quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O «Caderno» vai amanhã a Coimbra, e arrasta-me consigo



No momento em que os sinos tocam a rebate no edifício de quinze andares consagrado à minha querida editora, e as dezenas de funcionários que emprega, circulam, ufanas e aos encontrões, pelos corredores, carregando papéis, cartazes e caixas com livros para preparar o lançamento de Sábado, em Coimbra, na Almedina Estádio, e telefonando para a Professora Margarida Calafate Ribeiro a confirmar a hora, etc., parece-me oportuno relembrar o da passada semana, em Lisboa, sob os cordiais auspícios de Jaime Bulhosa, da Livraria Pó dos Livros.

Segundo bloguistas presentes na sala, a sessão decorreu da seguinte forma:

Muita gente ali na sala tinha um pedacinho da sua memória da áfrica colonial que queria trazer para a roda da conversa. Para esses, com as Lourenços Marques cosmopolitas ou do caniço enfiadas até ao osso da memória, nem sempre é muito claro a forma como, forçosamente, se misturam memórias, horas de vida gravadas na caixa negra que, individualmente, transportamos, com o modo como a ideologia, o discurso político, tensionou a forma como nos lembramos de África.
Respirar o Mesmo Ar - Joaquim Paulo Nogueira

Uma mulher que fala como um catrapila.
A. Teixeira - Herdeiro de Aécio.

Angelus Novus - cita, entre outros, Afonso Ferreira, de Um homem na Cidade

É possível que haja mais postes sobre o assunto, mas estes são o que chegaram ao meu conhecimento.

Família e autobiografia

Maria Archer


Estando eu, recentemente, a almoçar com a matriarca da família Garruncho, ocorreu-me dizer, na brincadeira, "o meu próximo livro vai chamar-se Caderno de Memórias dos Garrunchos". A matriarca Garruncho engasgou-se, entalou o pastel de bacalhau no gorgomilo, e, ao conseguir articular palavra, ameaçou-me, "Isabelinha, Isabelinha..."
As pessoas começaram a temer os movimentos que os meus dedos podem executar sobre um teclado de computador.
Ter um artista na família é aborrecido, mas um escritor chama-se azar! Artistas plásticos e músicos movem-se num registo não verbal simbólico, mas os escritores disfarçam pior, para além de que têm quase todos uma apetência formidável para carregar a família com os males do mundo.
Não conheço muitas autobiografias nas quais não se arrase a família próxima. No mínimo, ficará parcialmente amolgada. As famílias são constituídas por pessoas, e as pessoas nunca foram garantia de coerência e bons costumes. Parece-me muito normal que as crianças não compreendam a distância que separa as regras que lhes são exigidas das práticas que testemunham aos que lhes exigem tais comportamentos. Surpreendo-me sempre quando vejo alguém sobreviver à infãncia sem traços de esquizofrenia, bipolaridade, psicose, obsessão compulsiva ou qualquer outro palavrão técnico desta ordem. No mínimo, exige-se uma insoniazinha, uma dependência, um tique nervoso...
Quando Maria Archer escreveu Aristocratas, em 1945, romance autobiográfico, a família reconheceu-se, não gostou e expurgou-a rapidamente. Para dizer mal do que representavam já lá tinham a criadagem.
Eu, graças a Deus, na minha família, não tenho ninguém com hábitos de escrita. Posso assim poupar-me ao desgosto de me ver retratada da pior forma possível.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Enganei-me


Vejo um documentário sobre Nuno Bragança que me foi oferecido por atentíssimo leitor presente no lançamento, na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa.
Numa das cenas, a propósito de A Noite e o Riso, um amigo de Nuno Bragança, que me parece Pedro Tamen, opina que o livro é fundamentalmente autobiográfico, tal como a maior parte dos escritos do "Nuno". Um segundo amigo apressa-se a defender a obra, afirmando que não é bem assim, que as pessoas é que têm a mania de procurar autobiografia em tudo, mas que a obra do amigo é uma ficção que consiste na reelaboração da autobiografia. Percebo que teme desvirtuar o texto de Nuno Bragança ao remetê-lo para um contexto autobiográfico.

