o que sentimos e o que fazemos com isso, mas não sou uma escritora no sentido tradicional do que se espera da narrativa. 
Portanto, para onde vou agora, não é?!

Não sei, juro. Ainda por cima tenho os olhos completamente gastos, forçados pelo trabalho e pela insónia. Eu que tinha uns olhos tão bonitos! E o meu corpo envelhece a pouco e pouco. A juventude vai. Nos últimos anos sinto-a partir descaradamente.
Assisti à degradação física do meu pai e da minha mãe. Vi o decair dos corpos. Conheço os sinais muito bem. A pele amolece. O sorriso esmorece. As prioridades mudam. Ter força, ter saúde, isso sim. Quais olhos bonitos! Quem é que quer saber de uns olhos bonitos quando o que interessa é ser capaz de ir até à cozinha preparar uma sopa? Descascar os vegetais, cozê-los, esmagar os que têm de ser esmagados, ter cuidado com o gás, o lume, lavar a louça. E quem vai à loja comprar aquilo de que precisamos, e o carrega?
Ter força. Ter saúde. Persistir. Isso importa. Os olhos bonitos pertenciam à juventude. O corpo gordo, bem gordinho, também. Tinha apetite. Um dia lembro-me de a Sandra me ter dito, no restaurante, ia eu para a segunda coxa de frango, “ainda não encheste esse bandulho?” Era uma censura, mas aquilo teve graça. Rimo-nos muito. Comi a coxa. Comi muitas. Eu tinha sempre muito apetite, ao qual gosto de chamar fome, no sentido simbólico. Era uma voracidade que não desapareceu, apenas se transformou. Era uma insatisfação que não desapareceu. Era o que me faltava, e continua a faltar, e talvez comece a ter uma ideia, agora, sobre a natureza dessa falta. A comida sossegava o estômago e a mente, que estavam ligados. Acalmava, atordoava e saciava um pouco, como o álcool. A comida, que bom! Tenho esse prazer registado na minha mente. Nunca o perderei, eu sei.
Uma vizinha parou-me numa das muitas escadas do bairro e interpelou-me, “gostava de lhe perguntar uma coisa: a senhora é a mesma pessoa... desculpe, a senhora é aquela vizinha que era muito gordinha, não é?! Pela cara parece, mas mudou tanto! A cara é que parece a mesma, não mudou nada.”
“Sim, sou eu. Sou a mesma pessoa”, respondi. Mas a cara mudou. Ela não percebe, mas eu sei, eu vejo. A cara perdeu juventude. E mudou conforme eu fui mudando.
Esta é a vizinha que trago atravessada há muitos anos, por ser do meu conhecimento que, não sabendo o meu nome, costumava designar-me como “a gorda” ou “a gorda das cadelas”. Eu era gorda, bem gorducha, e tinha cadelas. Nisso estamos de acordo, mas vamos lá agora ao tom depreciativo da nomeação! Eu tenho um nome, e as pessoas a quem ela se dirigia conheciam-no, ou, pelo menos, sabiam outras coisas a meu respeito. Podiam designar-me pela profissão, pela marca e cor do carro, pelo prédio em que vivia. Mas preferiam chamar-me “a gorda das cadelas”. Ficou aqui atravessado. Ainda está. Éramos todos adultos, portanto não se percebe.

Dizem que as pessoas são naturalmente más. Eu não acredito. Sinto-me ofendida quando o pressuposto me é dirigido. Não me sinto bem em lugares onde percebo que estou a ser vigiada, porque se parte do princípio que poderei roubar ou destruir algo, como em lojas ou em exposições. Desejo vir-me embora depressa. Pertenço ao género de pessoas que nunca escreveu uma palavra numa carteira da escola, podendo, ou numa porta de casa-de-banho pública. As carteiras da escola e as portas da casa-de-banho não me pertenciam, e eu fui ensinada a não tocar no que não me pertencia. Sou do género de pessoas que pode ser deixada sozinha numa casa alheia e não abre uma porta nem uma gaveta, por o julgar um considerável desrespeito pela privacidade. Não é que a privacidade não aguce a minha insaciável curiosidade, mas ela deve ser-me oferecida ou devo aceder-lhe por meios que não ofendam a forma como fui construída.
Quem sou eu? Como fui construída?      
              
