quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A minha América I - Deus abencoe o mundo

Acordo às seis e trinta e dois, hora local, saída de um poço fundo, ainda tonta, totalmente desperta. Não me sinto recuperada, mas percebo ser impossível voltar a adormecer, porque acordei com uma frase. E sei.
Doem-me as órbitas dos olhos e todo o crânio sob a testa. Pressiono. Dói mais. Os olhos pesam-me e estou a ver pior.
Sento-me na cama e observo as pernas do meu corpo novo estendidas ao longo dos lençóis muito brancos. As unhas pintadas dos dedinhos dos pés. Que visão encantadora! Sorrio e digo-me, Isabela, a tua modéstia sempre correu as ruas da amargura!
E a voz do meu pai, tens pernas bonitas, rapariga. E agora eu, com dez anos, mirando-as, ensaiando com elas poses de pin up, fechada no quarto cor-de-rosa.
O chefe-eletricista, que não se vai embora, porque teima em assistir até ao fim a um espetáculo para o qual pagou bilhete inteiro, sorri. Sorri sempre, e de vez em quando atira uma gargalhada, pousando-me o braço sobre os ombros. Chego a assustar-me, olho para cima: é ele.
Ontem, veio comigo no avião, sentado entre mim e o senhor emigrante, explicando-me, estás a ver, rapariga, isto é como te dizia, é só quereres, desde que trabalhes. O trabalho não mata ninguém, pelo contrário. Olha que eu labutei a vida inteira, mas eu não pude, como tu. Eram outros tempos.
Comecei a fazer psicanálise porque o eletricista nunca se ia embora, e pensei, se calhar estou-me a passar. Não, é ele que não quer ir. Escutou tudo o que tinha a dizer-lhe e continua a rir-se, és fresca, saíste toda ao lençol de cima! E faz-me rir, também.
A minha mãe diz-me, ele não pode ir; o teu pai tem muitos pecados. Não quer, não pode, o que me interessa isso?! Queres andar por aqui, anda homem, goza o que ficou por gozar, diverte-te, diverte-me, defende-te, mas, por favor, pára de me escorraçar os namorados a pontapé. Tenho quase 50 anos. Chega. Isso chega, desculpa, get a life algures. Se te queres entreteter, aproveita e afasta-me os monos do caminho. Isso, agradeço, compungida.
Factos: o adaptador universal funciona e o computador recarrega a bateria enquanto manuscrevo.
Bolachas, uma banana, sumo, água. Tenho o necessário para sobreviver a um dia de jornada. Ao final do dia se verá.
Comprei um frasco de cola para fixar, no caderno de viagem, papelinhos bonitos. Na loja pedi cola para papel em tamanho pequeno. Passaram-me para a mão uma embalagem do tamanho de um frasco de shampô de 400 ml. Era a mais pequena. E lembrei as palavras do Sr. Simões no aeroporto, no último momento, a menina vai sentir, primeiro, que é tudo igual, mas em grande; segundo, que nasceu para ser americana; terceiro, que é exatamente como nos filmes.
O seu pragmatismo português excita a minha ternura. Não, não é só a percentagem que me cobra: o homem gosta de mim, o homem vê-me. Por outras palavras, aquilo é tudo à larga, Isabela, como a menina gosta, para sair de si em rajadas de luz incontida e branca; e aquilo é realidade e ficção indistinta, como aprecia, como nos filmes, a fantasia perfeita que a autoriza a viver mil vidas sem perder a que lhe foi oferecida. O Simões sabe-a.
Primeira imagem americana:a inscrição God bless America pintada a carateres gigantes e vermelhos no muro de um armazém de ferro-velho, à saída de Newark; um parque automóvel predominantemente japonês, elegante, prático, de altíssima qualidade. Zero carros de cidade. Pareceu-me ver gasolina a mais de 3 dólares. Terei visto bem?; a dimensão dos edifícios, não apenas em altura, mas em riqueza arquitetónica; a cor ferrugenta, ocre das fachadas com gente verdadeira a existir lá dentro. A vida leve e pujante das ruas, dos jardins, das esplanadas e esquinas, da fruta vendida pela rua.
Esquecer Paris. Nunca teremos Paris. Esquecer Londres. Isto é a cidade. Este é o novo mundo.
Não esquecer Lisboa, a vila triste e dorida, sempre envelhecida, mesmo vestida de novo, simbolizando a ideia de uma terra em potência, de seivas que não explodem, que não cumprem ao que vieram. Lisboa, a portuguesa, planando na essência adormecida, ignorando os dias, o sopro, o ânimo. Não a esquecer como não se esquece a mãe, Deus, a terra onde se nasceu e aquela onde nos parimos, sozinhos e com dor, qualquer coisa vinda de um lugar perdido.

sábado, 27 de agosto de 2011

Uma loucura muito ajuizada

Os meus alunos dizem, em certos contextos, que posso ser louca à vontade, que não se importam, até desenjoa. Mas eu imagino-os a murmurar uns aos outros, quando passo nos corredores, "aquela é a stora que é muita maluca", mais ou menos o que dizíamos do Alberto Pimenta, da Cecília Barreira, do Abel Barros Batista e do Rui Zink, quando foram nossos professores na faculdade. Mas nós dizíamo-lo com admiração. Eram todos malucos e todos geniais, queríamos escutá-los, queríamos ser igualmente malucos geniais.

A questão que talvez nos escapasse, na altura, e que escapa, de certeza, aos meus alunos, é que para se ser louco e comparecer às aulas no turno da manhã, é preciso ter muito juizinho. Ser apenas louco ou ter apenas juízo não exige disciplina nem rigor nem competência.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Isto também

Afiei muito a faca, afiei, afiei, e quando finalmente a empunhei para cortar carne, cortei-me.

