terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um homem absolutamente normal, melhor que muitos homens

O conjunto de textos que divulgo neste livro só existe porque eu ainda amo o meu pai, porque tenho saudades de tudo o que nele era bom, e era muito. Percebo que falo dele com orgulho e admiração, mesmo quando narro episódios complicados, agravados pela sua personalidade impositiva, indomável. Era um filho-da-mãe corajoso, aquele cabrão! Se acreditava em algo, acreditava, e fazia-o, e ninguém lhe tirava tal coisa da cabeça. Para o bem ou para o mal. Só a minha mãe o quebrava. A minha mãe tinha uma forma mansa de o quebrar. Ele ouvia-a. Rosnava, mas passava ao lado. Mais ninguém tinha esse poder.

O meu pai nasceu pobre. Foi criado com muita dificuldade pela minha avó, que lavou muitas escadas nas casas das senhoras das Caldas para lhe dar de comer e o mandar à escola. Fez a 4ª classe; na tropa tirou a especialidade de electricista e estudou até ao 2º ano, dizia ele com muito orgulho. Era um autodidacta. Tinha uma boa cultura geral, porque lia muito, e ia ao cinema. Era um homem curioso pela vida, profundamente satisfeito com essa dádiva, que inspirava, enchendo bem os pulmões da sua energia. Essa foi a sua herança. O meu pai não me deixou contas no banco, deixou-me muito mais do que isso: a sua vontade de viver, a capacidade para se expor sem medo, para resistir à adversidade, para saber esperar, para fazer o seu próprio regimento de vida, vivendo segundo as regras da sua consciência, desprezando estrondosamente as aparências. Deixou-me capacitada para viver sozinha, para viver do meu trabalho, para saber mudar. O meu pai deixou-me uma fortuna incalculável.

Deixou-me, também, os braços carregados de amor. Com essa certeza de que fomos amados, muito amados, e de que pudemos retribuir, apesar dos dias maus, apesar de tudo, porque afinal não há grande amores sem grandes desilusões. Nunca conheci nenhum caso, e a grande paixão que nos envolveu não é uma excepção.

Lembro-me muito do seu sorriso, que era muito verdadeiro, muito brilhante. Dos seus olhos vivos, que também riam. Da sua gargalhada. Estou-me a rir, também, porque visualizo o seu rosto querido. Para mim, era um homem muito bonito. Penso que tenha sido o homem mais bonito que já conheci. Era também profundamente dadivoso, e sensível. Chorava em certas partes dos livros e dos filmes. Comovia-se. Gostava de toda a gente. Não se protegia de ninguém. Tinha um sentido de humor imbatível e era uma pessoa que não passava despercebida. Animava sozinho uma festa. Protegia todos os animais. Quando eu trazia para casa cães ou gatos abandonados sabia que podia contar com ele. Ele intercederia a meu favor junto da minha mãe, e os animais ficariam.

Nem sequer posso dizer que o meu pai não gostasse dos negros. Gostava deles, sim. Como inferiores. Mas era uma atitude paternalista. Era algo como, eu posso civilizá-los. Eles podem aprender comigo, e depois também serão electricistas e montarão as suas próprias empresas e deixarão de viver nas palhotas... Era efectivamente uma atitude civilizadora, colonial. O meu pai nunca foi um homem mau, e a sua brutalidade não continha perversidade. A zanga passava-lhe muito rapidamente.

O meu pai foi um ser humano como os restantes seres humanos. Se a ocasião se proporcionasse, dava uma facada no matrimónio. Imagino que se tivesse dinheiro até pudesse manter uma amante com casa posta, como os outros. Uma amante com casa posta era a coisa mais comum nos anos sessenta. Ouvi muitas conversas de mulheres sobre o assunto.
Foi um português exactamente como os outros portugueses e um colono exactamente como os outros colonos. Não tinha nenhum comportamento especial, diferente. O meu pai não era o Kurtz de O Coração das Trevas, lamentavelmente - até poderia dar jeito a alguém que ele fosse assim, mas não era. Era racista como os outros que eram racistas, e eram muitos, eu diria quase todos, na Metrópole e no Ultramar. Tal como hoje. Conhecem muitos portugueses que não sejam racistas e xenófobos? Eu conheço poucos. Os portugueses de hoje sabem o que podem dizer em público, mas lá em casa, ao jantar, podem ser racistas à vontade, que ninguém está a ouvir. Podem malhar nos imigrantes brasileiros e de leste. Podem desejar a pena de morte para os gangues da Quinta da Princesa e o resta da pretalhada que por aí anda. O meu pai foi melhor do que esses.

Eles riem-se

O teu pai deve estar a dar voltas na tumba, disse-me ontem o meu afilhado, o mais novo.
Não, não está. Não penses assim. Onde quer que ele ande agora, se é que anda, já se desprendeu da cultura na qual foi educado, e sei que concorda comigo. Porque agora poderá ver e sentir como se estivesse dentro de mim. E eu era uma criança. Não havia em mim preconceitos ou maldade. Eu era tábua rasa.
Riu-se. Gosta de me provocar. Depois diz, eu sei, e ri-se outra vez.

