terça-feira, 26 de julho de 2011

Body art

Café Colina: dia farto em acontecimentos.
Morena aos meus pés, como sempre, Micas em casa, cheia de dores no esqueleto, dona das meninas bebericando o pingado, concentrada no Público, primeiras páginas, recrudescimento dos movimentos de extrema-direita pelo mundo inteiro, todos bem camuflados, mas no nosso meio, como venho dizendo há muito, e sinto uma mão nas costas, tocando-me no ombro e descendo para a cintura, mas parando antes.

Volto-me. Olá! Grande sorriso. É o negão de São Tomé. Olá, respondo-lhe. Grande sorriso. Então, tudo bem? Tudo. E a sua mãe?, não a tenho visto. Está a trabalhar. Fica de férias em Agosto? Não, eu já tive o mês passado. A sua mãe, pergunto eu. Ah, a minha mãe, metade em Agosto, metade em Setembro. Sorriso de um lado. Sorriso do outro. Foi bom vê-la. Igualmente. Sorriso. Sorriso. E o negão vai para onde tem de ir, deixando-me a pensar, nunca me tinha tocado, o rapaz!, grandes progressos! Será que ainda tem a namorada escanzelada? 

Alentejo

A Margem Sul continua, graças a Deus, cheia de alentejanos de 1ª, 2ª e 3ª geração. Gente que veio lá de baixo à procura de vida mais certa com o salário da fábrica, e que se foi instalando de Almada a Paio Pires, Barreiro, Montijo, Alcochete, conforme a localização da indústria onde arranjava trabalho. No meu bairro há imensos, e juntam-se todos no café Colina falando da sua terra natal, sobre como aquilo é o céu na terra, e mais o gaspacho e a azeitona. Hoje, enquanto lia no Público que os movimentos de extrema-direita crescem solitários pela internet, grande novidade!, apanhei este expressivo fragamento de conversa entre duas alentejanas de 1ª e 2ª geração:
1ª geração - Lá em baixo no Alentejo é que é bom.
2ª geração - Sabe o que é que há de bom no Alentejo agora, D. Deolinda?! As sombras! As sombras dos chaparros.

Essa cachorra vira-latas

O meu pai quis emigrar para o Brasil, mas não conseguiu. Moçambique foi uma segunda escolha.
Do Brasil, nos anos 40, vinham os brasileiros, todos ricos, de fato branco, e ao meu pai devia agradar a ideia. Barrigudo, de anéis nos dedos.
Se o meu pai tivesse emigrado para o Brasil toda a nossa vida teria sido diferente. Primeiro, ele não poderia agir por lá como colonialista; segundo, é provável que nunca daí tivéssemos saído; terceiro, eu não teria de esperar pela próxima vida para ser brasileira, e poderia sentir-me todos os dias na minha verdadeira pele.
Eu gosto de brasileiros. Gosto da forma como encaram a vida, cantam, dançam, comem, bebem e riem. Gosto da sua expressividade. "Acaba não, mundão", dizem, chegando à praia, abrindo os braços ao sol. A senhora da loja de vernizes, na Costa da Caparica, diz-me "você pode usar esse prateado aí, e um dia especiau, pr'a brilhar mesmo, você mete este outro por cima e ninguém a segura" - e em vez de um verniz, vende-me dois, porque ela acertou, eu quero brilhar, eu quero que ninguém me segure.
Será assim tão impossível compreender o fascínio que o mundo inteiro sente pelo Brasil e a enorme vontade de aprender português para saber pedir uma cachaça, uma água de coco, e dizer pr'o mulato, você é lindo?

Compreendo lindamente, e gostaria que os portugueses fossem muito mais brasileiros, muito mais leves, sorridentes. Que levantassem o rabo das cadeiras e não vivessem no medo do que pensam os outros.
Passeando hoje com a Morena, apanhei-me a dizer-lhe, sai daí vira-latas. O que fazia ela? Virava lata. Ou seja, investigava as imediações dos contentores do lixo com um interesse extraordinário. E apercebi-me de que a expressão que os brasileiros usam para designar o cão rafeiro é a mais bonita, a mais expressiva. Nunca me ocorre que a Morena seja rafeira, mas cachorra vira-latas, sim, todos os dias, durante os passeios. É vira-latas mesmo.
O português falado no Brasil tem uma série de outras palavras compostas absolutamente deliciosas, criadas pelo uso, pela observação, pelo povo. Uma língua constrói-se e evolui dessa forma. É uma tristeza sentir que os portugueses têm a presunção de pensar que só o Português europeu é Português a sério.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Em Angola era o paraíso

Ao contrário do que se possa pensar, raramente recebo hate mail relacionado com o Caderno de Memórias Coloniais. Pelo contrário, recebo cartas lindíssimas. Contudo, o hate mail tem o seu interesse, porque chega-me muito carregado de paixão, de vontade de me mudar, e eu compreendo esses sentimentos extremados, no limite. O que me dizem?! Sim, queremos que fales de África, mas de outra África. Fala da minha África. Queres que eu te ensine?

Quero. Estou muito disponível para aprender tudo o que possa, e à pancada ainda melhor, para não fugir à tradição paterna. E não só, a verdade é que eu só aprendo à pancada, desde que me lembro.