Isto é um poema

Uma das patas da Micas inchou durante três dias. Isto foi a semana passada. Parecia a pata de um urso. Comprei-lhe o antibiótico que a doutora veterinária mandou e a pata rebentou em pus. Começou a sair por uma fenda, só um fiozinho, como se a pele não suportasse esticar mais um milímetro, e depois deu em borbotar como se fosse vinho a espichar de uma bexiga de porco.

O pus começa branco e acaba um sangue leitoso. Espremi-lhe a pata e saiu um copo daquilo. Os animais são muito animais.

Com os dias, a fenda alargou e transformou-se num buraco de dois centímetros.

Primeiro, aplicava-lhe no buraco uma mistura de Bacitracina com Halibut, feita na palma da minha mão, mas ela lambia as pomadas e vomitava. Agora, não a curo com nada, e ela lambe-se de hora a hora e não vomita.

A ferida deita um cheiro doce a carne crua, aberta, viva, e alcançam-se, à vista desarmada, umas minúcias que são tendões e ligamentos. Cheira a flor tropical mergulhada em saliva.

Se calhar as pessoas de estômago sensível não deveriam ler este texto, mas é melhor avisarem-me antes.

domingo, 21 de agosto de 2011

Os milagres da minha mãe

Hora do almoço.
No carro, a caminho da Costa da Caparica.

Está um tempo abafado. Parece África, não é, mãe?!
Parece. Acho que o Algarve até está cheio de tubarões.
Sempre houve tubarões no Algarve. Eu vi-os muitas vezes, em Sagres, no cais, sendo tirados das traineiras.
Mas estes agora são dos grandes. Dois metros. Andam por lá a ver o que caçam, e cheirando-lhes a carne de gente não se vão embora. Lá em Moçambique era sempre que podiam. Atacavam e comiam braços e pernas, e às vezes...
Oh, mãe, não havia tubarões em Lourenço Marques!
Não que não havia. Perguntasses ao teu pai. Na Macaneta era vê-los!
Só se fosse na Macaneta. Já nem me lembro bem onde é que isso era. Ia-se de batelão?
Sei lá.
Já não te lembras de nada.
Lembro. Lembro. Olha, lá em baixo, no bazar, fartava-me de comprar tubarão para fazer filetes. Parecia cação, com aquela pele lisa, gordurosa. Era baratíssimo. Só as pretas é que o compravam para fazer com tomate, mas uma vez vi umas senhoras de volta daquelas bancas, e elas lá me explicaram que o punham de molho em sumo de limão e hortelã, para lhe tirar o gosto, que aquilo tinha um certo gosto... Segui os conselhos, e era bem bom. O teu pai comeu muito tubarão, pensando que era pescada. Ganhava mal, no início, e dava-me pouco dinheiro para governar a casa, mas eu sabia fazer os meus milagres.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Curso de escrita criativa




Uma rara honestidade e autenticidade marcam o discurso de David Vann, autor de A Ilha de Sukkwan, em entrevista a José Mário Silva, no suplemento Atual, do último Expresso.

Não estava completamente convencida a ler o recomendadíssimo livro, mas eis como uma breve entrevista de duas páginas faz a diferença O que me decidiu? A forma como o autor, sem tiques de estrela, assume uma escrita partindo dos fantasmas pessoais, nomeadamente a relação de amor-ódio com o pai, perigosamente raspando a memória objetiva, a capacidade para falar sobre o medo, a dor e a culpa como fatores que despoletaram um processo de criação narrativo, e a desmistificação do ato de escrita.

A certa altura da entrevista, Vann revela que, aos 19 anos, não "sabia muito bem o que era isso de escrever um conto". Recordo que, aos 21, não me sentia capaz de escrever história com mais de 20 páginas, abusando do tamanho das margens e espaço entre linhas; hoje, verdadeiramente, continuo não percebendo como é afinal essa coisa de se escrever com as tripas nos braços. Não faço a menor ideia. Vou usufruindo da extrema liberdade que a arte concede, experimentando, arriscando, lendo os outros com atenção e tentando compreender como resolvem os nós narrativos, mas, sobretudo, deixando-me levar pelo faro, pela intuição, por sentimentos em estado muito puro. Sentindo-me verde, com tudo por aprender, noto, porém, a tendência, como David Vann, para não gostar de trabalhar a escrita. Corrijo gralhas, vírgulas, completo uma ou outra ideia, corto palavreado, clarifico expressões ou ideias equívocas, mas agrada-me que o texto fique o mais em bruto possível. Existindo regras que até conheço, a arte que me interessa conceber vive na contradição entre cumpri-las e passar-lhes ao lado, num mesmo gesto. A escrita criativa não existe - apenas uma infindável lista de livros de leitura obrigatória. Cá para mim, não se fazem escritores. Pode é dar-se o caso de haver muito bons leitores, cujo percurso de vida deu certa ajudinha, o que não desejo a ninguém.




Chegar à verdade

"Não devemos escrever com o objecto da escrita em frente dos olhos. Eu dependo da falibilidade da memória. É importante que ela não seja exata, que ela altere as coisas. O que é interessante na ficção é o modo como distorcemos a realidade objectiva. É quando nos afastamos dessa realidade objectiva que conseguimos chegar à verdade. E esse é um poder espantoso.