Anteontem, um primo que também esteve em Lourenço Marques, e que quando veio foi do MRPP, e do Guru Maharaji, e que fumava umas brocas jeitosas, disse-me, então, pá, estou a ver que escreveste isto à luz de uma interpretação actual do que aquilo foi.
Tu também estiveste lá, tu sabes o que aquilo foi. Não é um interpretação actual, nada. São as memórias de uma criança. Já leste?
Não, ainda não. Vou ler.
Olha que eu dou muita porrada nos brancos. E nos negros também, a certa altura. Comem todos.
Ah, porrada nos negros está certo. Pelo menos sabes que os pretos nasceram para levar porrada. E riu-se.

A minha família, ultimamente, acaba sempre as conversas comigo a rir.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Oh, Senhor Samuel

O meu problema não são os retornados das melhores famílias que tratavam o preto Samuel por Senhor Samuel, o senhor pode ter a gentileza de descarregar os sacos do camião, e isso - que estão horrorizados com o livro, e não se identificam nada com o que escrevo, porque o meu pai não sabia as declinações do Latim, e não passava de um electricista a fuçar pela vida, e o problema foi esse, mau berço, por isso é que tratava mal os negros - porque, vendo bem, até eram pessoas como nós, e choraram baba e ranho quando nos viemos embora. O meu problema é que tenho os pés gelados e não os consigo aquecer de maneira nenhuma.

domingo, 27 de dezembro de 2009

O meu agente

O meu agente escreveu-me do Algarve, de um turismo rural de luxo onde se encontra reunido com uma candidata a escritora, a qual lhe enviou, recentemente, o manuscrito de uns contos repletos de intertextualidades com Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. Assuntos existenciais, de uma profunda universalidade que bem merece discussão.
Mas o meu agente, onde quer que esteja, nunca me larga. De maneira que agora quer que eu línque este poste, e também este."É redundante", disse-lhe eu. "Olhe que é redundante. As pessoas já sabem, já viram, não vale a pena". Respondeu-me que será sempre útil mesmo que sirva não mais que uma alma, porque uma alma é já muito ser. Creio que sejam influências da escritora dos contos gregos.
Não vejo é forma de me escapar a mais esta solicitação. Um agente é como um pai, e quando ele fala, piamos fininho.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Prefiro os emailes

Enviam-me as mais líricas mensagens de Natal por sms. Desejam-me paz entre os homens e as mulheres, felicidades, confortos de vida. Assinam A., L., Ju. Mas quem é A., L., e Ju? Por favor, escrevam os nomezinhos para que eu saiba o que responder e não me sinta obrigada a proceder como quando encontramos alguém que aparentemente nos conhece muito bem, mas não fazemos a menor ideia quem seja, evitando referir nomes e particularidades.
Ou escrevam-me um emailezinho. Que lindos e práticos são os emailezinhos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Projecto "Noite de Consoada" - Ensaio 2

- Mãe, tu lembras-te que eu gosto de escrever, não lembras?
- Lembro.
- Bem, então a novidade é que eu agora escrevi outro livro.
- Escreveste?!
- Escrevi.
- Então, o que é que andaste tu a escrever?
- Olha, andei a escrever sobre aquelas coisas lá de África. Como era a nossa vida, como foi a descolonização e a vinda para Portugal.
- Se o teu pai estivesse vivo é que te podia contar muitas coisas.
- Pois podia. Mas eu vivi muitas coisas com o pai. Ele levava-me para todo o lado. Levava-me para dentro do caniço, lá para o Xipamanine, e para as obras que ele tinha aqui e ali. Eu andava sempre atrás dele.
- O teu pai adorava-te. Eras a menina dele. Tinha um orgulho em ti! Nunca vi! Estava sempre deserto por chegar a casa para brincar contigo. E tu com ele.
- E eu adorava-o. E adoro.
- Coitado, não pôde gozar a velhice.
- Pois não.
- Então, e não vais dar um livro desses à Gina?
- Já dei.
- E à tua prima e à tua madrinha...
- É melhor não.
- Não, porquê?
- Para já, a editora deu-me poucos livros, e aquilo é caro. Depois, não lhes interessa. E o livro tem as letras muito pequenas, até a mim me custa ler.
- Tens aí algum para eu ver?
- Não, por acaso agora não tenho nenhum, senão mostrava-te. Dei o último à Gina.
- Mas podes arranjar mais?
- Posso, mas tenho de pedir à editora, e aquilo ainda demora. Quando tiver mais exemplares mostro-te. Mas é uma coisa sem grande importância. É só um livrito com textos que ia publicando na internet.
- Olha, Isabela, tu tens é que ter muito cuidado com a internet, porque eu vi no programa da Júlia que há muitas mulheres solteiras, assim como tu, que têm sido enganadas por homens por causa da internet.
- Mãe, uma fatiazinha de bolo-rei?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sozinha