Deixo-vos com um hate mail ainda quentinho, via iPad, embora não saiba bem o que é um iPad nem como é que um branco consegue ter filhos pretos. Mas aprenderei, de certeza.

Pois e, como nao viveste em Angola nao devias ter generalizado nos teus escritos... Em Angola nao havia o racismo que dizes ter conhecido em Moçambique... Visita Angola ainda hoje e vais ver a diferença ... e o modo como os que tem mais de 45 anos falam dos brancos portugueses... e muitos deles Angolanos. Eu sou Angolano branco, tenho filhos brancos, mulatos ...e pretos. Nao sabes como e possível ter filhos, irmãos e pais pretos ? Eu ensino-te...se e que queres aprender.
Sent from my iPad

sábado, 23 de julho de 2011

Um corpo rombo

Tem medo de morrer. Treme-lhe o coração, bate com força, pum-pum-pum, os rins funcionam demais ou de menos, a coluna vertebral colapsou, respira mal, tem dores quotidianas em locais diferentes, por vezes em todos ao mesmo tempo, mas analgésicos não, nem penses, porque o coração está fraco, e tem medo de morrer. Poderia morrer, talvez fosse um descanso, mas só se se entregasse, se aceitasse que viveu - contudo existe a terra cheia de sol, e a filha leva-a a passear de carro ao domingo, apanha no ar o cheirinho dos pinheiros, do mar, pergunta, então já tens tomates na varanda? Olha que o tomate quer muito sol e água. Ao teu avô nasciam-lhe tomateiros por todo o lado, na quinta, e nós apanhávamo-los e comíamo-los como se fossem fruta. Havia uma qualidade deles pequeninos, meio selvagens...

Já é muito velha, e o corpo rombo vai cedendo, mas tem medo de morrer. Pensa nisso, mas não quer pensar, fica em pânico. Reza muito para que Nossa Senhora lhe conceda longo tempo acrescentado, e ignora as dores, ignora, ignora, e vamos. Tem medo de morrer porque a filha ficaria sozinha. É a única que teve. Não lhe deu irmãos nem sobrinhos e a filha não teve homem nem filhos. Não se arrumou, como as outras, portanto não se atreve a deixar a filha nessa solidão. Era o destino, diz-lhe. Tu tinhas o teu destino. Nunca nos deste desgostos, diz-lhe. E a filha sorri. Nunca deu, é verdade. Nunca abriu a boca para exprimir um sentimento pessoal, porque nas famílias não existem sentimentos pessoais, sempre indesejados, mal vindos, reflexos de um esforço educativo falhado. Uma pessoa bem educada não tem desejos, ansiedades, contradições, angústias. Não se interroga, não se debate. Uma pessoa bem educada controla-se e aceita. A filha sempre se controlou e nunca lhe deu desgostos. É bem verdade. Por isso ela não morre. Porque a filha não merece ficar só. Não pode. Não seria justo. É a sua única filha, a sua responsabilidade até ao fim, portanto, desculpem, embora o corpo lho peça, não morre.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ela é que sabe

A Morena tem andado a pedir-me para reativar o blogue que tivemos há uns anos, porque quer escrever enquanto estou fora de casa, sente ter mensagens a transmitir ao mundo, de forma que resolvi fazer-lhe a vontade. Deixo aqui a ligação para o seu texto de hoje.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Vou dar-lhe nome

Acabei de ler esta frase da Clarice Lispector no Facebook, a rede social demoníaca:
"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."
E sinto o impulso de ir buscar e reler tudo o que tenho e emprestei e dei da Clarice ao longo dos anos.

