Mas acha que há assim tanta diferença entre fingir e falar a sério? [Arthur Schnitzler, A Cacatua Verde]
Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010
Balanço
Domingo, 26 de Dezembro de 2010
Dores em caixinhas
Ideia roubada aqui, depois de passar a vida a entrar para ver e ouvir o vídeo.
Tenho dores fechadas em caixinhas
Contra mim, contra ti, contra lá,
Contra os dias que passam, a meu lado.
Tenho dores fechadas em caixinhas,
contra aqui, contra ali, contra cá
Que me dizem, estou aqui, estamos lá.
Ah, diz-me lá, diz me aqui
Oxalá, oxalá te veja a meu lado ao pé de mim.
(...)
Nota importante: as casinhas coloridas (são pombais) encontram-se no Morro de Cacilhas, que a autarquia tranformou em parque de estacionamento - entrada livre aos fins-de-semana. As flores campestres, no mesmo local, só na Primavera.
Sábado, 25 de Dezembro de 2010
Imortal
O meu pai adorava o ritual da fava, e eu, quando era pequena, ria-me. Quando regressou a Portugal, tinha eu quase 22 anos, a fava continuava sendo assunto de grande importância na mesa de Natal. Quem teria obrigação de oferecer o próximo bolo-rei? A certa altura decidi fazê-lo provar o seu veneno. Localizava a fava na parte de baixo do bolo, na lateral, ou camuflada entre frutas e fazia com que lhe saísse, recorrendo a cálculo e previsibilidade incipientes. Era fácil tirar-lhe as referências: entre a cereja cristalizada e o figo ou mesmo por baixo da pêra ou a um centímetro da laranja, do lado da melancia. Saía-lhe sempre. Mesmo quando era ele quem encetava o bolo. Conhecia-o bem demais, podendo antecipar a fatia que escolheria para si, e não me custava extrair a fava e voltar a inseri-la por baixo.
Pequeno segredo
Habilita-te
Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010
Tenho medo de ir à rua
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010
Pare de tomar a pírula
Inês e Carlos, a viver juntos há apenas um ano, deixaram de se preocupar com a contraceção e levam uma vida muito mais sossegada.Se me pedissem para caraterizar a minha Prima Afastada com uma única palavra, diria "prática". Também é despachada, de verbo fácil, mas de todas as mulheres que conheci, esta é a mais capaz para avaliar as relações qualidade-preço seja do que for.
Já chegou da terra, com o carro carregadíssimo para o Natal. Este ano, as suas prendas para amigos e familiares serão cobertores com mangas, daqueles que nos permitem estar quentinhos a ver a Casa dos Segredos, de comando na mão, prontos a mudar para o Ídolos, nos intervalos. A Prima Afastada, fã do cobertor com mangas, esteve a explicar-me que não só poderemos agora "passar o Natal com o aquecimento desligado, como é o melhor e mais natural anticoncecional disponível no mercado, embora só sirva durante o Inverno". Fiquei contente: até Abril posso pausar a pílula.
Zé Manel, feliz no sofá, certo de que a namorada não tem qualquer possibilidade de engravidar nos próximos 5 anos (prazo de garantia do cobertor com mangas).
Amigos que antes planeavam realizar vasectomias e laqueações de trompas.
Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
Mi obsesión
Antonio SkármetaPelos motivos apresentados, raramente vejo entrevistas a escritores. Não há água suficiente para tamanha seca.
Assisti a uma entrevista televisiva a Antonio Skármeta, por mero acaso, enquanto estive no Havai – felizmente a RTP2 chegava ao hotel graças a uma potente antena parabólica mandada instalar por um instituto português que se encarrega de divulgar no estrangeiro a nossa língua e cultura, o que faz, das 9 às 5, com uma dedicação e amor à causa nunca vistos. Conhecia vagamente o nome de Antonio Skármeta por associação ao filme O Carteiro de Pablo Neruda, a que assisti uma vez ao lado de um aluno cego a quem fui recontando todos os diálogos, e isto não se esquece. Contudo, nunca li nenhum livro de Skármeta até ao momento em que escrevo este texto, e não tinha até aqui qualquer motivo para me interessar por ele. Vi a entrevista porque o homem tem um sorriso lindo que me fascinou. Um escritor a sorrir, hein?!