David Vann, em entrevista a José Mário Silva, Expresso, Atual, 13/08/2011

O estômago cortado

Christina Onassis


O senhor Simões disse-me, pelo Skipe, a menina está cada vez mais parecida com a Natália Correia.
Acha?!, respondi, sorrindo com a cara toda.
Sim, a papada nota-se cada vez mais, e as bochechas começam a descair.
Fechei o sorriso, e despedi-me. No dia seguinte telefonei-lhe e informei-o que na quinta seguinte lhe agradecia que me acompanhasse ao médico. Que médico? Cirurugião. Para quê? Ele sabia. Ah, Isabela, isso era a sua salvação.
O cirurgião era um homem alto, bonito, sorridente, com os cabelos grisalhos. Primeiro mirou a proeminente barriga do senhor Simões, e perguntou-me, é a senhora ou o seu marido? Esclareci que o Simões encontrava-se ali na qualidade de amigo e acompanhante, pelo que o ignorou e concentrou-se em mim. Ora vamos lá.
Senhor doutor, eu própria faria o serviço ao espelho, tivesse as drogas e instrumentos necessários, mas não é o caso, sendo que algo pode correr mal, e eu quero viver. Isto que fique claro, eu quero viver, e por isso estou aqui.
Vamos encarar a realidade a frio: olhe para mim, doutor. Olhou em silêncio, sem resposta. Continuei. Mal me posso baixar para dar de comer ao cão, apanhar um clip, subir as escadas no serviço, correr cinco metros para apanhar o metro. Acha-me bonita, doutor? Pois eu, não. Vejo-me no espelho do elevador, o único que não posso evitar, e não me conheço. Aquela mulher inchada não sou eu. É uma criatura triste, sem pertença alguma. Apieda-se de si e odeia-se, sem conseguir libertar-se desse ciclo cinzento. Gostaria de lhe explicar que tenho os meus defeitos, mas sou jovial. Madura, mas ainda adolescente. Dentro da desconhecida cujo rosto vislumbro no espelho do elevador, e que o doutor tem agora à sua frente, dentro dessa massa quase impenetrável, estou eu. Ela tem de me parir, senhor doutor, e eu preciso da sua colaboração.
O senhor Simões acrescentou, precisamos muito, muito da sua ajuda, doutor.
Todos me mandam fechar a boca. “Quer emagrecer, é fácil, feche a boca.” Não consigo. Tenho uma enorme fome de pão. Preciso de encher o bandulho para sossegar, dormir, trabalhar. Imagine o doutor que tem de dormir, porque as suas consultas começam à nove, mas não consegue fazê-lo sem devorar dois ou três pãezinhos, sem os saborear, sentindo-os nas língua, no céu da boca. Precisa de os deglutir, sentindo-os atravessar a garganta e chegar ao estômago, pesando. Imagine a textura, o cheiro dos pãezinhos do dia, as partes mais moles, mais secas, a forma como o parte, e o ponto por onde abre. Um pão é alimento e arte. O pão sem nada dentro. Só aquilo, a farinha, o fermento, a água, o cozimento. Sem o pão o meu poço fica vazio, doutor, e isso dói-me, porque o ar frio enche o espaço vazio, gela-o. Como não consigo eliminar o pão, pensei que o doutor poderia ajudar-me a alterar o poço. Retiremo-lhes o fundo. Sem fundo, isto penso eu, não há peso, apenas processamento e transição. Não há que encher.
É que ela é escritora, doutor…, esclareceu o senhor Simões. O médico lançou-lhe um olhar de “nem que varresse a rua”.
Sabe quem vejo no espelho do elevador? Quem é essa triste mulher? Christina Onassis, nas suas fotos mais tristes. A mulher que desacreditou de tudo, que não conheceu o amor, tendo tudo. Lembra-se dela? Ele confirmou, sorrindo. Voltamos sempre às nossas referências. Em garota segui as desventuras de Christina Onassis, a herdeira mais infeliz do mundo. Tinha um ar de menina sorridente e uns olhos tristes, medrosos. De tudo o que recordo sobre Christina Onassis, retenho, sobretudo, um artigo numa revista da época, sobre uma técnica que usava para emagrecer: mandara prender as maxilas com ferros para não poder mastigar, e, finalmente, fechar a boca e emagrecer, como lhe diriam. Alimentava-se com uma palhinha entre os dentes. Nunca consegui esquecer isto. Na minha mente vejo-a com os ferros na boca, gemendo de carência. Os alertas do destino estariam já acionados?! Eu fui uma criança magricelas até aos oito ou nove. Por que haveria de ter guardado na memória os ferros na boca da Onassis e não a história dos seus múltiplos casamentos?! Bem, o sistema metálico, não sei se se recorda, não resultou. Tiraram-lhe o cinto de castidade alimentar e acabou por se matar, atirando-se de braços abertos em direção ao fundo do seu poço repleto de anfetaminas, álcool e barbitúricos. Mas eu não, doutor. Já me aguentei até aqui, atravessando as condições mais adversas, e há em mim um impulso de vida que transcende a própria vontade. Eu gostava de morrer já, se pudesse ser, mas o meu impulso de vida deseja-me velha. Gosto do mundo, dos aromas bravios da erva pisada…
O senhor Simões, voltando-se para mim, embora se dirigisse para o médico, interrompe: a menina devia falar abertamente ao senhor doutor dos comprimidos para dormir. Chega de mentiras. Diga a verdade. Quantos toma. Diga.
Ignorámo-lo. O que pretendo?! Tive esta ideia: o doutor cortava-me parte do estômago com os seus métodos, porque, já percebi, se não tiver estômago não posso comer pão, certo? Até trago um desenho. Não, não, vi na internet. Desculpe, não pretendo interferir, mas tenho pensado muito nisto, e pretendia apenas expor-lhe a minha ideia, mas tudo se inspira na investigação disponível on line… Certo, senhor doutor, mas deixe-me explicar, por favor… O senhor corta-me esta curva toda e transforma-me o estômago numa continuação do esófago. Pois, e cosia bem, isso é que lhe peço, uma boa cosedura, de maneira que não abra, não verta. É que assim abrevia-me o poço, doutor, o pãozinho sai-me do esófago, passa brevemente pelo estomâgo em tubo, entra no intestino, e adeus. Sem pão, poderei transformar-me em condor, e, num impulso, batendo as asas uma só vez, subir e, voar como qualquer outro pássaro. Peço desculpa por me ter alongado com a explicação. E a taxa de mortalidade deste tipo de cirurgia, doutor?
É que ela é escritora e não pode continuar assim, achou por bem rematar o senhor Simões.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O pão, o néctar, o fruto de Deus