Sarah Beirão

Júlia era órfã, pobre, disciplinada e excelente aluna. Luís, rico, filho de médico, ele próprio estudante de Medicina, apaixonou-se por Júlia, desejando casar. Júlia não aceitou. Era necessário estudar, formar-se, triunfar pelo seu valor, sozinha. Depois, sim, depois casaria. Prometeu-lhe. Esta é a mais breve sinopse produzida sobre Sozinha, de Sarah Beirão, que li na infância, e que considero ter sido o meu primeiro livro a sério.
O meu agente não queria deixar-me incluir esta obra na lista dos meus 10 livros. Fiz finca-pé. Não faço listas de livros para parecer bem, ora essa, disse-lhe. O homem engoliu em seco.
Sozinha foi um livro sobremaneira importante para as mulheres da minha geração. Sarah Beirão escrevia sem quaisquer pretensões literárias, mas o interesse da sua obra está nas questões que levantava. O que ali podíamos ler, no início dos anos 70, e com o qual nos identificávamos, é que nós, mulheres, também tínhamos o direito a estudar, a ter uma profissão, e que isso era mais importante que o casamento, por uma questão de realização pessoal, mesmo que o casamento nos esperasse algures. E esperava, na maior parte dos casos.
Mais, que as meninas pobres, as filhas dos electricistas e dos canalizadores, e até as que não tinham ninguém no mundo, até essas, podiam progredir pela sua dedicação aos estudos. Ser gente, ser importantes no mundo, como os homens. Numa época na qual o destino das mulheres era o casamento e a maternidade, convenhamos que era uma mensagem deveras inovadora.
Tinha 8 ou 9 anos e um grande afecto por este livro, que requisitei mil vezes na biblioteca itinerante da Gulbenkian. A ideia da solidão... isto, é curioso... e penso agora... esta ideia da solidão, sobre a qual escrevia a propósito do Domingo à Tarde, de Nelson Ned, existia também nesta obra. Talvez eu perseguisse essa solidão desde muito nova. Eu também poderia estudar, ser professora, um dia, e chegar sozinha, pelos meus próprios meios, a um lugar digno, de cabeça bem erguida, sem vergonha. Ou talvez tivesse intuído que havia de vir um dia, não muito distante, em que me encontraria verdadeiramente só. Mais só que Júlia, talvez, e sem Luís algum. E talvez me preparasse para esse momento. Nunca saberei. Nunca chegamos a saber como acontecem tais coincidências nas nossas vidas.

Saudações natalícias da Micas e da Morena

A Micas e a Morena desejam as Boas Festas aos leitores do Novo Mundo, votos extensíveis aos que ainda não são, mas pensam tornar-se rapidamente.

video

Para o efeito, encomendei este vídeo, que me saiu caríssimo, ao Rui Manuel Amaral, bloguista, autor do clipe promocional do Caderno [aquele para o qual me obrigaram a dar 46 anos de cara!].
Aproveito para lembrar que o Rui Manuel Amaral publicou por esta altura, o ano passado, Caravana, um excelente livro de microcontos, cuja capa e conteúdo podem conferir aqui, e que constitui a minha sugestão de prenda de Natal atrasada.
Como este blogue se tem mantido imune a campanhas de publicidade diversas, acredito que confiarão na minha sugestão.
Ah, e atenção, este é o meu primeiro vídeo em blogue. Registe-se. Por este caminho, qualquer dia, quem sabe, ainda começo a postar citações de livros e traduções do latim!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O maravilhoso Natal da Isabela

Vem aí o Natal. Já o estou a sentir nas ruas. Andam todos em ritmo apressado, afogueados, como se o mundo, que há-se acabar um dia, acabasse hoje à noite às 21:32:14. Noto as faces excessivamente contritas do meu próximo, preocupado com os afazeres, as decorações, as prendas, as comezainas. E o pior é que acaba tudo logo no dia a seguir; melhor é o Carnaval que só termina na terça-feira.
Estou, portanto, a preparar-me, e a delinear uma estratégia de sobrevivência. Vai ser assim:
Um) Limpar a casa. E com limpar, não me refiro a atacar só a maior. Não, é aspirar tudo e limpar o pó e ver o cotão debaixo da cama. Tudo.
Dois) Aquecer esta casa como se estivéssemos no Verão, ir buscar a minha mãe à dela, e sentá-la aqui no sofá a ver programas de entretenimento e telenovelas durante dois dias seguidos.
Três) Comprar um bolo-rei, uma garrafa de álcool a mais que 13º e outra a mais de 20º, uma couve-portuguesa e duas postas de bacalhau do bom. Fritos, era o fazias! Talvez se possa comprar meia dúzia deles no café Colina.
Quatro) Aproveitar para ler uns livros atrasados e escrever uns textos, enquanto a minha mãe vê as telenovelas.
Cinco) Dar muitos beijinhos às meninas enquanto lhes pergunto, gostam de passar o Natal com a mamã?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Queimar-me

Queimar-me, 2009 [foto obtida a partir de imagens televisivas]

O meu quotidiano tem girado muito à volta do livro. Antigamente, era casa, trabalho, cadelas. Agora, é casa, trabalho, cadelas, livro, e o blogue ressente-se. Peço desculpa pela injecção de postes versando o tema, mas isto tem sido a minha vida e não posso iludi-lo.