Deixei-me ainda prender pela sua simplicidade e naturalidade, pelo castelhano lento e rombo do continente americano, com que se exprime, e porque o início da conversa referenciou o amor como tema importante na sua escrita, e pensei para mim, deixa lá ver como é que te espalhas, se será ao comprido, ou se ficas apenas sentado no chão? Tive esta curiosidade. E fui má, descrente.
Não mudei o canal. Durante os 46 minutos da entrevista, Skármeta mantém com o jornalista uma conversa sem tiques, sem complexos, falando sobre o amor e a vida com calma e sabedoria. Eu não conseguiria cortar o texto da entrevista: não tem partes menos boas. Surpreender-me-ia muito que este homem escrevesse mal.
E o que diz Skármeta, afinal, sobre o amor, esse sentimento tão caro à literatura, porém tão maltratado pelos escritores desta geração e da anterior, que declararam a sua morte para instaurarem o reinado do mal, perversidade, vazio, caos, incoerência, solidão, bla, bla, bla, como se eu e a malta aqui do bairro desejássemos menos que luz, lógica e felicidade para alimentar a nossa alma e a dos nossos filhos a pão fresco e rosas?
Oferece-nos o que se diz do amor desde a Antiguidade. Que constitui o centro à roda do qual tudo se constrói ou destrói numa vida humana. Que é uma teia. Que é obsessivo. E eu, que tentei fugir a essas garras de rapina, as neguei, que jurei a quem quisesse ouvir-me que não importavam para mim nem, aliás, para ninguém, escutei-o beatamente. Sim, é isso, que simples! O amor obsessivo, na presença ou na ausência. É igual. O amor que se consuma não atormenta mais do que aquele que se deixou passar. Obsessivo. Teimoso. Manso e bravo à vez. Aos repelões, porque ou é como eu quero ou não é, meus senhores. É isso, o amor.
Quando a entrevista acabou, sorri como Skármeta, e procurei uma folha de papel na qual escrevi ao meu amor, na Bessarábia, a milésima carta que os carteiros nunca fizeram o favor de lhe entregar, e na qual lhe pergunto, logo a abrir, e para poupar latim, meu querido, quanto tempo mais manterá a inútil, longa guerra tão distantes do meu peito morno essas mãos que anseio beijar?
Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010
A propaganda da pobreza
Tem razão, dona Ermelinda, o que é preciso é saúde e umas boas entradas e melhores saídas. Sobretudo saúde, e não é mentira nenhuma, pensando no serviço prestado no Hospital Garcia de Orta, quem é que não precisa de saúde?!
Dizem que lê portugué son tujur gé. Eu tenho outra versão: lê portugué son tujur masoquiste hardore.
Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010
Esperança
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
Isabela de férias (antecipadas)
É possível que a minha presença não se note muito por aqui nos próximos dias. Tenho uma viagem marcada para o Havai, pelo que, se não me cancelarem o voo, vou gozar as delícias de um veraneio autenticamente anestésico, que tantos milagres poderá fazer pelo meu corpo e alma, tão esgotados nesta altura da vida, ou melhor, do ano.
Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010
As palavras são inocentes

Mas voltando à história lá de trás. Umas semanas depois desta aula fomos em visita de estudo ao Palácio de Mafra, de onde D. João VI e D. Carlota Joaquina saíram em fuga para o Brasil. É o palácio mais mixuruca que já visitei. A guia explicou que tal se devia ao fato de os reis terem mandado embarcar o recheio do palácio. Seja. Há uma sala que se encontra repleta de chifres de veado, que embora se designem por outro nome, não deixam de ser cornos dos grandes e com ramificações. Carlota Joaquina terá incentivado muito o marido a enriquecer a coleção. Creio ter sido a sala na qual D. João preferia sentar-se.