Um dia escreverei uma história alegre como um folheto dos Testemunhas de Jeová. Decorrerá num dia vulgar de sol ameno, junto a um lago atravessado por peixes vermelhos de cauda recortada, longa, bailando sob a água translúcida, sobrevoado por aves azuis e douradas, e rodeado de gente de todas as raças e idades, sorrindo deitada pela relva, conversando, a par com animais domésticos e selvagens, muitos, sem quaisquer instintos agressivos, festejando-se mutuamente, brincando entre si e com as crianças. As flores surgirão aos cachos em qualquer árvore, arbusto e muro, e o odor das rosas e do jasmim impregnará a atmosfera.
Um dia escreverei esta história, mas não agora. O meu corpo está inchado de narrativas tristes, buscando a clareza da leitura, para que eu sonhe alcançar o fundo, muito fundo, do arquivo onde repousam as histórias felizes, de um sem tempo cálido, quando a inocência, a bondade e a justiça reinavam sobre o meu mundo, sem poréns. Moram num sítio onde hei-de chegar. Um dia resgatarei impressões antiquíssimas, anotadas a lápis, com caligrafia imprecisa, e esse será o dia do maravilhamento. Mas agora, é cedo.
A primeira vez que provei um marmelo cuspi a sua carne. Foi quando parti das Caldas em direção à terra da minha mãe.
A minha avó paterna inventara ou comprara histórias que manchavam a minha honra adolescente, e ufanamente as transmitiu ao meu pai. Na sua versão, eu portava-me mal. Fumava muito. Andava com rapazes na escola. Dava-me com uma vizinha dez mais velha, e mal falada, porque tinha feito coisas com um namorado que depois a largara, e não podia ser boa influência.
À minha avó paterna não lhe interessavam escolas nem letras. Era fundamental eu arranjar trabalho: aprender para costureira ou cabeleireira, empregar-me numa loja, render dinheiro em lugar de dar despesa. Arranjar namorado, manter-me virgem até ao casamento, obedecer ao meu marido, ter um casalinho e seguir a vida normal das pessoas normais.
O meu pai não aceitou histórias. Que eu estava na Metrópole pelos estudos, e que ninguém me tirava da escola. Foi uma decisão justa, sobretudo por não existir uma vírgula de verdade no que a minha avó lhe contara. Eu era uma menina exemplar.
As intenções da minha avó concederam-me guia de marcha para outro paradeiro: a família da minha mãe. Quando saí das Caldas para ir viver para Alcobaça, cheguei no tempo dos marmelos. Era final de Agosto, princípio de Setembro, e eu tinha treze anos, quase catorze, e muita, muita fome.
A minha prima penteava-me os cabelos e exclamava, são louros verdadeiros, e tão longos e finos… e por momentos sentia-me quase uma princesa, embora não passasse de uma adolescente gorda, com acne a desfeiar-me, eu bem sabia. Uma coisa sem jeito que agradava a velhos sebosos, que se babavam por meninas nutridas. Eu não passava de um trambolho,de um móvel sem lugar nem valor. A minha prima, pelo contrário, era a rapariga mais bela da aldeia; tinha 18 anos, casa, pais, amigos, a pele branca e macia, as faces rosadas, os cabelos castanhos clarinhos, sempre impecavelmente penteados, cortados pelos ombros, enrolados para dentro, e eu sonhava ser tão bonita como ela. Queria ser outra, menos alta e forte para a minha idade, sem as mamas crescendo, crescendo, e a anca, o rabo, as coxas que alargavam O meu corpo não tinha travão, e, para mais, nascia-me uma fome inexplicável, o que não ajudava.
Foi o primeiro Verão em que vi pêssegos nas árvores, e figos brancos e negros, uvas gordas nas videiras e marmelos nos arbustos, por todo o lado, separando propriedades. Os marmelos não tinham valor algum. Amarelos, orgânicos, olorosos, não podiam comer-se crus sem deixar a boca grossa. Caíam e apodreciam sem que os aproveitassem. Eram tão vulgares que perdiam o seu valor.

