quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Balanço

Para alívio dos leitores, não vou fazer qualquer balanço final nem de início de ano. São duas as razões: passo o ano a fazê-los - sempre que um vaipe me atinge sai um; por outro lado, faço balanços todos os meses, sobretudo a partir de dia 10 ou 11, e esses com algum desespero. E chega.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Dores em caixinhas



Ideia roubada aqui, depois de passar a vida a entrar para ver e ouvir o vídeo.

Tenho dores fechadas em caixinhas
Contra mim, contra ti, contra lá,
Contra os dias que passam, a meu lado.
Tenho dores fechadas em caixinhas,
contra aqui, contra ali, contra cá
Que me dizem, estou aqui, estamos lá.
Ah, diz-me lá, diz me aqui
Oxalá, oxalá te veja a meu lado ao pé de mim.

(...)

Nota importante: as casinhas coloridas (são pombais) encontram-se no Morro de Cacilhas, que a autarquia tranformou em parque de estacionamento - entrada livre aos fins-de-semana. As flores campestres, no mesmo local, só na Primavera.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Imortal

Em Moçambique, obviamente, também se comia bolo-rei com fava e brinde, o que infelizmente acabou por cá. Quando afirmo que toda a vida fui portuguesa, e que um colono, a menos que se tivesse enfiado pelo mato e cafrealizado, toda a vida era português, olham-me com algum espanto. Mas era assim.

O meu pai adorava o ritual da fava, e eu, quando era pequena, ria-me. Quando regressou a Portugal, tinha eu quase 22 anos, a fava continuava sendo assunto de grande importância na mesa de Natal. Quem teria obrigação de oferecer o próximo bolo-rei? A certa altura decidi fazê-lo provar o seu veneno. Localizava a fava na parte de baixo do bolo, na lateral, ou camuflada entre frutas e fazia com que lhe saísse, recorrendo a cálculo e previsibilidade incipientes. Era fácil tirar-lhe as referências: entre a cereja cristalizada e o figo ou mesmo por baixo da pêra ou a um centímetro da laranja, do lado da melancia. Saía-lhe sempre. Mesmo quando era ele quem encetava o bolo. Conhecia-o bem demais, podendo antecipar a fatia que escolheria para si, e não me custava extrair a fava e voltar a inseri-la por baixo.

Deixava-se enganar facilmente. Ou colaborava. Divertíamo-nos muito e eu tenho saudades das materialidades do nosso amor tão imortal.

Pequeno segredo

Passar o Natal de dieta constitui uma negação cultural tão profunda que corre o risco de se tornar dolorosa. Nunca experimentem. Há coisas que só eu aguento, logo, deverão continuar-me destinadas, como engolir fogo, dormir sobre a neve, morrer mantendo um corpo, ou até mesmo passar o Natal de dieta rigorosa.
Mas, ontem, à noite, às escondidas, acerquei-me da mesa da consoada, ainda com os bolos, e comi um pastel de nata em miniatura. E, hoje, depois do almoço, ainda melhor!, um minúsculo sonho de abóbora e cenoura, muito enxutinho. Que sabores tão intensos!
Mas claro que isto é uma coisa muito proibida. E não fiz por mim, mas em homenagem ao Menino Jesus.

Habilita-te

O telefone toca.
Isabela, és tu?
Sim.
Querida, não imaginas a dificuldade que tive para arranjar o teu número de telefone. Tive de telefonar para uns amigos de infância que são amigos de uns amigos teus...
Quem fala?
Amor, sou eu, o Rui, o homem pelo qual tu esperas para viver o resto dos teus dias... o teu biscoito...
Espero?!
Sim, minha delícia, disseste que ias esperar por mim para sempre, que passaríamos juntinhos uma velhice tão linda num lar de terceira idade na Charneca da Caparica.
Oh, Rui, por amor de Deus, uma mulher tem necessidades. Não podes ligar a tudo o que uma pessoa diz. Sou jovem, sou linda, sou inteligente... Estou cada vez melhor. Compreende: é que são sete cães a um osso com muita carne.
Eu sei.
Pois sabes.
Mas, oh, minha loba das estepes, não me desgostarás.
Se calhar já desgostei.
Isabela, tu não casaste, pois não?
Olha, Rui, que pena! Vieste tarde.
Casaste?
Casei.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Tenho medo de ir à rua

Prepara-se o fim-de-semana mais chato do ano: aquele em que até ateus se tornam cristãos sem querer.
A ver se ganho fôlego para um fim-de-semana invadido por mensagens natalícias, que, explicando de forma a que todos percebam, consistem em palavras, expressões, frases, discursos inteirinhos pejados de lugares-comuns, de ideias que se repetem sem que alguma vez se tenha pensado no que significam.
Tenho de ir à rua comprar os jornais, mas tenho medo. Quantas histórias de Natal vou ter de engolir? Quantas explicações sobre a tradição do bolo-rei, do bacalhau, do polvo, do peru?
Até prefiria ler o O Cavaleiro da Dinamarca pela 86ª vez.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pare de tomar a pírula

Inês e Carlos, a viver juntos há apenas um ano, deixaram de se preocupar com a contraceção e levam uma vida muito mais sossegada.

Se me pedissem para caraterizar a minha Prima Afastada com uma única palavra, diria "prática". Também é despachada, de verbo fácil, mas de todas as mulheres que conheci, esta é a mais capaz para avaliar as relações qualidade-preço seja do que for.