Domingo, 12 de Dezembro de 2010
Estou-me cagando
Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010
Já não consigo proteger-te

Sentou-se aos pés da cama enquanto eu lia a revista do Expresso do último sábado.
Já leste o que escreveram sobre mim?
Não tenho feito outra coisa no último ano, pai. – e continuei a ler.
É chato.
É incontrolável. Não posso impedir que te leiam da forma mais simples. Eu é que tenho de viver com a tua duplicidade. Eu é que tenho de me equilibrar no fio da navalha com o que foste e representas para mim. Para os outros és um homem como outro qualquer. Um ex-colono. Um retornado. Ninguém te deve nada.
Tu deves.
Eu?!
Tu és a minha filha. Uma filha… - calou-se.
Uma filha não desonra o pai, não é?!
Continuou calado, com os olhos no chão. Fechei o jornal.
Não estejas assim. Não interessa o que outros pensam de nós. Tens que te haver com a tua consciência como eu tive que me haver com a minha tantas, tantas vezes. Como tenho…
Como tens agora?
Como tenho agora. E não sei para quem é mais difícil esta situação, se para ti, se para mim, que tenho de viver todos os dias com essa culpa.
Arranja-te. Eu não pedi isto.
Pediste, pediste. Estiveste a pedi-lo muitos anos. Pedias todos os dias. Não sabias, mas eu escutava esse pedido endereçado pela tua moral vestida de preconceito.
Ainda não consegui perceber como é que a minha filha querida, o meu tesouro…
Devias aceitar-me. Eu aceitei-te. Não podia ser de outra forma. Achas que podia alterar a ordem das coisas? Restava-me viver com isso o melhor possível. E fi-lo. Quanto ao resto, desculpa, mas já não está na minha mão proteger-te.
Mas garantiste que ias tentar.
Tenho-o feito o mais possível. Tenho dado o litro para te humanizar, mas uma coisa são as minhas declarações, outra o livro, que tem vida própria. As pessoas tiram as suas conclusões. Não posso ir a casa de cada um esclarecendo, Olhe, se faz favor, durante a leitura do próximo capítulo lembre-se que as pessoas não são perfeitas, nem ele nem eu nem o senhor…
Enfim, o que havia de te ter dado para escreveres o raio do livro.
Rio-me.
Se eu te disser que quando saí de Lourenço Marques já pensava escrevê-lo, acreditas?
Isso foram ideias que os teus amiguinhos comunas te meteram na cabeça. Eras uma garota quando saíste de Lourenço Marques.
Mas não era parva. Guardei estas memórias com um cuidado que não podes imaginar. Tinha-as cristalizadas, muito intensas. Fui deixando cair lembranças acessórias, seleccionando. No final ficou só o essencial, até porque o meu cérebro precisava de espaço para registos posteriores.
Abriste a caixa de Pandora. Eles até dizem que eu fui um grande consumidor de prostituição.
Deve ser por causa da cona das pretas.
Não te ensinei essa linguagem. Nunca me ouviste falar dessa maneira. E nunca fui consumidor de prostituição.
Olha, a mãe conta que quando chegou a Lourenço Marques, e andava contigo na Wolkswagen, às vezes iam a obras fora da cidade, e que as pretas começavam a aproximar-se da carrinha vindas não se sabe de onde e ficavam à tua espera.
Ah, isso, a tua mãe… ela não percebia. Eram umas pretas que a gente conhecia… era uma troca de favores, não era prostituição. Bebíamos umas cervejas, que as pretas bebem bem. Mas só os solteiros que viviam na pensão da Pureza. E isso foi só antes da tua mãe chegar.
Eu não sei, não vi nada. Ouço, apenas.
E as pretas não eram como as portuguesas. Para elas era tudo natural.
Imagino. Isso devia dar-vos um jeito…
Eh, pá, tu estás como os outros. Queres analisar a vida daquele tempo, em África, à luz daquilo em que vocês acreditam hoje.
