terça-feira, 30 de abril de 2013

Escritores portugueses que não herdaram da família


São diretores de uma instituição cultural ou diretores de outra coisa qualquer e podem dar as ordens por telefone; têm contratos com editoras que implicam objetivos produtivos e trabalham para isso e bem, em alguns casos; são professores universitários e podem gerir os semestres com alguma maleabilidade; não têm de onde lhes chegue um tusto, nem filhos, mães, pais, cães, gatos, namorados, namoradas, encontros na repartição de finanças, mas encontram um mecenas que lhe vai pagando os antidepressivos e os antipsicóticos, a mercearia e a renda; têm filhos, cães, gatos, encontros com as finanças e ainda não empastaram a fala, portanto conseguem produzir e aguentar-se no sistema como se fossem exatamente iguais ao vizinho do lado, logo a literatura fodeu-se.

Conto sem moral

Havia uma professora que tinha um aluno muito burro no 12º ano. A professora era muito boazinha e não discriminava ninguém por ser burro, pelo contrário, até lhes elogiava os feitos na tentativa de os ver repetidos. Mas o rapaz era mesmo burro, muito burro, e não o sabia. Raramente um burro sabe que é burro. Se sabe é porque há salvação.
Um dia, apanhou o rapaz em conversa com uma colega sobre se havia de seguir um curso de pasteleiro ou de polícia. O rapaz dizia "o meu irmão também é bué de relax como eu e conseguiu entrar para a polícia".
A professora lembrou todos os diálogos com paredes-polícias que tinha tido até então, e percebeu, finalmente, que tudo o que é burro que nem uma porta vai para polícia (ou jogador de futebol, mas isso ela já sabia).
Levantou-se lá do seu lugar de onde conseguia ouvir a conversa e disse ao rapaz muito burro, "olhe, vá para pastelaria, que isso dos bolos há sempre quem compre e não tem de se chatear a comunicar com pessoas que não o entendem".
Era boa professora.

Financiar a cultura

Um dia destes fui com a mana ver um filme britânico muito limpinho e honesto, financiado lá pela Santa Casa da Misericórdia deles com dinheiros provenientes das apostas em jogos. E a questão tornou-se inevitável, porque é que em Portugal o lucro dos jogos só serve para financiar os pobrezinhos? Em Inglaterra há mais pobrezinhos que em Portugal, e diferentes tipos de pobrezinhos. A mana respondeu que o nosso problema é que, para se investir na cultura, é preciso ter cultura. A mana sabe.

Discurso de Paulo Portas ao país

Obrigado, obrigado, obrigado...

Caros concidadãos agricultores, feirantes, homens das obras e, já agora, respetivas senhoras, desque que fiquem em casa, dirijo-me a todos vós nesta época de grande confusão institucional e incerteza relativamente ao futuro, para vos garantir que o meu interesse pelo país não esmoreceu.
Gostaria de deixar bem claro que, embora coligado com o atual governo e desse facto tendo beneficiado, como compreenderão, me tenho mantido reticente e não pactuante com as políticas que magoaram o cerne da vossa qualidade de vida. Tendo estado no Governo sossegado, sem ondas, mantive-me incólume, inatacável, limpinho como uma Nossa Senhora em capela da serra madeirense antes de enxurradas.
Se por um lado consegui fazer parte deste Governo, nunca me afundando com ele, por outro, assisti aos tiros no pé que a oposição se foi autoinflingindo como se nada mais soubesse fazer senão dirigir um clube de sado-masoquistas. Em que medida contribuí para isso, a história o dirá, tal como a outros julgará.
No âmbito das minhas funções, tenho realizado negócios no estrangeiro e em território nacional, em silêncio e no escurinho, muitas vezes "chupando dropes de anis". Não é um trabalho fácil, porque os negócios exigem olho e atenção constante às manobras dos intervenientes.
Esmagados PSD e PS, resta-me agora apelar-vos a que não se deixem levar pelas doces vozes dos comunas. São só os direitos dos trabalhadores e da classe operária até ao momento em que vos levarem os filhos para centros de lavagem cerebral, e nem aos domingos os poderão visitar. O CDS-PP, pelo contrário, oferece-vos a garantia de que terão sempre trabalho a servir os maiores e os mais fortes. Há sempre a roupa e louça velha dos patrões que poderão aproveitar. Os do nosso partido sempre precisaram de serviçais e sempre precisarão. Está agora o caminho aberto para acabar com a confrangedora taxa de desemprego a que a situação nos levou, basta marcarem eleições.
Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, Nossa Senhora do Pópulo vos proteja e ide em paz.