O Estado pagou-me uma dívida. É raro, mas acontece uma vez em cada lustre. Assim que notei o montante depositado na conta bancária, levantei-o, não fosse cair a prestação do hediondo cartão de crédito. O dinheiro que os bancos emprestam sai sempre muito caro, convém esclarecer. Há uma altura em que perdemos a paciência, e a minha vai a anos-luz. Tinha prometido a mim mesma que o primeiro dinheiro que entrasse, serviria para comprar a lápide da minha mãe, e que tudo o resto, sem qualquer respeito pela importância da dívida, deveria esperar.

Levantei a maquia e dirigi-me ao cemitério, ao homem que vende flores, que é o mesmo que vende lápides.
Já antes tínhamos conversado sobre os custos e aspeto da pedra, por isso informei-o de que mantivéramos uma conversa anterior, e passei-lhe para a mão uma folha A5 na qual tinha escrito o que pretendia que ficasse registado. O nome completo da minha mãe, a sua data de nascimento e de morte, e duas frases da minha autoria. O homem leu as frases alto, na minha presença, e senti-me envergonhada. São frases privadas, embora com destino público. Quando as escrevi, pensei nisso, mas não foi fácil ouvi-las ler. Foi como se o homem estivesse a ler um bilhetinho que eu tivesse escrito só para a minha mãe. Leu e disse, “muito bem”.
Calei-me.
Perguntou-me, “não quer acrescentar nada?”
Respondi que não.
“Não quer pôr «À memória de», antes do nome dela?”
“Não.”
“E um «Descansa em paz»?”
“Não! É só o que escrevi nessa folha, está bem?!”