Fui entrevistada para o Ipsilon, do Público, e a jornalista perguntou-me por que tinha eu escolhido o formato autobiografia. Não soube responder bem a isto. A resposta ocorre-me agora. Estou como o George, personagem da série Seinfeld, num certo episódio em que só lhe ocorre a deixa certa, a deixa espirituosa ou fatal, muito tempo depois do confronto.

Não é novidade para ninguém que a instituição literária sempre encarou a literatura autobiográfica como um subgénero de terceira. De forma geral, todo o discurso na primeira pessoa padece desta distinção negativa: diários, memórias, epistolografia. Por outro lado, o que é absolutamente contraditório, alguma da melhor literatura que a espécie humana produziu assenta em pressupostos autobiográficos assumidos ou não, o que me parece bastante natural. Quem escreve tem de partir de um conhecimento pessoal e íntimo do mundo. E não é culpa sua que esse conhecimento possa ser reconhecido como universal.

Escolhi o formato autobiografia, e não a ficção, porque nada disto é ficção, porque não pretendia esconder-me atrás de um faz-de-conta. Escolhi a autobiografia porque este relato tinha tudo a ganhar com o enorme impacto da realidade. Escolhi a autobiografia porque em nenhum outro subgénero me sinto tão livre, tão próxima, tão intima. Escolhi, por último, a autobiografia porque esta seria sempre a melhor forma de me queimar, e porque queimar-me é praticamente tudo o que sei fazer.
Era isto que devia ter respondido, Alexandra. Desculpe lá não me ter ocorrido na altura.

domingo, 20 de dezembro de 2009

A "desprovincialização"

Estive com um primo lá de Moçambique. Viu o meu livro. Expliquei-lhe que aquilo não era para ele. Concretamente, não era para a idade dele. Brinquei um bocado para iludir os nervos, o que é que se há-de fazer?
Disse-me que o título do Caderno está errado. Portugal não tinha colónias, mas províncias ultramarinas. Retorqui que, nesse caso, o título deveria ser Caderno de Memórias das Províncias Ultramarinas. Anuiu. Portanto, quando da entrega dos territórios africanos aos movimentos de libertação deu-se a "desprovincialização", não a descolonização. Porque já não havia colónias. E se eu não estiver alerta, limam-me mais meia dúzia de desconfortáveis arestas históricas.
Agora vai ler aquilo. Avisei os filhos: não acreditem em nada do que o vosso pai vos disser sobre o que aqui vão ler, porque nós estávamos todos lá, e vimos todos o mesmo, mas a maior parte não se lembra de nada; até porque escolheu não ver.
Enfrentar a família com esta verdade está a revelar-se uma tarefa complicada. E eu já esperava.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ensaio 1

- Sabes, mãe, eu tenho um sítio na internet onde escrevo textos.
- Ah, é? Sempre tiveste essa mania de escrever.
- Pois. Então, eu tenho escrito uns textos de que as pessoas gostaram e resolvi publicá-los num livro.
- Num livro para vender?
- Sim, já está à venda nas livrarias e tudo.
- Não me disseste nada.
- Pois não. Não calhou. Não é uma coisa muito importante. São só uns textos a explicar como era a vida lá em Lourenço Marques, e depois como foi a independência, e isso.
- Fazes bem em contar. As pessoas têm de saber o que nós sofremos. E que perdemos tudo.
- Sim, falo disso. Mas também digo um bocado de mal dos brancos, porque tu sabes que os brancos não tratavam muito bem os negros.
- Bem, havia lá uns patrões que eram muito carniceiros. Mas o teu pai, não. O teu pai sempre tratou bem os empregados. Até os convidava para os paus-de-fileira, e eu às vezes comprava daquela carne de segunda, aos quilos, para a guisar para eles, com massa ou arroz, e encherem a barriga, bebendo vinho que o teu pai arranjava. Embebedavam-se todos, e depois o teu pai tinha de os ir distribuir pelas palhotas.
- Pois era. Mas o pai às vezes também lhes dava uns encostos, que eu via.
- Muito raramente. Só aos que eram mais rebeldes. Aos que não gostavam de trabalhar. De resto, o teu pai era até muito bom.
- É verdade.
- Então publicaste esse livro e não vais dar um à tua madrinha, e à Tita?
- Não, elas são capazes de não gostar.
- Gostam. Elas ficavam contentes.
- Oh, mãe, o livro tem as letras muito pequenas e aquilo só para quem tem bons olhos.
- Pois, mas podem ficar com o livro como recordação.
- Só te estou a contar isto, porque podia alguém dizer-te, e preferi ser eu a primeira a contar.
- Fizeste bem.
- E se te disserem alguma coisa do livro, dizes que não sabes nada, que isso são coisas minhas.
- Está bem. E é verdade. Sempre tiveste essa mania dos livros.

