quarta-feira, 31 de março de 2010

A vida é demasiado ruidosa

É sempre mais fácil esquecer. Mais fácil, mais prático, mais rápido. A curto prazo dá para se fazer caminho. À partida, ninguém quer recordar. Nem a infância nem o pai e a mãe nem os primeiros amores. Constroem-se versões que se tornam reais, e a realidade é aquilo em que acreditamos. Evitamos mencionar um dado acontecimento porque, compreensivelmente, não pretendemos reviver essa dor, perda, inconveniência, mas, também, porque acreditamos que o tempo cura; e esse tempo atravessa-se em silêncio. O paradoxo reside no facto de só ser possível ultrapassar essas emoções se se reviverem repetida, excessivamente. É necessário regressar aos lugares e personagens da memória, desenterrá-los, revê-los e permanecer neles; não para refazer a História, mas para poder revivê-la protegidos pelo que já conhecemos, porque compreendemos, finalmente. Aceitámos. O tempo calado não cura. Apenas se abstém de produzir ruído.

Memória e silêncio

No silêncio existe solenidade e emudecimento. O silêncio concentra-nos no objecto, e promove a reflexão. Deve ser por esse motivo que, em memória das vítimas, costumam guardar-se minutos de silêncio. Creio que as vítimas prefeririam que se falasse.
A História enfrenta este grande óbice que cabe aos investigadores ultrapassar: o silêncio sobre aquilo que todos sabem e todos calam. O que não convém, não parece bem, não honra, não cabe nos currículos nem nas cartas de apresentação. Se há lixo, varre-se para debaixo do tapete e deixou de existir, nunca o vimos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.
A História precisa das ovelhas negras sem pudor, bocas que falam demais, que dizem e registam o que deveriam calar para que fosse possível delinear um cadastro limpinho. Elas vão deixando pistas que podem analisar-se, interpretar-se.
Muitas vezes me interrogo sobre como tem sido possível fazer-se História, uma História sem fantasia, sem rodriguinhos, nos meandros do enorme silêncio que pesa sobre os acontecimentos que marcam o percurso de um povo, de um país.

domingo, 28 de março de 2010

A mamã pagou a preservação das minhas células estaminais, e a tua?


A descoberta das células estaminais, e respectivas potencialidades, foi uma descoberta científica notável. Recolhidas no momento do parto, a partir do sangue do cordão umbilical, têm o poder de se transformar em qualquer outro tipo de células ou tecidos, e curar eventuais cancros, avc's, linfomas, um número quase infinito de doenças. Se neste momento se realizasse a criopreservação das células estaminais de cada nado-vivo, num futuro muito próximo tornar-se-ia possível curar toda a gente de quase tudo e, na prática, erradicar doenças e sofrimento.
Em Portugal é possível preservar as células estaminais de um bebé, durante 20 anos, por um preço que varia entre os 1200 e os 1400 euros, a pagar num máximo de duas prestações. O laboratório de criopreservação, que poderá situar-se numa zona industrial, num espaço pouco maior do que a minha casa, envia aos futuros pais, subscritores do serviço, um kit a entregar aos médicos responsáveis pelo parto, para que seja possível fazer a recolha das células. Os próprios pais reenviam o kit para o laboratório, através de um serviço de transporte cujo número de telefone lhes é fornecido. Os subscritores do serviço nunca chegam a deslocar-se até ao local onde as células são preservadas, recebendo um relatório sobre o estado das mesmas a cada cinco anos.
Se eu estivesse para ser mãe biológica, empenhar-me-ia no sentido de conseguir para o meu filho tal garantia de saúde. Se me falhassem as poupanças, poderia contrair um empréstimo a uma empresa de consumo, pelos seguintes prazos e valores:


Eu poderia fazê-lo, mas não sei se as mães que sobrevivem com ordenados mínimos, contando tostões para conseguir comer até ao final do mês, teriam capacidade para pagar este empréstimo.
Já se sabia que para garantir melhores cuidados de saúde convinha ter melhores rendimentos, mas esta situação cria uma desigualdade no momento do nascimento. Não nascemos iguais, de facto. Hoje, na Maternidade Alfredo da Costa, nasceu uma minoria de crianças que terá direito a um futuro mais saudável do que a maioria, porque alguém pagou a criopreservação das suas células estaminais. Mas isto não é apenas uma questão de finanças. Muitas das parturientes nunca ouviram falar numa célula estaminal, não sabem o que é nem para que serve, de maneira que mesmo que lhes tivesse saído o Totoloto...
Este problema subsistirá com os progressos da ciência. Dentro de alguns anos a nanotecnologia estará em condições de estabelecer interfaces entre organismos humanos e não humanos, fazendo crescer ossos e tecidos; são notícias perturbadoras e desejáveis, contudo estes benefícios não chegarão a todos, mas apenas aos que puderem pagá-los, e aos que detiverem o conhecimento, pelo que os cenários de discriminação no acesso à excelência, apresentados pela ficção científica, e muito bem explicados em Gattaca, se tornaram já verosímeis. A discriminação, no futuro, estará também relacionada com o nível de excelente saúde que cada um poderá alcançar.