Passei por várias fases relativamente ao meu primeiro impulso de escrita do texto da lápide, pensando exatamente que aquela mensagem privada era também pública. Pensei no que lhe queria dizer, ou seja, nos sentimentos que nos ligavam, no que fomos uma para a outra, e no que pretendia deixar registado como essencial. Tinha de ser uma mensagem muito sucinta. A primeira frase era sobre isso: o amor. Escrevi “o nosso amor não carece de espaço nem de tempo”. Soava-me bem, mas depois pensei que o leitor normal de cemitério pode não abarcar o significado de “carecer”. Mudei o verbo para “precisar”. “O nosso amor não precisa de espaço ou tempo.” Soou-me mal. Ocorreu-me que poderia resolver a situação usando um verbo estativo, uma vez que o amor permanece, embora gerasse uma frase comum, mas paciência.  “O nosso amor está para além do espaço e do tempo.” Não me agradava a locução “para além de”. Preferiria um beyond, mas sem dicionário de sinónimos não me vinha nada à memória, de maneira que ficou o lugar-comum, para ser fiel ao sentido do conteúdo e de fácil compreensão para o leitor comum de lápides de cemitério. É uma frase batida, mas a informação respeita o que sinto e penso, e o que quero que o leitor compreenda.
O homem queria meter uma vírgula a seguir a “está para além do espaço”, mas eu, literalmente, gritei-lhe um não. E aproveitei para, com muita firmeza, fortalecendo o tom da voz, apontar as vírgulas da frase seguinte e enfatizar “não foi por acaso que as sublinhei; são para respeitar tal como estão, certo?!”.
Eu sei o que os homens que trabalham com pedras fazem às vírgulas, e não gosto. Previ tudo.
“Certo, certo”, respondeu ele. Depois olhou para a fotografia da minha mãe e disse, “Eu acho que conhecia esta senhora...” Não lhe respondi. Não encolhi os ombros, nada. Houve um silêncio. Pensei apenas, “há tantas senhoras parecidas”, e o homem não insistiu. E, de facto, a minha mãe era uma “senhora parecida”, o que tem a sua graça, porque era uma mulher muito mais sábia do que eu, muito mais evoluída do ponto de vista do que respeita à existência, mas ninguém dava por ela. Não se notava. Era uma suavidade sem insistência, enquanto eu sou do género “olhem para mim, ouçam-me, agora vou fazer isto e mais aquilo, e berro, se for preciso, e parto, e espanco, e tomem atenção”. Ela não. Não precisava de nada disso. Estava centrada naquilo que tomava como certo e perfeito e nada a desviava do seu caminho. Pouco foi à escola, pouco leu. Garanto que não devorou grandes autores, e se assistiu a grandes filmes foi por acaso, arrastada por mim e pelo meu pai. No entanto, tudo o que eu sei, ao seu lado, é nada. Eu que a injuriei, que lhe chamei burra por não saber onde ficava a Noruega. A burra continuo sendo eu, e tenho muito caminho a percorrer para um dia poder chegar-lhe aos tornozelos.
A segunda frase tinha a ver com esta ideia, para mim hoje muito clara, de que a minha mãe foi uma pessoa muito melhor do que eu sou, e do que eu a julguei. À distância, e na falta, percebe-se. A minha mãe perdoava. A minha mãe sabia pedir perdão. A minha mãe sabia dar a outra face, e dava-a. Sabia esperar. Sabia não ofender, não magoar ninguém. Por muito que procure na minha memória algo para lhe apontar, uma má palavra sobre alguém, não encontro. Havia sentenças, sim, que com o tempo se vieram a revelar certas. Tem cuidado com isto ou aquilo, e eu desdenhava e atirava-lhe um “lá estás tu”. Ela sabia as coisas antes de acontecerem. Como se já tivesse vivido aquela situação ou pessoa. Ela era sábia. Eu, apenas sensitiva. Uma aprendiz sem jeito nenhum.
A segunda frase tinha a ver com a ideia de ela ser um farol, e eu, alguém que teve origem em si, mas não passa de seu discípulo insubordinado. Escrevi-a, igualmente, em benefício do leitor de cemitério, para ser civilizada. A ideia da insubordinação ficou apenas na minha mente. Há coisas que não se podem inscrever numa lápide do cemitério do Feijó. Reparem, não é o cemitério dos Prazeres nem o de Montparnasse. Não temos ali sepultado nenhum Baudelaire nem nenhuma Marguerite Duras. Temos de nos adaptar ao público. Ainda no outro dia li por lá uma citação bíblica extraída de Job, e juro que não ficou clara, para mim, a intenção de quem mandou escrever aquilo. “Ainda cá hás-de vir ver as tuas obras e terás saudades delas”, era mais ou menos isto. Terás saudades das tuas obras? Quais obras? As pessoas? As acões que fez? Expliquem-se, sinceramente, porque não se diz isso a um morto. Ninguém quer morrer, quanto mais ser lembrado, na morte, do que deixou. A não ser os que querem mesmo morrer, mas isso é um outro departamento ao lado da vida e da morte. Deixem os mortos em paz.

Mas o que interessa saber, neste momento, é para onde quero ir agora. 
Para onde vou?! Para onde vou agora?!


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O deus da arte



Eu e Dureza tínhamos tido um caso intermitente nos anos oitenta. Nada de especial. Paixão sem fogo da minha parte. Sexo, isso sim. Da sua parte, sem fogo. Depois tornaramos amigos. Tínhamos vidas bastante separadas e íamos sabendo um do outro, embora não partilhássemos o mesmo ideário, digamos... espiritual.

Quanto a política, continuava a ser possível discutir um ou outro ponto, enquanto ele não se encharcava em cerveja ou qualquer outra fermentação alcoólica, ficando totalmente toldado, irracional, incapaz.

“Temos de ir. Pega na tua mala  e seguimos para o aeroporto.  Estamos em cima da hora. “, disse-me Lia, a organizadora. "Volto já". E saiu.

Eu tinha sido convidada para uma conferência sobre literatura de género e pós-colonial em Atenas. Na mesa encontrava-se João Cláudio, excelente escritor, com obra estudada na escola, portanto sem registo discursivo impróprio para alunos: nada de referências sexuais explícitas, gíria ou calão, sobretudo o último. Boa pessoa, enfim!, mas um antipático pretensioso, que me suportava, e eu por igual.