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Banda sonora

Eu também não tinha nada para fazer ao domingo à tarde. Eu também vivia sozinha essas tardes tão tristes. Sim, sabia muito bem o que era passar o domingo sem ter um carinho. Sem amor era impossível viver. Mas era tudo uma questão de tempo, porque mais tarde ou mais cedo haveria de me aparecer um Gianni Morandi de falinhas mansas a convidar-me para sair ao Domingo à tarde, todos os fins-de-semana, e se eu já tivesse 17 anos, e tivesse boas notas, e o meu pai me deixasse... ai, a loucura que seria. A felicidade. Era uma canção toda escrita a pensar em mim. Certo, sabia que não era inteiramente para mim, mas senti-la como eu a sentia... haveria alguém capaz de sentir essa solidão, esse vazio como eu? Dificilmente.
O Nelson Ned poderia ser anãozinho, mas conhecia o amor e a solidão, como eu, sobretudo a última. E essa ideia levava a que me perdesse em cogitações marginais. Como seria a vida amorosa do anão brasileiro que cantava docemente, como um Sinatra? Passearia pela marginal do Rio de Janeiro rodeado de belezas de olhos verdes e raça indefinida, as quais lhe desvalorizariam o tamanho da perna em favor da beleza do canto? Os anões poderiam ser felizes? É que na nossa sociedade não eram lá muito. Mas se cantassem... Uma pessoa, cantando, safava-se sempre. Ou cantando ou praticando outra arte qualquer. Como o Malangatana, que pintava quadros, e as irmãs Jardim que não faziam nada mas saltavam de pára-quedas.
O Rui Bebiano, em A Terceira Noite, achou graça, no Caderno, a uma referência minha às músicas do Nelson Ned, que marcam o início dos anos 70, e a Angelus Novus, num raro momento de saudosismo, divulgou um dos temas mais famosos do deus da balada com sotaque do Brasil.Aproveitem para regalar os vossos ouvidos com a banda sonora dos meus 10 anos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ninguém

Lá em baixo não havia lugar para arrumar o carro.
É uma da manhã. Já ninguém me vai escrever. Ninguém me vai lembrar, Isabela é amanhã que tens de ir... Isabela, achas que eu deva.... Isabela, hoje lembrei-me de ti, porque... Já ninguém me responderá a carta alguma. Estão todos a dormir. A noite acabou.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Escolha

Imagine-se a seguinte situação: eu vivia numa sociedade fechada, na qual raramente se diz o que se pensa, escondendo-se a vida privada como o produto de um grande roubo.
Imagine-se, agora, que me davam a escolher um benefício, apenas um. Escolheria o respeito social dos outros, e, consequentemente calar-me-ia, ou preferiria a liberdade de continuar inteira, tal como sou, sem vergonha e sem medo, correndo o risco de que me considerassem "aquela gaja doida", e portanto sujeita a uma quantidade razoável de desprezo social. O que escolheria eu?

As lobas

Ultimamente tem sido uma sobredose de África, pelo que os meus leitores de fait-divers têm toda a razão em reclamar. Então, e as meninas? Já não se fala por aqui das duas meninas mais colunáveis de Almada? Ah, vou já remediar essa insuficiência noticiosa.

A Morena continua muito linda e sedosa. Por isso - bela desculpa! - todas as noites adormeço enrolada no seu pelinho de ursa polar. Agora dá muitos passeios sozinha, porque conhece a zona, e não está disposta a esperar por mim e pela Micas, que coxeia muito e progride lentamente. Quando não sabe de nós vai postar-se frente ao café Colina, mesmo que eu nem lá esteja. Todos a conhecem. Muitas vezes olha-me fixamente como se me decorasse; pergunto-me o que pensa de mim, o que vê em mim. Se lhe faço festinhas na cabeça, lambe-me as mãos. Quando saio do trabalho venho a correr para casa porque quem tem filhos tem cadilhos.

A Micas tem sofrido muitas dores nas pernas, e mal anda. Também lhe cresceram mais dois ou três lipomas e quistos sebáceos pelo corpo. Nada de grave. Nada que não chegue a uma cadela com 12 anos. Já tem o focinho todo branco. Para além de velha, está resmungona, comigo e com a Morena. Na rua parece um anjinho, e todos têm muita peninha dela, como se eu a maltratasse imenso. Há momentos em que me lembra a minha mãe. Os velhos são muito parecidos, mesmo entre as espécies.
Esta noite, acordou-me três vezes, pedindo que a tapasse. Faz um rum-rum, e eu sei que está a falar comigo. À terceira, pareceu-me mais um choro. Estava a chorar de frio na sua caminha. Trouxe-a para a minha, que felizmente é grande, metia-a dentro dos cobertores e dormimos as três de rostilhada, como lobas de matilha que somos de verdade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Voz

O meu agente solicitou-me, com muito bons modos, que pusesse isto, aqui. E eu pus.
Não é que me apeteça muito, mas parece que é o que tem de ser.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Na machamba, longe

Sonhei que o meu pai tinha deixado escritas algumas informações sobre o segundo correlacionado de tempo e espaço que nesta foto se observa.
Vi a sua caligrafia perfeita, clara, legível, com um ou outro erro ortográfico ocasional, mas uma sintaxe perfeita. As linhas tortas. As habituais chavetas com apartes informativos, sobre segmentos das frases. Vi a mancha da tinta já esborratada pelo tempo.
Tinha ocupado todo o verso da foto com informação registada em caligrafia miúda.
Consegui ler as primeiras palavras, mas depois pensei, leio o resto mais tarde, quando precisar de escrever o poste. Lembro-me que na primeira frase ele tinha escrito, "Esta foto foi tirada na machamba do [não se percebia o nome] num domingo em que se matou um cabrito..."
Há pouco fui confirmar o verso da foto: não há coisa alguma escrita. É por isso que eu gosto de sonhar. Fartam-se de falar comigo.