sábado, 16 de julho de 2011

As cartas e as pétalas com purpurina

Para mim não foi em vão, mas o que tinha de ser.
Escrevia-lhe todas as semanas, por vezes a dobrar, para um endereço em Sines que me soava bastante social: rua L, Núcleo 351D. Seria a casa dos pais? Talvez fosse filho de pescadores. Nunca lhe perguntara nada de privado ao longo das nossas conversas. Contara-me da sua vida apenas o que veio a talho de foice. Fixei que tinha uma paixão no Cazaquistão, uma mulher muito meiga e bela, com lindos olhos castanhos, mas desvalorizei, porque o Cazaquistão, concretamente, onde é que ficava?, que mulher era essa, onde o esperava, mas, sobretudo, porque o Virgílio era homem e eu nunca acreditei neles, embora os procurasse.
O Virgílio partiu, a certa altura, para mais uma das suas explorações geológicas pela China e arredores, e não se saberia quando regressaria. Quando o projeto terminasse, ou o dinheiro. Embora escrevesse ótimos artigos científicos para o jornal, não era propriamente querido pelas mulheres da redação. Sempre vestido de preto, t-shirt, velhas calças de ganga, sapatos de corda, brinquinho na orelha; para as meninas do escritório havia ali mistério; não lhes parecia suficientemente lavado, o cabelo ligeiramente luzidio, sacola de pano, jamais um fatinho. Eu recebia-lhe os artigos, sorrindo; ele sorria. Falávamos sobre jornalismo e ciência. Era um homem discreto, que pretendia passar sem ser visto, ligeiramente feminino porque se libertara dos estereótipos que acorrentam os homens dos países mediterrânicos. Era só aquilo, e o que ele era, era tudo o que eu queria. Jovem, culto, atento, remediado, sem tiques, sem convencimentos. E deu-me para pensar que poderia ser feliz com ele.
Íamos almoçar a um sítio barato, perto da redação. Sempre que sabia que ele vinha, vestia-me o pior possível. Tirava os brilhos, as cores, as pinturas e acessórios. Ele devia de gostar de mulheres menos vaidosas, das que andam de ténis e se enchem de terra. E pelas horas do meio-dia, ele falava-me dos lugares por onde tinha passado, pretendia passar, projetos a curto e médio prazo, enquanto eu fingia ser apenas uma rapariga todo-o-terreno, ligeiramente punk, e ia escutando e tentando perceber como inserir-me naquele lato projeto de vida. Quereria largar tudo e andar atrás dele como assistente? Eventualmente. Não enjeitaria. Se ele gostasse de mim tudo poderia mudar. O Cazaquistão, por amor de Deus! Já para não falar da Geologia, com a quantidade de pedra que existe em Portugal. Tudo estava por decidir, eu tinha movido apenas a primeira peça do tabuleiro, mostrar-me disponível, cabia-lhe a ele a seguinte, que deslocaria quando lhe aprouvesse, sendo que eu não deixaria de auxiliar o destino como sempre fizera. Um empurrãozinho nunca se negava. Mas a partida para breve: a China. Era preciso enfrentá-la em espaço e tempo. Sim, o projeto era grandioso, a partida entusiasmava-o, naturalmente, e a mim cabia-me conseguir uma forma de não perder o contacto: escreve para aqui, respondeu-me, e manuscreveu o endereço de Sines num rabisco de toalha de papel do restaurante, com uma esferográfica preta, a maiúsculas mal desenhadas que me pareceram a mais bela das caligrafias. Estava ali um artista. Acrescentou, quando vier a Portugal, é aqui que paro, é o contacto mais seguro. Não sei quando voltarei, mas quando voltar.
Parecerá tudo isto demasiado incerto ao comum mortal. Para mim era uma incerteza certa. Ele voltaria. Não me interessava se demoraria seis meses ou seis anos. E quando voltasse, na rua L, Núcleo 351D encontraria tantas cartas quantas as semanas que estivera fora. Seria uma surpresa, uma revelação. Perceberia num ápice que ninguém toma a decisão de escrever semanalmente, sem esperança de saber quando e como será lida, sem que exista interesse pelo destinatário. Nesse instante, saberia tudo, e eu não teria precisado de pronunciar uma única palavra. Ela gosta de mim. Mesmo que não tivesse percebido antes, nesse momento incerto no tempo, que aconteceria, sem dúvida, porque um português retorna ao torrão natal muitas vezes, ele saberia. Convinha esperar. Eu faria o meu trabalho, o resto ficava nas mãos do destino. Não era impossível que ele se comovesse, que lhe viessem as lágrimas aos olhos, que pensasse, mas esta mulher gosta de mim e eu não reparei, e ela era doce, essa mulher. Eu acreditava que quem olhasse para mim podia perceber que eu era doce. E que essa doçura tão grande e tão transparente venceria o mundo. Quando confrontado com a minha alma, a verdadeira, que escondia porque a escondemos sempre, por vergonha de sermos demasiado bons, demasiado frágeis, a sua fascinar-se-ia.
O plano ficou delineado antes da sua partida para a China, e no próprio dia em que nos despedimos, no aeroporto, escrevi-lhe a primeira carta para a morada de Sines, o que realizei durante dois anos consecutivos. Muitas vezes eram só cartas, outras, pequenas encomendas com objetos que me pareciam belos e desejava oferecer-lhe: uma pedra, uma folha seca, um lápis, um livro, um recorte de jornal, uma foto, pétalas com purpurina, uma revista, por vezes objetos de arte postal, envelopes que eu construía e pintava ou nos quais fazia colagens, criações. Ocupava com ele uma parte do meu tempo livre e pensava, ele vai gostar, como reagirá quando abrir esta caixa? E uma parte de mim gozava com o amor que punha nessa correspondência cuidada, mas sem volta de correio. Imaginava que tudo parecesse estranho à família, a existir. Se telefonasse para casa dir-lhe-iam que tinha por lá dezenas de objectos postais provenientes do mesmo remetente? Rir-se-iam? E qual seria a sua reação? Telefonaria da China ou do Cazaquistão? E se fosse do Cazaquistão? Quanto tempo duraria a meiguice por aqueles lados? Quando chegaria a minha vez de poder abraçar a sua velha t-shirt negra e lavá-la com as minhas mãos, carinhosamente, como fazemos ao que pertence a quem amamos?
Nunca me passou pela cabeça que alguém ousasse abrir uma carta ou uma caixa. São ações cuja vileza escapa à minha cogitação. Mas que o fizessem?! Nada no meu discurso, nas minhas ofertas ultrapassava os limites do saudável bom gosto. Eram apenas cartas, relatos, coisas que queremos ofertar. Imaginei-o chegando a Sines, sentado sobre uma cama, num quarto humilde, rodeado pela minha correspondência, lendo-a. Não pus a hipótese de que nunca lhe tocasse, por não lhe ser entregue ou por não estar para perder tempo com alguém cuja loucura motivasse a escrita de para lá de um cento de objectos postais em 24 meses. Não me ocorreu que um ser humano não soubesse o que fazer a tanto discurso, que pudesse mesmo optar por não o ler, por metê-lo num saco velho e atirá-lo ao lixo, pensando, ele há cada uma, ou apenas, até leria, mas não tenho tempo. Eu teria sempre interesse e curiosidade por palavras, mas eu... É evidente que não antecipei que recusaria ler-me; escrever era a minha profissão, e ele sabia-o, mas, muito melhor do que isso, escrever era o que fizera desde que aprendera a juntar sílabas, muito antes de se ter transformado numa profissão. Não havia coisa que eu não soubesse descrever ou comunicar através de uma frase, de um parágrafo. Eu tinha vivido de cartas, para as cartas, e sabia dizer o que fosse necessário mesmo sem escrever as palavras que o designavam, portanto seria tudo uma questão de tempo, e eu tinha-o. O tempo tudo resolve. A estratégia era simples; escrita e paciência.
E o tempo passou, passou, até surgir na minha vida um outro rapaz, meu vizinho, que me via sozinha no café a ler, dizia gostar de livros e queria discuti-los comigo. É novo, atirava-me aos olhos a consciência. Pois é, Nossa Senhora, é um miúdo, o que é que eu faço a isto, com certeza passa-lhe, respondi, supus, mas sendo novo não lhe passou. Lia, de facto. Via filmes na televisão. Falava sobre eles com paixão, inteligência e ousadia. Não era ninguém na vida, e eu não sabia o que fazer-lhe, por isso apaixonei-me por ele e deixei de ter tempo para escrever cartas ao Virgílio. Gostava de saber se algum dia voltou a Portugal, se leu todas as folhas que lhe manuscrevi com letra miúda e perfeita, no melhor papel, com a caneta mais fina, se chegou a ter nas mãos as pétalas sobre as quais polvilhei purpurina, se as guardou ou atirou ao lixo, se alguma vez se voltou a lembrar que eu existia, aquela gordinha que escrevia e não era feia, mas por acaso não lhe dizia mais nada.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O cérebro de alguns homens