Enquanto pego na mala, de costas para mim, João Cláudio  arruma os seus papéis, e diz-me sem se virar, “Sabes, o José Manuel Dureza morreu.”  Escutei, não querendo acreditar.

 “Não morreu nada.  Como morreu, se tenho conhecimento de que ainda há meses saiu de Portugal para ir escrever sobre a vida na Patagónia?!”

“Morreu.  Suicidou-se. “

Disse-o sem se virar. João Cláudio não sentia pena de mim nem de José Manuel Dureza.  O que de facto senti que me estava a dizer era, “eliminaste um concorrente. Este não te fará mais sombra, não te preocupes”.  Seria o que pensava, mas estava errado.  Talvez o seu discurso espelhasse a forma como ele próprio encarava o mundo, mas pela minha parte só me ocorria como resposta, caso os subtextos a pedissem, que não andava aqui a eliminar concorrentes.

Para mais, o Dureza não podia fazer-me sombra. Éramos de universos mentais diferentes, portanto procuravamos realidades distintas. Tínhamos andado juntos na escola. Dureza sempre desejou ser um escritor famoso e abdicou da “escravidão ao sistema” em nome desse objetivo. Eu vinha de outro meio,  do lado de quem sabia que para viver há que trabalhar  duramente, que da literatura não se come. Sabia também, algo inconscientemente, que aos vinte e aos trinta é cedo para escrever. Não para se ir escrevendo. Aliás, isso não adiara a minha carreira até este momento, em que a assumira como principal forma de vida, mandando o “sistema” ao diabo, arriscando a sobrevivência, ou, mais grave ainda,  a dignidade. Foi a vida. O temor ao caos. Os nervos. A necessidade de não andar de casa em casa, de insegurança em insegurança. Isso ele sofreu, para se tornar num escritor que rapidamente se apagara por falta de talento, não de tema.

Dureza tinha muitas histórias para contar, histórias divertidas, cruéis, mas fora perdendo o coração ao longo dos anos. Refiro a pureza do seu coração. Alguma vez a tivera? Eu não sabia. Mas Dureza sentava-se ao computador e não saía o jorro, a urgência de criar. Era um texto forçado, sem fluidez, sem alma. Dureza pagava o preço da sua involuntária vileza. Do que o destino tinha escolhido para si ou ele para seu destino. Tudo tem um preço, não nos iludamos.

Eu tinha decidido apagar-me pelos meandros de uma carreira louca de internato médico. Tinha turnos, trabalhava dia e noite. Ia para casa pensar nos meus doentes. O meu trabalho ocupava integralmente o espaço da minha vida. Inclusive a pessoal e privada. Mais do que médica, era um anjo que salvava almas, 24 sobre 24 horas. Houve momentos, ao longo dos anos, em que o anjo médico se esgotara e mandara tudo à merda. Arranjem-se sem mim! Quero lá saber! Que se fodam todos!

Depois descansava uns dias e retomava, até ao dia em que quis provar a si próprio a capacidade para outras valências.

Desconhecia o que José Cláudio poderia saber sobre o meu passado com Dureza, e a que ponto isso lhe interessaria, mas a forma como a notícia saíra da sua boca continha ironia maldosa. “O teu rival morreu, agora podes brilhar”, pensava ele. Que feio! Sim, eu queria brilhar, sem dúvida, mas Dureza não era meu rival. Peguei na mala à pressa, e saí da sala de conferências, procurando uma casa-de-banho para me refugiar, chorando sem controle, porque Dureza se tinha perdido antes de morrer, mas agora perdera-se objetivamente. Não sentia sentimentos de afeto por ele. Chorava pelo nosso passado? Chorava por ele, pelo que se tornara?

Revi tudo o que lembrava sobre José Manuel Dureza.

Ultimamente encetara uma descida ao inferno. Pedira para passar uma semana num matadouro. Via os animais serem descarregados, entrarem no lugar onde esperavam para serem sacrificados. Gostava de os ver morrer. Não sentia nada. Tanto lhe fazia que os matassem com eletrochoque, como à paulada, com o espicho no coração. Havia nele um fascínio pelo momento da morte, em que a bruteza do ser se acalma. Esperava que pendurassem as carcaças na linha de montagem da preparação para o talho. Via-as serem separadas ao meio com uma serra elétrica, via estripá-las, o sangue a jorrar para o chão e pelos braços do operador. Não sentia nada.

