domingo, 29 de setembro de 2013

As cadelas dormem

Domingo à tarde escuto uma música vinda de algures no prédio. Alguém toca um tema calmo e sem talento num instrumento de sopro. Treina. Está feliz. Eu não tenho sossego. Irrito-me. Estas familiazinhas da classe média! Esta satisfaçãozinha de quem não tem trabalhos de casa! Calem-me este som, por favor!  Tenho de cortar as unhas à Morena. Não, tenho é de sair já.

Como somos educados

Apanhei uma mãe a ensinar o filho a pedir desculpa, explicando-lhe que era o que toda a gente fazia. Até ela, muitas vezes lhe pedia desculpa, quando achava que o tinha magoado. "Peço, não peço?!" O miúdo de cara fechada. A mãe: que temos de pedir desculpa aos outros. Que é o que toda a gente faz. O menino escuta-a com atenção, embora a olhe desagradado. Não lhe apetece nada. Pedir desculpa para quê? Nem sabe o que é desculpa nem quando magoa outros. Que chatice. Quando é que pode ir brincar?
É assim que aprendemos. Não nos lembramos mas é exatamente assim. Alguém nos diz que temos de fazer como os outros. E não está nada mal. Educar uma pessoa é uma construção como outra qualquer. Um artesão pode ser muito criativo, inovador, produzindo cestas de vime completamente diferentes das do colega, mais tradicional, mas fundamental é ter as basezinhas, o latim da arte de preparar e trabalhar a matéria. Aprendido o essencial pode criar o seu estilo.
Parece-me muito bem que os pais comecem a ensinar aos filhos os comportamentos típicos do mundo no qual vivem e onde terão de interagir. Mesmo aqueles que são discutíveis. Há depois uma altura certa para inovar, entrados na adolescência. Naturalmente, vão questionar quase tudo, hedonisticamente. A maior parte das regras são reformuláveis. Depois há um pequeno conjunto delas que não pode ser mexido. O respeito pelo outro, a procura incessante da justiça são provavelmente os que não podem ser tocados.

O velho

Ele sabia que ia morrer. Estava velho e doente, mal se podia mexer. Nos últimos meses o corpo vinha a preparar-se como uma instalação elétrica que se vai avariando fase após fase. Primeiro começou a engasgar-se com a própria saliva. Um dia deixou de ouvir. Depois  perdeu o apetite. Ele sabia que ia morrer e que não seria daí a muitos anos, mas o dia permanecia oculto, por isso havia ainda a esperança do adiamento. Quem sabe se com um aparelho auditivo..., se o filho lhe comprasse umas vitaminas para abrir o apetite..., se mastigasse com cuidado, se lhe dessem a comida toda passada?! Não podia morrer. O filho precisava dele. Era um peso, com esta idade, os trabalhos que dava, mas o filho precisava dele, porque sim, porque ele sabia. Portanto não podia morrer, era pôr para trás das costas e fazer o sacrifício de ter dores, de se queixar como alívio, de pedir ajuda, de sentir a chatice que se tinha tornado para si e para os outros. A morte pousava todos os dias na cabeceira da cama. O velho acordava, via-a, esfregava o olhos e dizia. "Vai-te, mulher desconhecida! Vai-te daqui!" Enxotava-a e a morte voava para outra paragem, prometendo regressar no dia seguinte. Saber que se vai morrer breve pode ser enganoso. Mesmo a morte podia ser um problema neurológico, uma consequência da velhice. Foi o que o filho lhe disse, quando lhe contou as visões. "Sabes, pai, quando o corpo envelhece aparecem-nos coisas estranhas que nunca notámos antes. Não ligues a isso. Já não és novo, é certo, mas não podes desistir, não podes empreender nessas impressões." O filho tinha razão. Podia ter ainda muitos anos de vida, quisesse Deus. E rezava, ao final da tarde, o seu mantra de orações a Deus Pai, à Senhora, e se pudesse ainda iria a Fátima, num dia em que tivesse menos dores, nem que tomasse dois Voltaren para se aguentar. A semana recomeçava. A mesma rotina. Os mesmos gestos. As mesmas queixas. A vida pesava. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Boas pessoas

Acabei de ver um documentário sobre o Manuel António Pina. Diz ele que poetas há muitos, mas, boas pessoas, poucas. Acrescenta que bons poetas que sejam boas pessoas, ainda menos. E completa com uma ideia pouco habitual entre o mundo de gente culta no qual (não) me movo: um bom poeta não substitui uma boa pessoa. É tudo. Nada mais a dizer.


A cadela selvagem

Era uma vez uma cadela selvagem que vivia dentro de casa e queria dormir sobre e manta depositada no sofá. Queria a manta, não o sofá, por isso puxava-a para o chão com a boca, como se fosse uma cadela inteligente, domesticada; uma daquelas cadelas humanizadas que não saberiam viver sem malga de ração. Amarfanhava a manta com as patas, como se escavasse um covil na terra e nas folhas e deitava-se, consolada. Era uma cadela que se portava muito mal e ninguém a queria. Diziam à dona, "livra-te dela. Nem todos os cães podem ser salvos". Mas a dona pensava, "se eu não a guardar, ninguém guardará?!" A cadela selvagem lá foi passando entre as gotas da chuva de regras que os cães têm de cumprir para serem domésticos. O futuro pertencia-lhe.