Se Júlio Verne fosse vivo escrever-lhe-ia um email no qual lhe rogaria com fervor que me tranformasse numa personagem minúscula e me deixasse entrar no cérebro de alguns homens pelo bico da sua pena. Gostaria que me permitisse viajar ao centro do cérebro masculino para descobrir como é constituído, e em que compartimentos encerram o amor, o desejo, a vingança, o despeito e o desprezo, que tamanho tem cada um e como se interrelacionam. Uma zona que me interessaria particularmente seria a das capacidades verbais, que a ciência declara atrofiadas. Não acredito. A ciência falha muito. Se não se encontra atrofiada para escrever longos romances e poemas épicos, já para não falar em relatórios de dezenas de páginas no melhor português, por que o estaria para se exprimir vocalmente?

Seria uma viagem de grande interesse. Eu tiraria as necessárias fotografias, instalaria microchips mais pequenos do que eu, e recolheria amostras de material que traria para análise à superfície. Aproveitava e, a bem da saúde pública, desenterrava todas as bandeirinhas que por lá foram ficando espalhadas pela ação de diversos astronautas, como fazem sempre que aterram na Lua. Ninguém deve reclamar território na Lua nem no cérebro de um homem. No primeiro caso é uma questão de limpeza, no segundo, a anatomia não suporta o esforço, e a área reclamada sofre necrose dos tecidos, com as terríveis consequências que o problema acarreta.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Isabela defende Sócrates, finalmente