Já chegou da terra, com o carro carregadíssimo para o Natal. Este ano, as suas prendas para amigos e familiares serão cobertores com mangas, daqueles que nos permitem estar quentinhos a ver a Casa dos Segredos, de comando na mão, prontos a mudar para o Ídolos, nos intervalos. A Prima Afastada, fã do cobertor com mangas, esteve a explicar-me que não só poderemos agora "passar o Natal com o aquecimento desligado, como é o melhor e mais natural anticoncecional disponível no mercado, embora só sirva durante o Inverno". Fiquei contente: até Abril posso pausar a pílula.


Zé Manel, feliz no sofá, certo de que a namorada não tem qualquer possibilidade de engravidar nos próximos 5 anos (prazo de garantia do cobertor com mangas).

Amigos que antes planeavam realizar vasectomias e laqueações de trompas.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mi obsesión

Antonio Skármeta

Aos escritores tenho medo que me pelo! Se ao menos fizessem a barba. Apanho-lhes um ar grave, triste ou presumido. Por vezes os três juntos. Em Portugal, meteram na cabeça que têm de dizer coisas de tal forma solenes, que de tanto vigiarem o discurso nada de verdadeiramente belo lhes sai. Deixam-se fotografar em sítios horríveis, cheios de papel velho pelo chão, como se o apocalipse nuclear acabasse de varrer a Terra e só eles se tivessem salvado, porque são inteligentes e sofridos ou porque pertencem a uma casta a proteger. O meu maior pesadelo seria meterem-me numa mesa de escritores para discutir assuntos literários sérios. Metam-me sempre em mesas de pessoas que não queiram ser senão gente e tragam-nos vinho e pastéis de bacalhau à discrição, que nos entenderemos.
Pelos motivos apresentados, raramente vejo entrevistas a escritores. Não há água suficiente para tamanha seca.

Assisti a uma entrevista televisiva a Antonio Skármeta, por mero acaso, enquanto estive no Havai – felizmente a RTP2 chegava ao hotel graças a uma potente antena parabólica mandada instalar por um instituto português que se encarrega de divulgar no estrangeiro a nossa língua e cultura, o que faz, das 9 às 5, com uma dedicação e amor à causa nunca vistos. Conhecia vagamente o nome de Antonio Skármeta por associação ao filme O Carteiro de Pablo Neruda, a que assisti uma vez ao lado de um aluno cego a quem fui recontando todos os diálogos, e isto não se esquece. Contudo, nunca li nenhum livro de Skármeta até ao momento em que escrevo este texto, e não tinha até aqui qualquer motivo para me interessar por ele. Vi a entrevista porque o homem tem um sorriso lindo que me fascinou. Um escritor a sorrir, hein?!
Deixei-me ainda prender pela sua simplicidade e naturalidade, pelo castelhano lento e rombo do continente americano, com que se exprime, e porque o início da conversa referenciou o amor como tema importante na sua escrita, e pensei para mim, deixa lá ver como é que te espalhas, se será ao comprido, ou se ficas apenas sentado no chão? Tive esta curiosidade. E fui má, descrente.
Escrever e falar sobre amor, nos dias de hoje, que coragem! Deixei-me estar com uma pinha colada na mão esquerda e o comando na direita, esperando pelo segundo em que poderia finalmente mudar para a SIC Radical onde apanharia, de certeza, um episódio antigo do Seinfeld. A SIC Radical também é muito vista no Havai.
Não mudei o canal. Durante os 46 minutos da entrevista, Skármeta mantém com o jornalista uma conversa sem tiques, sem complexos, falando sobre o amor e a vida com calma e sabedoria. Eu não conseguiria cortar o texto da entrevista: não tem partes menos boas. Surpreender-me-ia muito que este homem escrevesse mal.
E o que diz Skármeta, afinal, sobre o amor, esse sentimento tão caro à literatura, porém tão maltratado pelos escritores desta geração e da anterior, que declararam a sua morte para instaurarem o reinado do mal, perversidade, vazio, caos, incoerência, solidão, bla, bla, bla, como se eu e a malta aqui do bairro desejássemos menos que luz, lógica e felicidade para alimentar a nossa alma e a dos nossos filhos a pão fresco e rosas?
Oferece-nos o que se diz do amor desde a Antiguidade. Que constitui o centro à roda do qual tudo se constrói ou destrói numa vida humana. Que é uma teia. Que é obsessivo. E eu, que tentei fugir a essas garras de rapina, as neguei, que jurei a quem quisesse ouvir-me que não importavam para mim nem, aliás, para ninguém, escutei-o beatamente. Sim, é isso, que simples! O amor obsessivo, na presença ou na ausência. É igual. O amor que se consuma não atormenta mais do que aquele que se deixou passar. Obsessivo. Teimoso. Manso e bravo à vez. Aos repelões, porque ou é como eu quero ou não é, meus senhores. É isso, o amor.
Quando a entrevista acabou, sorri como Skármeta, e procurei uma folha de papel na qual escrevi ao meu amor, na Bessarábia, a milésima carta que os carteiros nunca fizeram o favor de lhe entregar, e na qual lhe pergunto, logo a abrir, e para poupar latim, meu querido, quanto tempo mais manterá a inútil, longa guerra tão distantes do meu peito morno essas mãos que anseio beijar?


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A propaganda da pobreza

Gostava de governar Portugal. Juro. É francamente fácil governar meia dúzia de gatos pingados que se deixam enganar, roubar, e permanecem caladinhos, convictos de que o mereciam, de que a culpa lhes pertence totalmente, os preguiçosos, incompetentes, e o Governo, coitado, não tem outra solução. Há melhor contexto para se deter o poder?!