Eu e a minha prima, pelo final da tarde, íamos colhê-los pelas veredas, trazendo-os dentro de baldes de metal, para fazermos marmelada, com água e açúcar, noite dentro, enquanto ouvíamos músicas românticas nos discos pedidos, sentadas na mesa da cozinha, coberta com toalha de oleado, conversando sobre experiências de raparigas. Rapazes, vizinhas, quem gostava de quem, bailes, pinturas...
Descascávamos os marmelos e partíamo-los com dificuldade, ficando com as mãos negras. O fruto, descascado, oxidava se não fosse metido na panela e sujeito a fervura. Portanto, cozíamo-lo, rapidamente, e durante muito tempo, até se tornar numa papa mole, mudar para cor-de-tijolo e depois engrossar, abrindo bolhas lentas que espirravam contra as nossas mãos e pulsos e nos queimavam a pele bem fundo. A marmelada tinha um sabor outonal a fruta seca, muito pura. Extremamente doce, como se usava, sendo fresca e fria barrávamo-la no pão como manteiga granulosa, mas após repousar semanas, cortava-se às fatias, como o queijo, e comia-se devarinho, com ou sem pão, saboreando-se com os olhos fechados. Comia-se sem parar. Era bom demais. A minha tia dizia-me, pára de comer, rapariga, que assim só engordas. E eu parava, para logo recomeçar, às escondidas. A marmelada matava-me a fome e consolava-me. Podia nadar em marmelada. Dormir num colchão de marmelada. Enfiar-me num poço de marmelada, e dormir nele, até chegar um príncipe que me desenterrasse, me beijasse, me acordasse da fome insaciável.
Os marmelos eram como eu: tesouros por abrir. Estavam para ali, os pobres nascidos, ninguém os olhava, colhia, carregava. Davam trabalho a confecionar. Contudo, se escutassem a sua voz doce, se os abrissem ao meio, perceberiam ter no regaço o pão, o néctar, o fruto de Deus.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Das castas entre os retornados

Nas Caldas da Rainha, em 1976, existia uma livraria, quase no final da Rua das Montras, percorrendo-a no sentido do mercado de frutas e legumes. A loja situava-se do lado esquerdo, e entre os livros expostos exibia um que me obrigava a parar, a contemplar a sua capa, a imaginar o seu conteúdo. Intitulava-se Moçambique, Terra Queimada, da autoria de Jorge Jardim. A edição que recordo apresentava na capa uma paisagem pintada a negro e laranja, devastada por um incêndio. Nunca comprei o livro, caríssimo para as minhas posses, e jamais o li.

Recordei o episódio recentemente, ao ler este texto de Rui Bebiano. A memória do livro, na montra das Caldas, leva-me a questionar o momento em que julgo ter tido a consciência de que traí o meu pai ideologicamente, avançando-o para altura menos tardia do que a registo no Caderno.

Por que parava eu na montra contemplando a capa do livro? Porque nele havia informação sobre a minha terra e aquilo em que ela se havia transformado. Porque a expressão “terra queimada” havia sido ouvida por mim muitas vezes antes de partir do Maputo - chegou a haver, entre colonos, a ação ou intenção nunca realizada de queimar a propriedade antes de partir. No dia da partida, destruía-se o que ficava, porque tinha perdido qualquer valor e não haveria de ficar para os negros dela se aproveitarem. Moçambique, terra queimada, tornava-se, assim, a perfeita metáfora, a mais expressiva, do que a minha terra se havia tornado. Terra queimada por eles para nós, queimada por nós para eles, e queimada porque eles, sem nós, porque não se ergueriam das cinzas durante anos seguidos de anos, como numa maldição bíblica. Da minha terra restava o carvão de um violento incêndio. Contemplava a capa com a dor e solidão dos exilados, dos que sabem ter perdido irremediavelmente as suas raízes.

Partia, então, lentamente, em direção à casa da minha avó paterna, onde haveria de jantar uma omoleta com salsa, entalada no pão, ou sopa de feijão com couves ou café de cafeteira com pão e manteiga, e estudar, e deitar-me a dormir numa cama com colchão de palha de milho, no barraco mais humilde de uma rua ao cais. E a minha avó diria, com orgulho, somos pobres, mas nunca aqui entrou uma gota de chuva.

Aos 13 anos eu tinha aprendido o valor da sobrevivência, portanto, para mim, estava tudo muito bem. A minha avó alimentava-me, proporcionava-me um abrigo, logo tinha mais sorte do que muitos. Ia todos os dias à escola e era a melhor da turma. Não tinha os meus pais nem o seu carinho e atenção, mas isso eram necessidades secundárias. Com o tempo retornariam e tudo voltaria à normalidade. Era preciso esperar, esperava-se.

Nas longas cartas que escrevia aos meus pais, uma ou duas vezes por semana, devo ter referido a existência de Moçambique, Terra Queimada, na Rua das Montras. Ponho as mãos no fogo em como o fiz. Se me recordo de ter escrito essas palavras? Não. Mas fi-lo, com toda a certeza. Fi-lo por ser ainda fiel ao meu pai e à sua mensagem. Conta a verdade, lá na Metrópole. Conta o que passamos por cá. A verdade era uma história muito longa, mas o que o meu pai pretendia que eu contasse, era o caos em que se transformara a descolonização, a vida ameaçada a cada segundo, o não saber se se chegaria a casa, quando se saía. Existia um risco real, constante, muito presente na minha memória.

Recordo o sábado em que não houve escola sabatina, porque o pastor Berg, bem como os restantes pastores brasileiros da igreja adventista, que frequentava com autorização dos meus pais, foram levados e presos, porque a religião era o ópio do povo. Se havia algo que contar como certo, nesses tempos, era o incerto. Havia uma estratégia a seguir: sobreviver o tempo suficiente para nos safarmos àquele inferno. Havia uma forma de sobreviver: procurar aliados contra o novo sistema ou subornar os subornáveis. Usámos todos os meios ao nosso alcance. O meu bilhete de avião para a metrópole foi adquirido por grande favor, através de alguém que conhecia alguém, e pago a bom preço.

Portanto, quando em 1976 parava na montra da livraria das Caldas, contemplando a capa de Moçambique, Terra Queimada, procurava um ícone perante o qual rezar, sem oração, o que havia perdido. Ao recordar este episódio fui levada a tomar consciência do facto de a minha memória ter trabalhado a ideia de traição ao meu pai. Percebi cedo que ele agia incorrectamente com os seus empregados, o que terá gerado em mim uma revolta não expressa, mas a consciência da traição terá de ser remetida para uma fase posterior, na qual começo a identificar-me ideologicamente com ideias políticas opostas àquelas com que havia contactado enquanto filha do colono. Portanto, a memória adapta-se, trabalha-se, reescreve-se.