Procurava matança privadas do porco. Participava nos rituais.

No campo, pedia às velhas que matassem coelhos à paulada, que cortassem pescoços às galinhas que lhes comprava. Queria ver primeiro, e depois comia e bebia até à satisfação, até estar cheio, até cair. Engordou muito. O seu corpo crescera demais, à medida que a sua alma se ia perdendo. As mulheres conseguiam ver e aconselhavam-no a arrepiar caminho, a arranjar uma mulher, mesmo que não quisesse filhos. A ter um poiso, uma paz sua. Ele ria-se. Masturbava-se. Ou alguém o fazia por si. Ou ele o fazia a alguém,sem se preocupar em ver-lhe a cara, saber-lhe o nome.

Eu não dizia nada. Seguia o seu percurso sem uma palavra, sem compreender como alguém se transforma num carrasco cúmplice de carrasco. Tentava não julgar. Aceitar. Era difícil. Uma descida aos infernos não se procura, encontra-se. Ele procurou-a. Talvez esteja enganada. Talvez a tenha encontrado. Havia tanto sobre a sua vida que eu não sabia, apenas intuía, pelas imagens e trancrições que colocava no blogue, nunca as suas palavras. O seu blogue era uma coleção do trabalho de outros, não mostrava o seu. Na minha opinião, ele tinha medo de o mostrar. Já não acreditava. Mas essa coleção de imagens e textos era a sua autobiografia. Ele estava naquilo, e eu podia vê-lo.

Sim, tinha-se perdido. E eu tinha uma explicação incipiente. Ele entrara por vaidade num território do espírito. Fizera-o para seu ganho, não por absoluta necessidade ou missão, e assim traíra o seu coração e o do mundo. A arte é um cemitério de fantasmas vivos, ativos. A arte é uma oração rezada com desespero, angústia, raiva, esperança, não uma construção para se exibir, como um prédio alto. Há livros escritos que podem nunca chegar a pertencer a uma biblioteca, e contudo são produto do trabalho da arte, e pertencem-lhe. A arte é, nesse sentido, uma prática religiosa, e o deus da arte não se deixa enganar. Ele sabe muito bem se o artista é devoto ou finge sê-lo. Dureza fingiu. Poderia ter sido desenhador, tinha jeito, mas escritor, não. E pagava caro.

Esta era a minha teoria romântica.

Enxuguei as lágrimas. Voltei atrás. Subi as escadas a correr, em direção à sala de conferências.  João Cláudio encontrava-se sentado à espera que Lia nos viesse buscar.

“Mas suicidou-se como?”, perguntei-lhe.

“Deixou-se comer por leões. Viajou até África. Pegou numa mochila, meteu-se no mato e encontraram o seu cadáver devorado há dois dias.”

Fiquei em silêncio, boquiaberta, olhando João Cláudio.

Que forma requintada de se morrer!

“Mas há mais”, disse-me, “sabem que pagou a um feiticeiro que lhe cosesse por dentro da pele do estômago um amuleto do mal. Queria morrer com o amuleto do mal cozido nele, e pretendia que os animais que o devorassem, engravidassem desse mal e nele se transformassem. Acho que os animais foram caçados, o amuleto estava num dos buchos, e as  tribos queimaram a caça. Eram a semente do mal.”

“Eu não sei o que dizer disto, João Cláudio. Essa história está demasiado elaborada. Se a escrevêssemos seria inverosímil”, disse-lhe.

“Não sei, chega uma altura em que o inverosímil  se torna verosímil, não achas?!”

“Sim. Mas essa morte…”

“Sabes, foi a vingança dos animais cuja matança ele testemunhou. Os animais vingaram-se.”