Os países europeus com salários mínimos de 800 euros entram em convulsão social porque lhes tiram o subsídio de centro comercial, e nós ouvimos as notícias e pensamos com os nossos botões, ah, coitadinhos dos nossos governantes que têm de nos dirigir, pois o que hão-de eles fazer?!, é a vida. Temos de sofrer. E seguem-se as peças sobre a caridade, os sem abrigo, o Natal das famílias antes remediadas, que agora descem à rua para recolher lautas refeições de bacalhau no forno com batatas fritas e arroz distribuídas por legiões de voluntários que não são capazes de dar abrigo a um cão morto de frio. Por um prato daqueles também desceria à rua, se cá viessem. É pratinho que, dividido por taparuéres, daria bem para três refeições. E segue-se o casamento do sem abrigo que arranjou uma noiva empregada doméstica, e mais o Natal dos Hospitais, e as reportagens dos programas da manhã e da tarde: a pobreza envergonhada, as instituições necessitadas de apoio, as ajudas de berço e de cama e de sofá. Uma valente injeção de propaganda sobre a pobreza. Que felizes que somos! As estrelas de telenovela dão a cara para afirmar inteligentemente que teremos todos de aprender a ser pobrezinhos, mas que não faz mal desde que se continue honesto, remendado e lavadinho. Que temos de pensar na abundância de que beneficiámos nos últimos anos. Olho para o écrã como se me tivessem acabado de esmurrar o nariz. Qual abundância dos últimos anos? Não dei por nada. Eu até me tornei cliente do Minipreço! Dei foi por ir a Vigo comprar cabazes de supermercado bem mais baratos do que os que componho deste lado da raia.

Estamos felizes com a crise. Agora, sim, já somos pobrezinhos a sério. E vamos passando esta mensagem na rua, no café, no emprego, o que é preciso é saúde, vão-se os anéis, fiquem os dedos, um bom natal, apesar de tudo, que bacalhau não nos faltará nem uma fatia de bolo-rei. E depois logo se vê.

Somos uns bons. Atiram-nos a chão e não nos levantamos. Não vale a pena porque não temos sorte, sabemo-lo bem. A senhora do café diz que isto, dona Isabela, é derivado da ditadura. Fomos muito amordaçados, amesquinhados. Mas a senhora do café não sabe que eu percebi que o que somos não resulta da ditadura. Pelo, contrário, a ditadura só encontrou terreno livre para progredir porque sempre fomos o povo que hoje se nos apresenta. Nunca precisámos da ditadura para nos amordaçar, amesquinhar, destituir. Fazêmo-lo sozinhos, mas já se sabe que com ajudinha das instituições que detêm o poder, e boa promoção mediática, a obra é perfeita.

A maior parte dos portugueses tem saudades da ditadura. Ordem, contenção, tudo o que é valor tradicional transformado em bandeira. Não se viam estas desgraças. Nem havia homossexuais nem pedófilos. Nem cancro nem vícios nem a corrupção da internet. Belos tempos!

Entretanto, sabemos todos que a partir de Janeiro nos vão roubar uma fatia significativa do salário, sendo que antes já não chegava, mas tem que ser, não é? Pois é. Também aumentaram os impostos no início do ano, teve que ser. É a vida, meu amigo. Somos portugueses... escumalha. A gente desenrasca-se!

E a 1 de Janeiro sobem os preços de todos os bens de consumo de primeira necessidade, transportes, gás, eletricidade e o resto por arrasto. Até parece que acabaram de aumentar indiretamente a percentagem dos cortes salariais na função pública. Parece, mas não deve ser. E se for é porque não há outra solução. O que interessa é que haja saúde, e um bom Natal, ó Silva, tenho aqui esta garrafinha de Bushmills que estava no Jumbo a metade do preço. Ganda promoção, meu amigo! Um feliz natal, muitas filhozes, a barriga cheia e quentinhos. E eu vou passando e pensando, quentinhos só se for com os efeitos do álcool, porque convém não ligar os aquecedores. Felizmente, a Ideia Casa comercializa, agora, um cobertor com mangas que nos permite estar quentes e usar o comando de tv sem destapar os bracinhos. Eu juro que tenho vergonha. Não contarei isto aos meus amigos espanhóis, suecos, irlandeses, que antes não compreendiam como passávamos o Inverno sem aquecimento central. Um cobertor com mangas para andar por casa. Se me disserem que lhes contaram, desminto. Haja algum pudor.

O senhor Presidente da República foi ao Natal dos sem abrigo dizer que é preciso ajudar, que é preciso arranjar oportunidades de vida. E eu perguntei à dona Ermelinda, que estava mesmo ao meu lado a ver o telejornal, mas a senhora lembra-se de este homem ter feito alguma coisa para ajudar ou arranjar oportunidades enquanto foi primeiro-ministro ou presidente? O que entende ele por ajudar e conseguir oportunidades? Será a caridade? Será o belo do bacalhau do forno que distribuem em Santa Apolónia, à noite, que aquilo até lhes deve dar indigestão, e no dia seguinte terão de beber mais vinho para ajudar a empurrar o colesterol do bucho?!
Ah, dona Isabela, mas é um senhor tão honesto, com uma família tão bonita, e a esposa até é professora de Português como a menina!

Tem razão, dona Ermelinda, o que é preciso é saúde e umas boas entradas e melhores saídas. Sobretudo saúde, e não é mentira nenhuma, pensando no serviço prestado no Hospital Garcia de Orta, quem é que não precisa de saúde?!