A constituição explicada às criancinhas

Aquele reino tinha vivido quase meio século sob o domínio de um rei autoritário e autista, de maneira que numa certa primavera os guerreiros depuseram-no. O povo ficou parvo a olhar para aquilo, mas pareceu-lhe bem, porque evitava uma série de chatices com as zonas longínquas do reino para cujo fossado os jovens eram enviados. Após um par de anos conturbados no "mando eu ou mandas tu", chamaram os escribas e os mais velhos que, em conjunto, redigiram um documento que doravante passaria a regulamentar o exercício da autoridade do rei. Por exemplo, o rei deixou de poder mandar decapitar o povo, mas, por seu lado, passou a estar igualmente protegido pelo mesmo documento. Aquele escrito instituía um conjunto de princípios a cumprir por todos os grupos para o bom entendimento, equitativo, justo, entre todos . Era a bíblia do reino. Como se constituiu um documento de total referência, passaram a chamar-lhe constituição. Muitos outros reis sucederam a revolta dos guerreiros, mas nenhum se atrevia a questionar a importância da constituição que tudo regulava, embora às vezes lhes apetecesse, porque os reis gostam muito de fazer só o que lhes apetece e de não dar justificação, mas essa tendência tinha já sido prevista pelos sábios que a haviam redigido e aprovado, pelo que havia uma garantia de proteção para todo o reino. O povo sabia que a constituição salvaguardava e que mesmo que alguém tentasse ultrapassar as suas regras, existia um conjunto de sábios que julgariam tais tentativas e não o permitiriam, o que também se encontrava salvaguardado nesse livro chamado constituição, porque quem o tinha escrito tinha mesmo muita experiência sobre os perigos da autoridade não controlada.
Um dia apareceu um rei que queria mandar sem limites e roubar o povo para enriquecimento dos seus amigos, o que resultaria, indiretamente, por portas e portinhas, no seu próprio enriquecimento. Outros reis já haviam roubado às escondidas, mas este queria que roubar se tornasse legal, desde que fosse só ele e os amigos a realizá-lo. E o que pensou o malandro? "Vou fazer uma lei para destruir esse livro. Vou convencer o povo de que a constituição não presta, e só prejudica a credibilidade do reino. Vou convencer o povo de que se não aceitar ser roubado lhe vai acontecer uma grande desgraça.
O povo, claro, ficou com medo de que os vizinhos se pudessem roubar uns aos outros e nada fez quando o rei mau destruiu a constituição e mesmo o grupo de sábios que a vigiava. Aceitou, assim ser roubado pelo rei e viveu um século sob o domínio de um rei autoritário e autista. Quer dizer, aqueles que sobreviveram.

Curativos nos genitais

A constituição dos EUA salvaguarda o direito dos cidadãos a possuírem armas para sua própria defesa, por isso os americanos vão ao Jumbo comprar armas automáticas capazes de matar elefantes com a mesma facilidade com que nós compramos um aspirador. É só escolher a marca e os sacos.

Nos EUA, os defensores do lobby das armas acham que onde há armas morre muito menos gente branca. Por outro lado, nos sítios onde há pretos, latino-americanos e asiáticos acho que se morre como se a época de caça estivesse aberta todo o ano sem limites.

Eu não sei, coitada de mim, mas se tivesse uma arma em casa, quando me irrito e isso, não sei, mas, pronto, era capaz de já ter mandado alguém para o hospital fazer uns curativos nos genitais.