Os meus valores

Como um heroinómano que não resiste à sua droga, continuo a gastar em livros o que não tenho, sabendo que para os outros valem nada, e que no final, quando eu morrer, alguém os venderá ao desbarato ou jogará ao lixo, não sei qual dos destinos o pior.

sábado, 21 de setembro de 2013

Penas trazem penas

Lavei a varanda dos restos deixados pelos pombos: excrementos, penas, farelo de milho, pó.
Antigamente tinha o hábito de trazer penas para casa, como se arrecadasse com elas o poder de voar. Observava curiosamente os seus filamentos, matéria. São peças perfeitas. Beijava-as, acariciava-as, e guardava-as em gavetas. Antigamente quer dizer sempre. A minha mãe sempre ralhou comigo por via das penas. Dizia ela, "deita isso fora: as penas trazem penas". A minha mãe teve a rara qualidade deconseguir motivo para ralhar comigo até aos 50. 
Eu não deitava fora as penas, até o dia em que, numa fúria de arrumação, ia tudo para o lixo, já sem amor. Onde se guardam as penas?
Limpava a varanda pensando nisto, porque agora penso na minha mãe com frequência. É uma ausência que se nota muito. Ocupava a minha vida; era quase sua dona. A sua necessidade de domínio era a fonte dos nossos conflitos. Por outro lado, algumas vezes teve razão. Algumas vezes os vestidos não me ficavam tão bem e eu estava mesmo mais gorda e despenteada. Mas está feito. Fomos o que tínhamos de ser.
Nunca tive ninhos de pássaros na minha casa. Este foi o primeiro ano. Portanto, retomando o discurso mágico da minha mãe, as penas trouxeram penas. Este ano têm sido repleto de penas das quais não me é dado descanso. Há penas que me surpreendem, outras que procuro, e outras, ainda, que adivinho. Tem sido um ano muito longo.
Enquanto limpo, a Nina brinca com as penas que varro. Sente o cheiro dos pássaros, as penas levantam-se, esvoaçam, e a cadela pensa serem bichos,

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Luto

Jan Saudek

O meu pai e a minha avó são o 856G. A minha mãe é o número 80 da 4ª secção. Por respeito e gentileza, fui deixar flores nestes números. É a minha cultura, a minha fala, a minha herança. Fui no domingo à tarde, que é o dia mais triste da semana, mesmo quando está calor e há sombra e água por todo o lado. 
Ao sair, limpei os pés e lavei as mãos, porque o meu lastro de morte está cheio de vida, e eu sei, e não quero trazer em mim nada que não me pertença agora.

The lonely one

A menina do bar disse na brincadeira que sou " the lonely one", e por isso me posto no balcão a pegar com ela. "She needs attention", responde a uma outra professora que lhe pediu a "fresh cheese roll". Rio-me. Mentira, tenho uma enorme vontade de chorar, mas rio. Acertou em cheio. Como é que ela sabe? Pespego-me à sua frente com a meia de leite que só ela sabe tirar como gosto e digo-lhe, "você hoje está mal disposta". Nada. "Não fala comigo, porquê?" Não olha para mim. "Como é que tem coragem de me ouvir e de nem olhar para mim?" Ignora-me. "Eu sou tão querida consigo e você não gosta de mim. Porque é que não gosta de mim?" Nem se volta. "Que feitio! É má como as cobras; coitado do seu marido", e outras baboseiras, todas as que me ocorrerem até ela me dar atenção. Não a largo. Sou uma chata. Pareço um daqueles homens casados que se põem a cortejar meninas simpáticas com as quais têm confiança, só pelo prazer de as ouvir, arreliar . Adoro que interrompa o que está a fazer e me olhe de baixo para cima com um ar falsamente sério, respondendo "a professora acha que não tenho que fazer?! A professora acha que estou no intervalo?!" "Ah, afinal fala! Está bem que não esteja no intervalo, mas podia dar um sorrisinho por piedade para com alguém que está com uma grande pedra de sono."
Gosto mesmo dela. Há pessoas de quem eu gosto mesmo, mesmo, mesmo, como se fossem minhas irmãs ou qualquer coisa do meu sangue.

As fotos do ano passado

Estive a ver fotos minhas do ano passado por esta altura. Parece-me que envelheci na transição para os 50. Acho que o meu rosto perdeu o brilho de gaiata. As bochechas desceram e isso mudou-me ligeiramente a expressão. Já não sou exatamente a mesma.
Tenho um amigo que diz que há um momento dos 50 em que perdemos a juventude. Contrario-o. Digo-lhe que eu não, nem pensar. Resisto muito. Sou teimosa e não me dou por vencida, mas estive a ver fotos minhas do ano passado e parece-me que atravessei uma fronteira sem visto nem documentos. Clandestina. Mas agora estou do lado de cá.