Dizem que lê portugué son tujur gé. Eu tenho outra versão: lê portugué son tujur masoquiste hardore.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Esperança

Admito, tenho uma adição e é grave. É o primeiro recurso que me ocorre quando me sinto frágil, acreditando que vou morrer. Há dias mais fáceis em que julgo ter-me livrado de um vício amargo que nada me traz, nem ar, nem alimento, nem esquecimento, apenas ilusão. Mas não, está sempre ali, rindo-se para mim com os dentes branquíssimos, um certo ar celeste. Volto-me, corro na sua direcção, ajuda-me, livra-me, não me fujas. E ele fica muito abraçadinho a mim como se eu fosse ainda uma criança. Estou aqui, minha querida, como poderia eu abandonar-te após todos estes anos de vida em comum?! E aquela voz dá-me segurança, ou seja, segura-me, e choro muito enquanto me abraça, beija e adormece. Tenho tentado esconder do mundo este vício tão fora de moda, tão sixties, que afinal se aguenta, se esconde bem, obrigando-me a um esforço grande pelos dias enfeitados a hidratos de carbono e doses extra de queijo e peperoni. Se ao menos me permitisse sangrar do nariz, se tivesse a gentileza de me deixar cair na valeta e partir a testa, insultar o patrão. Mas, calhou-me ser das que podem jurar que tudo no universo caminha para o lugar que lhe pertence, que é preciso saber esperar. E eu espero. Entretanto, venha uma dose de batatas fritas para a mesa nove.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Isabela de férias (antecipadas)

Isabela nas suas últimas férias de praia, acompanhada por uma amiga.

É possível que a minha presença não se note muito por aqui nos próximos dias. Tenho uma viagem marcada para o Havai, pelo que, se não me cancelarem o voo, vou gozar as delícias de um veraneio autenticamente anestésico, que tantos milagres poderá fazer pelo meu corpo e alma, tão esgotados nesta altura da vida, ou melhor, do ano.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

As palavras são inocentes


Há uns anos atrás, falando com os miúdos sobre registos de língua e respetivos contextos, mencionei que certas palavras muito cabeludas da nossa língua, pelas quais eles manifestam particular apreço, começaram por ser vocábulos de uso corrente em tempos recuados, encontrando-se registadas em crónicas e textos jurídicos medievais sem conotações com baixa linguagem. Expliquei-lhes, por exemplo, que encontraríamos vocábulos desses na transcrição de testemunhos prestados a um tribunal, mas também em crónicas do paço.

Devo ter-lhes dito que mantenho afeto por essas palavras muito antigas cuja semântica se foi alterando, e corrompendo, e que só não as incluo no meu discurso, reabilitando-as, porque ninguém o compreenderia. Acrescentei alguma informação sobre a tendência para designar realidades e atos "menos próprios" usando o eufemismo, e de certeza que esclareci essa figura de retórica bem como a sua oposta. Deixei claro que para comunicar sem equívocos ou dissabores temos que adaptar o nosso discurso ao auditório. Podia ter-lhes dito, tout court, que o calão só é usado em contextos muito grosseiros, falado por pessoas de baixa índole, etc. Mas não é o meu género de aula, e os meus alunos sabem que eu não sou grosseira nem de baixa índole, pelo que posso partir desse saber prévio para lhes falar sem luvas de látex.
Confesso que nunca tive problemas com o método, e que os alunos saem-me sempre da mão com uma boa consciência linguística, sem complexos de maior relativos ao uso da língua materna, capazes de a usar com o máximo rigor expressivo, e sabendo muito bem explicar por que motivo as línguas não só não têm autor como possuem a capacidade de nos recriar como povo. Faço-lhes a cabeça sem dó nem piedade.

Mas voltando à história lá de trás. Umas semanas depois desta aula fomos em visita de estudo ao Palácio de Mafra, de onde D. João VI e D. Carlota Joaquina saíram em fuga para o Brasil. É o palácio mais mixuruca que já visitei. A guia explicou que tal se devia ao fato de os reis terem mandado embarcar o recheio do palácio. Seja. Há uma sala que se encontra repleta de chifres de veado, que embora se designem por outro nome, não deixam de ser cornos dos grandes e com ramificações. Carlota Joaquina terá incentivado muito o marido a enriquecer a coleção. Creio ter sido a sala na qual D. João preferia sentar-se.

Avancemos. Chegados aos quartos, a guia começou a explicar a quem pertenciam. Aquele era o do rei, o outro, o da rainha. E o amigo Tiago, na altura totalmente dominado pelo vigor das hormonas, cuja batalha tinha perdido, e, tal como eu, amante dos vocábulos verdadeiros, sem mancha, que valem apenas pelo que designam, sem juízos de valor associados, pergunta à senhora, dos píncaros da perícia linguística recentemente adquirida, e com o ar mais natural do mundo, se os reis fodiam no quarto dele ou no dela, lá mais adiante. A senhora fez uma longa pausa para cair em si, os colegas riram-se, e eu aproveitei para mudar de sala, porque temi não conseguir controlar-me. Oficialmente não ouvira nada, e, aliás, nem conhecia o Tiago de lado nenhum.
Do outro lado percebi que o garoto levava uma reprimenda subordinada ao tema “uma coisa é a irreverência própria da idade, outra a falta de educação”. O miúdo era meu aluno há três anos e posso jurar que travava luta inglória com o sistema hormonal, isso sim, mas nunca fora mal-educado. O incidente ficou por ali. Não houve queixas.
No exterior do palácio, vindo o rapaz defraudado, tive de lhe lembrar a parte em que lhes explicara ser necessário adequar o vocabulário ao auditório. Disse-lhe que algumas palavras tinham de se manter privadas. Ele só me respondia, mas stora, stora, é uma palavra sem mal nenhum. Ela queria que eu dissesse "faziam amor", mas eles nem se amavam, é ou não é verdade?
Sou incapaz de me lembrar disto sem me aparecer nos lábios um enorme sorriso.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Estou-me cagando