Fotograma de Gattaca [Niccol, 1997]

Claro que gostaria de perceber por que motivo o Estado não cria os seus próprios laboratórios de criopreservação. Um sistema de saúde, como o nosso, ameaçado pelos custos exorbitantes dos cuidados de saúde com doenças crónicas e terminais não estaria interessado em poupar para daqui a 20 anos? Por que motivo não têm direito à preservação das células estaminais todas as crianças que nascem? Não será esta protecção uma obrigação dos estados? Que me interessa a mim uma nova ponte, um novo aeroporto, um TGV se nem a ciência serve a todos por igual.

Nota: uma leitora atenta, a quem muito agradeço, acabou de me escrever informando que, afinal, existe em Portugal um Banco Público de Células Estaminais do Cordão Umbilical, gratuito, para serviço de todos. É uma boa notícia. Mais informação, aqui.

Alice mora aqui

Gostei muito da campanha publicitária que a minha editora fez para Outubro, de Rui Bebiano, Caravana, de Rui Manuel Amaral, Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro e o meu Caderno de Memórias Coloniais.





Clique sobre as imagens para poder aumentá-las.

Nós, não, que somos tolos

O governo irlandês lançou um concurso de ideias para recuperar a economia do país. O vencedor arrecadará um prémio chorudo no valor de milhares de euros. Muitos milhares.
Toda a gente pode concorrer, inclusive cidadãos estrangeiros.
Trata-se de recolher ideias para a criação de empregos, apesar da crise. E têm surgido inúmeras, como, por exemplo, o reaproveitamento de antigas vias férreas abandonadas, que poderiam ser agora restauradas, criando percursos campestres, promovendo o turismo.
O que me parece louvável é esta iniciativa de um Governo que pede ajuda aos cidadãos. É mais do que isso: é contar com as pessoas, acreditar nas suas capacidades, na sua invenção. Não é apenas uma forma de gestão profundamente democrática como se trata de um excelente exercício de humanismo.
Em Portugal isto não aconteceria, sejamos realistas. Não por que não tenhamos capacidades de inventar, como os irlandeses, mas porque não somos tidos em consideração. Para os nossos consecutivos governos, o que pensamos não interessa, e nós sabemo-lo, portanto, para quê pensar? Somos infantis, imaturos, incultos, um pouco tolos; emocionamo-nos com o Preço Certo e as graças do senhor Fernando Mendes, um gordinho tão fofinho; precisamos de ser guiados, de alguém que nos indique o caminho, que nos diga como é, à força, porque só entendemos à força, e até gostamos e agradecemos. Por isso é que nunca ninguém se daria ao trabalho de nos perguntar o que pensamos ser útil para melhorar a nossa terra. Mais vale, por isso, participar no concurso do governo irlandês. Ou, até mesmo, e não quero ser radical, emigrar.

GNR entretém-se

A GNR passou a noite de sexta nas fronteiras, a mandar parar camionetas com estudantes do 12º ano a caminho da sua semana de loucura em Lloret del Mar, com o objectivo de vasculhar droga em mochilas. Eu posso compreender que seja mais fácil apreender droga a miúdos do que trabalhar nos bairros complicados, em noites de fim-de-semana. Fiscalizar lutas de cães, roubalheira e vandalismo é mais arriscado. Diria que é mesmo uma trabalheira, e pensando bem, ganham mal. Contudo, pessoalmente, uma vez que pago impostos, logo, tenho voz, preferia que se dedicassem a causas mais úteis. Não tenho filhos, mas se os tivesse não estaria à espera que a certa altura não testassem os efeitos das drogas da praxe, muito mais leves do que outras, absolutamente legais, que tomamos pela vida fora. Ao trabalho da GNR, na noite de sexta, não se poderá sequer chamar, "mostrar trabalho".

sexta-feira, 26 de março de 2010

Na Escriba


Amanhã, a Livraria Escriba, na Cova da Piedade, vai realizar o seu primeiro dia de saldos este ano, em horário alargado, entre as 10 e as 18 horas.
Eu estarei presente, entre as 11h30 e as 13, mais coisa, menos coisa, para conversar com os leitores e beber muito café, de preferência forte - Rosa Alface, a livreira, oferece café e o bolo.
Estará à venda, igualmente, a a 1ª edição do novo romance de Ian McEwan, Solar.
Lá vos espero, se for o caso.