Da mesma forma, acredito, hoje, que a personagm do meu pai surge demasiado romantizada no Caderno. Foi a memória que quis guardar dele, a que me interessou trabalhar literariamente. A ambivalência - porque posso compreendê-la e integrá-la na minha estrutura de referências teóricas e empíricas.

Recentemente, aconteceu a minha mãe revelar-me, em contexto inesperado, ações do meu pai que me chocaram profundamente, por colidirem com o discurso romântico que sobre ele criei. Aquilo saiu-lhe sem querer. Nunca lho tinha ouvido. Ela nunca o admitira. Mas a minha mãe é a mais fidedigna das fontes, pela sua contenção, discrição, por ter estado permanente do lado do meu pai, acalmando-o, embora, e por ser ela própria uma ex-colona munida do discurso aceitável sobre as colónias. Escutei-a tantas vezes, que posso desfiar, de cor, todas as expressões e frases com que descreve, perante visitas, a nossa vida em Lourenço Marques. Não é uma descrição, mas uma ladainha contendo o que aceita inserir no discurso aceitável.

Encaro hoje a memória como uma massa muscular que é possível trabalhar num sentido ou noutro. Que músculos do braço pretendemos desenvolver? E como? Existem uma série de diferentes exercícios que podem ser executados para valorizar este ou aquele. Agimos dessa forma com a memória, quase sempre inconscientemente, porque precisamos de nos adaptar aos discursos de época, para que nela possamos caber. Ninguém está disposto a correr o risco da marginalização, porque estamos ligados a outros por laços diversos: afetos, profissionais, etc.

Tal como os músculos, a memória pode igualmente atrofiar e perder capacidades, por falta de uso. Acredito que a maior parte das pessoas que fixa uma história pessoal inalterável, a qual repete ao longo dos anos com a mesmíssima semântica, acredita piamente no que relata. Mas todas as construções da memória são valiosas e merecem ser ouvidas. Não há uma memória melhor do que outra. Há é memórias que podem provar-se, e outras que não.

Entre os retornados, no que respeita à memória, há de tudo. Há os que possuem um discurso privado e outro público, e acabaram por se tornar grandes produtores de nacionalistas exacerbados; os que recordam, mas não contam, porque mexer no passado é abrir feridas, e não convém, e morrerão com elas cobertas por uma eterna crosta; e os que, como a minha mãe, foram criando a sua história pessoal, que defendem com unhas e dentes, porque delas depende a sua identidade, a sua forma de estar no mundo.

Há poucos retornados dispostos a enfrentar o touro, embora desde a publicação do Caderno tenha vindo a descobrir que são mais numerosos do que estimei.

Também não acredito em retornados bons e retornados maus. Há é melhores e piores portugueses, mais ou menos empenhados, mais ou menos generosos e acessíveis. Exatamente como os belgas, dinamarqueses e australianos. Alguns deles foram para África e voltaram. Onde encaixo eu o meu pai nesse contingente? No dos portugueses pobres que aprenderam a sobreviver à porrada, que a aprenderam como legítima, guardando, apesar de tudo, um santuário de valores católicos que nem sempre souberam converter em atos. Por outro lado, conheço retornados que em Moçambique eram vistos como demasiado permissivos com os negros, e que hoje não só se tornaram profundamente racistas, como o ensinaram aos filhos. Conheço retornados que viveram nas colónias sem nunca se terem apercebido das dimensões do colonialismo, ou que o aceitavam como a ordem natural das coisas; os ricos brancos e os pobres negros, sendo que os ricos fazem caridade e os pobres aceitam-na.

Hoje aconteceu receber um email de uma bloguista, alegando que o meu "juízo toldado" não me permite compreender certos factos sobre o colonialismo, e que mesmo em África houve quem lutasse contra o racismo. Não duvido. A mesma bloguista manifestou a intenção de me explicar, tentando remediar os meus preconceitos contra retornados, que é possível um branco ter filhos negros através da adoção ou de uma miscigenação que poderá ter existido no seu passado genético ou no da parceira. Respondi-lhe que não pensasse vir ensinar o padre nosso ao vigário. Desde 1963, já vou na minha terceira existência. Isto tem o seu lado cansativo, portanto concedam-me alguma latitude. Já vi e ouvi de tudo. Portugal é um bairro pequeno, mas em África tudo foi possível. Não atribuam tanta importância à minha memória. É apenas uma entre outras. Porém, não se lancem a tecer considerações sobre o meu "juízo toldado", porque só bebo ao sábado após o pôr-do-sol e se for noite de lua cheia.

Admito que subestimem a minha memória, que a questionem, que me questionem, mas não pensem em mim como um ser humano do sexo feminino, que escreve um blogue e publica uns textos. Sobretudo não pensem em mim como igual. Não há aqui igualdades para ninguém, sendo que pertenço a uma casta só minha. Vejam-me com um velho carro de combate feito de carne, bastante sarrafado, como um ciborgue que se autoregenera frente ao espelho. Vejam-me como qualquer coisa que enfia as mãos nas entranhas, raspa o tumor com a faca da cozinha, se cose a frio e continua caminho. E dobrem muito a espinha para a devida vénia, porque atrizes destas já não se usam. Não sei se me faço entender, mas o que interessa isso?!

domingo, 7 de agosto de 2011

A generala

A mamã - Menina, estás a ficar muito magra.
Menina (com 48,5 anos) - Muito magra?! Mãe, eu peso quase 80 quilos.
A m. - Deixá-lo. Estás muito bem. Se emagreces mais ficas feia.
M. - Bem, mas ao menos mais cinco quilinhos, a ver se me desaparecem estas enxúndias na barriga e o pneu aqui atrás...
A m. - O pneu atrás não se nota, que eu no outro dia estive a apreciar-te nua. Não tens estrutura para emagrecer mais. Agora deixa-te ficar assim, que a família do teu pai é toda larga de ossos.
M. - E se eu fizer ginástica só para abater a barriga?
A m. - Não concordo.
M. - Okay, tu é que sabes.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poderíamos viver sem os pobrezinhos?