Sócrates vai estudar Filosofia para Paris. Vamos falar disto a sério, agora que o senhor já não é primeiro-ministro, embora mantenha em cena o seu espetáculo privado de bonifrates, e não esteja realmente afastado do jogo político.
Esclareço que encarar Sócrates apenas como um homem, e já não como anticristo, não é um exercício fácil. Sócrates nunca será para mim apenas um homem, como o meu vizinho de cima é um homem, e igualmente bem giro, por acaso.
A título meramente ilustrativo do meu amor pelo ex-primeiro, e para aliviar o caráter pesado que esta crónica possa aparentar, permitam-me descrever um passatempo estúpido, obsessivo-compulsivo, que eu e um amigo tínhamos, e que era da sua total iniciativa. Ele perguntava-me, enquanto eu descascava batatas e cenouras para a sopa, se estivesses perdida no mundo só com o Sócrates e a Maria de Lurdes Rodrigues e sentisses uma necessidade urgente de sexo quem é que escolherias? Eu respondia-lhe, jogo sujo, eu nunca te apresento duas opções impossíveis, dou-te sempre uma melhor e outra pior
Não, vá lá, retorquia o meu amigo. Tens de escolher.
Não posso. É impossível. Essa situação nunca poderia acontecer. Para além de que eu não tenho necessidades urgentes de sexo, sou uma mulher.
Não, mas neste caso tinhas, vá, qual deles escolherias?
E eu, desesperada, perguntava-lhe, agora a sério, não podes substituir um deles por um camionista mesmo muito porco, feio e mau?
Não me lembro como é que esta história terminou, mas devo dizer que o meu amigo consegue ser bastante insistente e não é impossível que eu tenha sido obrigada a escolher Maria de Lurdes Rodrigues, por ser a mandada e não a mandante. Isto tudo no auge das manifestações dos professores. Foi duro. O jogo.
Sócrates vai estudar Filosofia para Paris e é apenas um homem, não o anticristo. Imparcialidade, Isabela, vá, coragem: se estivesse no seu lugar faria exatamente o mesmo. Afastamento geográfico. Outros ares. Estudo, porque o estudo nos concentra num mundo alheio às preocupações quotidianas. Por outro lado, sendo Sócrates um homem inteligente, e tendo sido alvo de ataques tão violentos, que resolveu tão bem, parece-me lógico que se interesse pelos fenómenos do pensamento e ação humanos. Caramba, eu vi as entrevistas que deu à Judite de Sousa sobre a questão do Diploma de Domingo, sobre o caso Freeport… Um mestre em retórica. Conseguiu deixar-me sempre a boca amarga, porque aquele discurso tinha poucas pontas soltas - estava muito bem preparado. Fiquei sempre com a ideia que ele se sentara com alguém e lhe dissera, “faz-me as perguntas mais difíceis e embaraçosas que te possam ocorrer e a seguir vamos estudar como responder-lhes”. Eu tê-lo-ia feito.
A opção Filosofia não merece questionamento. Acho que todos compreendemos que a formação de Sócrates em engenharia nunca foi a sua verdadeira vocação. Cursou algo que lhe terá parecido útil, mas que nunca teve grande intenção de usar, até porque sempre esteve envolvido na política, e só se as coisas corressem mal por esse lado... A forma como o diploma foi conseguido, fax para cá e para lá, adaptação curricular, jeitinho aqui e ali, prova-o. Sócrates esteve-se nas tintas para a engenharia, mas não para uma licenciatura, que dá jeito, sobretudo quando se tem um cargo de relevo num país ainda ligeiramente terceiro-mundista. Se não lhe tivessem pegado pelo Diploma de Domingo ter-lhe-iam pegado porque “o gajo nem sequer licenciado é.” Portanto, seria preso por ter o cão e por não o ter.
Sócrates estará neste momento interessado em descansar e pensar. Uma exposição pública como a que teve, mesmo rodeado de proteção, paga um preço elevado. Ainda há uns meses uma médica do SAP, a que recorri de urgência, porque estava sem o antidepressivo da ordem, me dizia, “mas como é que a senhora acha que esta gente da política se aguenta? Speed de manhã, downer à noite e antidepressivo todos os dias!”
Hoje, o jornal i levanta uma questão relacionada com os rendimentos de Sócrates, que tal como Dias Loureiro não tem bens em seu nome, nem poupanças, nada de nada. Como irá Sócrates sobreviver em Paris sem rendimentos? Tocará guitarra no metro, arrumará carros, lavará vidros de automóveis nos semáforos, distribuirá a revista Cais? Eu tenho a resposta. Sócrates não tem rendimentos, porque, sendo generoso, ofereceu tudo o que ganhou à família: à mãe, aos tios e primos, aos amigos íntimos. Eu faço o mesmo: gasto cada tostãozinho, e há meses em que tenho de esperar pelo seguinte com grande ansiedade. Parece-me bastante natural que agora a família e os amigos, que terão sido auxiliados, retribuam a ajuda. A pouco e pouco cairá uma fatia daqui, outra dali, e Sócrates não ficará com dívidas em Paris, queira Deus. Os amigos da Covilhã e o lobby Trás-os-Montes juntar-se-ão para fazer uma vaquinha e liquidar a renda do apartamento. Tudo se resolverá, porque Sócrates não está só, nunca esteve só, nunca estará, e um dia, podem tatuá-lo no pulso direito, voltará com o canudo da sua pós-graduação e a manga cheia de ideias.

Estou tão farta das hierarquias

Ela acorda-me e diz-me, esqueceste-te de telefonar à tua mãe, não escreveste isto nem leste aquilo, tens contas para pagar, assuntos para dar alta ou baixa, documentos cuja emissão é preciso pedir, dossiers para organizar, dúvidas de toda a sorte para esclarecer. Digo, mas eu estou só aqui aninhada no sofá, sou só uma rapariga aninhada no sofá, que horas são, é noite ou dia? Já é de manhã?

E continua, para não falar de tudo o resto que fizeste a mais, tudo o que fizeste e disseste e não deverias ter feito nem dito, apontando ao alvo e disparando a matar para depois chorares como uma criança sobre os corpos assassinados, sempre forçando os limites, como se não conhecesses o conceito.

É a minha Coordenadora de Plano e está fula comigo. Pergunto-lhe, dentro do sono, a série que eu estava a ver já acabou? O que é que está a dar agora? Que barulho é este? Já é dia ou ainda é noite? Estou só aqui aninhada muito quentinha; eu não fiz nada. Tenho fome. Tenho de ir comer qualquer coisa. Sou só uma rapariga, deixa-me estar em paz. Não me deixas viver a minha vida em paz.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Esplanada

A esplanada encontra-se vazia, batida por vento e sol.