Nota: não pude estar presente nesta iniciativa por motivo de doença, o que lamento. Assim que for possível, combinaremos outra ocasião.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Dor ciática

O meu marido não vai trabalhar amanhã. Está de cama, prostrado com dor ciática, e desiludido com mais uma maleita. Velhice, velhice, vai gemendo, mas eu sei que não, que a culpada sou eu, que a semana passada o pus a lavar tectos e paredes uma tarde inteira, e disse-lhe, estica-te, amor, agora ali ao pé do candeeiro, chegas lá? Olha que naquele cantinho ainda precisas de lhe passar o pano. E ele alçou-se o mais que pôde, não só para me agradar , mas porque, nas suas palavras, "de vez em quando gosta de testar os seus limites". Lesionou o nervo, foi o que foi. Não me convém que tenha consciência da verdade, porque há mais trabalho cá em casa para assim que estiver bom. Que mulher poderia dar-se ao luxo de desperdiçar um homem destes? Eu, não.

quarta-feira, 24 de março de 2010

As patinhas da Moreninha

No sábado era para ter escrito sobre as suspeitas que recaem sobre o primeiro-ministro, mas meteu-se a limpeza da casa. No domingo tencionava escrever sobre uma crónica da Marta Crawford no i, na qual falava de sexo nas axilas e nas glândulas mamárias, e eu imaginei logo o meu marido a dizer-me, querida, não te importas que te esfregue o pirilampo no sovaco? E eu responderia, esfrega à vontade, amor, desde que me deixes dormir. Mas tinha testes para corrigir, montanhas de testes e de folhas Excel para preencher, de maneira que tive de deixar para segunda.
Ontem, pensei escrever um microconto baseado numa situação que presenciei no Minipreço, mas os testes... Também queria muito abordar a iniciativa Limpar Portugal, na qual não participei. Até podia, mas mandaram-me uns mailes com a bandeira portuguesa e o hino nacional, apelando à limpeza com base na grandiosidade da nossa história, no facto de termos sido grandes navegadores, um povo especial, etc., etc., e aquilo agoniou-me tanto que tive logo de abrir a janela para respirar ar puro. E o Dia Mundial da Poesia, da poesia, da poesia, com senhores andando de porta em porta, recitando quadras populares ou poemas de Al Berto, ou outros, nos quais o mundo é mau, está mal, a malevolência impera sobre todos os reinos da terra, e ainda a fabulosa compilação de poetas da nova geração que está no top da FNAC e que deixei passar porque me apetece deixar passar. Não escrevi sobre a poesia, eu que sou tão dada à lírica. Tinha de levar as cadelas à rua. Precisava de fazer sopa e segundo. A minha mãe tinha medicamentos para eu aviar na farmácia e pediu-me para lhe massajar bem as costas com Voltaren gel.
De maneira que agora observei a minha Moreninha a mexer as patinhas enquanto sonhava. Ia a correr e as patinhas corriam no sonho, corriam muito, e respirava forte, e pensei, que se lixe o resto, a minha Moreninha é que não deixo passar por nada deste mundo. E escrevi este texto.

terça-feira, 23 de março de 2010

Para todas as idades

00h01 - Oh, Isabela, não se esqueça. Olhe que já recebi dois telefonemas da sua editora. A menina tem muitas coisas na cabeça e deixa passar.
00h37 - Isabela, já lincou o que lhe pedi? Vai esquecer-se. Já sei que vai esquecer-se. Deixa tudo para a última, sempre. Depois diz que sou tal e qual como a sua mãe. Se ao menos fizesse o que lhe dizemos...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Clarividência

Pelo contrário, Isabela, para mim, muito sinceramente, o melhor do amor é quando termina. Que alívio! Sim, ele era profundamente pedante! Tudo o que dizia me irritava. Que tremenda, intensíssima leveza discursiva! O que queria ele dizer dizer com as suas vagas afirmações?! Tão misteriosamente equívocas?! Sei lá o que queria ele dizer com o que dizia! Se calhar tinha problemas expressivos e eu pensei que fosse... timidez. Os homens são todos muito tímidos! Mentira. Não olhes para mim... A timidez disfarça tudo. Até a associei a alguma confusão passional. Agora, que terminou isso, o amor, percebo tão bem. Que treta! O homem era burro. É burro. Não tem nada a dizer, embora emita sons. Mas, digo-te, agradeço ao amor. Se não fosse ter-me apaixonado por ele num dia qualquer que já nem me lembro bem, nunca poderia chegar a este momento de clarividência.

terça-feira, 16 de março de 2010

Crianças

O Pingo Doce anuncia, esta semana, o seu cordeiro de leite, iguaria que se pode comprar ao quilo, já cozinhada, na secção de gastronomia.
Ouço cordeiro e leite e arrepio-me. Alguém come bichinhos recém-nascidos que ainda mamam, exactamente como leitõezinhos? Comem esses inocentes? Conseguem? Fazem a digestão? Tiram-nos à mãe, ainda cegos, matam-nos sem ouvir os seus guinchos perdidos? São as mesmas pessoas que amaldiçoam o rei Herodes que mandou matar todas as criancinhas? Não, não, aposto que são todos terroristas da ETA e da Al Qaeda, treinados para não sentir, acima de todas as coisas.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O amor e a raiva

Digo mal dos portugueses. Não suporto que digam mal dos portugueses. Digo mal da minha mãe. Não suporto que ousem criticar seja o que for na minha mãe. Dei porrada no meu pai. Não pensem que podem falar contra esse homem total sem que vos faça engolir as vossas palavras angulosas.
A raiva alimenta-se de amor.

domingo, 14 de março de 2010

Morrer de amor II

São também remédios muito bons para aliviar os sintomas que provocam a morte de amor, e passo a enumerar, com carácter totalmente aleatório, algum sol na carola, a Magnesona, um bom úisque bebido devagarinho, com uma pedra de gelo, o Centrum, noites e manhãs bem dormidas, o Mexazolam, um copo de vinho tinto do Alentejo à refeição, ou até dois, o Tonicê, frequentes banhos quentinhos, o Lorazepam, aranjar outro amor ou então não, mas, por amor de Deus, fazer qualquer coisa de útil; plantar alfaces, uma floreira de dálias ou ajudar solteironas a preencher impressos do IRS.