Assisti, sorrrindo, à mais esta exposição verbalizada do preconceito contra a autobiografia, que terá nascido algures pela teoria literária do século XX, com a ideia de que entre autor e compromisso íntimo, pessoal, com a respectiva obra vai uma distância igual à que separa a Torre dos Clérigos da Torre Eiffel.

Muito gostaria eu de me lembrar, agora, de grandes obras e autores que, não tendo sido autobiográficos, tenham feito as minhas delícias como leitora, mas é tarde, e só me ocorrem os nomes de Rousseau, Rimbaud, Isabelle Eberhardt, George Sand, Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Silvia Plath, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Doris Lessing, Truman Capote, Karen Blixen, Marie Darrieussecq, Paul Auster, Luis Pacheco, Lobo Antunes, Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Fernando Pessoa, Isabela?! Como podes ter o desplante de afirmar que o homem que escreveu «o poeta é um fingidor», e declarou ouvir os sinos da aldeia da sua infância, se entregava aos delírios emocionais da autobiografia? Digo, digo. Mas deve ser da hora. É do sono, juro.

Pobre parente, a autobiografia. Que incómoda! Que maldita! Eu cá, se tivesse alguma autobiografia a escrever, mudava nomes, personagens, localidades; o gato passava a coelho, do soco fazia-se uma joelhada, a tia passava a madrinha, a prisão perpétua reduzia-se para 20 anos sem liberdade condicional, e chamava-lhe... impiedosamente... ficção. Uma grande, uma bela ficção toda inventada do princípio ao fim, jamais acontecida, sendo que qualquer semelhança com a realidade não passaria de enorme coincidência à qual, eu, autora, seria absolutamente alheia.
O problema é que segundo esta linha de pensamento, o Caderno de Memórias Coloniais é todo ficção. Lamento. Enganei-me, o que é que querem?! Acontece a todos. Afinal é tudo ficção. Pronto, olhem, desculpem lá. Tábenzinho?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A expressão bem clara da divisão de classes

Excerto de um email enviado por Fontenova, a propósito da divisão de classes "na Metrópole".

"Quando eu era miúdo, na década de sessenta, na vila alentejana onde vivi e estudei, havia, como sempre há, um café principal, frequentado por quase toda a gente.
Entrava-se na sala enorme, e do lado direito havia mesas e cadeiras confortáveis, até algo luxuosas, e do lado esquerdo mesas e cadeiras banais.
As pessoas de maior prestigio ou riqueza, quase exclusivamente homens (médicos, bancários, professores, latifundiários, funcionários públicos de relevo), ocupavam sempre as mesas do lado vip e o povo indiferenciado as mesas do lado esquerdo.
A divisão de classes tinha ali uma expressão bem clara e as pessoas ordenavam-se rigorosamente de acordo com o lado a que achavam pertencer. Ninguém os obrigava. Obedeciam ao seu polícia interior.
Julgo que isto era assim em muitas terras.
Na cidade para onde vim depois estudar, o café principal tinha mesmo duas salas, ligadas por uma porta/arco. A sala vip e a do povo comum, paralelas e com saídas separadas para a rua. Ainda se mantém assim, mas a circulação de pessoas por ambas as salas é agora perfeitamente indiferenciada.
E duas sociedades recreativas, na mesma rua, em frente uma à outra: o "clube dos ricos" e o "clube dos pobres".

O 25 de Abril, entre muitas outras coisas, acabou com estas tradições. Ainda bem. Mas o período revolucionário originou no Alentejo interior, que conheci muito bem na minha adolescência, uma divisão mais dramática e mais perigosa - a divisão entre comunistas e socialistas (designação genérica para os não comunistas). Certos cafés e tabernas passaram a ser ou preferencialmente frequentados por comunistas ou por socialistas.
Mas essa era apenas uma face visível de uma divisão mais funda, que afastou vizinhos e até famílias. Gerou-se um fundamentalismo nas duas visões de mundo, que fez dessa clivagem uma fonte de desconfianças e mesmo de ódios difíceis de compreender hoje, mas que na altura levaram frequentemente à beira da violência cega.
Desse calor das emoções, da política à flor da pele, pouco ou nada ficou. Hoje reina, no Alentejo como noutras partes, um certo desencanto com o país e o seu futuro. Apesar de todo o imenso progresso que se viveu nas últimas décadas - fruto, a meu ver, sobretudo do gigantesco salto científico e tecnológico, mais do que da sabedoria dos governantes - os portugueses sentem que não se fez o suficiente para nos podermos orgulhar enquanto país moderno, civilizado e justo que desejamos ser."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Benzedura