E eis-me perante uma foto que contemplo com fascínio, mas sobre a qual nada sei.
Imagino que tenha sido tirada na machamba de um amigo que se estabelecera umas boas centenas de quilómetros acima de Lourenço Marques, algures no meio do mato. Tinha uma cantina ou vivia da agricultura, ou ambas. Seria lá para o Chibuto ou para Inharrime. Chegava-se por estradas de terra batida.
O machambeiro teria vindo das Caldas da Rainha. Os colonos juntavam-se frequentemente com os conterrâneos. Se não era das Caldas, é provável que fosse um conhecimento que o meu pai fizera em solteiro, quando, ao chegar a Lourenço Marques, foi viver para a pensão da Dona Pureza, paradouro de muitos colonos nessa situação. Costumava mostrar-ma ao longe, porque a minha mãe não achava piada a nada que remontasse ao tempo em que ela ainda não chegara. É que ele era putanheiro, que ela bem sabia, e andava com pretas para aqui e para ali. Tinham-lhe contado. E nisso ela não queria nem pensar! A pensão da Dona Pureza, esse tempo da vida do meu pai, era tudo para apagar.

A filha mais velha do machambeiro, se for quem eu penso, veio estudar para Lourenço Marques e ficou hospedada em nossa casa. Tenho uma ideia muito vaga de uma linda rapariga com longos cabelos castanhos, presos na cabeça com uma fita clara. Tinha olhos tristes e doces, e um irmãozinho tão mais novo que parecia seu filho.
Quando acabou os estudos regressou ao mato, nunca mais se ouviu falar dela, e eu não estranharia se por lá estivesse ainda. Os machambeiros e cantineiros isolados aguentaram-se melhor, após a independência, que os restantes colonos. Tinham criado uma rede de apoios, de trocas.

Reconstruo esta foto a partir do total vazio de memória: era domingo, o machambeiro tinha mandado os pretos, que não estão na foto, matar um cabrito e amanhã-lo. A mulher fez com ele um grande guisado à moda da terra de onde tinha vindo. O meu pai levara uns garrafões de pinga portuguesa, da boa, comprada na candonga ou fora dela.
Os homens sentaram-se na mesa dos homens. As mulheres, na mesa das mulheres. Eram todos pobres, e equilibravam-se sobre caixas de fruta e barricas de vinho e azeite, à falta de cadeiras. Eram pobres, mas viviam muito melhor que na Metrópole. Eram, como dizia o meu pai, remediados. Tinha um cuidado especial em lembrar-mo.
A comida abundava, bem como o trabalho. Falavam muito das suas terras, mas não queriam regressar. Estavam bem. Estavam felizes. Ao domingo pegavam nos carros e conduziam 400 quilómetros para Norte ou Oeste para ir almoçar num sítio que não conheciam, mas que devia ser lá longe, sempre em frente. E depois esse tempo acabou, de repente, como um relâmpago sobre a planície.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O homem português

Quando penso no homem português dos anos 70 vem-me sempre sempre à lembrança o ti Gusto. Tornou-se uma inevitável referência grotesca. Uma viagem ao Inferno de um Portugal provinciano, atrasado e mesquinho.

Em 1976, mais coisa, menos coisa, o ti Gusto mantinha uma fábrica de louça nas traseiras da casa. Fazia terrinas decorativas, em barro, decoradas com flores todas à volta, mas sobretudo na tampa e nas asas, tudo do mesmo material. As flores eram compostas à mão, pétala a pétala, e as impressões digitais de quem as trabalhava ficavam nelas gravadas para sempre. O ti Gusto empregava umas raparigas da minha idade, que lhe faziam o acabamento da louça, e ali aprendiam a compor as mais belas magnólias em barro, a pintá-las de cor-de-rosa e amarelo, as folhinhas a verde, a colá-las nas terrinas que tinham acabado de se desmoldar e depois iam a cozer e, de seguida, a vidrar. As terrinas eram feias e não serviam para nada, mas em Portugal, nos anos 70, tinham muita saída. Eram obrigatórias no lote das prendas de casamento, tal como a colcha de cama toda crochetada em branco ou cru, com rosetas complicadas de grumos e um grande rosário em madeira trabalhada que se pendurava na parede da cabeceira da cama.
As mulheres achavam que as terrinas eram arte, pelo que o tio Gusto e as suas meninas eram artistas. O ti Gusto talvez gostasse do barro, mas do que ele gostava mesmo, e disso não me restam dúvidas, era de ter ali nas traseiras, à sua disposição, um ramalhete de meninas com os peitos duros e fresquinhos, umas mimosas, de face rosada e pele branca. Uns vasos de leite ainda morno, acabado de ordenhar às vaquinhas da fazenda. Eram assim doces.