Voltei-me. Lia apareceu. Encaminhou-nos para a carrinha que nos levaria até ao aeroporto. Segui pensando no assunto. Esperava-me uma longa viagem na qual pretendia escrever a história de Dureza. Os animais não se vingavam, mas a justiça do invisível vingava-se em seu nome? Não podemos participar na iniquidade, não podemos tolerá-la, sobretudo não podemos deixar de sentir. Quando deixamos de sentir já estamos mortos, Talvez Dureza soubesse que já tinha morrido.
Lembrei-me do passado. Revi a sua vaidade. Talvez nesse tempo antigo ele já estivesse morto. Eu pensava que a vaidade fosse uma coisa da juventude, uma coisa passageira, mas talvez a morte de Dureza já estivesse decidida nesse momento.

Tinha de pensar melhor no assunto.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Buraco de sal e sol

Choro todos os dias. Choro muito todos os dias, na solidão da casa, e vou chorando ao longo das horas, lugares e pessoas com quem me cruzo.
Choro a cada esquina como uma beata que se benze de pudor. Choro para me lavar, me curar, me salvar das grilhetas que me não aceito. Ouçam, eu não aceito! E choro.
Choro por comiseração minha e alheia.
Choro porque perdi a minha mãe. Já tinha chorado quando do meu pai.
Chorei o meu pai  duas vezes por semana, noventa minutos ao todo, nem mais um minuto. Gastei lenços finos dos de limpar  lágrimas no psicólogo,  e ouvi muitos “sim?!”, “e o que pensa sobre isso?”, “acha mesmo?!”. Achava. Para além disso, pagava para chorar a um euro por minuto. Nos dias de hoje, com 90 euros semanais beberia quase uma centena de meias de leite ou 120 imperiais, é obra!; se fosse no meu café! Nos idos de 2002, renderia muito mais. Pergunto-me se fiz bem em gastar tanto dinheiro para chorar, quando uma pessoa chora tão bem sozinha.
As pessoas como eu não conseguem livrar-se dos papás, e depois choram. Têm o direito, mas é um gastar de tempo. Nada volta y todo cambia, como canta Mercedes.  Os papás são a sua homeland, porque a terra dos papás, que por força herdaram, não a aceitam: é um buraco sujo, lavado por sal e sol. As pessoas como eu emocionam-se por esse buraco fundo, torto e labrego, que odeiam e amam. Queremos os nossos papás, nossa inviolável pátria de carne, beijos, ralhos e respeito.
Choro todos os dias sentada na cama, quando me levanto ou deito. Seguro a cabeça com as mãos, pouso os braços sobre as coxas gordinhas e solto litros de boas lágrimas cultas, que me lavam as mãos os braços e a roupa. Choro no sofá. À mesa da cozinha. Choro quando estou a lavar o chão. São os meus pensamentos. “Para de ser trágica”, diz-me a terapeuta de reiki. Também lhe pago, mas muito menos. E se escavo para lhe pagar! “Para. Pensa em ti. Ri.” Eu paro. Rio. Penso em mim e volto a chorar tudo outra vez. Quando acabo, tenho a cara inchada e os olhos não enganam o feito. Deve ser a meia idade.
Choro porque ao anoitecer encontro um pombo solitário pousado na pequena cascata da fonte de Recoletos. Está velho e doente?!  São as suas últimas horas?! Nada posso fazer para o salvar! O pássaro abre as asas, voa para o alto e fico a vê-lo desaparecer no céu tinto de sangue aguado. Choro porque o pôr-do-sol é uma benção grandiosa e a escuridão da noite jazente expande a frescura dos jardins. Choro porque cheira a terra húmida, e os membros relaxam da exaltação do dia.
Choro porque a cadela velha morreu em sofrimento nos meus braços, quero esquecer, quero esquecer; não estou curada, por isso choro mais. Choro por saudades da cadela nova, da cadela terrível, da cadela teimosa, da cadela que me acompanha todos os dias e não cede, não cede. “Es como eu!”, digo-lhe. “Não fazes o favorzinho, nem um milímetro!”