Nas traseiras do centro de saúde encontrei um homem, alto e barrigudo, concentrado em benzer a bateria de um modelo Mercedes dos anos 80, por cima do capô. À primeira vista não percebi os gestos curtos que desenhava com a mão. Depois recordei as orações da minha avó materna. Era a benzedura. Dentro de carro via-se um rapaz agarrado ao volante. O motor encontrava-se desligado e pretender-se-ia que a máquina ressuscitasse. A ideia agradou-me. Se pudesse escolher entre levar o meu carro ao mecânico ou ao homem das benzeduras, preferiria, sem hesitações, o segundo. Acredito que o ritual tenha resultado. Não pude esperar. Ia com pressa.
Passou-me pela cabeça aproximar-me e pedir-lhe, oh, senhor, benza-me os olhos, se faz favor, que preciso tanto; e esta mama, esta, está a ver?! E, já agora, a barriga, senhor, se não se importar, que a trago toda esquartejada. Mas, como disse, ia com pressa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Traída

Hoje perguntaram-me se era possível amar uma pessoa e traí-la. É evidente, respondi, por exemplo, o meu homem, apesar do amor que me tem, dorme todos os dias com a esposa. Se isto não é trair-me...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nós éramos do Alto-Maé

Avenida Pinheiro Chagas, ao Alto Maé (Lourenço Marques)

Ontem à noite.

- Então, como é que correu o lançamento, menina? Não me dizes?!
- Correu bem. Estava muita gente.
- Muita gente que leu o teu livro?
- Sim. E muita gente que esteve em Moçambique ou noutras colónias.
- Ah... E gostaram do livro?
- Acho que sim. Falaram muito sobre as suas experiências em África. Na guerra contra os terroristas, no que aconteceu a seguir ao 25 de Abril e à Independência, na vida que por lá se tinha. As pessoas querem muito falar sobre isso.
- Engraçado...
- Por exemplo, falou-se na forma como a Avenida Pinheiro Chagas estava dividida: do nosso lado era gente mais pobre, havia mais mistura de raças; do lado onde morava o padrinho, para lá do hospital, era gente com mais posses. Tu sabias disso?
- Sabia.
- Tinhas consciência disso, lá?
- Tinha. Havia essa diferença, havia. Quando tu nasceste morávamos no prédio Valente, e no prédio Valente havia uma grande mistura. Era a renda que o teu pai podia pagar na altura. Havia gente vinda de todo o lado, mas davamo-nos todos bem, como se fosse uma aldeia. Não te lembras da Cilinha, mas era uma vizinha mulata, muito bonita, que gostava muito do teu pai - tu sabes que o teu pai as fazia rir, era muito divertido, e elas andavam sempre de volta dele. A Cilinha adorava-te, e tu a ela. Andava sempre contigo ao colo. Eras uma bebé muito bonita e todas as raparigas do prédio queriam trazer-te ao colo. Às vezes nem querias vir para casa. Teimavas que havias de ficar em casa dos vizinhos.
- Mas nunca me contaste isso. Essa diferença que havia entre os dois lados da Pinheiro Chagas.
- Mas ia contar-te isso para quê, rapariga?
- Eu gosto que me contem essas coisas, e nunca me tinha apercebido muito bem da distinção entre brancos de um lado e brancos do outro.
- Então, era como na Metrópole!
- Mas eu não sabia como era na Metrópole!
- Calculava lá eu que tivesses interesse nisso!
- Tenho.
- Quando ias passear com o teu pai para a Polana, aos sábados à tarde, ias sempre bem vestida e penteada. Eu nunca te deixei ir de calções e chinelos para a Polana.
- Pensei que era por ser sábado à tarde, não porque era a Polana, embora tivesse a noção que era zona de casas ricas. Nem me lembro muito bem da Polana, para te dizer a verdade.
- Não te lembras da Polana?! Então, era onde íamos dar o passeio dos tristes, ao domingo à tarde.
- Lembro-me bem é do Alto-Maé. Do cinema Infante. Da esquina dos SMAE. Da papelaria que ficava por debaixo do prédio Valente. Da casa de frescos que era do china. De uma cigana que passava junto ao Jardim 28 de Maio e que tu tinhas medo que me roubasse... Nós éramos do Alto-Maé.
- Nós não éramos do Alto-Maé. Vivemos foi uns bons anos por lá. Antes de nasceres tivemos uma casa na Malhangalene.
- Da Malhangalene não me lembro.
- E da Matola?
- Oh, mãe, achas que podia esquecer-me da Matola?!
- Aquela casa custou tanto a fazer ao teu pai! Ficou lá tudo...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Lisboa. Livraria Pó dos Livros. 18h30