Veio cá a casa uma doutoranda em Sociologia colocar-me algumas questões inteligentes sobre o Caderno, às quais respondi, como sempre, com uma burrice exemplar. Disse-me que no seu doutoramento, no CES, em Coimbra, incluíram o livro numa das cadeiras sobre literatura pós-colonial, e que vão estudá-lo, estão a estudá-lo, qualquer coisa deste género. As pessoas tratam muito bem o Caderno e, por arrasto, dedicam-me uma atenção que nem sequer mereço. Como diz o Matt Damon ao canal E, parece que estou a viver uma vida que não me pertence. Não passo de uma professora do secundário cujos colegas costumam considerar incompetente por permitir aos alunos certas liberdades criativas.
Gostava de escrever mais, muito mais. Todos os dias me ocorrem ideias estapafúrdias e razoavelmente literárias, mas tenho tanto trabalho com as liberdades criativas que permito, que a literatura com caráter organizado tem ficado para último. Precisaria de umas férias longas, mas, como qualquer português dos que trabalham para ganhar a vida, sou levada a escolher entre o prazer de escrever e um ordenado certo que me permita pagar a renda de casa.
Tenho muito para dar à literatura, pensei há bocado. Depois reformulei, mentira, estou-me cagando para a literatura, em geral, e portuguesa, em particular. A literatura é que tem muito para me dar, na medida em que possa absorver o que me apetece escrever, não o que seja apropriado ou útil ou sirva os valores altíssimos do Sistema, seja qual for a tendência. Escrever umas redações a que outros chamam literatura dá algum jeito, permitindo poupar uma fortuna em psicanálise, e o efeito é o mesmo. O recetor é constituído por uma massa de cérebros e vozes capazes de articular huns-huns enquanto vou atirando à fogueira demónios impossíveis de queimar, debitando matéria, estabelecendo relações, sintetizando. De resto, estou-me cagando de alto para os temas importantes, para a ficção, para a narrativa, para a História, para ser muito séria e ficar bem nas fotografias. Não me interessa pensar a literatura nem os escritores nem definir-me assim ou assado. Se conseguisse definir-me não estaria tão destituída de ajuda para levar as cadelas à rua ou trazer-me medicamentos quando fico doente. Se encaixasse em algum lugar, alguma coisa podia dar-me ao luxo de ter febre, sofrer do fígado, de ciática e morrer nos braços de alguém dilacerado de desgosto. No meu caso, e em nome das cadelas que não têm culpa da mãe que lhes calhou, convém sobreviver saudavelmente. Os que dependem de nós impedem-nos de descarrilar, e por eles vamo-nos mantendo viáveis.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Já não consigo proteger-te


Sentou-se aos pés da cama enquanto eu lia a revista do Expresso do último sábado.
Já leste o que escreveram sobre mim?
Não tenho feito outra coisa no último ano, pai. – e continuei a ler.
É chato.
É incontrolável. Não posso impedir que te leiam da forma mais simples. Eu é que tenho de viver com a tua duplicidade. Eu é que tenho de me equilibrar no fio da navalha com o que foste e representas para mim. Para os outros és um homem como outro qualquer. Um ex-colono. Um retornado. Ninguém te deve nada.
Tu deves.
Eu?!
Tu és a minha filha. Uma filha… - calou-se.
Uma filha não desonra o pai, não é?!
Continuou calado, com os olhos no chão. Fechei o jornal.
Não estejas assim. Não interessa o que outros pensam de nós. Tens que te haver com a tua consciência como eu tive que me haver com a minha tantas, tantas vezes. Como tenho…
Como tens agora?
Como tenho agora. E não sei para quem é mais difícil esta situação, se para ti, se para mim, que tenho de viver todos os dias com essa culpa.
Arranja-te. Eu não pedi isto.
Pediste, pediste. Estiveste a pedi-lo muitos anos. Pedias todos os dias. Não sabias, mas eu escutava esse pedido endereçado pela tua moral vestida de preconceito.
Ainda não consegui perceber como é que a minha filha querida, o meu tesouro…
Devias aceitar-me. Eu aceitei-te. Não podia ser de outra forma. Achas que podia alterar a ordem das coisas? Restava-me viver com isso o melhor possível. E fi-lo. Quanto ao resto, desculpa, mas já não está na minha mão proteger-te.
Mas garantiste que ias tentar.
Tenho-o feito o mais possível. Tenho dado o litro para te humanizar, mas uma coisa são as minhas declarações, outra o livro, que tem vida própria. As pessoas tiram as suas conclusões. Não posso ir a casa de cada um esclarecendo, Olhe, se faz favor, durante a leitura do próximo capítulo lembre-se que as pessoas não são perfeitas, nem ele nem eu nem o senhor…
Enfim, o que havia de te ter dado para escreveres o raio do livro.
Rio-me.
Se eu te disser que quando saí de Lourenço Marques já pensava escrevê-lo, acreditas?
Isso foram ideias que os teus amiguinhos comunas te meteram na cabeça. Eras uma garota quando saíste de Lourenço Marques.
Mas não era parva. Guardei estas memórias com um cuidado que não podes imaginar. Tinha-as cristalizadas, muito intensas. Fui deixando cair lembranças acessórias, seleccionando. No final ficou só o essencial, até porque o meu cérebro precisava de espaço para registos posteriores.
Abriste a caixa de Pandora. Eles até dizem que eu fui um grande consumidor de prostituição.
Deve ser por causa da cona das pretas.
Não te ensinei essa linguagem. Nunca me ouviste falar dessa maneira. E nunca fui consumidor de prostituição.
Olha, a mãe conta que quando chegou a Lourenço Marques, e andava contigo na Wolkswagen, às vezes iam a obras fora da cidade, e que as pretas começavam a aproximar-se da carrinha vindas não se sabe de onde e ficavam à tua espera.
Ah, isso, a tua mãe… ela não percebia. Eram umas pretas que a gente conhecia… era uma troca de favores, não era prostituição. Bebíamos umas cervejas, que as pretas bebem bem. Mas só os solteiros que viviam na pensão da Pureza. E isso foi só antes da tua mãe chegar.
Eu não sei, não vi nada. Ouço, apenas.
E as pretas não eram como as portuguesas. Para elas era tudo natural.
Imagino. Isso devia dar-vos um jeito…
Eh, pá, tu estás como os outros. Queres analisar a vida daquele tempo, em África, à luz daquilo em que vocês acreditam hoje.
O que eu sei é que podias, como diz um amigo meu, ter controlado os ímpetos. Conhecendo-te, deixa-me dizer-te que não me parece nada estranho que tivesses dado grandes machadadas no casamento, com negras, não sei em que termos, e com brancas, e sobre isso estou melhor informada.
Ora esta. A tua mãe bem podia estar calada.
Isso tens que lhe ir dizer a ela, mas tem cuidado com a forma como lhe apareces que ela está com 87 anos e um coração fraco.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sonho