A ridícula



Decidi, hoje, dedicar-me à obra de Joana Vasconcelos, artista-ódio da portuguesada, dentro e fora das redes sociais.
Eu cá gosto da Joana Vasconcelos. Não a adoro, não a venero, mas reconheço-lhe valor e admiro-a. Faz-me pensar e rir, às vezes ao mesmo tempo. Um helicóptero forrado a plumas cor-de-rosa? Um automóvel exteriormente artilhado com espingardas viradas para trás e ocupado por bonecos de peluche? Uma cabeça de touro forrada a renda de sangue? Uma autora que se expõe ao público com indumentárias ridículas? Nada disto vos interpela? Contentam-se com o ridículo, não o questionam? Não vos apetece superar por instantes o comezinho, a dimensão vulgar e objetiva das coisas, para pensar em que medida a obra desta artista se insere numa tendência escatológica contemporânea, que, não sendo novidade, no geral, o é no seu específico? Encara-la-iam diferentemente caso não fosse portuguesa? E se não fosse apoiada pelo Estado e não tivesse cheta? E se se vestisse decentezinha, no desejável estilo meio descuidado dos artistas? E se não fosse gorda e pouco bonita? E se não fosse mulher? O que é que vos aborrece mais? Acham que Joana Vasconcelos é parvinha? Acham que é saloia! Desde que a vi com o vestido de cortinados, respondendo "é portuguesa" à jornalista que, na inauguração da exposição, no Rossio, lhe perguntou "quem é Joana Vasconcelos?", fiquei a pensar. Foi uma resposta que me aborreceu. "É portuguesa", se isto é resposta que se dê! Entretanto fui ao site ver o seu trabalho e parece-me que tem razão, entre o muito que é, que representa e nos quer mostrar, Joana Vasconcelos, nascida em Paris, é portuguesa.

A imagem é uma peça de Joana Vasconcelos, de 2011. Intitula-se Wang.

Site da odiada artista saloia, onde podem ver algumas das suas obras desde 1994:

http://www.joanavasconcelos.com/menu_pt.aspx

Beleza, energia e desejo

Quando tinha vinte anos frescos e considerava os direitos cívicos e laborais inalienáveis, porque a lei os garantia, e nada sabia sobre o porvir, graças a Deus, e saía à noite, os homens não vinham ter comigo para me darem os seus números de telefone, nem me chamavam para beber uma bebida com eles ou mesmo da deles. Era um desperdício de beleza, energia e desejo.
Trinta anos e muita droga depois, piscam-me o olho e parece que ganhei interesse. Querem dormir com a mãe? Acham que não corro o perigo de engravidar e de pretender contrair casamento? Pensam que, chegada a este ponto, estou tão desesperada que até já cedo à pequenez das conversas de engate? Estou com o cabelo mais louro? Mudei eu ou mudaram eles?

Eternidade

"Temos pouco dinheiro, é chato ser português, pela burocracia, as coisas que nos pedem, mais os ladrões dos bancos e essas merdas. Todas essas golpadas são horríveis. Mas as coisas boas são mais eternas e mais verdadeiras aqui."

Miguel Esteves Cardoso

Copy/Paste

"O patriotismo, em Fernando Pessoa, assumia um cariz de sebastianismo messiânico."
- Explique-me essa ideia do sebastianismo messiânico.
Silêncio.
- Não sabe?
- Não.
- Então, mas usou aqui essa expressão, esse conceito e não foi investigar o que significava?
- Não.
- Mas sabe de onde vem a palavra messiânico?
- Não.
- E sebastianismo?
- Também não.
- Está bem, então não lhe pergunto se conhece o significado de cariz.

Última hora do DEO


Vítor Gaspar anunciou hoje que para se atingirem as metas impostas pela troika, os deputados deixarão de ter direito a subsídios e despesas de representação. Acresce que o material de escritório para os membros do governo e da AR passará a ser adquirido pelos próprios, exatamente como as canetas e cadernos dos professores. Os gestores da função pública, bem como os detentores de cargos executivos passarão a auferir salários com um teto máximo de 4 mil euros, quantia mais do que suficiente para se viver neste país, porque os outros vivem todos com muito menos. Os carros do Estado serão todos vendidos para Angola e ministros, secretários de estado e afins passam a "ir trabalhar" em veículo próprio. As grandes fortunas ficam com a obrigatoriedade de se tornarem mecenas de instituições dependentes do Estado, como hospitais, escolas, creches, lares ou associações culturais que não poderão ser geridas por qualquer familiar dos mesmos ou de outra grande fortuna.