Camille Claudel

Os medíocres

O valor chama o valor tal como a mediocridade atrai a mediocridade.
É por isso que a política abarrota de medíocres, se profana pela mediocridade generalizada, e nos toma e governa como medíocres.
Aos medíocres convinha que a nossa bondade não tomasse nota da sua incapacidade, rapidamente adicionada de baixeza. Que a nossa humildade não questionasse o uso do seu poder, e que o concedesse ilimitado. Convinha-lhes que continuássemos a rodar, de cabeça baixa e diligentes, fazendo o país funcionar por eles e para eles.
E sejamos realistas, alguém tem de pôr as coisas a andar, porque os medíocres não sabem, não conseguem, e o pior é que se socorrem de medíocres exactamente iguais.

Morrer de amor

Não se morre de amor nem de tristeza nem de falta, mas de depressão ou de intenso desejo de morrer. Ia para dizer, eu cá não acredito, mas corrijo: tenho a certeza absoluta. Se o senhor Pereira apareceu morto no hall do seu apartamento, num 5º andar da avenida Pinheiro Chagas, coisa de um ano após o desaparecimento da dona Emília, e não tinha nada, peço desculpa, mas alguma coisa tinha. Entupiram-se-lhe uns vasos na cabeça ou no coração, que o senhor Pereira andaria a comer mal. Ou envenenou-se-lhe o fígado ou faltou-lhe o ar, mas não me venham falar de mortes por amor. Ovnis existem, e fantasmas, e vampiros. Mortes por amor é que não, desculpem-me. Todas as mortes classificadas pela autópsia como de amor seriam evitáveis com a toma diária de 20 miligramas de sertralina, ou qualquer outra substância química receitada por um médico de família estagiário. Tomam-se analgésicos, antibióticos, anti-inflamatórios, anti-coagulantes, mas antidepressivos é que não; tem-se medo, evita-se, porque na cabeça não se mexe. Depois morre-se, ou pior, passa-se, porque não se lhes mexeu na cabeça. Um cérebro não tem nada de especial. É um cérebro. Tal como o fígado e os rins, precisa de tratamento quando precisa de tratamento. Eu gosto mais de antidepressivos do que de gelados. Sobretudo, têm grande utilidade.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Vida íntima

Luana Cunha Ferreira pede ajuda no sentido de divulgar a sua investigação de Doutoramento, relativa à intimidade no casal, uma vez que dificilmente arranja casais que queiram participar na entrevista.

Transcrevo parte do seu mail:

A investigação de Doutoramento "Projecto Intimidades", focada na intimidade conjugal, e agora apoiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), já está a decorrer!

Precisamos de casais casados (não interessa há quanto tempo) ou em união de facto (que vivam juntos há pelo menos 2 anos) e que tenham pelo menos o 9º ano.

Queremos casais de várias idades (sem limite de idade), com ou sem filhos, urbanos ou rurais, de todos os espectros políticos, altos ou baixos, magros ou gordos, etc.

Agradecemos imenso a vossa ajuda na divulgação aos vossos amigos e familiares. Mesmo que não possa/não queira participar, há sempre um amigo que tem um amigo que pode conhecer alguém que queira participar.

O contacto para participar é projectointimidades@gmail.com ou o 91 330 1540.
Mais informações sobre o estudo no site do projecto.

Luana Cunha Ferreira
Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

Eu, como imaginam, adoraria participar e contar tudo, mas a culpa desta impossibilidade não é minha, e sim dos namorados que têm deixado fugir a maravilhosa oportunidade de ter uma linda vida íntima comigo. Paciência!

O cão do preto era branco II

Menina com cão (autor desconhecido)

O preto do cão branco. Eu conhecia essas conversas. Imagino-as. O meu pai perguntava-lhe notícias do bairro. Quando iam alcatroar a estrada, quem ia morar para o talhão G, como ia a vida, se queria um garrafão de vinho do bom, da Metrópole. E o negro do cão branco, naturalmente, respondia que sim, e falava da vida, do trabalho, dos filhos, das mulheres, das bebedeiras, do cão que queria estar sempre em nossa casa.

O cão tinha o pêlo hirto e passava fome. Pirata, Pirata… estás aí, amigo? Olha a menina das tranças louras, com pernas magrinhas, a que te dá os ossos e a farinha com carne? É bom, não é? Ficavas saciado e eu sentia-me tão completa por te ter saciado! O teu dono não te dava comida, apenas liberdade e porrada. E eu não gosto de agressores de fracos, que são quase todos.