A empregada loura recolhe as chávenas e pires das bicas, os pacotes de açúcar usados e intactos. Limpa as mesas com um trapo húmido, o vento varre-lhe os cabelos para a cara, e ela sacode-os, tentando enxergar. Tem as mãos ocupadas. Pergunta-me, quer mais alguma coisa? Abano a cabeça. Sorrio.

De dentro do café chegam ruídos da tv e vozes de clientes falando alto, contando a outros as suas vidas certas, alardeando sobre futebol, trabalho, vizinhos. "Eu sou um tipo normal, pá, tu não me vais dizer que eu não sou um tipo normal! Vaidoso?! O que é para ti vaidoso?"

O vento levanta-me as páginas do jornal. A Morena espera por mim à sombra, uns metros ao fundo; a Micas deitou-se numa réstia de sol aos meus pés, enquanto o caldo-verde arrefece.


Pouco depois chega um segundo cliente com dois cães minúsculos pela trela. Ladram muito à Micas, que não se mexe, porque os cães minúsculos ladram sempre muito, já sabemos.

Mas até chegar o dono dos cãezinhos, a esplanada esteve vazia ao vento e ao sol e eu estive nela como antes de chegar ao mundo. Os carros passavam dos dois lados da estrada e eu não os ouvia, porque me rodeava um silêncio sem peso, uma breve impressão intemporal. Era só a luz do meio-dia estendendo raios solitários pela esplanada,e não era mais nada.

domingo, 10 de julho de 2011

Desejo e proibição

«No seu ensaio "Theory of Experimental Pornographic Film", escreve Oshima: "O conceito de obscenidade é testado quando ousamos olhar para algo que desejamos ver mas para o qual nos proibimos de olhar."»


Texto de António Rodrigues, transcrito de "Território Francês. De como o filme contornou a lei japonesa sobre pornografia" - artigo complementar a "O sexo é uma arma carregadade política", do mesmo autor, sobre os 35 anos do filme O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima".



Vi este filme no Verão de 1978, numa sala do Quarteto. Não tinha 18 anos, mas enganava.

Nunca mais revi esta obra tão intensa e perturbadora.

Delicadeza de coração

"Estranhamente, Eiko Matsuda, que acabou por ser escolhida para Sada Abe, foi a nossa primeira audição para o papel. Tinha, na verdade, uma pele muito delicada, mas foi a delicadeza do seu coração, algo que se via logo, que me fez querê-la", disse o realizador, em 1983, numa entrevista à revista japonesa "Image Forum".

Texto de António Rodrigues, complementar ao que se encontra referenciado, e com línque, nos postes que se seguem. Não encontro a ligação para este, intitulado "Território francês. De como o filme contornou a lei japonesa sobre pornografia"

O lugar do teu corpo

"Não há gueixa nenhuma que queira cá vir", diz a criada, que entra no quarto contrariada.

"Porquê?", pergunta-lhe Sabe Ada.

"Por causa da vossa reputação."

"O que dizes? O que dizem de nós?"

"Que são uns depravados!"

"Repete lá! Depravados, porquê?"

"Porque não pára de o chupar."

"Não é normal que uma mulher ame o sexo do homem que ama?"


O mundo de Sada Abe e de Kichizo Ishida constrói-se e consome-se num amor que se encerra dentro do seu incomensurável desejo e está-se nas tintas para convencionalismos e exigências sociais. É indecoroso, mal-educado, desafiante; tudo aquilo que a sociedade japonesa abomina. E, ao mesmo tempo, é um mundo feminista que emerge de uma sociedade misógina. Sada domina a relação; Kichizo vai perdendo protagonismo - de habitual sedutor, transforma-se aos poucos em objecto sexual que (sobre)vive para satisfazer os desejos cada vez mais exigentes dela. A cor escapa-se-lhe do rosto até ser quase tão branco como o das gueixas. A voz diminui de intensidade até ser apenas o sussurro de um corpo esgotado. Sada é a viúva negra sugando a vida do amante através do desejo insaciável do seu corpo. Sada é a revolução de costumes no corpo de uma ninfomaníaca. Subversivo.



Núcleo

(...) 35 anos depois, "O Império dos Sentidos" continua a ser um perigoso manual de subversão, obsessivo e minimalista, ciente de que o sexo é uma arma nuclear - no sentido de relativo a núcleo, ligado ao essencial, aos instintos mais básicos e menos propensos à maquilhagem social.

A carga simbólica é acentuada pelo facto de Nagisa Oshima ter ido buscar para base do seu filme a história verídica de uma prostituta, Sada Abe, que cortou o pénis do amante, depois de o ter morto acidentalmente quando o estrangulava para acentuar o prazer sexual, e andou enlouquecida e ensanguentada pelas ruas de Tóquio durante quatro dias até ser detida e condenada. Um episódio que ocorreu em 1936, fez no dia 19 de Maio 75 anos.