Gostei muito desta recensão que o sr. Simões me fez chegar recentemente.

Quem és tu?

Há mais de uma década, uma aluna escreveu algo sobre eu parecer “uma pessoa triste”. Nunca me passara pela cabeça a possibilidade de ser transparente para alguém a quem não contava a minha vida, pelo menos diretamente. Pensei naquilo durante muito tempo
Voltei a lembrar-me do assunto ontem, quando dois alunos me perguntaram se ia passar este Natal sozinho. Respondi que tinha companhia e fitei-os sem perceber. Não se convenceram. Acrescentei, pensam que sou uma pessoa muito solitária, não é?! Sim, pensamos. O stor fala de si sempre como estando sozinho. Vai passar o Natal com quem?
Sorri mais uma vez. “Com a minha mulher, com familiares. Não é que não seja solitário, mas não passo o Natal sozinho.” Não lhes menti, contudo não lhes revelei toda a verdade. A verdade embaraça.
Em que parte de mim percebem eles tristeza e solidão? Tenho a piada tão fácil. Falo de mim como estando sozinho?! Não faço a menor ideia. Dou aulas sem pose, sem esforço. Lembro-me lá agora do que digo! Procuro falar de forma ordenada sobre os temas e textos que tenho à frente, mas é frequente ocorrerem-me ideias que não planeei. Não tenho nada de especial a revelar nem a esconder. Não sou especialmente sábio, embora goste de pensar. Não acredito muito nos meus ensinamentos, mas sei que posso aconselhá-los a ler, escrever ou pensar sobre uma crise, uma revolução. E esse trabalho, se o quiserem fazer, vai fazê-los crescer.
Talvez eu seja apenas o espelho do que sentem, do que já são. E nesse caso não sou eu que sofro a tristeza nem a solidão. São eles.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Projeto de livro sobre Francisco Sá Carneiro para crianças com menos de 6 anos


Dou a conhecer aos leitores um projeto de livro para crianças que enviei hoje para a editora do PPD/PSD. Trata-se de um mero rascunho que poderei desenvolver caso interesse aos editores.

Página 1
Há muitos, muitos anos atrás, houve um senhor chamado Francisco Sá Carneiro que foi primeiro-ministro de Portugal.

Página 2
Ilustração colorida - multidão em manifestação de apoio, segurando cartazes onde se lê Viva a Aliança Democrática. Francisco Sá Carneiro, transportado em ombros por populares indistintos, faz com os dedos indicador e médio da mão direita o v de vitória.

Página 3
Francisco Sá Carneiro, nascido na cidade do Porto, era filho do senhor advogado José Gualberto Marques de Sá Carneiro e da senhora condessa Maria Francisca Judite Pinto da Costa Leite (nomes abreviados) e viveu numa linda casa com muitas criadas, tal como a senhora Sophia, grande poeta da nossa nação, que escreveu sonorosas composições literárias, como O Cavaleiro da Dinamarca, livro que poderás pedir aos papás para te lerem, ou às senhoras que tomam conta de ti no Centro de Acolhimento de onde jamais sairás, porque os papás que te geraram nunca autorizarão que tenhas família.

Página 4
Ilustração muito colorida - Francisco Sá Carneiro, Sophia, o pai José Gualberto e a mãe, condessa Maria Francisca Judite tomam chá com scones, conversando e rindo sob um caramanchão frondoso, rodeados de criadas saudáveis, de cabelo apanhado, vestidas de preto, com touca e avental branco bordados.

Página 5
Francisco era um senhor muito bom, casado com uma senhora muito, muito boazinha e amigo de uma outra senhora igualmente muito, muito boa.

Página 6
Ilustração colorida - Francisco Sá Carneiro abraçando duas mulheres muito bonitas. À sua direita, com um ar honesto, a senhora boazinha; à esquerda, com aspecto juvenil e endiabrado, a senhora boa.

Página 7
O senhor Sá Carneiro era um advogado muito sério e como todos os homens de leis sonhava com a vida política.

Página 8
Ilustração colorida, mas não em exagero - Francisco Sá Carneiro à secretária, com a testa enrugada, derruba um monte de papéis onde se leem frases como "proposta desonesta", "tráfico de influências e até mesmo de coisas, tipo diamantes", "dividendos mal explicados", "apadrinhamento de boys & girls", "privilégios para quem pode comprá-los" enquanto abraça e aperta contra o peito, com a mão direita, um punhado de outros documentos onde podemos ler facilmente "a bem da Nação", "justiça social e laboral para todos", "liberdade, democracia, progresso e bem estar", "Portugal e o Quinto Império", etc.