Exames teóricos e práticos para candidatos a pais

Se é necessário ter aulas teóricas e práticas e aprovar num exame para se conduzir um carro, não se deveria aplicar o mesmo a quem pretende ter filhos? Como confiar nas capacidades humanas aleatórias e individuais para uma tarefa tão difícil, tão delicada, tão complexa da qual depende totalmente a vida alheia? 
Há muitas pessoas incapazes de conduzir automóveis. Não têm jeito. 
Há muitas pessoas que não deveriam ter filhos. As liberdades individuais têm os seus limites.
Imagino que isto seja uma ideia muito de direita, mas devo esclarecer que não tem a ver com homoparentalidade, mas com parentalidade em geral - se eu quiser adoptar sou sujeita a entrevistas, inquéritos, visitas ao domicilio. Parece-me muito bem. Por que é a adopção tão repleta de cuidados e não a parentalidade biológica?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

É tarde

A Noiva Judia, Rembrandt (detalhe)

Estivemos a dar "O amor é fogo que arde sem se ver" e eles estavam a adorar. Uma grande barulheira de récitas privadas em cada carteira. Gostam logo do soneto, mesmo sem o perceberem cabalmente, porque tem fogo, o soneto, e o amor tem fogo, e é bom, magoa, sabem-no, e querem-no. E foi isso que os levei a perceber. Esse "como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade/ se tão contrário a si é o mesmo amor?" Façam-me a paráfrase deste terceto, pedia-lhes. "Se tão contrário a si é o mesmo amor?", o que quer o sujeito poético dizer? O que significa sermos contrários a nós? E lá chegámos onde queria levá-los. Gostaram. Compreenderam. Sim, sim, já tinham sentido, conheciam perfeitamente. Expliquei-lhes que me lembrava muito bem do amor-fogo da juventude, de quando tinha a idade deles. Dos amores loucos, dos não correspondidos, irracionais. Disse-lhes, "aproveitem-no bem, olhem que não há nada igual e nunca mais volta a ser o mesmo." Perguntaram-me se achava que ainda podia encontrar o amor? Eu?! Estão a perguntar-me se ainda posso achar o amor para mim?! Fitei-os a sorrir enquanto pensava. Eles sabem que respondo sempre sem pejo. Pensei. Demorei mais cinco ou seis segundos do que se pretendia. Então?! Olhavam-me, atentos. Que resposta esperariam? Pela expressão nos seus rostos, um sim, sem dúvida. Baixei a cabeça e respondi a verdade. Não, já é demasiado tarde. Oh!, não diga isso. Ainda é tão nova. Sim, sou, mas já é demasiado tarde. Queria tê-los enganado, e enganar-me. Queria estar errada. Mas imaginei o mundo, revi as pessoas, as suas expetativas, a minha intocável meninice insatisfeita e só me ocorreu "é tarde, meninos, é tarde".
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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Conversas com a terceira idade

Aleksander Kufar

- Tomaste o Lasix de manhã?
Silêncio. Ouve mas não responde, como se lhe tivesse falado numa língua muito estrangeira.
- Hoje de manhã tomaste o diurético?
Continua sem responder, tentando perceber se não compreende pela surdez ou porque eu esteja mesmo a articular uma língua totalmente desconhecida.
- Ó, mãe, tu hoje tomaste o remédio para mijar?
- Tomei, tomei. Logo de manhã. Sempre. Todos os dias. Há anos. Desde que o Dr. Silva Paulino mo receitou pela primeira vez. Nunca falha. Nunca. Sempre de manhã. Aquele pequenino. Tomei. Nunca me esqueço. Oh, há anos e anos! O Dr. Silva Paulino é um grande médico. Ele é que mo receitou. Tomei, pois. O Dr. tinha aquele bigode muito grande. Não gostava nada dele. Depois habituei-me. Ele é que mo receitou já nem sei há quantos anos. É um comprimido de que nunca me esqueço. Tomo sempre. Ai de mim se não tomasse. O que me vale é o Dr. Silva Paulino. Mas que nunca falha! É o segundo comprimido que tomo. O primeiro é aquele do estômago, depois esse, depois a cortisona e o do coração. Logo de manhã. Tomei, pois tomei, e...
- Está bem. Já percebi.
- Agora o pior são os intestinos. Precisava de kivis.

sábado, 6 de abril de 2013

Comentadores políticos e a Dona Adelaide.