Sada Abe passou os anos seguintes na prisão, mas foi libertada depois da guerra, transformada numa lenda de Tóquio. O escritor americano e historiador do cinema japonês Donald Richie - país onde reside há uns 50 anos - conta que Sada Abe foi trabalhar para um taishusakaba (um bar popular), onde surgia todas as noites descendo com dramatismo e suspense as escadas, para, numa indignação fingida (que fazia parte da sua actuação), levar os homens a tapar as suas partes no meio das maiores risadas.




sábado, 9 de julho de 2011

Um animal de alto risco


Costumo receber emails de diferentes projetos na área da psicologia.

As pessoas preocupam-se comigo, nota-se.

Costumo lê-los sempre com atenção, fazendo os testes para tentar descobrir onde me encaixo, mas como seria de esperar não encaixo totalmente em coisa alguma, a não ser nos índices de stress/ansiedade, a cem por cento.

Tendo ligeiramente para a depressão seguida de euforia, com pinceladas de bipolaridade, mas são apenas estados de espírito sem grandes consequências, perfeitamente aceitáveis para o comum mortal. Há traços de personalidade-limite (que em português se costuma designar por borderline), mas as manifestações são diferentes do usual. Embora apresente sintomas de comportamento associado ao stress pós-traumático não consigo reportar um único acontecimento, apenas um conjunto alargado de vivências de extrema ansiedade, e realmente não acordo a ouvir tiros nem a tentar safar-me a uma explosão. Não apresento qualquer traço de esquizofrenia, pelo que sei sempre muito bem quem sou, mas persiste uma moderada perturbação obsessiva-compulsiva, consciente, controlada e fora do padrão tradicional: não tem a ver com ordem, limpeza, etc., mas com repetição de outros padrões comportamentais.

Resumindo, sendo um veículo todo amolgado, nada me impede de circular. Não sou um perigo para o trânsito, embora já tenha comprometido as minhas engrenagens, episodicamente, e em potencial me mantenha um animal de alto risco, vigiado e controlado pela própria consciência.
Os sites de psicologia são interessantes, mas não me fascinam. Não há ali nada que não possa compreender e é aí que pretendo chegar: ao que ainda não compreendi.

Para isso preciso da minha psicanalista, que abandonei. Lembro-me dela frequentemente. Tinha um ar doce e sofrido, e foi o que me manteve consigo tanto tempo, porque não alimento relacionamentos de quase cinco anos com alguém que nada mais tem para me dar para além do nome e da profissão. Tirei uma nota tão boa no curso "como mandar o outro dar umas voltas ao bilhar grande" que ainda guardo a medalha de louvor, pendurada no roupeiro, misturada com as saias e as calças de quando era gorda a sério, gorda mesmo gorda, nojenta de banha e asco. Uma visão insuportável para o mundo e para si própria.

Mas ela era doce. Abria a porta com um sorriso. Normalmente eu estava já à espera. Não nos dizíamos nada de especial. Ela sentava-se no sofá reclinável. Tapava os joelhos com uma mantinha - penso - talvez seja impressão, não tenho a certeza. Eu nunca me tapei com nada. Era um divã de pele negra. Ou talvez não. Isso agora não interessa. Mas como é que não me lembro da cor e do material do divã? O teto, sim, era branco, tinha textura. Uns quadrados. Se fosse ao fim da tarde havia pouca luz, e eu gostava mais nesse momento do dia, porque eu tombava na hora mágica em que tudo pode dizer-se sem medo, pudor, sujidade e gente. De manhã, pouco. A luz da manhã, mesmo coada, esgueira-se tão fina e intensa que fere. Por isso odiava as manhãs nas quais ela me queria encaixar. Ela queria encaixar-me, como se não soubesse que eu não sou encaixável, que não pode fazê-lo comigo. Não podia. E ainda não. Porque a nossa relação não terminou. Suspendeu-se.

Lamento que a última palavra tenha de ser minha. Que realmente seja eu quem deve decidir como e quando acaba - e saiba quando chegou esse minuto de rejeição, tão frio. Lamento que seja assim. porque não foi uma escolha minha.

Poderia ser tudo diferente, mas por enquanto ainda sou eu quem dá a porrada necessária aos pretos, o tempo que for preciso, com a violência que a Ordem manda, porque sou eu quem decide. Parece claro, simples, mas não quer dizer que compreenda.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Voltei a chamar Deus para um rendez-vous