Sou a favor dos pobres em qualquer sociedade. São sujinhos, falam mal e olham-nos com cara de carneiro mal morto, mas se não os tivéssemos o que faríamos aos restos, aos excedentes de consumo? É muito melhor entregar aos pobrezinhos os medicamentos quase fora de prazo do que incinerá-los. É melhor dar-lhes as sobras das cozinhas, que eles lá trazem os seus taparuerezinhos engordurados, nos sacos de plástico do Minipreço, e vão-se embora todos contentes. O mesmo com as roupinhas em bom estado que passaram de moda e nos enchem os armários, e até o lixo. Os pobres aproveitam qualquer coisa que se deite fora, e logo lhe arranjam utilidade. São capazes de pegar numa cadeira velha e restaurá-la. São desenrascados, cheios de ideias de reciclagem. Se tivessem emprego até podia ser que fizessem qualquer coisa. Se tivessem aprendido a falar, a escrever, a fazer contas poderiam ter alcançado outra vida, coitados. Mas não tiveram cabeça. Chego a pensar que o dinheiro gasto na produção e aquisição de desperdício poderia, talvez, formar estes indigentes para algum serviço, e dar-lhes dignidade, futuro. Nesse caso haveria menos desperdício e menos pobres, mas correríamos o perigo de se alterar a ordem social a um ponto em que as instituições de caridade seriam levadas à extinção ou a uma redução drástica, por falta de utilidade. Custa-me a conceber um mundo diferente, sem os pobrezinhos dos bairros sociais, e outros, que passam por nós, esguedelhados, pardos, dizendo "eu vejo ela quando vou buscar a sopa". Um mundo diferente, um novo mundo? Quem arriscaria mudar tanto? É mais seguro manter os pobres conformados. Que se lamentem, mas estão vivos e com as necessidades básicas asseguradas. Analgésicos a seis meses do prazo final de validade servem muito bem para lhes tirar as dores nos maxilares, enquanto os dentes não apodrecem e caem. Depois não nos venham é exigir dentaduras. A menos que alguma instituição de caridade as forneça com subsídios provenientes do consumo e do desperdício. Mas isso é função do voluntariado privado, da obra social da Igreja, não cabe ao Estado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Venham ver o meu filho

A criança chorava no quarto ao lado.

Sentia-me presa, angustiada. Não conseguia levantar-me da cama, tomada pela doença de existir, contudo, era necessário acudir ao menino. Não dormia há dias, não tinha força nem vontade de viver, mas o bebé chorava. Levantei-me aos tropeções, dei-lhe colo, mama, biberão, desejando morrer, mas sabendo que me estava proibido desistir. Por ele estava presa à vida, e era a pior das prisões. Ele era a prisão. Não havia solução para este dilema. Tinha tido este filho, sozinha, e havia que cuidar dele, sozinha. Fora a minha escolha - a via mais difícil e consciente, embora não pudesse supor, mesmo aventando as piores dificuldades, uma angústia tão grande: uma vida dependendo totalmente da minha ação e abraço. Que sabia eu sobre a criança que chorava? Era meu filho, indiscutivelmente, tinha saído de dentro de mim, amara-o ainda na barriga, desejara-o, imaginara-o numa fase em que o incómodo máximo era uma contração hoje, outra amanhã, porém, agora não o conhecia, não o sentia totalmente meu. Era um outro ser. Um estranho que me gritava sem piedade. Tornara-me escrava dum pequeno bicho humano cheiínho de necessidades por satisfazer. Um empecilho que me atrapalhava a cura. A responsabilidade dilacerava-me. Depressão pós-parto?!, perguntava-me, tentando contemplar uma saída. Nesse caso a angústia teria um fim. Precisava de acreditar num futuro diferente: não sentiria então, nesse dia, as garras da angústia, rasgando-me como uma ave de rapina presa no interior do meu corpo, buscando ar e luz.
Talvez me habituasse a ele com o tempo. Talvez viesse a chorar menos, a criança. Talvez me deixasse dormir e curar as feridas do parto, da solidão, da teimosia em concebê-lo, para agora sofrer tanto. Talvez viesse mesmo a amá-lo. Quanto tempo estaria eu condenada ao castigo de ser mãe do bicho chorão, egoísta, que me matava? Quanto tempo até poder sentir-me livre de novo?

A angústia trepava, paralisando-me. Eu era a ferida sem chaga, a dor sem pancada, hematoma ou sangue vivo. E a angústia era nada haver para além. O fim.