Clicar para aumentar.

Um cheiro ácido a macho novo

De noite choveu. O Zeca e Isa dormiram na tenda à beira rio e acordaram encharcados.
Nós dormimos onde? Na casa da tia do Gabi ou numa pensão barata?
Não estás na fotografia, porquê? Estarias de lado gozando o pratinho? Terias ido comprar tabaco com o Artista e aproveitado para fumar a última ganza da viagem? Deves lembrar-te disto um bocado melhor que eu. Ajuda-me, então!
Era o lançamento de uma revista com os nossos textos e os de outros poetas galegos? Foi publicada alguma coisa da minha autoria ou fui apenas para te ouvir ler e dormirmos juntos? A Lena também não está na foto, nem o Gabi. Hum, devem ter ido ao tabaco e ao resto! E eu fiquei a portar-me bem, para não destoar.
Não me lembro de quase nada. Havia um restaurante junto à ponte, com uma esplanada onde era impossível estar-se. Tínhamos pouquíssimo dinheiro. Comemos bitoques, de certeza. Humidade. Nevoeiro. As tuas mãos. Os teus complexos. Os meus. Lembro-me bem do calor dos teus braços. E do teu peito. E dos teus pés. Tinhas um cheiro ácido a macho novo que apetecia comer. Lembro-me da tua boca. Deixa-me explicar melhor, lembro-me de enrolar a língua na tua boca e de a seguir fodermos como animais cheios de cio. Gostaria de me lembrar de qualquer coisa decente e edificante, juro, mas só me vêm estas ideias psicóticas das tuas mãos a enfiarem-se pelas minhas cuecas e soutien, desculpa lá. Mas foi em Amarante, tenho a certeza. Havia um encontro qualquer e serviu-nos lindamente como pretexto para nos amarmos nesse ápice de tempo. O resto não interessa, querido. Glória à nossa acidentada história!


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Um senhor calvo

Os leitores que têm demonstrado interesse em conhecer o meu agente terão oportunidade de o ver, ao vivo, na quinta-feira, na Livraria Pó dos Livros, durante o lançamento do Caderno.
Avisou-me, hoje, que chegará de táxi, acabado de sair de um envolvimento com grainha de uva no spa do Sheraton, e que não lhe convém beber álcool. Convidou uma série de meninas dos blogues, que pretende familiarizar com estas coisas do mundo literário. Acho que pretende promover uma antologia com textos de bloguistas que escrevem livremente sobre sensualidade, libertação sexual, acessórios femininos, orgasmos, etc. Dá-me ideia que quer compor uma espécie de Spice Girls literárias, descobertas na blogosfera portuguesa, e a ideia parece-me giríssima. Vai vender.
Eu já não tenho idade, disse-me. Nem idade nem corpo. Só se emagrecer duas dúzias de quilos. Não estou a ver como emagrecer duas dúzias de quilos para entrar seja no que for.
Se não houver tempo para vo-lo apresentar, procurem na assistência um senhor calvo, de estatura média, normalmente muito bem vestido, em fato preto, e com uma atenção especial a cada uma das minhas palavras. Acha que não me sei vender. Que sou não-sei-quê fágica. Que tenho muito a aprender. Tenho, concordo. Mas podia ser mais meiguinho. Está a ouvir-me, senhor Simões, podia ser muito mais meiguinho!