Página 9
Francisco teve muita sorte, porque permaneceu pouco à frente do Governo de Portugal, portanto não dispôs de tempo suficiente para se queimar.

Página 10
Ilustração mista (cores e cinzentos de acordo com indicações) - Uma lareira acesa com chama alta. À sua volta, todas em tons de cinzento, personalidades políticas destacadas apresentam queimaduras. Soares queimou as duas mãos; Cavaco chamuscou o cabelo; Guterres, um braço; Santana Lopes, pés e pernas até à cintura; Sócrates apresenta queimaduras gravíssimas por todo o corpo e encontra-se a ser assistido por paramédicos... Ao longe, a cores, Francisco Sá Carneiro, imponente e inexpugnável, aproxima-se a passos largos com uma balança tatuada num dos pulsos.

Página 11
A sorte acaba sempre. Houve um dia em que o senhor Francisco teve azar: apanhou um avião no qual um menino se esquecera de um estalinho de Carnaval que rebentou. O avião caiu e o senhor Francisco morreu, bem como a senhora boa que o acompanhava para todo o lado, e também outros senhores, todos muito católicos, logo bonzinhos. Há quem diga que o menino deixou o estalinho no avião de propósito. Ainda bem que essas pessoas não têm testes para corrigir nem a casa para arrumar, caso contrário nunca arranjariam tempo para se dedicar a histórias que tanta matéria dão aos jornais, muitos, muitos anos depois.

Página 12
Ilustração mista (cores e cinzas de acordo com indicações) - Avião caindo a pique, em chamas. Através das janelas, desenhadas num tamanho maior do que o habitual, como se se tratasse de uma aeronave panorâmica, avistam-se Sá Carneiro e a senhora boa abraçados em direção à eternidade e rodeados por um halo luminoso de cor rosa; os restantes senhores, todos de braços no ar, pouco nítidos, a preto e branco.

Página 13
Em Portugal toda a gente teve muita pena do senhor Francisco; mesmo muitos, muitos anos após o seu desaparecimento continuam a sonhar que regressará para governar Portugal e vender os pobrezinhos que vivem dos subsídios do Estado a uma fábrica chinesa de bandeiras europeias para jogos de futebol.

Página 14
Ilustração muito sombria - Fábrica chinesa apinhada de ex-subsidiados pelo Estado exibindo nódoas negras, olheiras e tatuagens onde se pode ler "Subsídio de Desemprego 2008-2010", "Enésimo Batalhão do Rendimento Mínimo - Amor para Sempre" ou "No tempo do Abono de Família é que era bom", e fabricando bandeiras portuguesas em série, como autómatos.

Página 15
Aprendam esta lição, crianças de Portugal, se desejarem um dia ser lembradas com saudade, quiçá homenageadas, e encher páginas de opinião e reportagem na Imprensa, durem pouco e deixem por realizar vagas promessas que nunca ninguém saberá se estariam habilitadas a cumprir.

Página 16
Ilustração a cores - Sá Carneiro descendo de uma avioneta azul clarinha numa manhã de nevoeiro, todo vestido de branco e dourado, como se fosse o Elvis Presley na fase decadente.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ganhar dinheiro com a falta de dinheiro

A crise isto e aquilo, por causa da crise, durante a crise, na crise, da crise, pela crise. Começo a simpatizar com o vocábulo. Como estou em crise há uma carrada de anos, a situação não me atormenta excessivamente. Estou muito bem no meu cantinho, atenta mas não obcecada pelo que me rodeia.
Um dos fenómenos da crise é o aparecimento de projetos para obter lucro com a falta de dinheiro. Venda o seu ouro aqui. No Fórum Almada abriu um quiosque deste tipo, e algures pela Margem Sul pululam lojas vocacionadas para o negócio do ouro, que mal se encontravam no tempo em que o valia alguma coisa. Acho muito bem que as pessoas se desfaçam de valores tão subjetivos, mas encher a barriga a oportunistas nunca me agradou.
Outro tipo de oportunistas, e nenhum melhor que outro: bancos. Fórmulas de depósito leve, para entregas menores, desde que frequentes, porque se os portugueses vão começar a poupar convém cativar as suas parcas economias.
Outro sistema curioso, "agora que lhe extorquimos todo o dinheiro através do crédito imediato, ajudamo-lo a gerir as suas dívidas".
De onde vem esta gente, pergunto-me. A que esquema se dedicavam no tempo da abundância?
Eu, que nunca tive jeito para ganhar dinheiro, espanto-me com tanta capacidade de adaptação e improvisão mercantil.

Estamos todos muito mais católicos

Na minha rua já há iluminações de Natal piscando a uma velocidade histérica, bem como pais natal enforcados pelas mãos, em janelas e varandas, hoje bastante ensopados pela chuva. Também surgiu uma novidade que inicialmente não compreeendi, por culpa da miopia, mas que numa visita ao Jumbo pude observar inteiramente. São uns paninhos azuis atados às varandas. Primeiro pensei que fosse um símbolo monárquico, mas pareceu-me estranho a monarquia ter granjeado tantos partidários nesta banda. Afinal, os paninhos azuis têm um Menino Jesus dourado estampado a meio. É um paninho frágil, sem brilhos, sem luzes. Folgo muito em saber que uma parte dos meus vizinhos, motivada pela crise, abandonou a filosofia consumista do Pai Natal e entrega-se agora ao espírito cristão. A falta de dinheiro torna-nos muito espirituais.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hoje, na Fnac Chiado

Lançamento de Doutor Avalanche, de Rui Manuel Amaral, sábado, dia 4,
às 16h00, na FNAC Chiado.