Os comentadores políticos, a propósito do chumbo do Tribunal Constitucional ao Orçamento de Estado, fazem-me lembrar a D. Adelaide, professora da escola primária, que tão inolvidáveis memórias me outorgou. Dizia ela, todos os dias, após abrir o meu caderno das contas, e empunhando a comprida régua de boa, pesada madeira, "Isabela, mais vale abrires a mão sem resistência. Quanto mais fugires à régua mais sofres com ela. Se te ofereceres para apanhar sofres muito menos". 
A lógica é a de que se levarmos tareia sem resistência a tareia dói menos?

A Constituição explicada às crianças

Aquele reino tinha vivido quase meio século sob o domínio de um rei autoritário e autista, de maneira que numa certa primavera os guerreiros depuseram-no. 
O povo ficou parvo a olhar para aquilo, mas pareceu-lhe bem, porque evitava uma série de chatices com as zonas longínquas do reino para cujo fossado os jovens eram enviados. 
Após um par de anos conturbados no "mando eu ou mandas tu", chamaram os escribas e os mais velhos que, em conjunto, redigiram um documento que doravante passaria a regulamentar o exercício da autoridade do rei. Por exemplo, o rei deixou de poder mandar decapitar o povo, mas passou a estar igualmente protegido pelo mesmo documento. 
Aquele escrito instituía um conjunto de princípios a cumprir por todos os grupos para o bom entendimento, equitativo, justo, entre todos . Era a bíblia do reino. Como se constituiu um documento de total referência, passaram a chamar-lhe constituição. 
Muitos outros reis sucederam a revolta dos guerreiros, mas nenhum se atreveu a questionar a importância da constituição, que tudo regulava, embora às vezes lhes apetecesse, porque os reis gostam muito de fazer só o que lhes apetece e de não dar justificação, mas essa tendência tinha já sido prevista pelos sábios que a haviam redigido e aprovado, pelo que havia uma garantia de proteção para todo o reino. O povo sabia que a constituição salvaguardava, e que mesmo que alguém tentasse ultrapassar as suas regras, existia um conjunto de sábios que julgariam tais tentativas e não o permitiriam, o que também se encontrava salvaguardado nesse livro, porque quem o tinha escrito tinha mesmo muita experiência sobre os perigos da autoridade não controlada.
Um dia apareceu um rei que queria mandar sem limites e roubar o povo para enriquecimento dos seus amigos, o que resultaria, indiretamente, por portas e portinhas, no seu próprio enriquecimento. Outros reis já haviam roubado às escondidas, mas este queria que roubar se tornasse legal, desde que fosse só ele e os amigos a realizá-lo. E o malandrou pensou "Vou fazer uma lei para destruir esse livro. Vou convencer o povo de que a constituição não presta, só prejudica a credibilidade do reino. Vou convencer o povo de que se não aceitar ser roubado lhe vai acontecer uma grande desgraça." E assim foi. O rei mandou delegados para todas as feiras com o objetivo de convencer o povo de que o escrito salvador era maldito porque ser roubado pelo rei era o melhor que podia acontecer a cada cidadão, para seu próprio bem.. Era preciso extinguir o livro-salvaguarda.
O povo, claro, ficou na dúvida, porque acreditava que os reis tinham poderes superiores ao comum mortal, e nada fez quando o rei mau destruiu a constituição e o grupo de sábios que a vigiava. Aceitou, assim, passar a ser roubado legalmente pelo rei e amigos e viveu um século sob o seu domínio autoritário e autista. Quer dizer, aqueles que sobreviveram.