Conferenciava com os meus pais uma possível transição do Pirata para nossa casa, mas o meu pai dizia não, não, e a minha mãe exaltava-se, nem penses em tal coisa, rapariga. Isso era comprar guerra aos negros. Era escarrapachar-lhes na cara que não sabem tomar conta do cão, que nem responsabilidade para isso têm, e nós não estamos aqui para arranjar problemas, ouviste? Os tempos não vão bons. És maluca, rapariga.
Assim, o Pirata ia transitando entre portões perante a permissividade do dono negro. O Pirata, e o meu pai, dedicado à troca de favores. O que recebíamos dos negros? Amendoim. Batata-doce. Espigas de milho. Aguardente de caju, uma vez por outra. Gado vivo para matar, que horror. Retribuíamos com panelas de belos cozinhados de carne feitos pela minha mãe: arroz de cabidela, coelho guisado… até lhes caíam os dentes, exclamava o meu pai. Se calhar já nem os tinham, penso eu.
Mas permito-me avançar. O meu pai gostava do preto. Gostava, porque eu conhecia bem aquele electricista, e sabia que quando descia da carrinha e se encaminhava para casa do vizinho, ia com vontade de falar, beber, gracejar. Viver a vida, esse sacrilégio que a minha mãe compreendia tão mal. O meu pai queria rir, falar sem cerimónias, com a camisa fora das calças, como um preto, qualquer dia pareces um preto, dizia-lhe a minha mãe. O que é que isso lhe interessava?! E o preto devia apreciar o meu pai. A naturalidade do meu pai. A atenção que lhe dedicava, bebendo juntos quase como iguais. A risada larga do branco. Como a sua. A autenticidade profunda do meu pai, uma extravagância, ser-se verdadeiro, ser-se como é, dizer-se o que se pensa. E se o eu pai fosse também meio negro?! Ai, se ele tivesse sabido! Se tivesse... percebido!

E quando se deu o 7 de Setembro, e nos escondemos no corredor da casa, para nos protegermos dos vidros partidos, de pedras que atirassem, de coqueteiles molotofe, da morte muito certa, sabíamos lá nós que morte, mas indigna, gratuita, raivosa, foi o preto do cão branco…. a minha mãe dizia que tinha sido Nossa Senhora, que Nossa Senhora nos salvara, mais as suas orações. Eu acredito muito nas orações da minha mãe, sempre acreditei. Mas, não, daquela vez foi o preto que desviou da nossa casa os amotinados. Foi ele que disse, aqueles brancos, não. Naqueles não tocam. Não sei que outro papel poderá ter tido nesses acontecimentos, mas quase garanto, embora não lhe conheça o nome, que lhe devemos as vidas. A não ser que o Santo Padre Cruz tenha descido sobre o coração dos sedentos de sangue e lhos tenha amolecido ao olharem para a casa, a minha casa da Matola, mas continua a parecer-me pouco provável.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ofereceu-me um filho

Começou numa noite de Janeiro ou Fevereiro, aí pelas três da manhã.
O meu quarto encheu-se de uma luz azulada que pensei vir da televisão por desligar. O clarão acordou-me; pus os óculos, assarapantada com tanto néon, e vislumbrei um anjo muito bonito, com as devidas asas brancas e o rosto do Mark Ruffalo, tudo filtrado a azul.
Eu sabia que o Mark Ruffalo era um anjo, foi o meu primeiro pensamento. Tinha lógica que fosse, porque quando o vejo nas fotos e nos filmes sinto-me sempre atravessada por um torpor beato. E ele disse-me, falando baixo, grave, rouco, com a voz arrastada que se lhe conhece, tudo em Inglês com sotaque indefinido e engolindo sílabas, este ano aprendeste a ser uma boa pessoa.
Eu?! Eu aprendi a ser uma boa pessoa?!
Escuta, Isabela, Deus está contente contigo, porque tens guardado o teu coração; porque o tens mantido puro no meio de toda a vileza...
Ri-me. Estás a brincar. Deus baixou o nível dos marcadores de pureza, não foi?!
… e porque Deus está contente contigo, mandou-me oferecer-te um filho.
Como? Por concepção divina, como a Maria? És o anjo da Anunciação? Vais levantar o braço e da tua mão sairá um raio de luz que me atravessará, como um vento, e…
Sim, como a Maria, a Senhora. Vou plantar essa semente no teu coração. O teu filho será um pardal dos telhados, por ordem do Senhor, e quando ele nascer cuidarás dele com todo o teu amor, como se fosse um menino humano saído da tua barriga, muito são. Nascerá na Primavera, e quando o tiveres criado, devolvê-lo-ás à liberdade, ao céu dos pássaros, porque, sendo teu filho, não é teu.
Logo senti o meu coração cheio. Gerava um passarinho minúsculo e frágil na aurícula esquerda. Andei assim umas semanas, com o coração mais lento, batendo devagarinho para não incomodar o passarinho. Nunca dormia voltada para o lado esquerdo para não apertar o menino. Nos princípios de Março, mais ou menos por esta altura, senti um aperto cardíaco. Uma dor aguda, muito aguda. Encolhi-me. Não conseguia respirar, que aflição, abri a boca, abri, abri, que agoniada, que mal disposta, que confusão de sensações, e o pardalinho veio-me à garganta, cheio de sangue.
Puxei-o para fora com o polegar e o indicador, e ali estava o mais belo filho deste mundo. A isto chamei eu, e de direito, parir pela boca do corpo. Um filho perfeitinho como qualquer mãe deseja. O biquinho. As patinhas. As asinhas molhadas. Os olhinhos fechados. Sacudindo-se de vida. Que felicidade, o meu filho!
Embrulhei o menino num paninho de algodão, limpei-o com muito cuidado e aconcheguei-o numa caixinha de sapatos forrada a trapos, muito quentinha.
O menino foi crescendo no meu amor e com a comidinha que lhe dava. Não lhe atribuí um nome, pois sabia que, sendo meu, não me pertencia, mas ao mundo. Era só o passarinho, o meu passarinho, o meu inho, o meu amor.
Em Maio, querendo ele voar, como percebi, segurei-o nas mãos, levei-o até à janela grande da sala, abri-a toda e disse-lhe, vai, meu querido, és livre, mas promete-me que voltas ao amor da mãe a cada solstício de Verão. E ele voou para Oriente, não sei para onde no Oriente, até que deixei de o alcançar.
Fechei a janela, voltei para dentro, e Deus, penso eu, que estaria presente nesse momento, como em todos, presenteou-me com uma segunda momentânea visão do anjo azul. Por segundos pude visualizar Mark Ruffalo sorrindo-me como os anjos sorriem; depois piscou-me o olho e desvaneceu-se. Senti os lábios mornos e húmidos e concluí que gosto que me apareçam anjos.
Agora, que a Primavera está por aí, aguardo a todo o momento o regresso do meu filho pródigo.
Hoje, esteve um lindo dia, por isso deixei as janelas abertas, esperando que o meu pardalinho entre por elas, muito em breve, e me pouse no ombro, e me pie, voltei, mãe, voltei.