- Isabela, a menina vai amanhã ao lançamento do livro do Rui Manuel Amaral, na FNAC do Chiado?
- Vou.
- Estava tentado a ir consigo.
- E por que não, sr. Simões?! Traz mais alguém?
- Ninguém… Tem cá estado a Stefanie, a escritora brasileira que veio com uma bolsa… já lhe contei… mas foi ontem de férias para a Baía e só volta a 3 de Janeiro.
- Não leva a sua esposa?
- A minha esposa?! A minha esposa, ao sábado à tarde, fica sempre a passar a ferro.
- Ah!
- Sabe se o Rui Manuel Amaral tem agente?
- Não sei. Mas amanhã pode perguntar-lhe isso. Gostava de o representar?
- Se você lhe desse uma palavrinha…
- Posso dar. Gosta dele?
- O rapaz tem muito espírito, humor e non sense. É o mestre da história breve em Portugal.
- Diga-lhe isso. Olhe, e venha então buscar-me por volta das 3.
- Oh, Isabela, eu estou sem carro. Estava a pensar se menina não se importaria de me vir buscar pela mesma hora.






quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O que revela o teu lixo?

Penso que isto queira dizer que a senhora deixou o saco fora do contentor num dia em que não havia recolha daquele tipo de lixo.
O saco continha papel e identificaram-na vasculhando-o. A cidadã queixa-se que invadiram a sua privacidade.
A modernidade alterou a nossa relação com muitos objetos, pelo que tudo tem de ser repensado em permanência. Antigamente despejávamos o balde do lixo diretamente no contentor. Agora separamo-lo em sacos. Cada saco de lixo é propriedade privada?
O lixo é íntimo. Quem o vasculha fica conhecendo a nossa vida de forma privilegiada. Aquilo que consumimos, deitamos fora, e a forma como deitamos fora é um outro bilhete de identidade.
Há uns tempos, uma revista de jornal de domingo pedia o lixo de personalidades públicas, fotografava-o e listava-o. Era engraçado analisar o lixo não orgânico de Madonna. Lembro-me que tinha muitas garrafas de água Evian.
Não queria que ninguém analisasse qualquer tipo de lixo saído da minha casa, mas com que tenho real obsessão é mesmo com a papelada. Não só a rasgo miudamente, como sou capaz de dispersar um recibo antigo por três sacos de plástico que coloco em três contentores diferentes. Imaginar alguém, num vasadouro, lendo o que corresponde à minha vida privada é um pensamento deveras insuportável.
O lixo é, portanto, privadíssimo, porque o lixo revela também o que não dizemos ou mesmo o que não sabemos sobre o que somos. As agências de informações analisam sacos de lixo como forma de obter informações, bem como as polícias forenses.
Vejamos agora outro aspecto passível de atribuir uma natureza pública ou privada a um saco de lixo. Enquanto está na minha cozinha, o meu lixo é propriedade privada. No momento em que o abandono num contentor camarário ou no chão, perto, emito uma declaração que diz o seguinte: embora estes objectos me tenham pertencido, abdico deles a partir deste momento, delegando na câmara o destino a dar-lhes. O meu saco do lixo deixa, então, de me pertencer, e torna-se propriedade pública, municipal. Enterrem-no, triturem-no, queimem-no, produzam energia a partir dele, não é comigo. Doei-o. É a partir do momento em que o doamos que temos de nos preocupar com o que poderá revelar. Se o lixo não é nosso será de quem o apanhar. Logo, não podemos queixar-nos relativamente a uma eventual violação de privacidade. Convém acautelá-la antes.
Outra questão: vasculhar o lixo de quem não o depositou corretamente procurando uma identificação é pidesco? O meu corpo está todo tentado a dizer que sim. Contudo, pensemos nisto: uma cidade como Lisboa tem de gerir milhares de quilos de lixo diariamente. Não queremos ruas sujas nem a cheirar mal. Deve haver uma razão para que o regulamento municipal contemple uma recolha de lixo por dias/substâncias. Falta de espaço para diferentes contentores, eventualmente. Quem vive na cidade tem de conhecer as regras estipuladas para a sua área e tem de as cumprir, tal como cumpre os regulamentos relacionados com barulho. Exigem-se comportamentos cívicos e ecológicos mínimos para não vivermos mergulhados em porcaria.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O guionista que não sabe descrever

O homem chama-se António Barreira, é o guionista de serviço às telenovelas da TVI, sentiu o apelo da escrita de ficção ainda adolescente e decidiu que quando crescesse seria escritor de telenovela. E assim foi. Agora ganhou um Emmy. Vi-o numa reportagem para o telejornal da referida estação, mas juro que não estava a ver a TVI, mas de roda de uma empreitada de cachecóis de crochet para as prendas de Natal.
Respondeu a duas questões, e passo a citar de cor.
Primeira, o que sentiu ao ter recebido este prémio?
Resposta, eu sou o mesmo; eu não deixei de ser o António de sempre.
Imaginamos.
Segunda, não sei quê, não sei quê, este prémio para Portugal?
Resposta, ah, é impossível de descrever. Só quem lá esteve em cima do palco pode saber o que sentiu. É impossível de descrever.
E vira as costas.
É impossível de descrever?! O homem é escritor e está-me a dizer que é impossível de descrever?! Se um escritor não consegue descrever sentimentos, a quem caberá a tarefa?
Dizia eu que os textos das novelas da TVI são maus, lineares, as personagens previsíveis e mal construídas...