O que eu sei é que podias, como diz um amigo meu, ter controlado os ímpetos. Conhecendo-te, deixa-me dizer-te que não me parece nada estranho que tivesses dado grandes machadadas no casamento, com negras, não sei em que termos, e com brancas, e sobre isso estou melhor informada.
Ora esta. A tua mãe bem podia estar calada.
Isso tens que lhe ir dizer a ela, mas tem cuidado com a forma como lhe apareces que ela está com 87 anos e um coração fraco.
Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010
Quem és tu?
Voltei a lembrar-me do assunto ontem, quando dois alunos me perguntaram se ia passar este Natal sozinho. Respondi que tinha companhia e fitei-os sem perceber. Não se convenceram. Acrescentei, pensam que sou uma pessoa muito solitária, não é?! Sim, pensamos. O stor fala de si sempre como estando sozinho. Vai passar o Natal com quem?
Sorri mais uma vez. “Com a minha mulher, com familiares. Não é que não seja solitário, mas não passo o Natal sozinho.” Não lhes menti, contudo não lhes revelei toda a verdade. A verdade embaraça.
Em que parte de mim percebem eles tristeza e solidão? Tenho a piada tão fácil. Falo de mim como estando sozinho?! Não faço a menor ideia. Dou aulas sem pose, sem esforço. Lembro-me lá agora do que digo! Procuro falar de forma ordenada sobre os temas e textos que tenho à frente, mas é frequente ocorrerem-me ideias que não planeei. Não tenho nada de especial a revelar nem a esconder. Não sou especialmente sábio, embora goste de pensar. Não acredito muito nos meus ensinamentos, mas sei que posso aconselhá-los a ler, escrever ou pensar sobre uma crise, uma revolução. E esse trabalho, se o quiserem fazer, vai fazê-los crescer.
Talvez eu seja apenas o espelho do que sentem, do que já são. E nesse caso não sou eu que sofro a tristeza nem a solidão. São eles.
Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
Projeto de livro sobre Francisco Sá Carneiro para crianças com menos de 6 anos
Domingo, 5 de Dezembro de 2010
Ganhar dinheiro com a falta de dinheiro
De onde vem esta gente, pergunto-me. A que esquema se dedicavam no tempo da abundância?
Eu, que nunca tive jeito para ganhar dinheiro, espanto-me com tanta capacidade de adaptação e improvisão mercantil.
Estamos todos muito mais católicos
Sábado, 4 de Dezembro de 2010
Hoje, na Fnac Chiado
- Vou.
- Estava tentado a ir consigo.
- E por que não, sr. Simões?! Traz mais alguém?
- Ninguém… Tem cá estado a Stefanie, a escritora brasileira que veio com uma bolsa… já lhe contei… mas foi ontem de férias para a Baía e só volta a 3 de Janeiro.
- Não leva a sua esposa?
- A minha esposa?! A minha esposa, ao sábado à tarde, fica sempre a passar a ferro.
- Ah!
- Sabe se o Rui Manuel Amaral tem agente?
- Não sei. Mas amanhã pode perguntar-lhe isso. Gostava de o representar?
- Se você lhe desse uma palavrinha…
- Posso dar. Gosta dele?
- O rapaz tem muito espírito, humor e non sense. É o mestre da história breve em Portugal.
- Diga-lhe isso. Olhe, e venha então buscar-me por volta das 3.
- Oh, Isabela, eu estou sem carro. Estava a pensar se menina não se importaria de me vir buscar pela mesma hora.

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010
O que revela o teu lixo?
A modernidade alterou a nossa relação com muitos objetos, pelo que tudo tem de ser repensado em permanência. Antigamente despejávamos o balde do lixo diretamente no contentor. Agora separamo-lo em sacos. Cada saco de lixo é propriedade privada?
Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010
O guionista que não sabe descrever
É impossível de descrever?! O homem é escritor e está-me a dizer que é impossível de descrever?! Se um escritor não consegue descrever sentimentos, a quem caberá a tarefa?
Dizia eu que os textos das novelas da TVI são maus, lineares, as personagens previsíveis e mal construídas...