Os meus amigos estão longe. Choro. Gente passa pela minha vida. Choro porque lhes dirigi palavras que as magoaram, ações que as desgostaram. Sou excêntrica e não sei ser outra. Choro por ser como sou.
Há a minha infância.
“Todos perderam a infância!” E acrescentam, “o passado não interessa, já passou”.
Faço-lhes um manguito.
”Não! Eu perdi mesmo a minha infância. Tu podes voltar à aldeia onde nasceste e ouvir tocar os sinos da tua imaginação. Podes rever os tios e as primas velhas, os tijolos rachados de uma antiga parede onde trocaste beijos incipientes, fumaste o primeiro cigarro ou masturbaste um rapaz às escondidas. Podes fazer tudo isso, enquanto eu posso chorar.”
O passado está em mim, à minha volta como um filme do Imax. Inatingível, contudo. Imaterial.
“Só te falta dizer I had a farm in Africa”, comenta Lúcio enquanto atravessamos de comboio uma zona de ferro-velho onde montanhas de metal esperam pela provável reciclagem.
“Isto é feio, esta parte da cidade”, diz.
“Não, não é”, respondo. “É normal.” E olho com muita atenção.
“Nunca tinhas visto?”
“Sim. Acho que sim. Tenho a vaga ideia de ter visto uns montes assim... em África, talvez... Em Moçambique ou na África do Sul.  Não sei, talvez em Portugal, quando vim... posso confundir lugar e tempo...”
“Só te falta dizer I had a farm in Africa.”
 “ But I didn’t.” Olho-o firmemente.
“Eu sei”.
Não, ele não sabe. Não faz a menor ideia. Por isso olho-o com intensidade, por ter ousado meter-se no que não lhe diz respeito, no que desconhece, nos seus lugarzinhos comuns pós-coloniais,  e repito, “ I didn’t”. E nesse momento apercebo-me de que tenho pena de não ter tido uma machamba em África, uma machamba mesmo a sério, e de não ter vivido em África o resto da minha vida, arriscando tudo. Só nós sabemos o valor do tudo que se arriscava.
O pai da Cecília sonha com África todos os dias. Estamos sentadas na rua Cândido dos Reis e eu digo-lhe, “isto, isto, esta tristeza, vês estas pessoas, esta miséria...” Interrompe-me, “Mas o que tinha aquilo?! Havia droga no ar? Vocês não se adaptam. É sempre a mesma conversa.”
Rio-me. Rio-me mesmo muito. Droga no ar?!
“Sim, havia!” Acho que é a resposta justa. "Havia uma droga chamada Oriente, Índico. Havia acácias, odores, havia muito a sul do Trópico de Capricórnio. Havia dias de chuva e humidade em que nada se via à frente. Cacimba pela noite. O ar aspergido de água mínima. Zínias de muitas cores e cravos de burro, laranja e amarelos. E caju e amendoim. Era droga, sim. Era um energia que fervia do chão e outra que caía do ar. Droga! Havia pretos que eram mesmo pretos. Pretos com medo. Pretos coloniais. Não eram estes que conheces dos bairros, enraivecidos pela discriminação, metidos no gueto, preparados para te tratar como branco que odeia pretos, apenas porque são pretos e se tem medo dos pretos sem motivo, e eles sabem-no, e dizem-to claramente, e com razão. Eu sempre procurei os pretos, aqui, conheço-os de todos os lados. Os outros eram pretos a quem podias apalpar os testículos, e se ficavam. Diziam-te, «ai, patrão, não faz isso, patrão», e riam, envergonhados. Pretos calados, humildes, conformados. Era horrível. Esse tempo era horrível, para eles, bem entendido, mesmo que não o soubessem por não irem à escola, não lerem, aceitarem a ordem natural das coisas como aceitaram a independência e o Samora. Não há que enganar. Foram tempos duros. Os brancos, depois o marxismo-leninismo, os campos de reeducação, não ao lobolo e à poligamia, não ao feiticeiros, não à suruma. Não a tudo. O colonialismo do Samora não foi lá grande liberdade para quem tinha acabado de sair dos brancos. Isso te garanto." Agora não sei.
Cecília olha-me com os olhos muito abertos. “Esta gente passa-se”, pensa.