O inverno era de gelo. Cinza, chuva e lama. Os domingos à tarde afundavam-se em tristeza. O trabalho estava feito. Podia descansar-se, e o descanso pode ser pernicioso para quem não se habituou a gozá-lo. Na televisão a preto-e-branco passavam filmes do Tarzan. E a Heidi, mais ao final da tarde.
O ti Gusto engraçava comigo. Via-se logo que eu era uma boa menina, bem educada, trabalhadora, por isso o tio Gusto chamava-me para a fábrica, nas folgas, para me mostrar o mistério das terrinas. Botava o barro nos moldes, fechava-os. Depois, abria outros com a mesma peça já cozida. Dizia-me que me aceitava para aprender a arte, e poderia largar a escola, se quisesse. Sempre faria o meu dinheirinho, para ajudar os meus pais que, quando chegassem de África, não haveriam de ter com que mandar cantar um cego. E que eu saía à minha mãe, que tinha sido uma rapariga linda, em nova. Mas eu era ainda mais cheiínha.

O ti Gusto cheirava a suor e a vinho misturados. A roupa exalava um odor velho, ácido, pastoso. Uns fios de cabelo gordurosos caíam-lhe sobre a testa oleosa. A barba suja por fazer. A barriga empinava-se-lhe, e as fraldas das camisas de flanela saíam-lhe por baixo do pullover. Coçava os órgãos sexuais amiúde, com as mãos sujas de barro, e as nódoas da terra seca manchavam-lhe a braguilha como símbolo do seu pecado.
Eu não acreditava que não tentasse chegar-se às meninas que lhe faziam as flores. Não era uma suspeita infundada. Era certinho. O homem roçava-se em mim pelas estreitezas da fábrica. Sentia-lhe o sexo teso enquanto me desviava. O ti Gusto fechava a porta da fábrica quando para lá me levava aos domingos à tarde. Por causa do frio. E ia-se encostando. Pousava as manápulas grosseira no meu cabelo, agarrava-me o queixo, mexia-me no grosso dos braços e na cintura como se fosse meu mais dedicado protector.
Tinha um filho mongolóide. Tinha tido azar, coitado. Só um filho, e ainda por cima com aquela doença perversa. A ti Gusta usava uma bata de quadrados azuis, um lenço com flores e umas chanatas de cabedal preto. O mesmo durante o ano inteiro. Cozinhava sopas de couve com batata ou grão guisado com toucinho. Nunca falava. Sorria como um lobotomizado. Eram todos os três analfabetos, e tinham em casa, sempre fechada, uma sala com uma mobília de jantar em boa madeira, toda torneada. E sofás de pele falsa. Viviam na cozinha, sentados ao borralho; chegado o sono, atiravam-se para cima das camas e dormiam como cadáveres.
Toda a gente considerava o ti Gusto um homem muito bom, porque tendo um filho incapaz não o abandonara no asilo. Toda a gente tinha pena dele, porque a mulher não tivera barriga para lhe dar outro herdeiro. O ti Gusto era um poço de virtudes provincianas. Só eu sabia a verdade. Eu e as cabritinhas das terrinas. Nunca abordámos o assunto, mas parecia-me claro que o homem que me atirava contra a porta de zinco ondulado para me apalpar as mamas, esmagando-se contra mim, o faria a qualquer outra.
O homem não era apenas asqueroso e vicioso, mas limitado das ideias. Um pobre de espírito. Um animal que perdeu a inocência e se conspurcou com o lixo da matéria. Não creio que fosse possível estabelercer grande diferença entre o ti Gusto e os restantes homens da aldeia que desejavam meter as mãos pelos lugares quentes do meu corpo.

O rei está morto

Está sempre aqui. Insiste. Não sabe viver sem mim.
Agora temos a mesma idade. Já não somos família, mas dois adultos, cada um do seu lado, à espera.
Aposto que me olha sorrindo, com os olhos a brilhar, e pensa, "filha-da-mãe, és mais teimosa do que eu; não descansavas enquanto não ganhasses".
E eu rio-me. Ganhei, claro. Rio-me não por ter ganho, mas porque ele está aqui, e a sua presença pode ainda camuflar a solidão sem bandeira para onde o medo e o silêncio me atiraram.

Grande cabrão, levaste-a boa, mas ganhei eu, vês?! E tudo o que precisei foi estar quieta, esperar, persistir, esperar. Agora, se quiseres, já podemos beber um copo juntos. Enfrascarmo-nos, até, como velhos borrachos do teu tempo. Discutir política. O Salazarzinho, de novo. Pretendes voltar a explicar-me por que foi ele, no teu entendimento, o salvador da tua triste pátria? Não, não me aborreço nada. Fala à vontade. Não tenho medo nenhum. Repara, agora somos iguais; não tenho a obrigação de aparentar nada para teu orgulho. Posso rir-me na tua cara. Posso ser igualzinha a ti, sem vergonha, e provo-te num ápice que não conseguiste ver para além da tua pele. Que estavas errado. Oh, agora sabes. No essencial, meu caro, permaneceste fechado nas tuas conveniências e perdeste o grande quadro das realidades humanas. Para um homem inteligente, e mais, cristão, não foi lá grande currículo. Quem ama o próximo não selecciona a quem amar. Bem vês que tenho razão.
E agora estamos no mesmo barco e tu já não és o comandante. Não imaginavas nada, pois não? Admite que não estavas à espera deste xeque-mate. Que foi bem pensado.
Mas não foi pensado. Foi a ordem natural dos acontecimentos. Foi a tua herança.
Entretanto é tarde. Pousa o copo sobre o lava-louça e vamos dormir, porque sempre nos foi demasiado difícil levantar cedo.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O problema que não existe