Mark Ruffalo, o anjo da Anunciação

domingo, 7 de março de 2010

Caminhando sobre o arame, a muitos metros de altura

O telefone fixo tocou. Raramente toca.

- Estou?!
- Olá, menina Isabela.
- Sr. Simões, então, não apareceu ontem no Porto?!
- Ora, desculpe lá, esqueci-me de a avisar que vinha a Casablanca a convite de uma associação de poetisas da vanguarda islâmica. Daquelas que não andam todas cobertas nem obedecem aos maridos - e que eles têm de tratar como pedras preciosas que de facto são, porque as mulheres são deliciosas, são todas deliciosas.
- Que romântico! Fico contente por saber isso. E matou dois coelhos: fugiu a este clima inenarrável.
- Olhe, tenho para aqui estado na praia com a presidente da associação.
- Mas, diga, Sr. Simões... É alguma entrevista?!
- Nã, nã, nã, nada disso. Oh, Isabela, estive a ler o seu blogue no hotel e achei que tinha de lhe chamar a atenção para certas coisas que a menina escreve.
- Que coisas?
- Ouça... a menina tem consciência de que o seu blogue é lido por gente grada...
- Gente grada?! O que quer dizer como isso?
- Jornalistas, políticos, médicos, professores universitários, deputados, juízes, outros escritores...
- Não faço a menor ideia, Sr. Simões. O Sócrates lê o meu blogue? Por amor de Deus, dê-me notícias mais animadoras!
- O seu blogue também é lido pelos seus familiares, colegas, alunos, pais de alunos, vizinhos, etc., sabe isso?
- Teoricamente pode ser lido por toda essa gente, mas não quer dizer que seja. Podem ir lá uma vez ou outra, mas não estou a ver os meus vizinhos ou alunos...
- Isabela, o que eu lhe queria perguntar é como é que que pensa conseguir créditos de escritora depois de revelar publicamente a sua intimidade?
- A minha intimidade?!
- Sim, como é que sai à rua e vai trabalhar depois de escrever textos nos quais revela os seus problemas com a gordura e confessa que se abraça a chorar às cadelas? A Isabela pensa que os outros estão interessados em saber quando lhe aparece o período?
- O período não tem nada de mal. O período enquanto ideia literária, tal como a cona, é bastante poético.
- Oh, filha, a menina não é poetisa, graças a Deus! Esses seus textos sobre a mulher-a-dias, sobre si, sobre a sua mãe a ver telenovelas...
- Não são sobre mim!
- Sobre os seus óculos novos...
- Não são os meus!
- As dores nos ossos, a sua eterna inquietação, a casa da sua avó...
- Nãããoo sou eu, Sr. Simões.
- Não é você... A menina escreve-se ali toda, pela frente e pelo avesso, a sua vidinha toda escarrapachada... Os textos sobre os abortos...
- Abortos de uma personagem.
- Desculpe lá, menina, não me tome por parvo. Eu já lhe disse que tem de acabar com esse tipo de escrita confessional e passar à ficção, se tem a ambição de fazer carreira. Se não...
- Sr. Simões, acabei de lhe dizer que é ficção. Não sei o que quer que lhe diga mais.
(silêncio)
- Essa mulher pública, demasiado carnal e humana, que ocupa meu blogue, que se expõe à maldade do mundo, ou à sua bondade, sem medo e sem vergonha, não sou eu.
- Não é você!
- Não, acredite, não sou eu. É uma personagem cuja vida, por acaso, coincide imenso com a minha, mas, como disse, é uma personagem. Não julque que não a admiro, que não gostaria de ser como ela. É uma mulher fascinante, mas infelizmente não sou eu!
(silêncio)
- Está bem, somos ambas gordinhas, temos cadelas, mãe, abortámos, etc., mas trata-se de um acaso, e não vou destruí-la nem negá-la ou escondê-la, em nome de uma eventual confusão. É a minha personagem de eleição. Adoro aquela mulher, Sr. Simões!
(silêncio)
- Pense como é que a mulher frágil e doce, mas também consciente e coerente, que sabe que sou, se arriscaria a uma tão grande exposição?! Acha que me aguentaria? Que conseguiria lidar levianamente com a opinião dos outros e encarar os colegas do trabalho, como bem disse?
- Sabe o que sinto, Isabela?! Sinto que você é capaz de tudo. Que se presta a tudo. Que gosta de caminhar em cima do arame entre dois arranha-céus de Nova Iorque.
- Ah, ah, ah. Sr. Simões... O que lhe hei-de dizer?! É bonita, essa imagem. E gostaria de ter essa visão do mundo, lá do alto, é verdade, mas só a minha personagem - essa mulher que quer que eu cale - conseguiria realmente, caminhar sobre o arame. Só ela arriscaria tanto, para me vir contar as sensações, logo a seguir. E eu, garanto, registaria tudo na cabeça, com imensa atenção, para me lembrar no momento da escrita. Tudo o que tenho escrito, ultimamente, é ficcional, acredite! Aliás, a seguir ao livro prometi-lhe que me ia dedicar à ficção. Excepto a cena da Roménia. E só tenho uma palavra.
- Ficção, diz você?!
- Exactamente, ficção pura.
- Bem, Isabela, a gente fala melhor lá para a semana - estão a chamar-me para uma massagem das que fazem cá em Marrocos. Sabe, não sabe?! Não estou convencido, hein?!
- Está bem, Sr. Simões, vá em paz que falaremos quando se sentir mais relaxado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mais um exercício de humildade pública