domingo, 17 de janeiro de 2010

De regresso

De regresso, 2010 [imagem obtida a partir de imagens vídeo visionadas em computador]

Há cerca de vinte anos fui aos estúdios da RTP, no Lumiar, participar em directo num programa de grande audiência, por mor do lançamento do meu primeiro livro. Lembro-me que a mãe do Pedro Rolo Duarte era produtora, e me recebeu com amabilidade e simpatia. Não recordo grande coisa da entrevista, e penso que só disse asneira. No regresso, caminhei sob a chuva até uma paragem de autocarro no Campo Grande, junto aos edifícios da actual Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Eram umas oito e tal da noite. Muito povo na paragem: os autocarros não apareciam para levar de regresso a casa quem tinha trabalhado todo o dia. Veio um 44 ou um 45, cheio, que encheu mais. Entrámos todos no primeiro. Íamos esmagados uns contra os outros; as nossas roupas e chapéus encharcados, encharcavam aqueles a quem nos encostávamos; o cheiro suado dos corpos e do cansaço agoniava as nossas narinas. Queríamos sair no Rossio, no Terreiro do Paço ou no Cais do Sodré e seguir em paz para o nosso subúrbio.

Saí no Cais do Sodré. Apanhei o Cacilheiro. Estava tão bonita. Tinham-me maquilhado antes da emissão, e estaria bonita mesmo que não o tivessem feito. Estive quase a escrever que tenho saudades dessa beleza. Mas não, não tenho. Era uma beleza perfeita, inocente, que precisava de se estragar para me deixar compreender umas tantas coisas. Não posso ter vergonha do que sou. Construí-me. Foram as minhas mãos. Respondo por elas.

Em Cacilhas tomei o autocarro para casa. Ia cheio. Os transportes iam sempre cheios. Lembro-me muito bem dessa viagem de regresso. Não da de ida, nem do programa. Lembro-me, porque guardava um sentimento de alegria e de vazio, simultâneos. Era importante ir à televisão, ser entrevistada. Contudo, tinha ido sozinha, voltava sozinha, e não tinha com quem partilhar essa emoção. Não podia dizer, "viste o apresentador?!" Não podia perguntar, "achas que me atrapalhei muito?" Não, nada. A mesma solidão de sempre. A mesma unicidade. Eu, sozinha, desde o princípio dos tempos. Dos meus tempos.

Na sexta passada, ao regressar dos estúdios da TVI senti exactamente o mesmo. Chovia. Mal via as indicações de direcção. Enganei-me no caminho de regresso.
Queria dizer, "viste a Marisa Cruz na maquilhagem?! Tão bonita, não é?! Mesmo sem pintura. E o Henrique Garcia?! Parece mais alto na televisão, não parece?! A pivot era simpática, não achaste? Parece-te que estive bem? Achas que disse as coisas certas? Reparaste que dei um erro de concordância? Que vergonha!" Queria dizer, mas não disse. Não havia um tu. O meu tu sou sempre eu. E lembrei-me, então, dessa outra noite de há 20 anos atrás. A mesma unicidade, mas com meio de transporte próprio, a pele mais velha, e mais cicatrizes. Vinte anos depois, tudo igual quanto ao essencial.

Para me distrair liguei o rádio do carro. Ouvi o Marco Paulo cantar o seu último êxito. Pensei que ninguém canta, em Portugal, com o vozeirão do Marco Paulo. Que é uma pena estragar-se com letras e composições excessivamente românticas, pejadas de lugares comuns, péssimas rimas... Senti uma ternura enorme pelo Marco Paulo, quase uma vontade de o abraçar. Ri-me. O Marco Paulo! Vai toda a gente gozar comigo. Ou não. Tenho 47 anos. Aos 47 anos já me é concedido o direito de sentir ternura pelo Marco Paulo e, sobretudo, de dizer e escrever o que me der na gana. Aos 47 anos já mereço algum respeitinho.