Antigamente, passava nos nossos lugares e ficava triste. Era triste que pudessem lá continuar, existindo sem nós. Era triste que existíssemos ainda, e já não fôssemos nós. Era triste e era injusto. Mais do que isso, era um erro. Um equívoco. Contas mal feitas. Eis como tinha sido possível esculpir grosseiramente dois seres humanos tão infelizes!
Mas isso era antigamente.
Há um momento incerto em que paramos para pensar no "nosso problema", e a questão que se põe é "porque é que os lugares onde estivemos são difíceis de enfrentar e se tornaram um problema"? Que problema é esse, concretamente? Bem, fartei-me de pensar e o problema já não existe. O que ficou foi espaço a mais. Um vazio não ocupado. Um vazio que deveria ter sido coisa precária. Porque, quanto ao resto, o que interessa que tenha existido tristeza, injustiça, equívoco, contas mal feitas, que nós já não sejamos nós?! Ficou tudo para trás há dezenas de anos! O Tribunal do Santo Ofício também foi um erro, uma injustiça, mas agora apenas me suscita respeito. Confesso que não fico triste ao atravessar o Terreiro do Paço.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Retrato

Alguém a fazer alguma coisa, desde que nu

Há agora por aí um espectáculo único que toda a gente quer ver. Chama-se Rapazes Nus a Cantar, e o que acontece durante o tempo de exibição é que alguns rapazes, efectivamente nus, cantam.
Ora bem, chegados a este ponto, gostaria de sugerir outras ideias de sucesso aos produtores de espectáculos da nossa praça. Por exemplo: raparigas mamalhudas a dançar; rapazes baixinhos, carecas e com alta miopia a fazer malabarismos enquanto recitam os Lusíadas; raparigas com perucas barrocas a cantar composições góticas; rapazes pernetas, vestidos de mulher e interpretando La Traviata. Se puderem mostrar uma ou duas partes do corpo nuas, melhor.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Jessicas

Chorava copiosamente, voltado para a parede, quando passei por ele.
- O que é que lhe aconteceu, Rui?, perguntei-lhe.
Não me respondeu. Chorava, chorava alto. Não se voltou. Perguntei ao colega, que o olhava impávido, o que poderia estar na origem de um estado de espírito tão desolador. Tinha sido a namorada. A namorada tinha acabado com ele.
- Mas, agora? Acabou agora?
Sim, tinha sido há poucos minutos atrás. Tinha acabado. E pronto. Fora-se embora.
E chorava agarrando a cabeça, despenteando os cabelos, inspirando o ranho que era muito.
- Oh, Rui, deixe lá isso. Não chore, rapaz. Ela acabou consigo hoje, mas amanhã já pode ser tudo diferente. Você fala com ela e compõe as coisas.
- Não, não há hipótese, ela disse que já não dava, que não queria mais. E foi-se embora. - disse-me isto tudo num arrasoado inundado de ranho, nunca parando de chorar.
- Pronto, foi-se embora, mas há aí muitas miúdas. Você arranja outra namorada rapidamente. As coisas resolvem-se. Não esteja assim, homem! Acalme-se, vá lá.
- Mas eu gostava dela. E ela foi-se embora, e ainda há dois minutos passou aqui e já se ia a rir.
- Deixe-a rir. Não interessa. Você é que não devia estar aqui neste choro, num lugar onde passa toda a gente. Depois vêem e vão contar-lhe. E olhe que o choro não convence ninguém a voltar com a palavra atrás. Mais vale você levantar a cabeça, puxar pelos galões do orgulho e passar por ela como se não fosse nada. Como se nunca tivesse gostado dela. Isso é que resulta.
- Eu quero lá saber que lhe vão contar - rebentou ele. - Até parece que só namorávamos há dois dias, mas não, a gente andava há... há 18 meses. - E chorando, com violência, arregaça a manga da camisola e mostra-me o interior do braço.
- Está a ver o que fiz por ela? - e chorava.
E eu vi. Na pele branquinha do braço, acima do pulso, desenhada com letra antiga, lia-se uma enorme tatuagem, muito bem feita: Jessica. Houve um momento em que hesitei. Uma tatuagem emudece, realmente. Mas não desarmei, que uma pessoa vai-se habituando à resposta rápida.
- Pronto, o que está feito, está feito, deixe lá ... e isso, agora, apaga-se tudo. Olhe a Angelina Jolie, quantas tatuagens já apagou? Qualquer dia faz-lhe outro desenho por cima e nunca mais se lembra. A vida é assim, o amor é pior, e toca a andar para a frente. E se não a quiser apagar, olhe, garanto-lhe que há por aí muitas Jessicas que de certeza gostariam de o ter como namorado.