Como sabes, Senhor, há um texto das tuas escrituras que costuma ler-se nos funerais...
Há um tempo para viver e há um tempo para morrer; há um tempo para chorar e há um tempo para sorrir...
Esse, senhor.
Diz, então.
Senhor, encontras-me plena no tempo para viver; tenho estado nele há muitos anos, e já chorei o que se pode chorar; chorei até à inconsciência, que é um esvaziamento do eu.
Não choraste tudo. Tudo não.
Não, tudo não, mas chorei longamente e com abrangência. O tudo seria um martírio que creio não teres guardado para mim, mas para o teu filho. E tenho honrado a sua herança ideológica...
Não totalmente...
Bem, não sou capaz de oferecer sempre a outra face, mas já o fiz. Trouxe comigo muita indisciplina, mas empenho-me seriamente naquilo que penso e faço, e controlo os piores instintos, mesmo quando preciso deixá-los longamente remolhados em vinagre, para amolecerem, e eu chegar a compreender que eram duros, talvez injustos.
Não és diferente de ninguém.
Eu sei.
Diz-me para que me chamaste. Tenho pouco tempo para te dedicar. O mundo está cheio de almas que não têm a tua sorte.
Senhor, estou viva e já chorei, portanto, se há um tempo para rir, quero-o. É justo que receba a recompensa após um castigo tão longo.
Criança, não fui eu que escrevi o texto que ouves ler nos funerais, e não costumo delegar poderes. Não creias em tudo o que lês ou ouves ler, sobretudo se te disserem que é a minha palavra. Há um tempo para ti, criança. É um tempo que se funde no não-tempo, que não tem ano nem dia, e chorarás enquanto for preciso que chores. Não posso dar-te o que me pedes, isso, o riso que procuras. Não posso, porque embora te acompanhe, e possas requerer audiência ou apanhar-me no corredor e chamar-me informalmente, não possuo poder sobre ti. Há um tempo para chorar, isso é certo, e toda a tua existência pode ser-lhe dedicada, porque a vida é um espaço para o choro, e tu sabes. Pensa nisto, criança: o teu castigo é muito leve. Outros, que me chamam, rir-se-ão do teu castigo. Mas podes rir de vez em quando. Aos bochechos. Aproveita isso.
Não, esse riso não! Quero o riso de quem parou de chorar, de quem acabou esse tempo, de quem não voltará atrás nunca mais, não olhará para as cidades perdidas, e terá o poder de esquecê-las pa-ra-seeeem-pre!
Oh, tu queres demais!
Quero o que é devido, o que é justo, o que é terreno. Quero rir.
Escuta, criança, hoje é sexta, e não calculas os problemas que me aparecem de sexta a domingo, portanto tenho mesmo muita pressa e devo ser conciso; terás de me compreender: se queres, procura. Tu não és pobre de espírito, logo, não posso absolver-te; deves continuar a agir como agiste desde menina: se queres, procura.
Só me dizes isso?!
Não há mesmo mais nada para te dizer. Não há no universo segredos guardados para produzir riso. E eu sou apenas Deus, não faço milagres.

O puro pássaro

O PORTUGAL FUTURO

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vítimas não diagnosticadas

Fala-se muito em crianças e jovens obesos relacionando o fenómeno com o tipo de alimentação e a falta de exercício, sendo que ambas não são causas, mas manifestações.


O problema das crianças obesas é exatamente o mesmo dos adultos e eu posso resumi-lo em algumas perguntas muito simples que conviria colocar-lhes, para perceber o fenómeno:


1. Em que pensas quando acordas de manhã?


2. Gostas da forma como o dia te corre? Porquê?


3. Tens esperança em alguma coisa ou acreditas em alguma coisa? Em quê?


4. Enumera e descreve os teus amigos e a relação que manténs com eles.


5. O que fazes para ocupar o teu tempo livre? Tens algum hobby não desportivo que te interesse, como desenhar, ler, ouvir música, realizar jogos fora do computador, cuidar de animais, ajudar alguém a fazer alguma coisa...?


É isto que interessa saber para se compreender o fenómeno da obesidade infantil. Tenho a certeza que os resultados de um inquérito desta índole poderiam levar-nos a compreender o nosso tempo e a aliviar o fardo que diariamente pesa sobre estas crianças.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Os remediados

Quando era menina e via os negrinhos rotos rondando a porta, rondando os restaurantes nos quais comíamos camarão grelhado com limão e piri-piri, eu pensava que era rica como os ricos das histórias de Dickens. Eu tinha tudo, eles, nada. O meu pai explicava-me que não, não era verdade, nós não éramos ricos, mas remediados, e eu olhava para os armários cheios de comida, lá em casa, e pensava que aquilo estava acima do remediado. Mas hoje penso que o que houve sempre em abundância foi comida, o que ilumina em mim o que terá sido o passado do meu pai, esse homem que pouco falava do passado, sempre cheio de fome, a mesma que o matou.
Herdei dele essa fome que não pode saciar-se.
A minha casa em Lourenço Marques era humilde, embora grande. Espaçosa, contendo apenas o essencial. A minha mãe trabalhava muito no quintal, plantando legumes, tratando dos coelhos e das galinhas, limpava, limpava, batia-me porque eu não fazia nada, só queria ler e imaginar brincadeiras que acabavam em trabalhos que ela haveria de limpar, e o meu pai passava o dia, de manhã à noite, a dar porrada nos pretos, e de vez em quando confraternizando com eles, tudo com a mesma naturalidade, bebendo vinho da metrópole e comendo carne, e nesse momento eram iguais, só quando o trabalho saía bom. E a nossa vida de remediados, que eu julgava de ricos, deslizava.
Só muitos anos depois, hoje, tendo desconstruído mil vezes a figura do meu pai, para a compreender, vejo que tinha razão. Vivíamos do trabalho dos meus pais, e quando após o 25 de Abril veio o Período Sem Lei, e sem trabalho, as economias duraram um ano, o tempo suficiente para me comprarem um bilhete para Portugal, tentar arranjar a carrinha (entretanto deixara de haver peças) e subir até ao Songo para arranjar emprego em Cahora Bassa. Nós sempre fomos apenas remediados.
E eu sou o meu pai. O que resta dele. A única marca que deixou sobre a terra.