Agora já sou crescida


Estava a cortar fatias de melão e ouvi chamar. Não era bem a sua voz, mas o ritmo, a elevação, o nome de três sílabas, que talvez fosse Ezequiel, Anabel. Não se percebia. Parei a tarefa e fui à varanda. Alguém chamava um filho ou uma filha. Não posso garanti-lo, mas o meu coração animal escutou-o. "Anda cá, anda à mãe". Havia doçura nessa voz. Havia um amor muito grande, por isso fui, mesmo sabendo que não era ela. Cortei o melão aos pedaços e comi para matar uma fome antiga. Agora tenho de ser crescida. Escuto a sua voz conselheira através dos tempos, "tens de cuidar de ti sozinha". Eu cuido.. Faço sempre o que pedes, mesmo que barafuste. És uma prioridade. Quando precisar de falar contigo, escrevo-te uma carta, como antigamente. Faz de conta que ficaste em África, que nunca regressaste. Estás à distância a orientar a minha vida, faz assim, não digas assado. "O teu pai manda dizer que está contente com as tuas notas. Vê lá se precisas de explicação a matemática." Podes ficar descansada, eu agora vou crescer, vou portar-me bem.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sétimo ano II

"Bem, antes de preencherem a vossa ficha individual, vou também apresentar-me de acordo com a informação que aí vos peço, está bem?!"
Chamo-me assim, tenho x anos, nasci no dia tal, vivo perto da escola de onde vieram, este é o meu email, e já não tenho encarregado de educação"
Olhei para a ficha, para me orientar, e continuei.
"Com quem vivo?! Vivo com três cadelinhas, que se chamam Morena, Lili e Nina. A mais velha é a Lili, que é cega e mãe da Morena. A Morena também já é velhota. A Nina é novinha e andava abandonada na minha rua.
Os meus sonhos?! Deixem-me pensar... ter saúde é o primeiro. Segundo... não sofrer mais cortes..."
"Professora..."
"Sim, diga."
"A professora não completou a informação da ficha sobre as pessoas com quem vive. Não disse a profissão nem as habilitações literárias."

Sétimo ano I

"Hoje, como é o primeiro dia de aulas, vou deixar-vos sair um bocadinho mais cedo, mas a partir de amanhã já é a sério. Os meninos podem aproveitar este intervalo maior para ir conhecer a biblioteca da escola, passear os olhos pelas prateleiras de livros, inscreverem-se como leitores, requisitar materiais, ler revistas, o que quiserem. A biblioteca é o sítio ideal para passarem os tempos livres, e convém não esquecer que, este ano, e enquanto forem meus alunos, terão de ler muitos livros. Vão-se habituando."
Saem da sala.
Arrumo e saio também. 
Passo pelos matraquilhos a caminho da sala de professores. À volta da bancada estão todos os rapazes da turma, jogando já. Uma chusma de ávidos leitores.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Preto bom

Pedi a um homem preto que mora aqui perto, e anda ao ferro, que levasse as coisas velhas e avariadas lá de casa: um frigorífico, duas televisões. O resto cabe-me separar. O homem foi e levou tudo. Trouxe o frigorífico para a rua e desmantelou-o, peça por peça. De um lado o plástico, do outro o ferro, do outro a esferovite, os parafusos. Gostei de ver o objeto reaproveitado. Não gosto de deitar nada fora.
Imaginei que o homem fosse de Moçambique. Tinha um ar de preto à antiga. Preto bom. Tenho sempre esta ideia de que os pretos bons são de lá. Não sei se este homem em concreto é um ser bondoso. Para dizer a verdade, no dia seguinte passou por mim e não me cumprimentou, o que desmanchou um bocado esta construção. Nunca tendo sido colonialista, hei-de ter sempre o meu lado colonial. Aquele que associa o preto à vítima, ao que carece de ajuda. Não faço isso por mal. O mundo era assim quando cá apareci. De uma forma ou de outra, ainda é.

Em falta

Pedem-me que procure saber o que me falta. Faço uma pausa. Penso. Acho que nada. Não me ocorre nada de importância. Gostaria de conseguir dormir natural e rapidamente. De não ter dores na anca esquerda. Que a Nina deixasse de ser medrosa e agressiva. Queria muito ser organizada, arrumada, não acumular louça para lavar nem roupa para passar a ferro. Penso agora melhor. Falta-me natureza. Gosto de terra, de raízes, de árvores, flores, céu, do silêncio barulhento da água nas cascatas. É isso que me falta.

Sangue

Falta escrever sobre as nódoas de menstruação nos lençóis, uma tinta que não sai dos panos, que quase os come. O sangue da menstruação deixa rasto.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Perguntas

Estás aqui? Onde estás tu, agora? Consegues ver-me, ouvir-me? És agora capaz de penetrar o meu peito e conhecer totalmente o que sou? O que vês, o que sabes? Já me compreendes? Envergonho-te?