“Mas eu entendo o teu pai, Cecília. Se esqueceres os pretos descalços e calados, havia droga no ar, sem dúvida. E nós trouxemos essa carência. Não podemos esquecer. Não há forma. Olha à tua volta. Isto não é o Jardin do Éden, mas ouve, escuta isto muito bem: Moçambique era o Jardim do Éden! Lá estava a Árvore da Vida e essa não nos era proibida, só a do Bem e do Mal. Foi essa que nos lixou!"
E ponho os óculos escuros e choro.
Às vezes procuro os óculos e não os encontro. Levo as mãos à cabeça e não estão lá. Tenho demasiados óculos, ao peito, na cabeça, na cara. Quando não encontro os óculos rapidamente, as lágrimas rolam-me rosto abaixo, gordas, e as pessoas notam.  Acho que toda a gente no mundo já me viu chorar. Contemplam esta bizarria e voltam a cara, pensando que tenho um desgosto de amor. Aceita-se muito bem o choro por desgosto de amor. Não se chora porque os pássaros vão morrer ou se perderam terras e papás.
Não são lágrimas, é a minha estigmatização! Não sangro das palma das mãos, são os olhos. Claro que há alturas em que penso que está na hora de parar. Encho-me de coragem. Sou forte. A minha terapeuta de reiki dá-me umas achegas sobre o que o universo espera de mim, ou melhor, sobre o universo que me cabe construir. Uma trabalheira! Mais vale uma pessoa afogar-se em imperiais e esquecer. Desistir é uma tentação tão forte. Viver por baixo de um viaduto, ao lado de pretos enlouquecidos por droga verdadeira, filhos de um império caído que não soube que destino dar-lhes nem dar-me. Irmãos! Mas, certo, faço-lhes a vontade,  vamos lá ser intrépida, enfrentar. Agora paro com isto. Certo. Faz de conta que a minha mãe não morreu. Está tudo igual. Eu, aqui; ela, em sua casa. Vamos encontrar-nos, quando regressar. Vai sorrir. Vou vê-la. “Olá, menina!” E choro.
Certo. Recomeço. Sou intrépida. Está tudo igual. Não lhe telefono agora, porque não é necessário ou porque a hora é imprópria. Está a ver o Preço Certo em Euros, e depois o telejornal e de seguida a novela. Só se aproveitar um intervalo. E ao pensar na sequência de programas, vejo-a mentalmente sentada no sofá do seu quarto, frente à tv, onde agora estão a minha secretária e as estantes com livros, e choro as lágrimas mais grossas que Deus inventou para que olhos se rasgassem de chorá-las.
Certo. Recomeço. Uma coisa é certa: com ou sem mãe, tenho de continuar a trilhar o caminho, diz a minha terapeuta. Digo eu. Tenho de ser normal  como uma pessoa que não pensa na falta dos papás, a sua terra-buraco; para quem a sua ausência não é uma ferida. Ser como aqueles que cresceram à pancada aos irmãos, esse horror de preparação para a vida, e aprenderam estratégias de desenvencilhanço que não lembram a uma pessoa bem formada. E dão e levam porrada com uma facilidade, e sem lágrimas, que assustam. Ou os que nunca conheceram os pais. Os que não viveram a doçura dura desse amor intemporal, incondicional, infinito. A doçura-prisão. Tenho de avançar no meu caminho singular, ao lado de outros, com as minhas feridas abertas ao sol, na esperança de que sequem. Não serei como os outros, isso eu sei, mas procurarei nesgas de céu entre os prédios ou as árvores.
Penso tudo isto. Paro de chorar. Limpo o rosto com a ponta da saia de algodão ou a manga da camisola ou a pele nua. Olho em frente, respiro fundo - os olhos como melões. Respiro fundo de novo, componho-me, apanho a roupagem de gente adulta que não desiste e triunfa. Não sei se é possível, mas, à cautela, faço-o, porque sabemos lá no que cada gesto vai dar? Visto-a como a um disfarce de carnaval, enfiando-a pelas pernas e puxando o zip no peito. Depois encaixo a cabeça de gente normal. A cabeça é a parte mais difícil de usar.

O choro lavou-me? O sal arrebita e desinfeta. Sinto-o na língua enquanto lambo os restos de lágrimas ao canto da boca, e sei que estou muito viva. É a única certeza que tenho.