Árvore de carne

Na segunda-feira, se calhar na terça, a Morena meteu-se dentro dos cobertores e encostou-se muito a mim, como se se empurrasse para dentro do meu corpo para sorver o meu calor. Aconcheguei-me a ela, sonolenta, confortada. Na sonolência, vi na minha mente a imagem do que deveríamos ser. Não foi um sonho. Estava consciente, entorpecida. Era o meu corpo macio e doce, tal como é agora, e da minha barriga saía o tronco da Morena, como um ramo da minha árvore. E do meu peito saía a Micas, que era o outro ramo. As três formávamos uma árvore de carne. Ia dizer que parecíamos um ciborgue, mas seria errado. Tudo em nós era produto da natureza. Não tínhamos circuitos integrados, nada de pele artificial, nem chips no córtex cerebral. Tinha sido um momento de inaudita perfeição da natureza. O meu sangue e o seu sangue corria indiferentemente as veias dos três corpos. Os nossos corações batiam em sincronia, e já nada nos distinguia. Éramos perfeitas; podíamos morrer. Mas exactamente por sermos tão perfeitas, queríamos viver.

sábado, 16 de janeiro de 2010

SMS da Serra da Estrela

O meu agente passa fora todos os fins-de-semana. Desta vez mandou-me um sms da Serra da Estrela. Está na neve com uma bloguista que escreve sobre saltos altos, mas que escreve mesmo muito bem sobre saltos altos. Isto não é desmerecer, até porque, embora não os consiga usar muito, acho-os a coisinha mais sensual que Deus permitiu ao ser humano criar.
Voltando ao sms: já viu destak k s/ editora deu 2ª ed.?! A menina não mrece trabalho k tenho c/ s/ livro. Veja lá se se mex.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lançamento de Caderno de Memórias Coloniais



(Clique sobre a imagem para aumentá-la.)

Lisboa - Livraria Pó dos Livros - 21 de Janeiro - 18h30 (apresentação de Eduardo Pitta).
Coimbra - Livraria Almedina Estádio - 30 de Janeiro - 18h00 (apresentação de Margarida Calafate Ribeiro).
Almada - FNAC Fórum Almada - 6 de Fevereiro - 18h00 (apresentação de Francisco José Viegas).

domingo, 10 de janeiro de 2010

A menina dança


Estou no top da Pó dos Livros.
Não queria divulgar isto, pelas questões de pudor e humildade que têm caracterizado, desde o início, a minha presença na blogosfera - os leitores habituais confirmarão! - mas o meu agente convenceu-me. Disse-me, olhe, menina, você estará tão poucas poucas vezes no top seja do que for, que é melhor aproveitar e dançar, se lá chega uma vez na vida.
Adoro que me trate por menina. É tão vintage!

O lugarzinho

Entretanto fui despedida da fábrica. Uma injustiça, considerando que passei os últimos quatro anos usando uma nova técnica na fabricação de parafusos, motivada pelo engenheiro da nossa linha de produção. Um processo científico, que nunca foi posto em prática em lado nenhum, embora seja um mix de muitos. Não está provado que funcione melhor que o método tradicional, e, de facto, os parafusos até não saíram melhores, admito, para além de que se registaram inúmeras reclamações da clientela. Que os parafusos não agarravam. Que uma pessoa demorava muito mais tempo para construir qualquer insignificante estrutura. Que partiam facilmente.
O problema é que ninguém está disposto a inovar, a ousar. É o chamado corporativismo do parafuso à antiga portuguesa. Querem chegar à parede, atarraxar eficaz e rapidamente, montar a prateleira e toca a andar, como se não houvesse trâmites a cumprir. Eu tenho lido muito livro para aprender a fabricar parafusos. Tenho feito muita formação sobre a gestão do processo de fabricação dos mesmos. E o senhor engenheiro esteve sempre do meu lado. Isabela, força; Isabela, vamos insistir; Isabela, a gente é que sabe; os cães ladram e a caravana passa.
Não passou. O engenheiro viu-se obrigado a interromper o novo método de fabricação ou perdíamos a carteira de clientes para outros fornecedores. Muitos saíram irremediavelmente, nada a fazer. E o engenheiro despediu-me. Desculpe, lá, Isabela, não tenho outra saída... os clientes exigem. A Isabela, e respectiva equipa, terá de sair. Melhores tempos virão. Vou agora contratar uma operária que em tempos foi cá cliente. Primeiro tenho que os agarrar, e depois a gente vê, Isabela. Não desanime.
Não desanime é fácil de dizer. Ver toda a minha obra ser destruída por uma falinhas-mansas sorridente, que nada percebe do assunto e ali reside apenas para acalmar as hostes clientelares, não é pêra doce. Já observaram todo o vosso império em ruínas?! Pois é o que contemplo todos os dias. O meu império em ruínas.
Ontem, finalmente, percebi que um bom amigo nunca nos abandona. O senhor engenheiro telefonou-me logo de manhã. Então, Isabela, como vai isso?! Tenho boas notícias para si, minha fiel amiga: um lugarzinho. Já ouviu falar na Fundação Luso-Canadiana do Parafuso?! Não?! Oh, Isabela, é uma fundação, como a Gulbenkian, mas vocacionada para a indústria do parafuso. Precisam de um presidente e pensei logo em si. Não... problemas nenhuns, senhora... é nomeação directa! Tiro e queda. Fala Inglês, não fala?! Ah, bem, mas isso também se resolve. Um bom professor particular actualiza-a em duas semanas. Posso contar consigo? Porreiro!
Eis como me tornei presidente. Venham dizer-que que a vida não dá voltas.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Não nos vamos abaixo com coisa pouca