Mas o orgulho, o poder da obrigação levantaram-me. Havia de me aguentar. Choraria, praguejaria, sentir-me-ia a mais miserável, mas erguer-me-ia do chão para satisfazer a criatura cor-de-rosa que era minha e ninguém me tirava. Era só minha, para a graça e a desgraça. E exibi-la-ia com os olhos enxutos, assim que fosse capaz, com o meu mais rasgado sorriso postiço. Vejam, venham todos, amigos, vizinhos, familiares, ex-amantes, vejam bem, o meu filho! O meu bem amado, tão perfeitinho. Sou normal, hein! E agora?! Não esperavam por esta, pois não?! Uma mulher como as outras. Gorda, mas emprenhável. Parideira com as tetas bem cheias de leite. Não, não custa nada a criar. Muito sossegadinho. Dorme as noites que é uma deleite. Um doce de bebé. Eis no berço, gritando, contorcendo-se, o bilhete para a minha legitimação. Tinha procriado e a minha existência justificara-se. Um bilhete caro, admito, porque a angústia é um ferro em brasa enterrado na carne - mas tudo tem o seu preço. O minúsculo ser humano continha o poder de me abrir finalmente as portas da normalização social, sexual, portanto valia um preço a pagar. Valeria, depois, se agora me aguentasse. Neste momento desejava apenas abrir os olhos, caminhar até ao quarto onde a criatura berrava, dar-lhe o leite, mudar-lhe a fralda e calá-la. Precisava de calmantes para aguentar a pressão, o nada. Drogas fortes para esquecer o inferno da maternidade. Mas que raio de ideia! Aguentar-me. Isso, aguentar-me. Interessava calar a criança enquanto a ave de rapina me rasgava os pulmões e eu não via luz nem futuro. Só dor, noites e dias de dor sucedendo-se sem esperança, enquanto a criança engordava à minha custa e me retribuía em mijo e merda. Levanta-te, vá. Caminha, morta. Querias, aqui o tens. Vai mostrá-lo ao teu querido. Vai dizer-lhe, mandaste-me ter filhos, marido, uma vida normal, olha, aqui tens, que lindo, não achas?! Tem o queixo semelhante ao da tua menina. Quase parece teu filho. Mas não é. Tive de foder com outro, aliás, fodi com muitos homens cujo nome nem sequer perguntei, porque o Destino escreveu que os meus filhos não te pertenceriam, nem eu a ti, nem tu a mim, mas seja como for, meu amor, já viste como sou normal e capaz?! Um filho é um milagre. Como te compreendo, agora! Prende-nos tanto! Dá tanto sentido a uma vida! Eu seria lá capaz de adormecer ou acordar sem o sentir primeiro nos meus braços. O que poderá haver de melhor do que existir em função deles e dos seus interesses?! Do amor, claro. Porque falamos de amor. Trabalhar dia após dia, suportando as humilhações, os transportes, porque sabemos que têm de comer, vestir-se, ir à escola, ao judo, ao piano. Viver à força, porque não temos outra saída, certo? Eles precisam de nós, e como somos gente com moral, boa educação, há que abdicar da vida para oferecer vida. Estranho paradoxo, contudo interessante, não te parece?
Acordei de súbito, apavorada. Tentava engravidar pela segunda vez. Eu e o Nunes encontrávamo-nos todos os meses durante os dias mais perigosos do período fértil. Não nos amávamos. Éramos amigos e tínhamos um acordo: seríamos pai e mãe do mesmo filho. Ele manteria distância, eu criaria a criança e não lhe negaria a paternidade. Era um acordo que contava cumprir. Admirava Nunes pela coragem em aceder ao meu pedido. Agradava-me que quisesse ter um filho comigo, que afirmasse tão honestamente que um filho meu seria a criança mais bonita do mundo, porque eu tinha bons genes. A sua generosidade e interesse contribuíam para a minha elevação. Afinal, não era assim tão má para consumo. Afinal, havia homens que imaginavam filhos comigo, e filhos lindos, louros, com os olhos clarinhos. E eu mantinha inúmeros restos de beleza, portanto o Meu Amor havia de levar com este filho bem nos cornos. Toma lá. Ei-lo. É verdade, meu amor eterno: fodi à grande e à francesa, e não foi contigo. E gostei - mentira, mas não interessava. E aqui tens, lindo, o produto da foda e sua prova, mas também da minha sensualidade, do meu interesse para os outros homens. Quando uns não querem, amor, estão outros morrendo.
Acordei de súbito, com os olhos muito abertos, respirando ofegante. Queria esquecer este pesadelo, mas não conseguia largá-lo. Seria uma mensagem? Quem ou o quê se daria ao trabalho de me enviar mensagens sobre as angústias da maternidade? E desta forma? Um pesadelo demasiado real, apesar de tudo. Tinha vivido a angústia. Sentia-a no peito, ainda. A ave de rapina tinha afundado as garras. Queria esquecer-me e lembrar. Ter um filho seria a decisão mais correta? Ter um filho porquê, para quê? Estaria ciente de que o pesadelo poderia tornar-se real? Suportaria tanta dor? Mas, meu Deus, não a suportavam as outras mulheres? Seria eu, porventura, diferente? Ocorreu-me que os sonhos não passavam de construções da mente baseadas nos pensamentos que ocupavam o nosso quotidiano. Significavam sempre o seu contrário. Bons auspícios, portanto. Melhor seria esquecê-lo e continuar em frente. Pensar para quê? Não havia nada em que pensar. Esta criança encontrava-se em andamento, demasiado planeada. Eu havia revolvido céu e terra para encontrar um pai ou um dador, tanto me fazia. O pai não tinha importância, mas o produto final. Pelo que o projeto seguiu o seu curso e à quarta tentativa engravidei do Nunes.
Comprei o teste de gravidez na farmácia, à primeira falta. Fi-lo na casa-de-banho, depois de regressar do trabalho, e sorri, sozinha. Sorri largamente, sempre sozinha, e guardei o segredo só para mim durante uns dias, cantando e rindo na minha mente, fantasiando o futuro, sozinha. O Meu Amor iria ao jardim com a sua linda menina. Marcaríamos encontro. Eu dir-lhe-ia, quero apresentar-te o meu filho. E levar-lhe-ia o meu troféu. E sorria, sozinha. Sorria.