O Alvim é lindo e diverti-me imenso. O Caderno ganhou o prémio Monstro - Livro do Ano.
Achei justo. Estava cheia de medo que o atribuíssem à recente-famosa História de Portugal de
Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Nuno Gonçalo Monteiro. Ainda se fosse aos meus restantes concorrentes singulares, calava-me, mas, sinceramente, um livro escrito por três homens?! São precisos três homens para redigir uma única e triste história na qual se vêem constrangidos a conjugar, em todos os tempos e modos, simples e compostos, os verbos perder, desistir, entregar, renunciar, condescender, recear, temer, evitar, contornar, silenciar, dobrar a espinha... Pensando melhor, acho que lhes vou enviar por correio a medalha.
Aqui deixo, para vosso gáudio, um breve apontamento fotográfico da sessão, devidamente legendado, e espero-vos, amanhã, na FNAC do Norte Shopping, seja lá isso onde for.



O Alvim perguntando-me como vivi a Guerra Colonial (ainda não leu o livro - as miúdas, as miúdas...)

Contando uma história na qual revelo que o prémio Monstro do Ano me foi premonitoriamente anunciado nos corredores do liceu.

Fernando Alvim esmagado pela minha verve.

Carinha laroca!

O meu marido desde há 20 anos (lamento só o assumir agora!)


Manuel João Vieira cantando letras nas quais usa vocabulário vernacular muito semelhante ao do Caderno.


Linda, fulgorosa, jovial: um monstro sagrado momentos antes da atribuição da medalha.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Monstro

Nomearam-me para Monstro do Ano. É uma nomeação que me persegue desde os tempos idos da escola.Também fui monstro na escola, mas nessa altura recebi o prémio.
Nenhuma novidade, portanto.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ossos

Os ossos de há quatro mil anos, esquecidos sob a terra, estão tão sozinhos. De lado, em posição fetal, sentados, deitados de costas sobre a cloaca depois cheia de terra. Estão por todo o lado, calcificados sob o nossos pés. Mesmo sós. Porque quem lhes deu vida já cá não está. Não havia outra saída. Uma pessoa não pode ficar para sempre a vigiar as suas ossadas, é preciso tocar em frente; para a frente que os de trás estão empurrando, ensinou-me a minha prima afastada.
Sinto carinho por esses ossos tão sós que há tanto tempo não recebem um abraço. Ainda vejo neles qualquer coisa: a forma de um corpo; esses restos ainda são as pessoas que os animaram. Não lhes pertencem, apenas. São os homens e mulheres e animais que pisaram, como eu, o chão escuro no qual estão enterrados.