Apanhei a primeira nesga de sol na esplanada do café Colina e ocupei uma mesa para tomar café. As meninas vieram sentar-se ao redor da mim, recolhendo, nos dorsos, o sol da manhã e umas migalhas de croissant.
Fui lendo o jornal, como de costume. Depois parei. Respirei fundo, olhei para o lado e dei comigo a falar alto com o meu pai, que está sempre à mão de semear. Foi um desabafo. "Olha, pai, desculpa, não era nada disto que eu queria, que eu esperava." Respondeu, com um ar sério, mas compreensivo. "Eu bem te disse. Mas a gente não se deixa ir abaixo com coisa pouca. Eles que digam o que quiserem, porque nós sabemos a verdade." Sorriu, inclinou-se para o chão, e concentrou a sua atenção nas cadelas, feliz por vê-las. Fez festas no lombo da Micas, dizendo-lhe, "Micanço, Micanço, estás velhota. A ver se o dono arranja aqui um petisco qualquer para mitigares os desgostos que a dona te dá ."

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um trapo seco

Foto: Pierre Auradon

Uma velha sentada à porta de casa num banco baixo. Toda de negro, dobrada sobre o ventre, segurando-o. Não lhe vejo a cara. Esconde-a com o lenço. Parece um monte de trapos aguardando quem o leve. É uma mulher. É a ti Bela. Lembro-me agora do seu nome. Procurava-o na minha mente e não vinha. Agora, vi-a cá dentro e lembrei-me. É a ti Bela. Vive na casa do filho. O único que lhe resta. Alimenta-a. Dá-lhe cama. De vez em quando, palavras azedas, como se não tivesse sido sua mãe. Desculpem-me, como se não fosse a sua mãe, para sempre. Palavras que dizem palavras como "tu não vales nada. És velha. Cortas as batatas e as couves para a sopa, e mal. És um trapo seco. Estás aqui porque tens de estar em algum lugar. Preferia mil vezes ver-me livre de ti, mas seria falado pelos vizinhos, por muito que desejem, todos eles, livrar-se dos seus velhos cheios de dores e fedendo a urina cediça; repetindo as mesmas conversas passadas, as mesmas histórias. Estás aqui por favor. E eu lembro-to, está descansada."
É a ti Bela. Eu assomo à porta. Digo, ti Bela, está um frio de lobos. É Janeiro. Digo, ti Bela, e ela levanta a cabeça, estica-a para fora do lenço como uma tartaruga que espreita. Tem a cara comprida e muito enrugada, queimada pelo tempo.
Bom dia, ti Bela, já aí está fora, a esta hora?! É o sol, rapariga! Temos de aproveitar o sol. Sorrimos uma para a outra. Tu és nova, ainda tens o sangue a ferver, rapariga. Tenho agora o sangue a ferver! Tenho é frio. Não, tu és nova e aguentas-te. Tens de te aguentar, rapariga. A gente tem sempre que se aguentar, que há-de vir pior do que o que temos. Oh, ti Bela, não há-de nada! Sorri-me. Depois tu vês. Mas tu aguentas-te, rapariga. És tesa. Não te dobram. Fazes bem. Aguenta-te, rapariga, aguenta-te.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Correspondência