Grande

Não escrevo sobre amor porque uma pessoa não pode pôr-se a escrever sobre o que não viveu. Não sabemos, ponto final. Posso escrever sobre a vida conjugal dos meus vizinhos de cima, mas não sei se sairá uma história de amor. Teriam de me deixar entrar e sentar-me por lá com um caderninho nas mãos, sempre atrás deles.
Escrevo sobre o meu pai porque foi o único amor que conheci. A minha história começa e acaba nesse homem que nenhum outro poderá igualar .
Para nos darmos ao luxo de sermos pequenos convém compensar com uma existência inquestionavelmente maior. É um binómio que rareia.

terça-feira, 2 de março de 2010

Vou ao Porto

A Ana Luísa Amaral, não estou a brincar, a Ana Luísa Amaral, herself, sem delegar em ninguém, vai à FNAC do Norte Shopping (a catedral!, como dizia hoje um colega meu) apresentar o Caderno. Leiam aqui, aqui.
Estou simultâneamente felicíssima e a morrer de vergonha, como numa espécie de dor que desatina sem doer.
Leitores(as) do Norte que reclamaram esta apresentação, e restantes, aproveitem agora para me tirar as medidas ao vivo, que eu só saio da minha mouraria em direcção a Norte, no máximo, uma vez em cada cinco anos.
Depois, é como diz a minha mãe quando acaba a sopa: finish.

Uma história para crianças

João Torres, do blogue Ninguém Lê, propôs aos leitores a ilustração de uma foto da sua autoria, na minha opinião, bem difícil de ilustrar. Resolvi participar, escrevendo uma pequena história para crianças. Gostaria que aqueles que têm filhos pequenos a testassem, e me informassem das reacções. Se os miúdos apenas exclamarem "que horror", prometo nunca mais escrever histórias infantis; contudo, se disserem "que horror" mas ficarem com os olhos muito abertos, presos às suas imagens, ponderarei continuar, e escrever, finalmente, a história de um certo gato. Esta pode ser lida aqui.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A mulher-a-dias vem amanhã, deixa-me ir já limpar a casa.

Toda a gente sabe que eu tinha uma mulher-a-dias filipina que nunca conseguiu aprender português e a quem eu dizia, the bleach is under the sink; did you dust the guest room?; are you available to come next friday? Para dizer a verdade, dava-me um certo estatuto.
Tinha. Já não tenho. Arranjou um namorado norueguês no H5, ele pagou-lhe a viagem, jurou amá-la para sempre, o que considerando a idade dele já não será muito tempo, e ela foi.
Não percebo esta atracção dos nórdicos por mulheres de pele amarela, mas há tanta coisa que eu não compreendo no mundo dos homens, que mais vale saltar para o assunto que se segue.
Estes casos trazem-me sempre à memória as palavras do meu pai. Não dependas de nenhum homem, tu não dependas de nenhum homem. E eu acrescento, de nenhum homem, de nenhuma mulher, de ninguém. Depender de alguém é perder uma enorme fatia de liberdade, e eu não saberia viver sem esse vício.

A minha ex-mulher-a-dias é pela minha idade, pelo que depreendo que ainda haja por aí muitas mulheres educadas para depender de alguém. Por outro lado, a revolução sexual trouxe para a ribalta um segmento masculino com especial predisposição para depender financeiramente. A minha mãe está sempre a avisar-me, olha que eles querem é chupá-las. Juro que não me rio do verbo expressivo. É uma forma de me avisar para que eu tenha cuidado com os homens, de preferência não arranjando nenhum, e ficando a tomar conta dela para sempre, como cabe a uma filha única solteirona e dedicada. Pois, tens toda a razão, digo-lhe, para a sossegar.

A minha prima afastada, quando soube que a minha mulher-a-dias arranjou namorado, aproveitou para me mandar um email onde se podia ler, Isabela, se a Chiang arranjou um namorado rico e tu nem um sem-abrigo consegues levar para casa, algo de muito grave se passa contigo.
Não lhe respondi, ainda. Talvez lhe diga qualquer coisa do tipo, "não achas que para uma mulher da minha idade arranjar namorado tem de ser um bocado burra?" Sei que este argumento colhe.

Bem, o certo é que isto é rei morto, rei posto. Hoje telefonei para um número que deixaram na caixa do correio com a seguinte publicidade, senhora moldava, oferece para fazer limpezas em casas, faço tudo, passar a ferro. Uma senhora moldava! Um grande viva para as senhoras moldavas, russas, ucranianas, biolorussas, romenas, brasileiras, angolonas, cabo-verdeanas que nos ajudam tanto a limpar as nossas casinhas e nos arrranjam as unhas e nos fazem massagens e limpezas de pele. Um grande viva todos em coro, por favor.
Adoro aquele português de Leste da Tatyana, nome da minha nova empregada, que há-de vir amanhã. Senhora morar onde? Querer quantas horas? Maravilhoso. Qualquer dia estou a falar como ela.
A minha mãe mandou-me imediatamente limpar a casa, aspirar, tirar a maior, porque parece mal a senhora vir pela primeira vez e estar a casa toda desarrumada.