Venho recebendo dezenas de emails por dia. Tantos que tem sido difícil responder-lhes. Agradeço as palavras e interesse que me têm dirigido e prometo que irei respondendo, lentamente, à medida da minha disponibilidade. Um abraço a todas as leitoras e leitores.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Anonimato

Um diário é um relato pessoal e íntimo. Ou mordaz. Ou reflexivo. Ou brincalhão. Um diário somos nós. Se é feito de citações, um diário é a nossa escolha. E a nossa escolha somos nós.
O problema dos diários coloca-se quando são descobertos pela nossa mãe, pai, tio, irmãos. Quando descobrem, através dele, quem de facto somos. Oh, Deus, afinal não somos apenas raparigas bem comportadas, imaculadamente vestidas de branco, educadas, tementes a Deus, sossegadinhas, que escolheram uma vida lógica e sem sobressaltos. Se calhar até nos calhou ser indecentes e ter um desgosto de amor. De calhar pensámos para além do que é conveniente pensar.
Esse é o meu dilema. Eu não tive uma quinta em África, mas fui absolutamente anónima na blogosfera, e disso tenho uma nostalgia enorme.
O que se escreve num diário quando se perde o anonimato e somos lidos pelos familiares psiquiatras e caixeiros-viajantes, bem como pelo chefe da linha de montagem da fábrica na qual trabalhamos? O que faço eu a este blogue? É o meu dilema.

Da importância das coisas

Tenho qualquer coisa de estupidamente inocente, o que aliás me costumam apontar.
Pensei que o livro sairia sem grande alarido. Seria só o meu livrinho; os leitores habituais compra-lo-iam, e, com um bocado de sorte, venderia razoavelmente. Tendo consciência da delicadeza de alguns assuntos ali abordados, e da enorme facilidade com que poderia ser mal interpretada, não me convinha grande estardalhaço. A minha ideia era que isto não passasse a esfera dos amigos e dos leitores, e de um ou outro curioso incauto sobre assuntos de África. Enganei-me à grande, outra característica que costumam atribuir-me: enganar-me exacerbadamente. Acabei de receber o pdf da capa da segunda edição. O barco navega.
No meio da confusão bem intencionada de familiares, amigos e conhecidos que escrevem, telefonam, e com quem me encontro, os quais acham imensa graça à ideia de me tornar escritora, e que até pensam que de repente me tornei uma pessoa mais interessante, com mais valor, mantenho intacto o meu oásis de paz. De realidade. A Micas continua a chamar-me de noite para a tapar, porque tem frio; a Morena vai para a cozinha quando escuta barulho de tachos; ambas me pedem mimos, e que faça o favor de sair da cama, porque está na hora de irem à rua; depois são horas de comer, e o ritual é o mesmo de sempre, comer, beber, dormir. Para as minhas cadelas continuo interessante da mesma maneira. Não ganhei nem perdi nada. E é através delas que prefiro avaliar a importância das coisas.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Terra

Sempre me disseram que não era possível chegar ao final do arco-íris. Que aí se encontrava escondido um pote cheio de ouro, guardado para o mais puro de entre nós. É mentira. Posso garanti-lo, porque estou ali a ver, ao fundo, onde pousa o arco que alcanço da minha janela. Começa no Tejo e vem enfiar-se entre dois pinheiros mansos do Alfeite. Um dos mais altos, junto ao reservatório de água, e outro, adjacente, mais baixo e amarelado. Vejo os raios rasarem o chão. E, sim, isso é verdade, ali se encontra o pote de ouro. Distingo-o nitidamente: terra negra, húmida, cravejada de sementes; insectos cegos que remexem o solo; fungos que despontam; pássaros que debicam grãos; um vento frio que abana os panos coloridos da cortina do arco.